
Numa manhã de junho, José Almeida recebeu-nos na sua casa. Entrámos e sentámo-nos numa sala que fica logo à entrada, local que descreve como o seu “quarto da meditação”. José mora na freguesia de Nossa Senhora do Rosário, mas passou grande parte da sua vida em Santa Cruz. “Nasci, batizei-me, casei-me e tive os meus filhos lá”, conta ao Notícias que contam no início da nossa conversa.
Teve uma infância “atribulada”, confessa, marcada pela pobreza que se vivia na altura, uma realidade que dificultava manter uma vida estável. Mas José diz que era feliz, apesar das circunstâncias. “Éramos pobres, mas felizes e tínhamos um convívio mais fraterno uns com os outros, diferente do que vemos hoje”, reflete. Na década de 50, aos 17 anos, partiu para a Venezuela em busca de melhores condições de vida. Foi apenas nessa altura, revela, que colocou “sapatos nos pés” pela primeira vez. Permaneceu, no entanto, pouco tempo no país e regressou para cuidar da sua mãe e dos seus irmãos mais novos, quando o seu pai adoeceu.
José dedicou-se cedo ao trabalho. “Era um homem que fazia de tudo”, afirma, referindo que a sua primeira profissão foi na agricultura, ao lado do pai. Chegou também a ser motorista de pesados, mas dedicou grande parte da carreira ao seu negócio de comerciante. Exportou produtos açorianos e integrou o “Mercado da Saudade”, enviando vários artigos regionais para o Canadá e para a América.
A ideia de que “o trabalho é essencial para se vencer na vida” foi algo que José Almeida procurou deixar claro durante a nossa conversa. É o lema da sua vida e um conceito que procurou transmitir sempre aos seus irmãos, aos seus filhos e, hoje, aos seus netos. O orgulho que sente pela sua família é evidente. “Tenho um filho professor, doutor, cardiologista e uma filha enfermeira parteira”, explica e acrescenta que, na sua família, quase todos escolheram a área da saúde, até mesmo os seus netos. “Estou muito orgulhoso e feliz com a família que tenho. São bons trabalhadores, bons estudantes e bons portugueses. Quando eu partir, vou de consciência tranquila, porque deixei a minha família bem”, diz ao nosso jornal.
O amor pelo trabalho manteve-se mesmo após a reforma e, aos 70 anos, quando acabou por vender o seu negócio, José escolheu não ficar parado. Foi assim que, ao encontrar um antigo carro inglês, um Austin 8 de 1946, abandonado numa garagem, decidiu comprá-lo e restaurá-lo como forma de se manter “ocupado” nos “serões”.
A história do veículo, no entanto, permanece em parte desconhecida. José sabe apenas que o carro passou alguns anos na Madeira antes de chegar a São Miguel. “Alguém o comprou e desistiu de o reparar. Não quis gastar dinheiro com ele e abandonou-o”, explica.
Quando o adquiriu, o carro encontrava-se longe do estado em que hoje se apresenta. José comprou-o por “apenas 500 euros”, mas admite que as maiores despesas vieram depois com o seu restauro. Embora tenha feito algumas reparações “com um colega”, por ter “algum conhecimento de mecânica antiga”, algumas intervenções exigiram idas à oficina. Entre trabalhos internos e externos, “peças importadas de Inglaterra” e “pneus vindos da Austrália”, o resultado acabou por ser surpreendente. De um carro azul, enferrujado e com poucas peças aproveitáveis, nasceu um carro clássico preto pronto para voltar à estrada.
A vontade de adquirir e restaurar o Austin 8, há cerca de 18 anos, nasceu também do desejo de reviver memórias doutros tempos. José revela o seu gosto por “coisas antigas” e recorda que, no exame de condução, conduziu um carro “igual a este”. “Olhei para aquele carrinho e lembrei-me do meu tempo, por isso é que continuei a investir nele”, confessa.
José guarda várias memórias ligadas ao automóvel e afirma, com um sorriso no rosto, que a sua falecida esposa também “gostava muito” de o conduzir. Fala dos passeios de verão com os seus netos e da viagem mais longa que já fez ao volante do automóvel, até à vila de Nordeste. O seu Austin 8 marcou presença também no desfile de clássicos de 2016, organizado para acompanhar o carro Bugatti Brescia T23 até ao Museu Carlos Machado.
Hoje, o Austin 8 de José Almeida é o carro mais antigo ainda em circulação de São Miguel e é procurado por vários casais que o escolhem para o seu dia de casamento. Neste momento, no entanto, está parado na oficina, à espera da chegada de uma peça proveniente de Inglaterra. A situação deixa o dono do carro descontente e leva-o a criticar a “lentidão” dos tempos atuais. “Há 20 ou 30 anos as coisas eram muito mais rápidas, apesar de não haver os mecanismos de hoje, havia muita vontade”, justifica. Enquanto aguarda a reparação, demonstra uma certa tristeza por ter o seu carro longe de si há alguns meses.
Ao chegarmos ao final da nossa conversa, José Almeida conta-nos que sente orgulho no que construiu ao longo da vida e que se considera “uma pessoa realizada”. Restaurar o Austin 8, destaca, foi um objetivo que prometeu cumprir e um sonho tornado realidade: “Era um sonho. Uma brincadeira de gente velha”, afirma. Enquanto puder, deseja fazer mais viagens com o automóvel e garante que não pensa em desfazer-se dele.
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