
Júlio Tavares Oliveira
Já, por vezes, nos questionámos, tantas vezes, em casa ou no café, ou mesmo ao relento na nossa cama, sobre o sentido «de tudo isto» – sobre as tantas vezes, mesmo, que errámos redondamente, sobre as mesmas tentativas falhadas, as inúmeras chamadas não atendidas, as mensagens ignoradas ou as relações falhadas; as mesmas ilusões sobre sonhos degradados; as mesmas dispendiosas desilusões amorosas sobre as mesmíssimas paixões atípicas não correspondidas.
Já, por vezes, com certeza, e ainda bem, nos questionámos, com angústia e desamparo, sobre a pessoa que amamos, e que se casou, no fim, com outro alguém – do porquê de tudo isto assim, sem conserto ou afeto; sobre aquele jogo que perdemos no último minuto da partida; sobre o penalti falhado ao poste; sobre o prato que caiu das nossas mãos e que se partiu no chão em mil bocados; sobre um mau dia no trabalho… Sobre tudo o que de mau (nos) acontece, e que sempre (nos) acontece só a nós.
Com certeza, caros leitores, e amigos, já vocês se questionaram, inúmeras e inúmeras vezes, sobre o propósito de estarmos todos aqui – juntos – a contar e a descontar os dias para um só dia: o da nossa morte.
Da minha curtíssima, e tangencial, vida – no meu recato de “estar” e de “ser” – apenas posso explicar e ecoar, discretamente, o som de outros que, como eu, e vocês, se preocuparam com estas questões e que, sobre elas, escreveram e pensaram.
Da minha vista ainda bem «curta» sobre estas coisas, posso dizer-vos abertamente que a vida, ainda que injusta, por vezes, tende a ser um quadro magnífico, e belíssimo, se encarado pela perspetiva mais bem enquadrada – ou mais certa. É como o magnífico ensinamento que nos convoca, sempre, a «dançar na chuva», reciclando, ou reaproveitando, uma circunstância difícil ou inglória e fazendo, dela, uma belíssima chance de criação magnífica e proporcionalmente bela.
Talvez o mais belo, tal como o vivemos, seja, hoje, tão menosprezado, seja tão mal-encarado como um fardo pesado, um mistério sem fim, um dom, uma tristeza deambulante, ou um meio sem princípio ou fim seguros e sem fio condutor que não seja senão intermitente; porque, apesar de estarmos todos corridos de destino e carregados de uma energia, boa ou má, e cheios de tempestades, e incógnitas sobre o nosso futuro ou de pensamento, lembremo-nos que a vida é uma breve passagem – e que a passagem é flexível e maleável às nossas próprias percepções e à forma como, pessoalmente, encaramos a própria viagem que fazemos.
A vida, em suma, é sempre uma pequena viagem pessoal que temos de fazer sozinhos – mas não é sobre a viagem da vida que vos escrevi aqui (cada um, aliás, tem a sua própria viagem a fazer, e todos somos diferentes e em alturas diferentes da nossa vida, também). É, antes, sobre como viajamos: se com excesso de bagagem, se sem. Se com medo, se sem. Se com confiança, se sem. Se com esperança, se sem. Se olhando a paisagem, e aproveitando o que o caminho nos dá, fruindo a beleza das coisas, se sem.
A vida é mais, muito mais, sobre como escolhemos viver – e se escolhemos, de facto, viver; é mais sobre as forma como estamos e encaramos a mesma. É uma escolha que tem de partir só de nós e não de mais ninguém.
A viagem poderá ser dura – por vezes turbulenta ou, quiçá, longa, demasiado alongada ou triste na demanda, ou procura, de um lugar verdadeiramente feliz. A viagem até poderá ser inglória, e, na tua cabeça, sem qualquer sentido. Nesse momento, confia no poder (e na responsabilidade que aloca uma oportunidade) que te foi dado: o poder da escolha. De escolheres, não a tua vida, mas a forma como a queres encarar.
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