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Natália Correia, uma escritora comprometida com a humanidade

Ângela de Almeida
Investigadora, ensaísta, poeta

«Escrever é causal. A causa do homem. Que eu saiba
não há outra. Existem sim efeitos secundários dessa causa primacial,

única, abstracções idealistas em que se esfuma o sentido definitivo
da causa concreta e maior que determina a criação. O escritor é

causado pelo homem que é. (…) a sua motivação é motivar
não preferencialmente, mas universalmente a libertação do homem.»

Natália Correia

 

         Natália Correia (13 de Setembro de 1923 – 16 de Março de 1993) foi uma escritora comprometida com a humanidade: as antinomias e as antíteses existenciais ditavam-lhe uma escrita, lugar da alteridade utópica, onde os contrários se fundiam, criando um logos do absoluto heterodoxo, que eternizava numa rêverie poética, assente nessa constelação agregadora, superior, que é o Amor, enquanto força unificadora das antíteses existenciais, via única que permite a síntese. E insistia que apenas o amor viria a ser o culto da humanidade futura. Por isso, tornou Declaração Universal dos Direitos Humanos numa bandeira indispensável: não é por acaso que se refere à mesma em tantos e tantos escritos.  Com a paz, que tanto almejava para o mundo, estava certa que seria possível voltar à anterioridade, onde os pontos cardeais, as línguas, as religiões, as etnias, as mais diversas e tão belas tonalidades da pele, o género e as demais diferenças voltariam a (re)ligar-se, dando lugar à totalidade heterodoxa que constitui o mundo.

              Em Lisboa, onde viveu, desde os onze anos de idade, e seguindo o exemplo da mãe, a professora e romancista Maria José de Oliveira, cedo iniciou um percurso de luta pela liberdade: em 1945, passou a integrar MUD – Movimento de Unidade Democrática -, dando início a uma postura democrática audaciosa. Um ano mais tarde, e ao lado de António Sérgio, entre outros, passou a ser membro da Cooperativa Fraternidade Operária e do Conselho Geral das Cooperativas, chegando mesmo a escrever para o Boletim Cooperativista (1948). Se a década de quarenta ficou marcada pela vigilância da PIDE, com relatórios minuciosos, as décadas de cinquenta registaram a apreensão de oito obras e ainda de uma condenação em tribunal. Eis as palavras inéditas da autora sobre os danos da censura na sua obra:

«Pedem-me que diga algo sobre as devastações que a censura fez na minha obra. Creio que ela foi particularmente animadora dos saques censórios. Porquê esta eleição? Porque não confinei os meus ataques ao circuito meramente político do fascismo. A evolução do meu espírito foi-me colocando cada vez mais no campo da recusa global. Neste alinhamento revolucionário empreendi desmistificações das quais, a que mais cara me saiu foi afligir o puritanismo que serve de guardião a todas as ditaduras. Em dada altura pareceu-me eminentemente oportuno, lançar no charco do despotismo salazarista, a pedrada de um estudo dedicado ao erotismo e sátira fescenina, ilustrado antologicamente. O resultado foi uma cómica condenação que do alto do Plenário pretendia avassalar-me, mas que me proporcionou jocosa oportunidade de dar razão a Nietzsche quando ele compara os juízes com os camelos. Como vêem, não tenho vocação para vítima. (…). Nesta indisposição, das baionetas que sempre apontarei ao peito inchado dos poderes, oito me foram confiscadas por mais insurrectas. Enumero-as: Dimensão Encontrada (poesia); Comunicação (poesia); Cântico do País Emerso (poesia); O Vinho e a Lira (poesia); Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (estudo e antologia); O Homúnculo (teatro); O Encoberto (teatro); A Pécora (teatro)».

    O chão insular e, sobretudo, o mar, enquanto matriz fundamental e espaço de liberdade, constituem uma presença constante na obra da autora que afirmava a sua relação visceral com a ilha-mãe.

> Referências Bibliográficas