
Daniel Gonçalves
Escritor e formador
Começo agradecendo a oportunidade de escrever neste estimado veículo de comunicação outra vez. Fim de ano é sempre uma época de reflexão. Colocamos numa balança, ou deveríamos colocar, tudo o que aconteceu de bom e não tão bom em busca de um ano melhor, procurando concertar ou adaptar aquilo que pudermos. O que não podemos mudar deveríamos deixar para trás e buscar caminhos novos, pois, se queremos resultados diferentes, devemos tomar decisões diferentes. Mas, no balanço deste ano tenho muito mais a agradecer. Isto que quero compartilhar com vocês.
Como em primeiro lugar está sempre a minha família, a felicidade foi tremenda por ver nascer em outubro a nossa filha mais nova Ana Lua, mas, há sempre partes não tão boas. Apesar do excelente atendimento no Hospital de Angra, o parto foi complicado e tive medo de perder a mulher da minha vida e minha filha. Mas, no fim tudo foi benção e fui à Serreta a pé agradecer, o que me permitiu um maravilhoso momento de agradecimento e conexão com o meu amado Deus.
Quanto ao trabalho, estamos a fazer “horas do conto” na livraria Lar Doce Livro. Temos a liberdade de fazer algo que adoramos e do nosso jeito. Não apenas contar histórias com música e diversão, mas a ensinar de forma pedagógica e lúdica, não só as crianças, mas os pais a lidar com os sentimentos e dilemas da criação dos filhos. Esta prática nos enriquece e mantém acesa a chama do sonho de um dia ter nosso próprio ATL pedagógico, mas esses são planos para um futuro mais distante. O importante é ver minha esposa realizada ao fazer algo que ama e sabe fazer muito bem e ver as famílias entretidas e transformadas após cada sessão. Fica aqui um muito obrigado ao Joel Neto e sua esposa Marta pela oportunidade.
Vamos a mais uma parte não tão boa. Ainda estamos a tentar validar nossos diplomas de licenciatura e mestrado para dar aulas nas escolas. Fico muito intrigado em saber que estou quase a terminar o doutoramento em história, poderei ser professor na Universidade e dar aula para professores, mas meu diploma não pode ser usado para dar aula para as crianças. Acho que as leis servem à sociedade e sei que estão precisando de professores nos Açores, poderiam ao menos validar minha experiência profissional em escolas de excelência para poder concorrer em pé de igualdade nas vagas do Bepa. São lutas que devemos combater.
O livro infantil “nem de cá, nem de lá”, que escrevi com o apoio da CRESAÇOR, do Governo Regional e da Casa dos Açores do Rio de Janeiro (CARJ) foi e ainda é um sucesso, está a correr as escolas do arquipélago e ensinar a importância da emigração para as crianças açorianas como algo que faz parte do nosso ADN. De forma lúdica, os professores de cidadania têm agora um material didático para fazer chegar uma mensagem importante para o futuro dos Açores, de que somos todos imigrantes e emigrados, que devemos receber bem a todos nesta terra e lembrar que fomos para toda parte do mundo. Isso faz parte de nós. Falando em livro, acabo de terminar o próximo, sobre as sete décadas da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, que teve o apoio financeiro da Câmara de Angra do Heroísmo e o apoio institucional da CARJ. Um lindo projeto que será lançado no ano que vem.
Ainda sou o açoriano com mais cargos institucionais pro bono no mundo. Sigo como Conselheiro da Diáspora, como Diretor de Relações Institucionais da Casa dos Açores do Espírito Santo e como Secretário da Associação dos Emigrantes Açorianos, cargos que me permitem representar os açorianos imigrantes no Brasil e os Emigrantes retornados para cá, não sou mais “Nem de Cá nem de lá” como no título do meu livro, sou de cá e de lá (próximo livro que vou escrever). Contudo, desde novembro não sou mais Diretor Cultural da CARJ, após 15 anos, o que me deixou pensativo… estou mesmo a deixar minha antiga vida para trás para assumir o meu lugar aqui na terra dos meus antepassados que escolhi viver e amar.
Este ano pudemos criar, a pedido do Centro de Qualificação e Emprego dos Açores, a mando do Dr. Acir, a quem também devo agradecer, o projeto AUTONOMIA. É maravilhoso ver seus frutos chegarem a todas as ilhas, ajudando os usuários do RSI a despertar qualidades e competências inatas, descobrirem-se menos dependentes do governo, valorizar seu contributo para a sociedade, acreditar novamente em si. É lindo ver a transformação de alguns que só precisaram de uma espaço seguro para se abrir, partilhar suas histórias (na maioria muito difíceis) e voltar a sorrir.
Por fim, o nosso trabalho na Rede Valorizar. Dar cursos de empregabilidade é transformador, não só para os alunos, principalmente para nós. Vê-los desabrochar, ter gosto em aprender novas técnicas, refazerem não só os currículos, mas a vida e construir um futuro melhor para suas famílias. O trabalho é árduo, mas realizador. Agradeço a “chefinha” Claudia por todo o apoio e confiança em nós. Agradeço o convívio e a amizade da Rute, Manuela, Carla e Leocádia. Sem vocês não conseguiríamos nos estabelecer aqui. A oportunidade de um emprego é muito importante, mas a amizade e o cuidado é que nos fortalecem.
O emprego na Rede levou-me a um convite da Cáritas para dar formações no estabelecimento prisional. Lá eu tento levar não só conhecimento, mas esperança. Mas, quem saiu ganhando fui eu. Em uma área profissional que não permite acumular tesouros, relembrei os motivos pelos quais sou apaixonado por educação e pelo seu poder transformador. Recentemente encontrei um ex-aluno recém liberto. Estava cheio de vida, reinserido na sociedade. Espero, de coração, que todos eles não sejam julgados por nós. Pois já passaram pelo julgamento do tribunal, pagaram sua pena e conquistaram um lugar de equidade ao nosso lado.
Termino por onde comecei, pelo mais importante. Agradeço a tudo que minha esposa Monique aceitou enfrentar, a minha filha Maria Flor por todo o amor que me dá, a minha mãe que veio nos apoiar, aos meus sogros pelo mesmo esforço. Agradeço todo o acolhimento que tive da minha família de cá, dos tios, primos e sobrinhos, e aos novos e verdadeiros amigos. Sem vocês nada faria sentido. Não conseguiríamos e nem teríamos vontade de conseguir. Obrigado a todos por todo este belo 2024. Foi incrível poder fazer tantas coisas, experenciar tantas outras, crescer como profissional e como ser humano. Obrigado aos Açores e aos açorianos por nos acolher. E um 2025 mais maravilhoso ainda para todos nós.
Comentários
Daniel, parabéns! Sua vontade e coragem sao admiráveis, sem essas duas palavrinhas essenciais para superar os obstáculos que surgem em nossas vidas. Ah, somado a isso você tem duas virtudes : a arte de saber relacionar e talento. Abraço grande!
Parabéns Daniel!!! Que 2025 seja repleto de realizações e alegrias, com novos desafios, é claro, pois são eles que nos movem. Orgulho que não cabe dentro do peito. Ao Infinito e Além!!! Fortíssimo abraço de seu primo que te admira bastante. Fraternalmente, Marcos Borba