
António Augusto Borges
Presidente do Clube de Patinagem de Santa Cruz
O Pavilhão Desportivo da Escola do Fisher, tão útil para a prática da modalidade de patinagem, tem prevista a sua demolição, numa decisão que, enquanto Presidente do Clube de Patinagem de Santa Cruz, considero resultar de uma manifesta falta de vontade por parte do Governo Regional e que contou, na minha perspetiva, com a passividade da Comissão Política e Concelhia do PSD.
Enquanto Presidente do Clube de Patinagem de Santa Cruz, não posso deixar de manifestar o meu profundo repúdio por esta situação e pelo que considero ser um preocupante desinteresse da tutela relativamente às preocupações que apresentámos.
Na reunião realizada no dia 10 de março de 2025, o Clube de Patinagem expôs à Senhora Secretária Regional da Educação e do Desporto a sua preocupação relativamente à prevista demolição do atual pavilhão, no âmbito do projeto da nova escola.
A nossa posição sempre foi clara: não somos contra a construção de um novo pavilhão. Bem pelo contrário. Defendemos há muitos anos que as nossas crianças e os nossos jovens tenham acesso a instalações escolares e desportivas condignas e preparadas para o futuro.
O que defendemos é que, havendo terreno disponível e estando o projeto numa fase que permitia estudar alternativas, fosse avaliada a possibilidade de construir o novo pavilhão numa localização que permitisse preservar o atual equipamento.
Esta pretensão merecia ainda maior relevância pelo facto de o atual pavilhão ter sido recentemente intervencionado, nomeadamente na cobertura e no piso, tendo posteriormente o próprio Clube realizado intervenções de manutenção e melhoria das condições da pista. Atualmente, continua a ser utilizado para a prática desportiva e mantém uma importância significativa para o trabalho desenvolvido pelo Clube.
A solução que propusemos permitiria evitar a perda de uma infraestrutura e, simultaneamente, criar um novo equipamento desportivo de apoio à futura escola. Em vez de substituir uma estrutura por outra, poderíamos ficar com dois equipamentos ao serviço da população e do movimento associativo lagoense. Era possível encontrar uma solução em que todos ganhariam.
Importa ainda recordar que a Câmara Municipal de Lagoa manifestou ao Governo Regional dos Açores a disponibilidade para receber o atual pavilhão, assumindo os respetivos encargos de manutenção e administração. Esta solução permitiria manter o equipamento ao serviço do desporto, dando-lhe uma nova vida e evitando que um investimento realizado recentemente seja simplesmente perdido.
Esta preocupação não resulta apenas da utilização atual do pavilhão. Resulta também de uma história de décadas de trabalho do Clube de Patinagem de Santa Cruz em Lagoa e na promoção da patinagem artística na Região.
Ao longo dos anos, o Clube procurou fazer mais pela modalidade e contribuir para trazer a Lagoa e aos Açores competições de dimensão nacional e internacional.
Em 2015, o Clube esteve na origem do desafio para trazer para a Região a Taça de Portugal de Patinagem Artística, realizada em Lagoa nos dias 25 e 26 de abril. Foi a primeira prova oficial nacional da modalidade realizada nos Açores, reunindo 29 clubes e cerca de 250 atletas.
Em 2018, o Clube voltou a assumir uma posição ativa, manifestando a sua disponibilidade para colaborar com a Federação de Patinagem de Portugal e com a Associação de Patinagem de São Miguel na concretização do Campeonato da Europa de Patinagem Artística, realizado em Lagoa entre 31 de agosto e 8 de setembro. Foi a primeira vez que esta competição se realizou nos Açores.
São acontecimentos que fazem parte da história do Clube e demonstram o contributo que o movimento associativo pode dar à promoção de Lagoa e da Região.
O CPSC formou atletas que chegaram aos campeonatos nacionais e às competições internacionais, continuando atualmente a trabalhar na formação e na competição. O Clube conta hoje com 54 atletas federados e 14 atletas nas Escolinhas do Desporto.
Também sabemos, por experiência própria, o impacto que a perda de uma instalação pode ter.
Em 2021, durante o período em que o pavilhão esteve encerrado para obras, o Clube foi encaminhado para outras instalações e para horários que se revelaram muito difíceis de conciliar com a realidade das nossas crianças e famílias.
Na altura, o Clube tinha cerca de 70 atletas e terminou esse período com apenas 15.
Foi uma redução muito significativa e que demonstrou, na prática, que a existência de uma instalação adequada, acessível e com horários compatíveis não é uma questão secundária. É uma condição essencial para garantir a continuidade da atividade desportiva.
É por isso que, perante a possibilidade de demolição do atual pavilhão, colocamos questões muito concretas:
Onde irão treinar os nossos atletas durante o período de construção da nova escola e do novo pavilhão? Que instalações estarão disponíveis? Em que horários? Durante quanto tempo? E estarão reunidas as condições necessárias para que o trabalho desenvolvido pelo Clube não volte a ser comprometido?
Se esse planeamento não for feito atempadamente, muitos dos constrangimentos que vamos viver na patinagem poderiam ser evitados.
Existe também uma questão que consideramos fundamental: os clubes e as modalidades que irão utilizar o futuro equipamento devem ser ouvidos antes de as decisões estarem definitivamente tomadas.
Os clubes devem ter oportunidade de conhecer os projetos, esclarecer dúvidas, apresentar as suas preocupações e contribuir com a experiência adquirida ao longo dos anos.
As entidades responsáveis pelas decisões têm naturalmente essa responsabilidade. Mas as decisões podem ser mais informadas quando contam também com o conhecimento de quem trabalha diariamente com atletas, treinadores e famílias.
Não queremos substituir quem tem a responsabilidade de decidir. Queremos ser ouvidos por quem tem essa responsabilidade.
No caso do Clube de Patinagem de Santa Cruz, falamos de mais de três décadas de experiência na modalidade, de participação em competições nacionais e internacionais e do envolvimento na realização de eventos de dimensão nacional e europeia em Lagoa.
Por isso, consideramos legítimo perguntar:
O futuro pavilhão responderá às necessidades das diferentes modalidades? Terá condições adequadas para a prática da patinagem artística? Permitirá a realização de treinos, competições e eventos desportivos? Foram consideradas as necessidades dos clubes que irão utilizar o equipamento?
Construir uma infraestrutura desportiva não deve significar apenas construir um edifício. É necessário garantir que esse equipamento responde às necessidades da comunidade e está preparado para os desafios das próximas décadas.
Apesar dos vários contactos e da preocupação manifestada pelo Clube de Patinagem de Santa Cruz e pela Câmara Municipal de Lagoa, lamentamos que não tenha existido, em tempo útil, uma resposta que permitisse encontrar uma solução para o atual pavilhão.
Esta preocupação foi também abordada na audiência solicitada pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lagoa ao Senhor Presidente do Governo Regional, onde o futuro do Pavilhão do Fisher foi igualmente colocado e discutido.
Importa ainda destacar que esta questão chegou à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores através do Projeto de Resolução n.º 77/XIII/2.ª, apresentado pelo Grupo Parlamentar do Partido Socialista, tendo em vista uma solução para o atual equipamento. No âmbito desse processo, o Clube de Patinagem de Santa Cruz e o Presidente da Câmara Municipal de Lagoa tiveram oportunidade de apresentar as suas posições e preocupações.
Durante todo este processo, o Clube procurou reunir e dialogar com as diferentes forças políticas e com os representantes dos vários grupos parlamentares, apresentando de forma aberta a nossa posição, os nossos argumentos e a documentação que sustentava as nossas preocupações.
Falámos com todos porque entendemos que esta não deve ser uma questão partidária.
Procurámos o diálogo com o Governo Regional, com a Câmara Municipal de Lagoa e com as restantes entidades envolvidas, porque entendemos que uma solução desta natureza deveria resultar da análise conjunta das alternativas existentes.
É precisamente isso que defendemos: sentar à mesma mesa o Governo Regional, a Câmara Municipal, a escola, o Clube de Patinagem e as demais entidades envolvidas, analisar as alternativas existentes e procurar a solução que melhor sirva a população.
Ao longo dos meus 38 anos de exercício de funções autárquicas, sempre procurei pautar a minha intervenção pelo diálogo, pela procura de consensos e pela defesa do interesse coletivo, independentemente das diferenças políticas.
É por isso, com enorme tristeza, que assistimos ao atual desfecho deste processo.
Não se trata apenas de uma questão política. Trata-se de património público, de investimento público e, sobretudo, de condições para a prática desportiva dos nossos jovens.
Os apoios públicos e comunitários existem para criar melhores condições e desenvolver o território. Temos, por isso, a responsabilidade de os gerir com rigor e visão de futuro.
Não podemos aceitar como inevitável a demolição de uma estrutura que ainda serve o desporto lagoense, quando existe a possibilidade de construir um novo equipamento e manter o atual ao serviço da comunidade.
Se for técnica, legal e financeiramente possível preservar o atual equipamento e, simultaneamente, construir a nova escola e o novo pavilhão, entendemos que essa possibilidade merece ser ponderada.
Construir uma nova escola e um novo pavilhão é uma oportunidade. Preservar o equipamento existente e acrescentar uma nova infraestrutura seria uma oportunidade ainda maior para Lagoa.
Não queremos escolher entre a nova escola e o desporto. Queremos a nova escola e queremos que o desporto continue a ter condições para crescer.
É essa solução que continuaremos a defender: uma solução sem preconceitos políticos, assente no diálogo, no bom senso e, acima de tudo, no interesse dos nossos jovens, das nossas famílias e do futuro do desporto lagoense.
Deixe uma resposta