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Quando deixámos de fazer perguntas

Álvaro Borges

Ao princípio, Jean-Pierre não se preocupava muito.

Vivia a sua vida, trabalhava, pagava os seus impostos, levava os filhos à escola e confiava que as instituições públicas saberiam resolver os problemas que surgissem.

Quando começou a ouvir falar de imigração, acreditou que a Europa precisava de trabalhadores.

Quando lhe falaram de diversidade, viu nela oportunidades e também desafios.

Quando os serviços públicos começaram a ter dificuldades, ouviu que faltavam recursos.

Quando as escolas enfrentaram problemas de disciplina, ouviu falar de desigualdade, integração e falta de investimento.

Quando a criminalidade ocupava as notícias, aprendeu que era preciso olhar para os números com cuidado.

Tudo isto podia ser verdade.

Mas também era verdade que os problemas estavam a tornar-se cada vez mais difíceis de ignorar.

Na escola dos filhos, os professores passavam cada vez mais tempo a lidar com conflitos.

Na vila onde morava, algumas lojas fechavam e outras mudavam completamente de natureza.

Havia zonas onde as pessoas deixavam de se sentir tão seguras como antes.

A polícia parecia sobrecarregada.

Os hospitais estavam sob pressão.

A habitação tornava-se mais cara.

Os serviços públicos pareciam ter cada vez mais dificuldade em acompanhar as necessidades de uma população que mudava rapidamente.

Jean-Pierre começou então a fazer perguntas.

Não queria culpar pessoas por aquilo que não tinham feito.

Não queria confundir um indivíduo com um grupo.

Não queria transformar um caso criminal numa acusação contra milhões de pessoas.

Mas também não queria que o medo de parecer preconceituoso o impedisse de discutir problemas reais.

Perguntou se o ritmo da imigração era compatível com a capacidade de integração do país.

Perguntou se as escolas tinham recursos suficientes.

Perguntou se as fronteiras estavam a ser controladas de forma eficaz.

Perguntou se quem cometia crimes graves era devidamente punido.

Perguntou se os recém-chegados estavam realmente a ser integrados ou simplesmente concentrados em determinados bairros.

Perguntou se era possível ter imigração sem integração.

E perguntou se era possível defender uma política migratória mais restritiva sem odiar os imigrantes.

Descobriu que as respostas eram muito mais complicadas do que os slogans.

Alguns problemas tinham relação com a imigração.

Outros tinham causas económicas, demográficas, culturais ou institucionais.

Alguns eram exagerados.

Outros tinham sido durante demasiado tempo minimizados.

Algumas estatísticas confirmavam as suas preocupações.

Outras obrigavam-no a corrigir as próprias conclusões.

E percebeu uma coisa importante:

reconhecer um problema não significa conhecer automaticamente a sua causa.

Também percebeu o contrário:

não conhecer toda a causa de um problema não é razão para fingir que o problema não existe.

Jean-Pierre deixou então de procurar respostas que lhe dissessem simplesmente aquilo que queria ouvir.

Passou a exigir números.

Comparações.

Contexto.

Resultados.

Perguntava o que funcionava e o que não funcionava.

E começou a desconfiar tanto de quem dizia «não há problema nenhum» como de quem dizia «tudo isto é causado por uma única coisa».

Porque uma sociedade pode ser aberta sem ser ingénua.

Pode controlar as suas fronteiras sem desumanizar quem chega.

Pode combater o crime sem criminalizar comunidades inteiras.

Pode exigir integração sem exigir assimilação absoluta.

Pode reconhecer o contributo da imigração e, simultaneamente, discutir os seus custos.

E pode mudar de política quando uma política deixa de funcionar.

Jean-Pierre não precisava de escolher entre fechar os olhos e odiar o outro.

Precisava apenas de poder fazer perguntas.

E de aceitar as respostas mesmo quando não confirmavam aquilo em que já acreditava.

Talvez essa seja a parte mais difícil de uma democracia:

não encontrar a narrativa certa,

mas ter coragem suficiente para descobrir onde a realidade contradiz a nossa narrativa.

Daniel Foubert faz-nos refletir sobre aquilo que, aos poucos, passou a ser banalizado.

O mesmo poderia dizer-se de Steven, em Londres, de Stefano, em Roma, ou de Pedro, em Lisboa.

Os problemas podem assumir formas diferentes, mas as dúvidas permanecem.

Perante a realidade política e social que temos, é provável que estes tempos de incerteza se mantenham.

Façam perguntas, exijam respostas.

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