Log in

Câmara da Lagoa e Governo regional alinham prioridades para o desporto no concelho

Reunião entre o executivo municipal e o diretor regional do Desporto focou-se na requalificação de infraestruturas escolares e no apoio ao movimento associativo, com a autarquia a reiterar a disponibilidade para assumir a gestão de equipamentos estratégicos

© CM LAGOA

O presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, e o vice-presidente, Nelson Santos, reuniram-se ontem com o diretor regional do Desporto, Ricardo Matias, para definir as prioridades estratégicas do setor desportivo na Lagoa. Segundo nota enviada pela autarquia, o encontro serviu para analisar as carências das instalações desportivas locais, os mecanismos de apoio ao associativismo e os principais desafios enfrentados pelos clubes e dirigentes do concelho. Durante a sessão, Frederico Sousa sublinhou o investimento contínuo do município, destacando a intervenção desenvolvida “quer no apoio regular às coletividades, quer na disponibilização de meios e equipamentos”, reforçando a importância do movimento desportivo local e da plena utilização das infraestruturas municipais.

Um dos pontos centrais da discussão prendeu-se com a necessidade urgente de qualificação de espaços que apresentam limitações de praticabilidade e problemas estruturais, com particular enfoque nos equipamentos desportivos da Escola Secundária da Lagoa e da Escola de Água de Pau. O executivo municipal aproveitou a ocasião para reiterar a sua posição quanto à gestão do Pavilhão da Escola Básica Integrada Padre João José do Amaral. A autarquia manifestou-se novamente disponível para assegurar diretamente a conservação e manutenção daquele pavilhão, defendendo que tal medida não só faz sentido por “razões de racionalidade económica”, como é fundamental para a “prática desportiva na ilha, permitindo reforçar a capacidade de resposta existente e promover uma distribuição mais equilibrada das diferentes modalidades”.

Para além das infraestruturas gerais, a reunião abordou temas específicos como a melhoria das condições para a prática do judo no concelho, modalidade que requer uma articulação conjunta entre as entidades para garantir o seu crescimento. No encerramento dos trabalhos, os responsáveis municipais reafirmaram a total disponibilidade para colaborar com a Direção Regional do Desporto, visando a valorização do desporto como um pilar estruturante na vida dos lagoenses e na coesão social do concelho.

O artilheiro de Água de Pau que cantava em francês: A condecoração da alma

O resgate da honra de um soldado de 1914, cuja história sobrevive na dedicação de uma neta que devolveu a glória ao seu avô

Elias Maria Borges, cuja ‘condecoração da alma’ foi preservada pela memória da sua neta © DIREITOS RESERVADOS

Há quatro anos, uma neta atravessou o Atlântico guiada por uma fotografia amarelada e uma mágoa antiga. Elizabeth Borges Pedro, a neta mais nova, procurava o rasto do avô, Elias Maria Borges, um soldado da Grande Guerra cujo legado físico — as suas medalhas — tinha sido roubado por mãos gananciosas.

Elias Borges teve quatro filhos: Manuel Maria Borges, Norberto Maria Borges, Ema Borges Branquinho e Cizália Borges. Todos, infelizmente, já faleceram. Na altura em que a neta nos contactou, o Diário da Lagoa abriu as suas páginas a esta busca e à possibilidade de publicar o veredicto caso Elizabeth Pedro descobrisse a história. Hoje, nesta edição, em parte dedicada à Liberdade, a resposta chega com a força de um dever cumprido.

Elizabeth não precisou de encontrar o ladrão para fazer justiça ao avô. Através de uma investigação meticulosa, descobriu que Elias não foi apenas um nome numa lista de embarque; foi, na verdade, um protagonista na defesa da Europa. Entre 1916 e 1918, o soldado de Água de Pau operou obuses de artilharia pesada em França, integrando o esforço aliado para travar o avanço alemão rumo ao Canal da Mancha.

A história de Elias é feita de contrastes profundos. É a história do soldado que foi hospitalizado no dia da sangrenta Batalha de Cambrai, a 25 de novembro de 1917, mas que sobreviveu para regressar à frente de combate. É a história do homem que aprendeu a língua de Molière nas trincheiras e que, ao retornar à paz da sua ilha, ainda cantarolava a marcha militar Mademoiselle d’Armentières, trazendo o eco do mundo para as ruas da sua vila.

“O meu avô operava a artilharia de obuses. Ele lutou na Batalha de Lys, a 9 de abril de 1918, repelindo a ofensiva alemã nos campos da Flandres. Embora os alemães tivessem avançado anteriormente, os Aliados conseguiram contê-los”, conta Elizabeth.

O avô de Elizabeth recebeu uma condecoração honrosa por ter sido artilheiro português durante a Primeira Guerra Mundial: a Medalha Militar da Cruz de Guerra, instituída em 1916. Esta foi-lhe concedida devido à relevante participação do Corpo de Artilharia Pesada Português ao lado das forças britânicas, particularmente durante a Batalha de Lys.

O roubo da Cruz de Guerra, a medalha que deveria ter sido entregue a Norberto Maria Borges, pai de Elizabeth, permanece na sombra sobre quem a levou. “O ladrão continuará anónimo”, escreve a neta com a serenidade de quem sabe que o julgamento do tempo é implacável. Mas o que importa agora é que o rosto de Elias (agora restaurado na fotografia que acompanha este artigo) já não é uma imagem desfocada.

Elias Maria Borges terá sido o único soldado de Água de Pau a regressar a casa. Trouxe consigo cicatrizes invisíveis e uma alegria que a guerra não apagou. Elizabeth, a neta mais nova que nunca o conheceu, descreve-o agora como um homem “bondoso, generoso e alegre”.

Para Elizabeth, “é incrível como o meu avô sobreviveu a uma guerra tão sangrenta e a duas batalhas com tantas perdas. Hoje, os seus descendentes estão espalhados pelas terras de alguns dos seus companheiros de batalha e aliados: no Canadá, nos Estados Unidos e nas Bermudas.”

A neta relata que um primo lhe contou que, “todos os anos, o meu avô colocava uma tangerina na árvore de Natal para representar cada neto”. Elizabeth, contudo, nunca teve a honra de o conhecer, pois ele faleceu no Canadá apenas um ano após o seu nascimento. Tinha 84 anos.

“Não sei se a minha tangerina chegou a crescer naquela árvore, mas este artigo representará a minha tangerina”, confessa a neta.

A missão está cumprida. Elizabeth veio em busca de uma medalha e encontrou a alma do avô. A condecoração pode estar numa gaveta alheia, mas a honra do artilheiro de Água de Pau voltou finalmente a casa, guardada na memória, por quem se recusou a esquecer.

Auditório Ferreira da Silva inaugura exposição e documentário sobre fibras vegetais e memória local em Água de Pau

Sofia de Medeiros apresenta exposição ‘Fibras Vegetais’ e é apresentado documentário ‘Água de Pau: Memórias da Água’, destacando património e identidade da vila

© CM LAGOA

O Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, inaugura na próxima sexta-feira, 6 de março, pelas 18h00, a exposição «Fibras Vegetais», da artista Sofia de Medeiros, e apresenta o documentário «Água de Pau: Memórias da Água», com base no espólio fotográfico de Roberto Medeiros.

O anúncio foi feito pela Câmara Municipal da Lagoa e revela que a exposição resulta de uma residência artística em colaboração com os artesãos lagoenses Alcídio Andrade e Lurdes Couto, focada na exploração e valorização das fibras vegetais, matéria-prima inserida no projeto municipal «Entrelaçar Fibras Vegetais».

De acordo com a autarquia lagoense, o projeto foi criado com o objetivo de garantir a sustentabilidade e preservação da arte do entrelaçado com fibras vegetais, valorizando os saberes tradicionais transmitidos de geração em geração e o conhecimento das plantas e dos seus ciclos. Assentando em matérias-primas de maior expressão no concelho da Lagoa, como o vime, a espadana e a folha de milho, o projeto visa assegurar a transmissão destas técnicas e incentivar o surgimento de novos artesãos, face à redução do seu número atualmente.

O projeto estrutura-se em dois eixos: um dirigido à comunidade em geral e outro à comunidade escolar do concelho de Lagoa. No eixo escolar, a arte de entrançar fibras vegetais integra a disciplina de Educação Tecnológica do segundo e terceiro ciclo, sensibilizando os alunos para a sua importância e promovendo competências técnicas e criativas.

© CM LAGOA

O documentário «Água de Pau: Memórias da Água» é um registo audiovisual que recupera histórias, vivências e identidades locais através das imagens da coleção fotográfica de Roberto Medeiros. Este trabalho constitui um importante testemunho visual da comunidade pauense e da sua evolução ao longo do tempo, propondo uma reflexão sobre a fotografia enquanto instrumento de memória e identidade coletiva.

O documentário abordará numa primeira parte o colecionismo e o papel do colecionador na construção da memória social. Numa segunda parte, através da coleção fotográfica, destaca a importância do elemento água na história da vila, explorando dimensões como vida, espiritualidade e património, e reforçando o sentimento de pertença da comunidade à sua terra.

Este momento cultural pretende afirmar-se como um espaço de encontro entre arte contemporânea, património e memória coletiva, reforçando a criação artística enquanto instrumento de preservação e valorização da identidade local. A entrada no Auditório Ferreira da Silva será livre.

Jovem de Água de Pau reforça laços diplomáticos com a Ucrânia quatro anos após o início da guerra

Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko em Lisboa, entregando lembranças oficiais da região e dos municípios açorianos

Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko em Lisboa © DIREITOS RESERVADOS

O dia 24 de fevereiro de 2026, que assinalou o quarto aniversário da invasão russa à Ucrânia, ficou marcado por um novo capítulo na relação de solidariedade entre o arquipélago dos Açores e o povo ucraniano. Álvaro Borges, jovem de 25 anos natural da Vila de Água de Pau, no concelho da Lagoa, e licenciado em Direito, marcou presença em Lisboa numa conferência de alto nível promovida pela Embaixada da Ucrânia e pelo Canadá. No encontro, o jovem lagoense reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko, consolidando uma ligação que nasceu em setembro de 2025, quando Álvaro integrou uma missão internacional de jovens a Lviv, a Capital Europeia da Juventude.

A presença de Álvaro Borges nesta iniciativa não foi apenas simbólica, mas também institucional. O jovem procedeu à entrega de lembranças oficiais confiadas pelo Governo dos Açores, pelas Câmaras Municipais da Lagoa e de Ponta Delgada e pela Junta de Freguesia do Livramento, onde reside atualmente. Este gesto mereceu o reconhecimento da embaixadora, que manifestou novamente o desejo de se deslocar aos Açores para participar numa conferência sobre o conflito. A iniciativa conta já com a disponibilidade de Andriy Chesnokov, consultor permanente da Ucrânia em Viena e antigo governante ucraniano, que se mostrou pronto para visitar a região e partilhar a realidade do seu país com os açorianos.

Segundo Álvaro Borges, este envolvimento é o prolongamento de uma experiência profunda vivida no terreno. Recorde-se que, durante a sua estada na Ucrânia, o jovem chegou a enfrentar alertas aéreos e a ter de recolher a abrigos antiaéreos perante a ameaça de bombardeamentos. Além do perigo vivido, Álvaro trouxe consigo histórias de resiliência, como a de um jovem amigo e refugiado que acolheu nos Açores durante o período natalício.

Com este novo encontro diplomático em Lisboa, o percurso de Álvaro Borges reafirma-se como uma ponte ativa entre as instituições açorianas e a resistência ucraniana, promovendo um espaço de informação e reflexão direta sobre os impactos globais da guerra.

Amigos da Lagoa: União do município, da diáspora e das sete cidades irmãs nos Estados Unidos

© DL

A história recente do concelho da Lagoa constrói-se tanto no seu território como além-Atlântico, através da sua diáspora organizada nos Estados Unidos da América. Os lagoenses emigrados na Nova Inglaterra têm desempenhado, ao longo de décadas, um papel determinante na preservação da identidade cultural, na promoção do concelho e no fortalecimento das relações institucionais entre a Lagoa e as comunidades norte-americanas.

Um dos momentos fundadores desta relação ocorreu a 11 de abril de 1990, quando Halsey Herroshof, administrador do concelho de Bristol, Rhode Island, se deslocou à Lagoa para assinar o protocolo de geminação com o Presidente da Câmara Municipal, Eng.º Luís Alberto Martins Mota. Durante essa visita oficial, Halsey Herroshof e o seu assistente ficaram hospedados na Caloura, na Vila de Água de Pau, em casa do Vice-Presidente da Câmara, Roberto Medeiros, num gesto simbólico de hospitalidade e proximidade institucional.

No âmbito desta geminação realizaram-se diversas visitas e iniciativas culturais no concelho da Lagoa, nomeadamente à Cerâmica Vieira e aos museus da Tanoaria, do Alambique, da Tenda do Ferreiro-Ferrador, da Cestaria e da Tecelagem. O administrador de Bristol participou ainda, juntamente com os autarcas lagoenses, na Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, e em atividades culturais com o Grupo de Teatro e de Folclore Jovem Pauense.

Em julho de 1990, o Presidente e o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Eng.º Luís Martins Mota e Roberto Medeiros, deslocaram-se aos EUA para participar, na vila irmã de Bristol, na histórica Parada do 4th of July, comemoração maior da Independência dos Estados Unidos. Estas deslocações e receções oficiais motivaram os imigrantes lagoenses radicados na Nova Inglaterra a organizarem-se, sentindo a necessidade de criar uma estrutura representativa que dignificasse o concelho e a comunidade emigrante no país que os acolheu. Esse objetivo viria a concretizar-se em 1996, com a criação da Associação dos Amigos da Lagoa da Nova Inglaterra, também conhecida como “União do Concelho da Lagoa”.

Presidida inicialmente por José Francisco Pires, natural do Rosário, e mais tarde por Maria Tomásia, da Ribeira Chã, a associação assumiu-se como uma verdadeira ligação entre o Município da Lagoa e a sua diáspora, acolhendo autarcas, empresários, filarmónicas, ranchos folclóricos, grupos corais, artesãos e promovendo intercâmbios culturais e escolares. Destacou-se igualmente a valorização de tradições identitárias, como a arte do presépio lagoense, cuja produção remonta a 1862.

Um dos símbolos mais marcantes desta cooperação foi a inauguração, a 10 de junho de 1997, do “Mosaico Park”, em Bristol, uma praça em pedra basalto, executada em calçada portuguesa, desenhada pelo artista imigrante José Manuel Soares, antigo funcionário da Cerâmica Vieira. Para a sua concretização, a Câmara Municipal de Lagoa enviou o calceteiro João Luís Cabral, que executou exemplarmente o trabalho no cruzamento da Frank com a Wood Street, num projecto coordenado por Roberto Medeiros, pela Lagoa, e Frederico Pacheco, pela Bristol Town Hall.

Ao longo dos anos realizaram-se vários convívios dos Amigos da Lagoa, com a presença de autarcas e empresários do concelho. O último teve lugar em 2009, quando, a propósito de um pedido de apoio para o novo carrilhão de sinos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Roberto Medeiros mobilizou a comunidade emigrante, resultando na oferta de 16 000 euros pelo empresário James de Melo, de New Bedford, cujo nome ficou perpetuado na torre da igreja.

Após esse período, a atividade da associação entrou em pausa. Contudo, a 17 de janeiro de 2026, surgiu um novo impulso para a sua retoma, com uma nova direção e uma visão estratégica renovada. José António Pires foi indicado como novo presidente, reunindo já mais de uma dúzia de imigrantes lagoenses e outros a serem mobilizados.

José António Pires, David Loureiro, Maria Tomasia, John Ferreira, José Amaral (Amaral Buses), Fernando Benevides (Portugalia Marketplace) e outros lagoenses e amigos comunitários, continuaram desde 2010 até a atualidade a dar apoio a Roberto Medeiros, que após a sua atividade autárquica assinou protocolos de colaboração, no dia 5 de novembro de 2009, no Salão Nobre da New Bedford City Hall, com 54 instituições luso e americanas, continuando assim a realizar por iniciativa própria intercâmbios culturais e escolares entre escolas, professores e grupos de cantares que o acompanharam dos Açores e da Lagoa aos EUA.

Dito isto, o objetivo desta nova fase é claro: unir de forma estruturada o Município da Lagoa, a diáspora organizada nos EUA e as sete cidades irmãs — Bristol, Dartmouth, New Bedford, Fall River, Rehoboth, Taunton e Fairhaven — promovendo cooperação institucional, cultural e comunitária. Pretende-se, nesse âmbito, convidar uma delegação oficial da Câmara Municipal de Lagoa, liderada pelo seu Presidente, Frederico Sousa, para o próximo Convívio dos Amigos da Lagoa e para um novo ciclo de iniciativas conjuntas.

Com esta retoma, os Amigos da Lagoa reafirmam-se como uma ponte viva entre continentes, honrando o passado, reforçando o presente e projetando o futuro do concelho no espaço internacional.

Importa ainda recordar que Roberto Medeiros, graças ao patrocínio da família de Fernando Benevides, mantém desde 2014 uma ação cultural contínua e de elevado valor identitário nos Estados Unidos, promovendo a arte bonecreira e a tradição secular dos Presépios da Lagoa. Esta iniciativa concretiza-se através das exposições anuais “Vilas Presépios”, realizadas no estabelecimento Portugalia Marketplace, na cidade de Fall River, reunindo centenas de figuras em barro moldadas por bonecreiros lagoenses, com especial destaque para António Morais, de quem foi adquirida a maior coleção de bonecos por si criados. Estes eventos tornaram-se uma referência cultural junto das comunidades lagoenses e luso-americanas, afirmando a Lagoa como território de património artístico vivo. Neste percurso, os lagoenses José António Pires, Teresa Baganha e David Loureiro têm sido verdadeiros baluartes no apoio logístico e comunitário, contribuindo de forma decisiva para a concretização dos projetos coordenados por Roberto Medeiros e para a contínua valorização da identidade lagoense além-fronteiras.

Detido em Água de Pau por ameaças a residentes e coação contra agentes da PSP

© DL

O Comando Regional da Polícia de Segurança Pública dos Açores, através de polícias da Esquadra da Lagoa, procedeu à detenção em flagrante delito, no passado dia 2 de janeiro, de um homem de 38 anos suspeito de cometer vários crimes na Vila de Água de Pau.

O indivíduo, residente na mesma localidade, estaria supostamente sob o efeito de substâncias estupefacientes no momento das ocorrências.

A intervenção policial ocorreu após o suspeito ter causado alarme e insegurança na população local ao bater às portas de várias habitações para pedir dinheiro, proferindo ameaças contra os moradores. Ao chegarem ao local para intercetar o suspeito, os agentes da PSP foram alvo de resistência, o que resultou na detenção do homem pelos crimes de ameaça agravada e de resistência e coação sobre agente da autoridade.

Após ser submetido a primeiro interrogatório judicial, o arguido ficou sujeito ao Termo de Identidade e Residência e à medida de coação de proibição de entrar e permanecer na Vila de Água de Pau.

Coral de São José atua em concerto de Natal no Auditório Ferreira da Silva

© CM LAGOA

O Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau, irá acolher no dia 14 de dezembro, pelas 20h30, um Concerto de Natal pelo Coral de São José.

Sob a direção musical de Luís Filipe Carreiro e acompanhado ao piano por Natália Atamas Silva, o Coro Sinfónico do Coral de São José interpretará um programa musical que promete envolver o público com temas como «Natal de Elvas» e «Natal de Linhares».

O concerto incluirá, depois, arranjos contemporâneos de temas amplamente reconhecidos do universo cinematográfico e musical natalício, tais como «O Magnum Mysterium», de Morten Lauridsen, «Jesus Bleibet meine Freude», de J. S. Bach, «Lully, Lulla, Lullay», de Philip Stopford e «Mingle Bells», de Alex Woolf, e temas icónicos como «Have Yourself a Merry Little Christmas», «Christmas on Broadway», «Joy to the World», «The Polar Express» e «Merry Christmas! Merry Christmas!», de John Williams.

O Coral de São José, fundado em 1967, em Ponta Delgada, começou por servir as celebrações litúrgicas da Igreja de São José e as transmissões da RTP Açores. Ao longo dos anos, ampliou a sua atuação para o âmbito concertístico, apresentando-se nos Açores, no continente e nos Estados Unidos. O Coral de São José conta com várias distinções, incluindo o estatuto de Entidade de Utilidade Pública Regional, reconhecimentos municipais e regionais, e condecorações como a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico e a Cruz da Ordem Pro Mérito Militense. Em 2017, no seu 50.º aniversário, recebeu ainda a Bênção Apostólica do Papa Francisco.

Torneio de Natal reúne 112 judocas na Vila de Água de Pau

A forte adesão demonstrou a vitalidade crescente da modalidade na ilha, contando com a participação de 36 atletas do Judolag

© CM LAGOA

A Vila de Água de Pau, no concelho da Lagoa, recebeu no passado fim de semana, no Pavilhão da EBI de Água de Pau, o “Torneio de Natal de Judo – Lagoa 2025”. Organizado pelo Judolag, em parceria com a Associação de Judo do Arquipélago dos Açores, o evento reuniu um total de 112 jovens atletas de vários clubes da ilha de São Miguel.

A competição foi marcada por um forte espírito desportivo, entusiasmo e o convívio que une a comunidade judoca, reforçando os valores fundamentais da modalidade como o respeito, a disciplina, a amizade e a entreajuda, em ambiente de época festiva.

A forte adesão demonstrou a vitalidade crescente da modalidade na ilha, contando com a participação de 36 atletas do Judolag; 29 do Samurai; 23 do Clube de Judo Ribeira Grande; 22 do Judo Clube de Ponta Delgada; e ainda um atleta do CEDA e outro do Passarada. No total o pavilhão da escola pauense acolheu 112 inscritos.

O acompanhamento técnico e o bom funcionamento da prova foram garantidos por uma estrutura de seis treinadores do Judolag e oito árbitros, com o apoio de dois árbitros do Clube de Judo da Ribeira Grande, um do Judo Clube de Ponta Delgada e um da Academia Samurai.

Os jovens competidores foram distribuídos por três grupos distintos, organizados por faixas etárias para garantir a equidade da competição: o Grupo 1, para os atletas menores de oito anos; o Grupo 2, destinado aos menores de 13 anos; e o Grupo 3, que englobou as categorias Juvenis, Cadetes e Juniores.

Antigamente… era assim

“Para onde foram as algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras…”

António Xonina na apanha de musgo ou algas marinhas © ARQUIVO ROBERTO MEDEIROS

Havia um tempo em que o mar não era apenas horizonte: era vizinho, confidente, mestre silencioso. Nas nossas ilhas, cada onda contava uma história, cada rocha guardava memórias de mãos que sabiam tocar o mundo sem o quebrar. Antes que os dias corressem apressados como correm hoje, havia homens e mulheres que acordavam com o sussurro do Atlântico e adormeciam com o sal impregnado na pele. Para as famílias dos pescadores do porto da Caloura, o mar não era paisagem; era vida, ofício, poesia.

Entre essas atividades, uma cintilava pela delicadeza do gesto: a apanha do musgo, ou das algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras, como se fossem cartas do tempo. Era um trabalho de paciência e precisão, feito ao compasso das marés, com conhecimento transmitido de geração em geração. Quem o praticava sabia decifrar o mar como quem lê um livro antigo: as correntes, as marés, o cheiro do vento, cada detalhe era lição.

Em São Miguel, os mergulhadores-de-polvos e os pescadores mais velhos — aqueles que já não navegavam para o largo nos barcos de boca aberta da Caloura, de Água de Pau ou do Porto dos Carneiros, no Rosário da Lagoa — encontravam no musgo uma ligação silenciosa ao oceano e, ao mesmo tempo, um sustento para as famílias. O musgo era colhido com cuidado, levado para terra e estendido ao sol, formando mantas ou tapetes que secavam lentamente, absorvendo a luz e a memória do mar.

Havia uma empresa que comprava todo o musgo ou algas marinhas apanhadas nos Açores durante o período de colheita. Como o «musgo» era muito rico em nutrientes, tinha vários destinos, sendo o principal o fabrico de medicamentos. A empresa Pereira e Pereira, pertencente ao Grupo Bensaúde — atualmente dono do Centro Comercial Parque Atlântico e do Hiper Continente, em Ponta Delgada — recolhia todo o musgo apanhado na ilha de São Miguel pelos mergulhadores e pescadores mais idosos. Depois, exportava-o para a produção de medicamentos, perfumes e até complementos alimentares. No Continente, por contraste, o musgo era usado para fertilizar os campos agrícolas, prática que nunca se implementou nos Açores. No arquipélago, durante mais de 400 anos, os agricultores utilizavam tremoceiros, faveiras e molheiros para fertilizar as suas terras, até à chegada dos fertilizantes químicos.

Nos anos 60, 70 e 80, este ritual era visível nas ruas de Água de Pau: moto-triciclos carregados de sacas desciam e subiam ruas como a Portela, o Cerco, a Galera e os Ferreiros, espalhando tapetes de musgo sobre calçadas e passeios. Homens como o o Ti António Xonina, o Ti Manuel Madeira, o Morreira, o Zé “vira-o-bolo”, o Subica ou o Zé da Glória Giganta trabalhavam com mãos calejadas, mas delicadas, espalhando vida e história. Para muitos aposentados e famílias numerosas, esta atividade era um complemento económico modesto, mas vital — cada tapete estendido era um poema silencioso de sobrevivência e engenho, cada saco transportado, uma ponte entre o homem e o oceano.

Na Caloura, quando ia aos banhos com familiares e amigos, dizia-se que o mar tinha preferência por Ti António Xonina. Talvez porque ele falava pouco, talvez porque sabia ouvir. Ajoelhava-se, colhia o musgo como quem recolhe memórias líquidas, e enchia o saco de serapilheira sem pressas, como se cada fio esverdeado escuro guardasse um segredo. Quando o vento soprava, parecia que as algas chamavam por ele, sussurrando histórias de marés antigas.

A costa sul transformava-se em cenário vivo: sombras inclinadas, o brilho molhado das pedras, o marulhar ritmado das ondas. Era quase uma coreografia, uma dança antiga entre o mar e aqueles que dele dependiam. Depois vinha a tarde, e o musgo estendia-se ao sol como roupa lavada, libertando um cheiro de sal, vento e esperança.

Hoje, tudo isso pertence à memória. O mar continua imenso, igual a si mesmo, mas a apanha do musgo desapareceu. Já não há mãos a decifrar as marés, nem rostos a contemplar o reflexo da vida no musgo. Restam apenas fotografias antigas, onde o sol, o mar e as pessoas parecem conspirar para eternizar um mundo perdido. Recordar é um ato de ternura e respeito: é lembrar que fomos capazes de viver em harmonia com o oceano, e que essa harmonia é um património que não se pode esquecer.

Agora… é assim

O que antes era paciência e cuidado transformou-se numa invasão. As praias açorianas, incluindo a Caloura em Água de Pau, são hoje invadidas por toneladas de algas Sargassum. O mar devolve-nos esta massa vegetal, densa e implacável, como se quisesse dizer que a natureza se cansa da exploração. O acesso à água é dificultado, o prazer de estar à beira-mar é roubado, e os municípios enfrentam encargos enormes para retirar o excesso.

Estas algas provêm do Mar dos Sargaços, vasto Atlântico central, mas não são apenas mensageiras do mar: são sinal de desequilíbrio. Nutrientes excessivos provenientes de fertilizantes industriais, produção intensiva de gado, desflorestação e erosão do solo transformam o oceano numa máquina que gera vida e caos em simultâneo. Onde antes se lia o mar com olhos atentos, hoje o mar lê-nos e responde com invasão.

O contraste é brutal: antigamente, mãos humanas recolhiam o musgo com reverência; hoje, o mar devolve-nos invasões que ninguém pediu. A riqueza que antes era partilhada entre comunidades agora é explorada por interesses distantes, e a natureza paga o preço da ganância. O oceano, que outrora ensinava, alerta-nos agora: o seu silêncio já não esconde a degradação e o desequilíbrio.

Antigamente… era assim. Agora… é assim

Recordar não é nostalgia: é aprender. O musgo colhido com paciência, as mãos calejadas e delicadas, os rostos iluminados pelo sol e pelo mar são património vivo da nossa identidade. Se quisermos proteger o futuro, precisamos de ouvir o oceano, respeitar o equilíbrio e recordar o que ele nos deu. Antigamente, o homem lia o mar; hoje, o mar lê o homem e mostra-lhe as consequências da sua cegueira.

E talvez, se aprendermos a olhar de novo, possamos ainda transformar a invasão em aviso, a memória em sabedoria, e o oceano em parceiro, como foi sempre.

A emigração levou famílias inteiras d´Água de Pau

Roberto Medeiros

Na década de 1960, Água de Pau viveu uma ferida aberta — uma perda lenta, mas profunda, que marcou para sempre a história da vila. Famílias inteiras partiram em direção ao desconhecido. Eram mais de mil pessoas. Só da rua dos Ferreiros — a antiga artéria de pedra gasta pelas gerações — saíram mais de 300. A velha pedreira, antes cheia de vozes e vidas, ficou em silêncio. Casa sim, casa não, ficou vazia. As janelas cerraram-se, os cortinados deixaram de esvoaçar com o vento do Sul, e os passos nas calçadas tornaram-se mais raros.

Os que saíram procuravam mais do que uma nova vida: procuravam futuro para os filhos. Deixaram para trás os campos férteis do Valongo, da Amoreirinha, da Terra-de-Reis e da Caloura — terras que, durante séculos, sustentaram a vila. Braços que regavam, cavavam, ceifavam e colhiam, partiram. E com eles, partiu também o coração da comunidade.

© DIREITOS RESERVADOS

Era a necessidade que os empurrava. A escassez de trabalho, os salários miseráveis, e a certeza de que, ficando, os filhos teriam um destino igual ou pior. Partiam com fé no peito e saudade nos olhos. Deixavam pais e mães, irmãos, vizinhos, as festas de Nossa Senhora dos Anjos e do Espírito Santo e o toque do sino da igreja matriz que ecoava pela vila toda até às terras da Eira na Amoreirinha.

Curiosamente, a emigração não foi aleatória. Os da rua dos Ferreiros criaram raízes em New Bedford, nos EUA, e em Montreal, no Canadá. Como se quisessem reconstruir, tijolo a tijolo, a sua rua noutro lugar do mundo. Já os das ruas da Arrochela, da Travessa da Natividade e do Valverde de Cima, encontraram em Bristol, Rhode Island, um novo lar. Levavam a fé consigo — e isso vê-se nas festas religiosas organizadas pela diáspora, onde trajes tradicionais, danças, folclore e imagens santas ainda hoje são reverenciados como se estivessem na própria vila.

Na fotografia acima, uma família posa em trajes de romaria e devoção. As crianças sorriem, mas os olhos dos adultos trazem o peso da memória. A mulher mais velha segura uma imagem sagrada — talvez de Nossa Senhora dos Anjos ou do Senhor Santo Cristo dos Milagres. É o retrato vivo da ponte entre a terra que se deixou e a fé que se levou. A emigração não foi apenas um movimento de pessoas — foi uma travessia cultural, emocional e espiritual.

Água de Pau perdeu muito com a emigração. Perdeu braços que lavravam a terra e rostos que davam vida às festas e às ruas. Mas ganhou também uma diáspora orgulhosa, que nunca se esqueceu de onde veio. Que transmitiu aos filhos o sotaque dos Açores, as receitas da avó, o respeito pelo trabalho e a fé enraizada. Que fez questão de continuar a celebrar os impérios, as filarmónicas, os cortejos e a língua — mesmo do outro lado do oceano.

Hoje, os filhos desses emigrantes já são americanos ou canadianos de nascimento. Mas dentro deles vive Água de Pau. Vive nos nomes que ainda sabem pronunciar, nas músicas que ainda sabem cantar, nos sonhos dos pais e dos avós que um dia cruzaram o Atlântico para que eles pudessem ter mais do que aquilo que a terra lhes permitia.
Foi a coragem de partir que garantiu a continuidade da memória.

Quando o coração sabe o caminho de regresso

© DIREITOS RESERVADOS

Há histórias que resistem ao tempo. E há regressos que não precisam de mapa, porque o coração conhece cada beco, cada ribeira, cada pedra onde se brincou em criança. Assim foi o regresso de Victor e João Porto à sua terra natal — Água de Pau, vila ainda de alma rural, de caminhos terrosos e memórias que permanecem intactas, mesmo passados 49 anos de ausência.

Foi no Beco do Saco, junto à rua do Cura, que estes dois irmãos nasceram. Em 1966, partiram com os pais e a irmã rumo à América, como tantos outros açorianos da sua geração. Victor tinha 10 anos. João, apenas 8. A infância ficou-lhes gravada na memória, como uma fotografia antiga guardada numa gaveta da alma.

Durante quase meio século, nunca mais regressaram aos Açores. Até que, em outubro de 2014, integrados numa comitiva de emigrantes de Dartmouth, a ilha chamou por eles — e eles responderam com um regresso carregado de emoção.

Ao entrarem em Água de Pau, mal passaram pela Praça da República (ou como se diz por brincadeira, “a nossa Times Square”), pediram logo para virar depressa na rua da Carreira. Queriam ver a casa onde nasceram, tocar nas paredes que guardaram os primeiros anos da sua vida. Levei-os até lá — mesmo em contramão — e vi-os emocionarem-se ao tocar nas pedras da velha casa.

Foi um reencontro com o tempo e com a verdade das raízes.

Depois, caminhámos juntos pelas ruas que a memória não deixou apagar. No Largo de Santiago, agora sem a ribeira aberta nem lavadeiras, evocaram as festas de 15 de agosto, os bailaricos e os piqueniques, os dias de melancia e risos. Perguntaram-me pelo velho “Crockett”, lembraram-se dos marrecos na água e das brincadeiras com os amigos de infância.

Fomos ao Pico do Monte Santo, onde se vê toda a vila de uma vez só. E ali ficaram por instantes, em silêncio, a contemplar aquilo que nunca verdadeiramente deixaram: a sua terra.

Na Caloura, o João lembrou-se de, em pequeno, ter ido de barco com o pai até ao Ilhéu da Vila, durante a festa da Senhora das Dores. Memórias que voltaram à tona como se tivessem sido vividas ontem.

Ao cruzarem-se com algumas pessoas mais idosas, o espanto e o reconhecimento foram mútuos: todos se lembravam dos pais. E esse pequeno gesto de memória partilhada, esse fio que liga gerações, deu-lhes uma alegria difícil de descrever.

“Parece que nunca saímos daqui”, disseram-me. E eu percebi: realmente, nunca saíram.

A tarde foi passando e, com ela, o sentimento claro de que esta visita não seria a última. “Temos de voltar com a família toda. Eles precisam de conhecer isto, de sentir isto.”

E antes de regressarem à comitiva, visitámos ainda uma plantação de ananases e o Convento do Senhor Santo Cristo, símbolos maiores da ilha que continua a fazer ponte entre o passado e o presente.

Despedi-me deles com um abraço, sabendo que levavam Água de Pau no peito como bandeira. Vão regressar à América, sim, mas transformados em verdadeiros embaixadores da terra que os viu nascer.

Porque há lugares que nunca se esquecem.

Porque há raízes que, mesmo à distância, continuam a crescer.

E porque, como bem disseram no final do dia, entre sorrisos cheios de saudade:

“Água de Pau desbanca!”