
Alexandra Manes
Fernando Alexandre, atual Ministro da Educação, Ciência e Inovação, bem como detentor de nome de artista de música pimba que vem atuar nas festas de Verão da freguesia, apresentou uma vasta proposta de reformas do sistema pedagógico português, tendo por base aquilo que apelidou como sendo uma visão unificadora do aparelho público.
Não é novidade para o eleitorado do nosso país a realidade de se votar num partido, ou coligação, e depois verificar que quando chegam ao poder o que estava no seu programa não é para cumprir. Há uns programas sombra que estão sempre guardados na gaveta, prontos a entrar em ação, se por acaso forem eleitos. O que se imprime e coloca disponível para o público raramente corresponde à intenção dos grandes partidos. E do partido do veneno, pior ainda, mas isso será matéria para outro dia.
Em relação às mudanças do senhor Ministro, imaginamos um gabinete cheio de adjuntos e secretários-gerais a abanar a cabeça em concordância, mesmo que muitos não percebam o que foi dito e será feito, enquanto outros sabem, mas também reconhecem a necessidade de manter o cargo e o estilo de vida a ele associado. Essa é também uma realidade bem conhecida, já retratada em muitas narrativas de ficção, que só pecam por serem demasiado meigas com a verdade. O senhor Ministro quando fala, é para cumprir, mesmo que seja para fazer mal às gentes. A palavra do chefe é dura, mas é a palavra do chefe.
Assim verificamos a nefasta extinção em curso de uma série de gabinetes e projetos estatais com resultados positivos para o país, em nome do dinheiro e da ideologia neoliberal que governa os corredores do poder. Foram várias as vozes que de imediato se levantaram em defesa de duas das instituições que correm o risco de desaparecer: o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares.
Profissionais do arquivismo e da educação continuam a apelar ao coração de um governo que não quer saber, em defesa de um direito básico da Humanidade, que agora surge mais ameaçado do que nunca. Ler é uma necessidade que deveria ser elementar, porque é nas palavras que encontramos o conhecimento necessário para escapar ao obscurantismo do populismo.
Vivemos tempos desesperantes nesse sentido. Cada vez se lê menos, e quando se lê, os nossos cérebros estão atrofiados pela sensação de modernidade das redes sociais, formatados para manchetes e soundbytes, quase que incapazes de ir mais longe do que a rede de desinformação que reina entre nós. Para combater essa crescente ignorância, em muito semelhante aos tempos de Salazar e dos seus capangas, precisamos de mais leitura e mais acesso à mesma. Precisamos de um plano que nos indique caminhos, e sinalize obras de referência, capazes de educar os mais novos e promover o seu crescimento sustentável. Era isso que fazia o tal plano nacional, mais coisa, menos coisa, e que agora está em vias de poder desaparecer, se o senhor Ministro não acordar bem-disposto.
Quanto à rede de bibliotecas, a situação é ainda pior. O trabalho existente, obtém sucesso comprovado, com indicadores que demonstram um maior sucesso a nível de resultados escolares, bem como de literacia, nos espaços que contam com bibliotecas adequadas, geridas por profissionais devidamente capacitadas para o efeito. Retirar o acesso a essas ferramentas será colocar novos entraves ao futuro e às nossas crianças, abrindo a porta a uma maior facilidade de consulta de outras soluções, tais como a famigerada Inteligência Artificial. Não nego a importância que pode vir a ter.
Mas verifico, tal como qualquer pessoa com dois dedos de testa, que o uso de aplicações que fazem a leitura por nós, pensam em nosso lugar, e depois apresentam propostas de resposta, pode vir a ser profundamente maligno.
A Inteligência Artificial é manipulável, como Elon Musk já demonstrou. E é também uma fonte de controlo de massas. Retirar a leitura do nosso circuito de livre pensamento é abrir as portas à conquista de uma nova sociedade onde questionar o poder vigente não só será
proibido, como nem sequer será imaginado, porque as crianças perderão o poder de imaginar. Não imagino realidade mais triste do que essa.
Não que a atual seja particularmente melhor. Vão começando a sair os resultados do acesso ao ensino superior, e o que verificamos é desastroso, no sentido de começar a corroer o democrático corredor do conhecimento. Cada vez menos alunos com situações familiares financeiramente instáveis conseguem aceder a essas oportunidades.
As promessas de Montenegro, referentes à devolução do dinheiro das propinas, parece que ainda estão por cumprir. As instituições periféricas, como a nossa Universidade dos Açores, estão votadas ao abandono, com taxas de incorporação bastante fracas, que vão levar ao encerramento inevitável de alguns cursos, e ao afunilamento do pensamento e da forma de o aplicar.
Estes cenários parecem impossíveis de acontecer, mas já estão em curso. Os ministros do Luís dos fogos e maus vinhos dizem-nos que nada vai mudar. Que extinguiram a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, só que as competências da mesma permanecem. Despediram as equipas que gerem o plano nacional de leitura e a rede de bibliotecas escolares, mas ficará tudo na mesma. Atiram-nos areia para os olhos.
Sabemos que a realidade nunca é assim. Quando nos retiram algo, raramente fazem por nos devolver, e mesmo que o façam, nunca volta de forma igual. Montenegro quis ver-se livre de chefias incómodas. E para isso, quem vai sofrer são as crianças, adolescentes e jovens.
Para além de que a procissão ainda vai no adro. Qualquer dia, alguém se vai lembrar de reconstruir uma mocidade à moda portuguesa. Marquem estas palavras. Ou façam por elas não se concretizarem.

Alexandra Manes
Inicio com um aparte que pode parecer não estar relacionado com o tema central desta crónica, mas até está. Marcelo veio aos Açores e, uma vez mais, ninguém quis saber da ilha das Flores. Queixaram-se dos lados de S. Jorge e da Graciosa, com razão certamente. E ficou a promessa de ele vir ao grupo Ocidental. Talvez seja a promessa para não esquecer a promessa que ele já tinha prometido várias vezes, desde 2019, e nunca cumpriu. É promessa para açor ver.
Palavras levam-nas o vento. É assim que muita gente entende a política, nos dias que correm. E isso deve-se, desde logo, à fraqueza da nossa classe de supostos profissionais nesta área. A começar pelo próprio Marcelo, que esperou décadas para que o nível fosse tão baixo que lhe permitisse voltar das masmorras para onde tinha sido atirado, quando falhou nas suas pretensões de ser primeiro-ministro de forma estrondosa. Foi preciso o nível alcançar as tenebrosas figuras de Passos Coelho e Cavaco Silva, na sua versão metaforicamente mumificada, para o país decidir que talvez Marcelo não fosse assim tão mal. Mas foi. Foi pior. Foi um símbolo dos tempos em que vivemos.
Toda esta introdução para vos falar de Gaza. Já sei que muitas pessoas, assim que leram a primeira frase deste parágrafo, decidiram mudar de texto. É mais fácil assim, não é? O principal poder deste admirável mundo novo é fazer com que consigamos fugir a qualquer responsabilidade sem aumentar substancialmente o peso na nossa consciência. Afinal de contas, basta mudar de página, abrir uns vídeos curtos nas redes sociais e passar três horas a ver jovens sem camisa a cozinharem pratos rebuscados que nunca na vida vamos comer, quanto mais confecionar.
Entretanto, Gaza continua. A fome, que se faz sentir de forma intermitente há décadas e décadas, regressou com ávida vontade de devorar aquele povo. Por todo o lado, multiplicam-se as frases e os textos de repúdio, timidamente intercalados pelas vozes das pessoas que, sem qualquer pingo de vergonha, continuam a negar o evento genocida em curso. Nada restará de Humanidade ali.
Todas as pessoas são bem-vindas no campo da crítica e denúncia do processo de destruição maciça que decorre na faixa de Gaza. Mesmo que eu saiba, como as minhas quem me lê que nem todas as pessoas que agora escrevem sobre o assunto quiseram assumir a realidade dos factos há dois anos. Tudo bem. Há sempre tempo para mais uma voz que se levante contra as ditaduras e os monstrengos. Todavia, importa recordar que não nos pode bastar dizer que há fome em Gaza. É preciso explicar porque é que ela existe.
A sistemática destruição do povo palestiniano pelas mãos ensanguentadas de regimes a mando do Ocidente não é mais do que um tubo de ensaio para os grandes poderes bélicos do capital. Assim o é há décadas. Empresas de gigantes militares brotam dos Estados Unidos, e de alguns países aliados, e vão até Gaza alimentar o aparelho do conflito, fornecendo armas relativamente rudimentares a um lado, e distribuindo tecnologia de ponta ao outro. É preciso testar equipamento. E ganhar dinheiro com isso. Que se lixem as vidas humanas.
Assim, o problema de Gaza é, na sua forma mais primária, o mesmo problema de sempre. Os mais ricos querem continuar a ser os mais poderosos e para isso não se preocupam com o conflito moral de se devorar povos inteiros.
Claro que há muitas nuances. Israel, enquanto povo, não é só feito de monstros. O seu atual governo é, claramente, alimentado pela ideologia fascista que carregou Trump até ao trono e, muito em breve, vai fazer o mesmo a Ventura, se ninguém se mexer a tempo e horas. Do lado de lá, o infame Hamas terá um peso substancial na forma como a Palestina continua a existir, e na maneira como são tratadas as pessoas debaixo de um regime teológico repressivo, que carrega dogmas profundos. Ainda assim, não me esqueço das muitas informações que foram chegando, ao longo dos vários mandatos de Netanyahu, onde ficou atestada a influência de Israel sobre o funcionamento do Hamas. A fome, juntando-se à vontade de comer, para alimentar as empresas e matar as crianças.
Eis então que alcançamos o ponto crucial deste texto. A grande maioria das pessoas, de direita, esquerda, centro, ignorantes ou informadas, começa a admitir que há fome e genocídio. Uma parte considerável, até apela a que a coisa pare. Mas depois esbarramos na inverdade do mundo de Trump, pós-factos e a favor de sentimentos e certezas unipessoais.
No dia 3 de agosto, um grupo de pessoas rumou à Base das Lajes para protestar o peso crescente do regime fascista dos Estados Unidos no genocídio de Gaza. As informações atuais apontam para uma “fundação” privada, gerida pelos norte-americanos, e principal responsável pela má distribuição de bens pelos mais necessitados. Essa mesma empresa, mascarada de ajuda, está protegida por uma milícia de paramilitares que, ao que parece, se diverte a jogar ao tiro ao alvo com crianças.
As nossas gentes, aqui mesmo na ilha Terceira, foram protestar essas verdades, mobilizadas por um movimento social e espontâneo “Azores for Gaza”. Levaram consigo cartazes apelando à moral e ao humanismo. E levaram com um chorrilho de comentários ignorantes, plenos de ódio e distorção da realidade, inflamados pela propaganda dos tais vídeos de dez segundos que correm pelas redes. As nossas gentes que ali foram para mostrar cartazes apelando ao fim da morte de crianças, e receberam chapadas duras, sobre miúdos que merecem morrer porque são terroristas, e imagens com mulheres bem nutridas, saídas diretamente da inteligência cada vez menos artificial.
Foi assim que aqui viemos parar. Tal como Marcelo esperou por um mundo medíocre para conseguir ser presidente, mesmo sentado em mentiras, meias-verdades e selfies, também Netanyahu aguardou o seu momento para consagrar o genocídio. Com o mundo preso às distorções dos ecrãs, com o presidente mais incompetente da história dos Estados Unidos e com o capitalismo a entrar na sua fase final, e mais perigosa, Gaza continua a ser aquilo que sempre foi. Um laboratório de testes. Só que agora, o teste que estão a realizar é para saber como é que nos vão comer a todos. Uma espécie de solução final, promovida por quem deveria ter memória. E no fim, como diria o Zeca, não fica nada. Nem sequer a nossa Humanidade, perdida atrás da luz do telemóvel.

Alexandra Manes
A 24 de dezembro de 2024, na véspera do aniversário do menino de Belém, nasceu o novo decreto regulamentar regional para o regime de apoios aos agentes culturais na nossa região. Há quem, inocentemente, tenha acreditado que a data de publicação foi mera coincidência, mas houve também quem tivesse logo previsto que dali sairia um grande peru de Natal. Os mais otimistas, ainda aguardaram pela chegada do Messias reencarnado naquele documento, para salvar um arquipélago de tranquilos e naufragados artistas insulares.
A verdade é que a nova proposta contém, de facto, algumas reformas interessantes, face ao decadente estado a que se tinha chegado. Afinal de contas, é uma região repleta de artistas, que historicamente marcaram o panorama nacional, e muitas vezes internacional, mas o palco estava há muito tempo quase vazio, apenas preenchido pelas pessoas que se dignavam a conseguir pagar do próprio bolso para sobreviver.
Essa situação exacerbou-se pela presença de normativos incompreensíveis, excessos de burocracia inadequados e uma panóplia de critérios sem explicação, suportados por anacrónicas maneiras de agir e painéis de júris selecionados por simpatia, sem justificação de mérito ou sentido. Tudo isto, profundamente agravado pela falta de chefias capacitadas, dentro da tutela, para gerir aquele tipo de processos, e complementado pelos atrasos consecutivos, dignos de um recorde olímpico, que de 2020 para cá se foram estendendo ainda mais, até ao ponto em que houve apoios de um ano pagos em janeiro do ano seguinte.
Pelos corredores do Palacete Silveira e Paulo, diz-se que as profissionais do setor continuam a respirar de forma ansiosa, sussurrando palavras de escárnio e desilusão perante a gritante falta de estratégia manifestada pelo longo role de diretorias que ali se sentaram recentemente. Por mais cerimónias e anúncios que as senhoras chefes façam, quem ali tenta trabalhar é que sabe o que pena para levantar uma pedra que nunca chegará ao topo da montanha que só sabe parir ratos.
Todos os anos, religiosamente, as e os agentes culturais juntam-se em peregrinação aos jornais, para anunciar mais um problema e menos uma solução. Quando se tentou fazer reuniões gerais para fingir que se ouviam as pessoas, houve ilhas em que nem Internet houve para as receber. Mesmo em São Miguel, onde se concentrou a direção e a secretaria no mesmo dia para mostrar a importância do centralismo, ficaram mais dúvidas que certezas sobre o que viria no novo regulamento. E, quando ele saiu, nada mudou, naquele 24 de dezembro de 2024.
Claro que a mudança não se faz num dia. Compreendo que ninguém nasce ensinado. Só que este executivo é o mesmo que nunca desculpou uma falha no tempo dos outros senhores. E, pior do que isso, é o que lá está há tempo suficiente para ter juízo. Então prepara-se um novo regulamento sem ter as coisas prontas para serem acionadas? E quando se vai corrigir tamanha falha, o resultado é o lançamento de uma plataforma que ainda prevê a inscrição do número de fax no perfil da entidade? A ausência de futuro é evidente. A falta de visão é desesperante.
E desesperam as técnicas e os técnicos demasiado capacitados de um palacete que arde com a frustração de quem até queria fazer se lhes deixassem. Não esquecer que este problema agudiza com a tal nova orgânica, pensada para elevar a diretora regional, mas que afinal parece que só serviu para mudar o nome e confundir ainda mais as pessoas. Uma breve passagem pelo portal da Direção Regional da Cultura, que já de si é peça de museu com mais defeitos que qualidades, permite verificar que agora temos uma Direção de Serviços para o Desenvolvimento Cultural que serve para a promoção cultural, e uma Divisão da Promoção Cultural que serve para o património imóvel. Como é que é? Não é silly season, nem consequência das festas da Praia da Vitória. É mesmo assim. Uma casa sem porta de entrada, embarcação sem leme, e viatura de motor avariado.
Mas, voltemos ao regime de apoios para atividades culturais. De facto, o atual diploma veio tentar prevenir vários dos anteriores problemas, acautelando definições de critérios e metodologias renovadas para tentar conjugar a execução dos projetos com a sua adequada avaliação e acompanhamento. Reconheço-lhe esses méritos todos, mais não seja porque também reconheço algumas alíneas inspiradas numa proposta que em tempos levei até junto do nosso Parlamento Regional. Tudo bem. O que me interessa é o serviço público.
Todavia, eis-nos na primeira semana de agosto, tempo de começarem as novas candidaturas e os trabalhos de administração dos agentes culturais. No dia 1 de agosto, o Governo anunciou a tal plataforma progressista que ainda fala na máquina do fax. Fez uma cerimónia, onde só convidou quem quis, ou quem sabia que iria para bajular e não para analisar imparcialmente o assunto. Durante os últimos oito meses, não promoveu uma só sessão pública de esclarecimentos sobre o novo diploma, de que se tenha conhecimento. Temos uma Secretaria que mistura Cultura com Educação, mas nem sequer ensinar sabe! Será sempre esse o legado da senhora secretária. Muita parra, pouca uva. Muitos comunicados, poucas condições para trabalhar. Até os professores se vão, finalmente, apercebendo disso.
Conseguimos adivinhar como terminará este novo ciclo de apoios culturais. Contra um serviço mal gerido, burocracias incompreensíveis e decretos que na prática só serviram para ficar tudo na mesma, perdurará o assassinato da nossa Cultura, patrocinado pelo Governo menos interessado em política cultural de que há memória em Portugal. Só será apoiado quem comprar máquina de fax? Para que serve um regulamento, se as pessoas não o souberem aplicar? É uma verdadeira volta de 360 graus! Um peru de Natal, servido frio e sem acompanhamentos, renegando uma vez mais uma classe profissional inteira para dentro de um poço que parece não ter fundo.
Nem promoção, nem desenvolvimento cultural. Sintoma de uma doença prolongada na Região, que já vai em cuidados paliativos. Como diria o senhor presidente, por estes dias: já estamos habituados. Não é?

Alexandra Manes
O mundo está à beira do precipício. Não sou a primeira pessoa a alertar para esta realidade, nem sequer é a primeira vez que o faço. E, no entanto, ele move-se. O nosso planeta aceitou com sensação de impunidade a venda da alma aos diabos que trabalham nos bastidores para o destruir.
Enfim. É Verão. Por esta altura, em tempos que já lá vão, estaríamos a assistir às eternas reportagens na praia, onde banhistas seminus, com maturadas pelugens grisalhas, dariam a sua opinião sobre o nível relativamente normal de calor que se fazia sentir por aí. Alguém compraria uma bola de Berlim e um Compal de maçã, e a repórter questionaria a qualidade do material, sem referir a inflação galopante que estrangula a classe média a olhos vistos. Haveria tempo de antena para uma reportagem de seis horas e meia, centrada no trabalho do centro de estágio do clube de futebol da moda, e sem dramatizar eleições internas ou novelizar um normal processo de venda de um jogador. Nada de grave se passaria no resto do mundo, porque Agosto era tempo de fingir que voltamos a estar orgulhosamente sós, na nossa toalha individual, debaixo do chapéu de sol da família, junto ao mar e a uma cabana.
Só que agora o Verão é outro. Na beira do tal precipício. Com devastadora sucessão de criminosas tentativas de destruição da nossa vida como a conhecemos. Mentiras tornadas realidade pelo discurso demagogo, apoiadas em vídeos de produção rarefeita, para divulgar em dentadas de poucos segundos, nas redes sociais, e doutrinar quem tem pouco tempo para pensar. É época de apelo a consensos com forças neonazis e com as suas aliadas periféricas, preferindo dar a mão ao ódio do que aprender a admitir os nossos defeitos.
Poderia voltar a Montenegro e escrever mais duas páginas sobre a decadência moral do seu jovem governo minoritário, que para não ser esfaqueado por bandos de cheganos à solta, preferiu continuar o processo de doutrinação do país, com a remodelação da Cidadania. Não são contra a disciplina, entenda-se. São a favor de controlar o seu programa pedagógico, transformando o que poderia ser uma oportunidade de crescimento individual numa ida à Universal Igreja do Reino do Capital, onde é mais importante aceitar que tens pouco dinheiro do que aprender a questionar o sistema que pouco dinheiro te deixa ter.
Também poderia falar de Sérgio Sousa Pinto e Pedro Passos Coelho, colocados ao serviço de uma associação que não é mais do que um lobby à portuguesa, para preparem o plano de reforma da Constituição de Portugal que a direita almeja aplicar ainda antes do final desta década. Tudo isto está vestido com outras roupagens, a começar pela gravata socialista que Sousa Pinto insiste em usar, mesmo que já não o seja, ou pelo casaco social-democrata que Coelho veste a contragosto, para fingir que ainda tem algum tom de laranja na pele, quando toda a gente sabe que ele é do partido do Ventura.
O documento que vão produzir será uma espécie de Projeto 2025 para Portugal, ou seja, um manual de práticas a executar para destruir todo o serviço público que nos resta e escancarar as portas do país ao livre-arbítrio do poder económico privado, que virá para sacrificar os trabalhadores no altar do lucro. Ver ali um falso socialista a anunciar a sua presença como força de consenso ao centro recorda-nos as palavras bíblicas sobre lobos transvestidos de cordeiros, e a importância de nos livrarmos deles a tempo e horas. Na mesma linha ideológica estará Aguiar Branco e a sua seletiva incapacidade de compreender o dicionário, o significado de insulto e o ato de segurar a máscara. Fanfarrão, como todos os que o acompanham na senda do PSD que já está coligado com o Chega, decidiu escolher o Verão para revelar a sua tendência autoritária, que sempre soubemos estar presente, mas que escolheu utilizar para penalizar o inimigo. Ainda se recordam do acordo que o levou ao cargo na primeira vez?
Também nesta época, aqui pelas nossas ilhas, é tempo de ver a Senhora Secretária da Educação a anunciar os grandes resultados escolares de estudantes. Primeiro, começou com uma publicação sobre o sucesso a nível nacional, depois lá teve de se desculpar e colocar um vídeo remastigado, para assumir que afinal o sucesso era muito relativo, e que oito disciplinas é um número inferior a dezasseis. Talvez alguém lhe tenha dado uma lição de matemática nos entretantos. Em Angra, decorreram dois festivais culturais de grande relevo, sem a presença de representação dos gabinetes da Cultura, que por acaso são os mesmos da Educação, ainda que se possa confundir a sua existência com o funcionamento do cemitério municipal.
Mais uma vez, a dívida da Região subiu exponencialmente. Mais uma vez, atrasos sistemáticos no pagamento a fornecedores com a velha retórica de culpar um partido que deixou de governar em 2020. Mais uma vez, agentes culturais desmentem as ordens de pagamento, por as mesmas não terem sido executadas.
Pelo arquipélago a fora, continuam as discussões sobre a Autonomia, o aprofundar da mesma e a navegação nos atribulados mares da geopolítica. Lá do outro lado do mar, está um Trump envelhecido, com maquilhagem suficiente para lhe esconder as feridas da idade, mas incapaz de se escudar dos escândalos sexuais que poderão, finalmente, apanhar o predador. Membros do culto ao líder e republicanos com um resto de fibra moral mostram-se cada vez mais arrependidos. Já vão tarde, claro está. Ainda que talvez pudessem servir de aviso a pessoas como Montenegro e Aguiar Branco, se ainda lhes restasse algum resquício de bom senso que não estivesse toldado pela vontade de sobreviver.
Os americanos arrependeram-se de ter feito um pacto com Trump, tardiamente. Em Portugal, o PSD está a fechar um pacto semelhante, com Ventura. Já não há Silly Season. Por cá, estamos na época dos acordos faustianos. Chegará o dia da Guilty Season. Só que de arrependimento, está o Inferno cheio e nem a internacionalização do pastel de nata nos salvará.

Alexandra Manes
Na altura, em dois mil e vinte e troca o passo, a Visão fez uma capa com António Costa, citando uma suposta resposta do então primeiro-ministro, numa entrevista sobre a continuidade do seu governo de maioria absoluta. Se eu não tivesse passado lá já depois disso, acreditaria que tinha caído o Carmo e a Trindade, pela intensidade da resposta da oposição da época. Ainda hoje, uma pesquisa rápida no Google revela-nos a posição espumada do CDS-PP e do PSD, cujos líderes não mudaram. Escusado será dizer qual a postura irracional dos populistas liberais ou dos salazaristas. A indignação foi abominável. Pelo país fora correram rios de tinta em jornais. Os gritos de acusação de estrangulamento por parte da ditadura socialista ecoaram nas esquinas e avenidas do nosso calhau plantado junto ao Atlântico. E Portugal tremeu.
António Costa foi derrubado antes do final do seu mandato. Os motivos, verdadeiros ou falsos, que levaram a esse acontecimento são bem conhecidos. Não vou perder tempo a discutir a validade da investigação. Ninguém quer saber disso, hoje em dia. Verdade seja dita, o resultado foi bastante positivo para o antigo primeiro-ministro, a nível pessoal, e para a oposição de direita extremada e de extrema direita, a nível político. O resto, já não parece interessar.
Entretanto, Montenegro foi eleito, sem maioria, por duas vezes, espelhando um país que não sabe o que quer, e reforçando o peso dos mal informados e da abstenção. Os principais atores políticos daquela bancada direita são os mesmos, se descontarmos os que saltaram do PPM, do PSD e principalmente do CDS para as bancadas dos salazarentos. Quem se sentava indignado contra Costa, em 2022, era Nuno Melo e Hugo Soares. Os mesmos que, há uns dias atrás, assinaram acordos de fraquíssima veleidade constitucional para destruir toda a base de legislação portuguesa referente à boa integração dos povos que nos visitam. Assinaram com os supostos adversários, claro está.
Foi num acordo de pessoas que precisam de conferir no dicionário o que é um cavalheiro, que se instalou a nova legislação sobre imigração e nacionalidade. A criação de uma espécie de ICE à portuguesa, polícia política que vai servir para acolher no seu seio os elementos extremados dos movimentos neonazis, é apenas o começo da trumpização nacional. Montenegro sorriu. Nuno Melo inchou. Hugo Soares virou-se para a bancada do PS e terá gritado: “habituem-se”. Soa familiar, não é?
Só que desta vez não há indignação. Poucas são as vozes, a não ser as ditas elites pensantes, que vieram para a rua fazer tremer Portugal. A comunicação social apagou o caso, remetendo-o para uma paródia referente a António Vitorino, com mais de vinte anos, quanto toda a gente sabe que era sobre Costa que eles falavam. Agora não interessa pegar na impunidade da classe governante nem na soberba da maioria instalada. Agora, conta mais fazer de conta que o problema principal do país é o imigrante e os papéis que ele precisa de assinar para ser legal. Nunca é de mais reforçar a importância que a nossa classe de jornalistas está a ter na ascensão do novo fascismo.
Confesso-vos que esperei alguma indignação. Talvez até um movimento de raiz a começar nas próprias bases sociais-democratas, contra tamanha arrogância de Soares e Montenegro, que depois de anos a venderem o “não” para manter preso o voto moderado, foram direitinhos ao “sim”, assim que se viram no conforto do poleiro. Esperei ainda por uma enchente da esquerda, manifestando-se rua abaixo e rua acima, contra este verdadeiro atentado aos direitos dos portugueses e à nossa tradição de saber integrar e valorizar quem se junta à nossa portugalidade.
Nada. O país está adormecido. Tem medo. Toda a gente tem um vizinho que é do tal partido. E se falar muito alto, ainda corre o risco de ir para a lista. Os partidos da oposição estão atolados. Moções de confiança interna sem sentido. Viragens ao centro, sem travão de mão, que só acabará na direita. Crescimentos ténues que correm o risco de desmoronar por falta de coesão. E um pilar antigo, esvaziado, que permanece imutável, mesmo quando o mundo segue em frente. Não há maneira de combater isto? Estaremos destinados a cair ainda mais fundo?
No fim de semana de 12 e 13 de julho, entrou em cena um grupo de neonazis, devidamente armado, para instaurar o caos em Espanha. Nas ruas de Torre Pacheco, zona de Múrcia, os meliantes perseguiram sistematicamente uma comunidade inteira de pessoas que falavam uma língua diferente, alegando defender a soberania do seu Estado. Para além do ridículo de se ser nacionalista num país tão partido aos bocados como é o caso de Espanha, a situação ganha particular gravidade quando se passa de um exemplo para todos. Alegadamente, falou-se em violência de um grupo de imigrantes contra um cidadão espanhol que já veio a público lamentar o aproveitamento, por parte da extrema-direita, a solução tem que passar pelas autoridades locais e pela aplicação da lei por igual. Não por um grupo de racistas de cara tapada. Mas agora vale tudo, não é?
Essa gente não se recordará da história que nunca leu. Ditadores do século passado contaram com grupos deste género para espalhar a discórdia, dividindo para reinar. Depois, tornam-se incómodos. Porque são, na sua maioria, profundamente limitados a nível empático e intelectual. Por isso, acabam saneados, com facas longas espetadas nas suas brancas barrigas inchadas pela suástica. Um dia, os que correram em Espanha, nos Estados Unidos e em muitos outros lugares do mundo, vão acabar assim. Na valeta, esquecidos por quem quiseram idolatrar.
E nós, que agora demos mais um passo na direção de Trump, será que vamos ser mais salazaristas que Salazar? A coligação de Melo e Montenegro assumiu-se, finalmente, sem pudor. Foi um grande linguado no coração da assembleia e da democracia, com todo o afeto que se esperava entre bancadas irmãs. Passamos a ser vergonha internacional, ao nível da nacionalidade e do acolhimento. Enterraram os brandos costumes. Agora, que Portugal já não tem tempo para ser meigo, o que é que acontece? Vamos para a rua, ou vão tatuar a xenofobia da coligação na pele? Agora não dá para se ser neutro, caras e caros leitores. Ou vocês são, ou não são. Habituem-se.

Alexandra Manes
Mais uma semana que terminou, mais uns quantos debates na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Haveria muita coisa a escrever sobre todos eles. Não se deseja a muita gente a dor de ter de acompanhar aqueles trabalhos, mesmo que para o efeito ainda receba um ordenado razoável para os dias que correm. Quem o faz sem nada ganhar, merece respeito acrescido.
Não acompanhei o plenário na sua totalidade. A saúde nem sempre me vai permitindo, a incompatibilidade de horários e a paciência esgota-se nas palavras de algumas pessoas que ali dizem representar a vontade da sociedade açoriana. Espero bem que não o façam. Mas, na verdade, continuo a acreditar na política e por muito que tente desligar, a dedicação à coisa pública fala mais alto.
Todavia, o que vi foi suficiente para me deixar ansiosa. A cada dia que passa, cresce a impunidade de uma bancada parlamentar que sempre que toma a palavra fá-lo para anunciar bárbaras intenções, transvestidas de política. Falaram de Alojamento Local e da sua pertinência, no mesmo fôlego em que ignoraram os negócios de algumas famílias presentes. De glifosato, já tudo o que havia para escrever foi escrito e bem descrito, pelo que não darei mais para esse peditório. Desta vez falaram, também, foi de creches e de crianças, entre outras coisas.
Por estes dias foi noticiada a existência de graves maus-tratos infantis numa creche, em São Miguel. A tal bancada dos que se dizem donos da bondade, logo correu a tomar a palavra, para publicamente anunciar a proverbial tempestade no circunscrito copo de água. Não tenho dúvidas que as imagens divulgadas, após a comunicação social regional escrever acerca do sucedido, demonstram procedimentos graves por parte de algumas das pessoas que ali trabalham. No entanto, este é um assunto, que já dissecado pela comunicação social e nas redes sociais, cabe à Justiça fazer o seu trabalho, como o está a fazer. O que eu tenho, também, é a certeza de que o que foi pronunciado em Assembleia é igualmente grave. O líder da tal bancada inspirou fundo e apelou a um controlo apertado da nossa sociedade. Utilizar a existência de assassinos para legitimar a pena de morte, ou de pedófilos para promover a violação dos direitos humanos é parte da estratégia de ação destes partidos. O mesmo sucede com as creches e os tais tratamentos desumanos. Pela culpa de algumas pessoas, deverão todas pagar dividendos? Não. O que foi discursado em plena casa da autonomia não pode ser concordante com uma sociedade que se deseja livre e democrática. A creche e o tratamento indevido aconteceram, é certo. Não podemos, com essa situação, almejar instalar um estado policial no país, onde a lei passa por acusar a nossa vizinhança a toda a hora. Isso abre a porta aos velhos chibos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado. E bem sabemos que há muitos com saudades dela. Alguns até se sentam nas assembleias de Portugal.
Compreendo o estado emocional das famílias e a insatisfação da população, em geral. No entanto, generalizar não é a receita para a solução. Como já o disse, a confiança entre as pessoas adultas e crianças deverá ser primordial. A nossa Região tem milhares de pessoas, que diariamente trabalham em Instituições Particulares de Solidariedade Social, as quais têm os seus órgãos eleitos, sufragados pelos/as sócios/as. O sector social emprega milhares de pessoas que tratam as crianças, como se seus/suas filhos/as fossem, durante o impedimento diurno dos/as seus/suas responsáveis. Estou certa de que a minha opinião não será popular, neste momento. Mas, instalar um circuito interno de vigilância permanente poderá representar a violação de privacidade, não das pessoas adultas, mas das próprias crianças. Num período em que se brada à exclusão social de crianças provenientes de ambientes desestruturados, isto poderá representar um fosso social ainda maior.
O estado de vigilância constante que se vai instalando e normalizando não pode ser normal. Estes partidos, de ódio e paranóia, querem-nos amarrados ao nosso medo, a espreitar por cima dos ombros para ter a certeza de que não estamos a ser falsamente acusados. Querem que a dor daquelas crianças seja transformada em votos fáceis, cúmplices de um crime de desconfiança generalizada que fará de Portugal um problema sério no nosso mundo. Para isso, o argumento é fácil: quem não deve, não teme. Mas eles devem, e não é por isso que temem de forma alguma. Não perderei tempo a recordar a barbaridade da legislação sobre creches promovida na nossa Região. Lembro, antes, que Rita Matias leu por estes dias a lista que já ficou lamentavelmente famosa, e depois admitiu que na verdade não verificou a sua veracidade. Sobre os maus-tratos que ela provocou naquelas crianças, ao ler e crucificar os seus nomes, nada se disse da parte da sua bancada parlamentar. Não são deles. Não são jovens de bem. A essas afirmações, o partido da senhora não deu relevância. Afirmou mesmo que quem fez alarido foi a mítica extrema-esquerda, bicho papão construído para justificar a existência de partidos de ideologia fascizante. Matias ganhou notoriedade e, nos Açores, o seu companheiro partidário tentou usar tática oposta, mas igualmente assente no populismo, para fazer carreira. Acabou a defender crianças, dias depois de ter defendido quem quis fazer mal às mesmas. No tal estado policial que querem criar, ele não duraria dois dias.
Estas pessoas acreditam que se vão safar sempre. Não conhecem, nem querem aprender história. Para essa gente, a noite das facas longas é uma força de expressão, e não o dia em que André Ventura se vai fartar da sua utilidade e mandar o segurança a afastar do parlamento. As mulheres vão-se desejar na cozinha, belas e recatadas. Também é disso que viverá o estado de sítio que eles querem oferecer-nos. Ou paramos o comboio agora, ou não haverá mais estações para o mandar parar.
E mesmo na hora, em que escrevo estas linhas, eis que surge mais um “imprevisto”, revelado pelo Economista João Teixeira, em peça da RTP/Açores, que dá conta de um desvio de mais da metade do valor que o Governo Regional (GR) inscreveu no Orçamento Regional, proveniente de fundos comunitários. Caso para questionar. Se inscreveu 400 milhões de euros, quais as razões para a transferência de pouco mais de 170 milhões?
Exigem-se explicações e com carácter de urgência. Que instituição falhou? Qual a razão para o sucedido? Com que bases o GR inscreveu 400 milhões?

Alexandra Manes
Os Açores estão nomeados para a categoria de melhor destino arquipelágico europeu. No entanto, não foi essa a razão pela qual a comunicação social regional e nacional deu destaque à nossa Região, na passada semana. Não foi pela beleza, pela simplicidade e espontaneidade da nossa gente ou pelo carácter único dos Açores que fomos motivo de notícias constantes. Foi, mais um acontecimento “imprevisível” (como assim, o argumentam), numa tourada à corda.
Não me vou debruçar sobre questões históricas, éticas e filosóficas acerca de tal prática. É um tema fraturante, divide opiniões, mas, sem dúvida, é matéria acerca da qual é importante que se reflita no que realmente pretendemos.
No passado dia 30 de junho, morreu mais um touro, durante um evento, na ilha Terceira. Desta vez, e alegadamente, por afogamento, o que resulta num processo particularmente violento, ao qual o bovino é exposto. Falecido nas águas ao largo da ilha das festas, reacendeu-se a velha discussão e reafirmou-se a potente negação dos verdadeiros aficionados, que continuam a defender cegamente uma realidade por demais evidente.
Gostem mais, gostem menos, ou sejam realisticamente contra, a verdade é que a tourada destes últimos tempos não é a mesma de há umas décadas. Podem alegar que tal se verifica pelos mais diversos motivos. Mas, a constatação é de que parece que há mais animais a morrer. E, sem que existam estatísticas concretas, também parece que há mais feridos e mais complicações. Toda a gente sabe disso. Não foi à toa que reduziram o tamanho dos arraiais este ano, pois não? Só que algumas das pessoas que percebem o que se passa, preferem defender-se com o ato de negar tudo, para poderem continuar a usufruir de uma prática que merece, no mínimo, ser reapreciada. Para mim, não é segredo, preferia acabar com ela de vez.
Uma coisa é certa: se a população residente, na Terceira, exigisse do Governo Regional, da forma como defende a manutenção da tourada e argumenta situações “imprevisíveis”, a Terceira já teria um futuro consolidado no eixo Porto comercial da Praia da Vitória-Aeroporto, uma aerogare em condições e que correspondesse ao projeto anunciado, o problema de contaminação de aquíferos, solos e subsolos, por hidrocarbonetos num processo muito mais avançado, um tecido empresarial fortalecido, entre outros. Mas, é mais fácil distrair as massas com papas e bolos.
Seja como for, o touro que faleceu nas águas da ilha Terceira pode também ser entendido, noutros termos, como uma espécie de reflexo simbólico da onda que cresce aos nossos olhos, e que teimamos em ignorar. No horizonte, uma verdadeira nuvem rolo, que se levanta em direção ao nosso arquipélago, e ameaça ser mais do que apenas fogo de vista. Tal como os amantes da prática da tourada fingem que nada se passa, também aqui verificamos a presença de um conjunto cada vez maior de negacionistas em águas insulares, que insistem em olhar para o lado, enquanto o perigo aumenta a olhos vistos.
A economia está profundamente debilitada. Quem o diz é o próprio Secretário, que depois de anos a tentar colocar um açaime na dívida, finalmente parece ter percebido que a solução para o crescimento de um povo não passa por obrigar as suas gentes a passarem fome. Já vai tarde. Afirmando publicamente o desaire que muita gente já conhecia, o responsável pela pasta dos números deixou claro que mais cortes virão. Depois de anos a engolir orçamentos com cativações monstruosas e linhas vermelhas no desporto, na cultura ou nos transportes, por exemplo, como será a continuidade deste governo, agora que se aproximam lápis inquisitórios junto de pastas determinantes? No final do dia, o povo ordenará.
Cá, tal como com Montenegro, o cenário adensa-se de forma clara. O governo de direita aproxima-se com alguma rapidez das políticas neoliberais extremadas, porque acredita ver nessa solução o remédio para todos os males. A consequência imediata será a dissolução das redes de proteção social, arduamente construídas durante décadas de democracia, facilmente desmontáveis em dois ou três anos. É tempo de nos preocuparmos com a forte possibilidade de não termos reformas. Nos Estados Unidos, essa realidade já chegou, afinal de contas.
Outro culpado que será sacrificado nas águas turvas da política açoriana será o imigrante. Assisti, com alguma satisfação, aos anúncios da Secretaria dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, referentes à melhoria de mecanismos para integrar cidadãos e cidadãs estrangeiros na realidade insular. E depois entristeci-me com a reação exacerbada que se pode encontrar, na própria página do Governo Regional, com comentários nefastos, apelando à tortura e à morte. Tudo isto devidamente saneado e promovido por um partido com assento parlamentar, entenda-se. Talvez as próximas touradas sejam feitas com cidadãos cabo-verdianos em substituição dos touros? Assim navega o Portugal que se diz de bem.
Por fim, o derradeiro sacrifício será o processo de privatização das ilhas, já anteriormente iniciado, mas que se almeja consolidar nos próximos tempos, começando pela enfraquecida companhia aérea. Praticamente todos os dias surgem gritos de incentivo para serem espetadas as derradeiras espadas no lombo da SATA, terminando a sua corrida moribunda, e atirando-a ao mar. Com ela, irá a liberdade de deslocação de um número crescente de pessoas, muitas delas necessitadas, pela saúde ou pela justiça. Depois, serão as escolas e os hospitais, sendo esse um trabalho já iniciado, que se prevê concretizado até ao final da década, em muitos gabinetes endireitados, pelo país fora.
Fomentar a crise e o caos é uma política antiga, já bem conhecida de quem estuda história. Quanto mais pobres, mais fácil é controlar a região que se governa. Os Açores não serão exceção. Um arquipélago historicamente conservador, por vezes revolucionário, e sempre periférico, sito na encruzilhada de ventos e atlantes, ferido de esperança no seu futuro. Onde Jénifers são processadas em tribunais, e almirantes desejam conquistar votos com o apelo à guerra. Aqui, todos nós seremos touros a sacrificar nas águas frias do capitalismo que agora termina o processo de nos engolir a todos.
Gostem de touradas ou não gostem, a verdade é que quem correrá à frente dos pastores seremos nós, os que mais precisam. E no final, ganhará o sexto touro. O poder económico. A corda está esticada. Ou a rebentamos depressa, ou já sabem como acabará.

Alexandra Manes
Terminadas as festas Sanjoaninas, encerramos temporariamente o espaço de descanso para devaneios e boémias, regressando a uma reflexão sobre o que se tem vindo a agravar ao longo dos últimos tempos, e que merece ser aqui devidamente retratado, em todas as suas fragilidades. A Cultura está morta, e ninguém a avisou.
Recuemos às tais festas de São João. Estas linhas nascem precisamente no final da semana de festividades e alegrias, quando os olhares mais atentos se depararam com a presença de todas e todos os diretores de serviços externos da Direção Regional da Cultura, de visita à sua cidade património, em plenas festas de verão. Era vê-los por aí, museus itinerantes. E vê-las a caminhar, bibliotecas errantes. Ecomuseu longe de casa e centro de artes caixeiro-viajante.
Aos olhos mais ingénuos, poderíamos acreditar estar perante uma comitiva que veio para enaltecer o trabalho de Álamo Meneses e a respetiva equipa técnica municipal, dando o devido destaque ao nosso intemporal poeta zarolho. Poderiam as pessoas pensar que a Cultura estava ali em peso para dizer a Angra que respeitava o seu Heroísmo, e que marcharia pelo seu traçado urbano, despejando estratégias e objetivos para melhorar a proteção e gestão do seu património, a par de apoiar as e os agentes culturais que ali passam sede junto à baía da cidade.
Mas a Cultura esteve reunida, em peso, foi na tasca das Sanjoaninas, para almoçar, e nas portas fechadas do seu Salão, cada vez menos nobre, para conluiar. Não perderei demasiado tempo a questionar a pertinência de se escolher o tempo das Sanjoaninas para montar uma reunião geral de chefias. As viagens estão mais baratas, e a estadia é quase oferecida, nesta altura do ano, não é? O estigma que querem fornecer aos funcionários públicos, talvez seja de ser repensado e redirecionado para o espelho. Não restam muitas dúvidas sobre o passível parasitismo de tudo isto.
Mas perderei algum tempo na análise do que se passa. Reúnem-se chefes para traçar o quê? Há anos que não vemos estratégia, que não tenha sido a de o diretor anterior, no intensivo trabalho de promover o seu próprio trabalho e o de mais ninguém. Há anos que assistimos a uma sangria de diretores regionais que variaram entre a incompetência, incapacidade e agendas próprias. Uma secretaria regional que dançou de mão do aparelho em mão do aparelho, nunca devidamente valorizada, sempre a parente pobre de uma Região a caminho da morte, que mesmo que ainda não seja cerebral, será pelo menos cultural.
No ano passado, a sra. Diretora Regional viveu debaixo de uma sombra permanente, que parecia não lhe deixar fazer, nem sair de cima. Este ano, aparece mais vezes, mas fala cada vez menos, e quando se pronuncia é como se nada tivesse para dizer. De objetivos estruturais, linhas estratégicas, definições e regulamentações só se formos ao dicionário ou recuarmos a 2013, pelo menos. Até mesmo de intenções, que tantas vezes encontramos em infernos semelhantes, nada sabemos, que não sejam respostas a acontecimentos já acontecidos. Veja-se a insistência da diretora em falar do 25 de novembro nos discursos que proferiu em 2024, para depois vir a público destacar um prémio ganho pelos seus técnicos, que deixa claro que novembro nada seria sem abril. Veja-se também o prémio que o Museu Francisco Lacerda recebeu, através do trabalho da sua diretora, que foi, perentoriamente, afastada do cargo.
E depois, o caso do património subaquático. Já que as chefias estiveram em Angra, questiono-me se terão mergulhado no primeiro parque arqueológico subaquático do país. Terão ilustres diretoras e diretores visitado os tesouros distinguidos pela UNESCO e pela Comissão Europeia? Ou terão assinado por baixo na inação total do Governo Regional em responder, perante uma afronta que vem de Lisboa, há muito tempo, e teima em continuar.
Recentemente, um Despacho promulgado pela antiga ministra da cultura de Montenegro delegou as competências de gestão desse património no Ministério da Marinha, incluindo aí os arquipélagos, que perderam assim o seu estatuto de autónomas regiões, para passarem a ter de obedecer ao almirante do dia.
Quando tal afronta se tornou pública, primeiro pelas mãos do arqueólogo Alexandre Monteiro, e depois por Francisco César, José Manuel Bolieiro correu a concordar com o líder da oposição. Disse que seria de se tomar uma ação concreta, a bem da nação açoriana e da importância da sua autonomia! E depois… depois nada se fez, como nunca se faz. A inação é a especialidade da casa desta direção regional, que serve sempre como prato do dia a desistência de querer fazer, regada com um toque de ineptidão na gestão, e devidamente marinada na vontade de extinguir a Cultura. Pelo menos aquela que não seja das ganadarias familiares e dos grupos de amizade periféricas.
As organizações culturais continuam à espera do novo decreto regulamentar para o regime jurídico de apoios às suas atividades. O património cultural afunda-se num mar eterno de desastres, agora potenciados por uma nova divisão que fala em promoção e não em proteção. Com um concurso para chefia a decorrer desde fevereiro, talvez estejam a aguardar a chegada de um doutorado em marketing para melhor promover a inação completa daquele departamento. O antigo centro de restauro, agora transformado em armazém e relicário da diocese, senta-se num canto, insignificante na realidade arquipelágica.
Na Cultura, sobram algumas vontades, que continuam a sussurrar, cada vez mais baixo, por corredores e esquinas desta cidade. E as contas, para pagar os almoços, os hotéis e as viagens. Talvez faça parta do modelo de injetar liquidez na SATA, mas tenho dúvidas, porque estratégias parece-me mesmo que não as há. A certeza é de que, ainda no final do ano passado, faltou dinheiro para papel em alguns departamentos. Mas este ano há almoço especial para chefes, em plenas Sanjoaninas. Trabalho dessas chefias é que ainda não vimos.
Deixo o meu reconhecimento a Álamo de Menezes, pessoal com a qual divergi, em várias matérias, nos seus mandatos autárquicos, reconhecendo-lhe a capacidade para gerir a autarquia de Angra do Heroísmo. Esperamos, agora, pelas festas de 2026 com Fátima Amorim a mostrar que é capaz e está habilitada a elevar a empatia, na política autárquica.

Alexandra Manes
Sangue e Honra é o nome de um filme relativamente desconhecido, de 2011, que foi feito com o propósito de recontar uma história real, relativa à conquista de liberdades por parte dos cidadãos ingleses, numa altura de monarquias que caminhavam para o Absoluto. A crítica, em geral, considera o filme bastante fraco, adaptando com fragilidade a componente histórica do argumento, e focando-se antes em sequências de ação repletas de sangue e violência gratuita. Sangue e Honra foi também um dos lemas da venenosa juventude hitleriana, padroeira da tal violência gratuita, dando origem a uma organização de cariz mundial que continua a seguir os propósitos fundacionais do neonazismo.
Quando lerem estas linhas, já uma boa parte das pessoas saberá de quem falo. No passado dia 10 de junho, ao cair da noite, um grupo de atores da companhia A Barraca foi violentamente acossado por elementos do capítulo português de Sangue e Honra, em campanha sangrenta pelas ruas de Lisboa. Tudo indica que não foi um ataque concertado, mas apenas consequência de os lobos terem sido deixados à solta, num país que considera um partido de cariz fascista como o segundo mais relevante nas suas eleições nacionais, em vez de o declarar inconstitucional, como é.
A principal consequência desse ataque foi uma lesão relativamente grave, provocada a um ator que nada de mal tinha feito. Mas há uma consequência subjacente, mais nefasta, mais evidente, se nos dermos ao trabalho de ler o enorme manancial de linhas que se foram escrevendo em praça pública desde então.
A consciência de um país não se mede nas urnas. Nunca assim o foi, e muito menos poderia ser, quando a grande maioria absoluta que governa Portugal, há décadas, é a abstenção. A consciência de um país mede-se na sua resposta a momentos de tensão social, de crise e emergência. Durante o reinado de Passos Coelho, quando o mesmo procurava recuperar o absolutismo de outras eras, Portugal saiu à rua, em grupo e de braço dado. Manifestações intermináveis que calcorrearam a nação, obrigando o senador a reconhecer que ali não teria lugar como imperador. Eram outros tempos.
Anos volvidos, a catástrofe que se seguiu ao passismo foi o covidismo. Com a pandemia instalada, e vivendo já num país totalmente diferente, muito mais americanizado e agarrado às máquinas, Portugal revoltou-se e construiu um novo exército de chalupas. Contra a ciência socialista, adversários de um Papa marxista, inimigos da democracia corrupta, prontos a servir o primeiro líder forte que os fosse capaz de agregar. Essa foi a consciência do novo país que acordou para a realidade do atentado cometido contra Adérito Lopes.
Para uma boa parte das portuguesas e dos portugueses, o ataque dos neonazis de Sangue e Honra não aconteceu, ou se aconteceu foi encenado, ou mesmo merecido. Para uma considerável fatia da nossa população, não foi nada de especial, sendo apenas reflexo de um ódio latente contra a subsidio dependência dos agentes culturais. Também assistimos a essa realidade nos nossos Açores, com a Secretaria responsável a insistir em comunicados que escondem verdades com esculturas frágeis de números que não representam pagamentos, mas apenas intenções.
O ataque dos neonazis de Sangue e Honra aconteceu pelo ódio e pela impunidade. De um primeiro-ministro que não os condenou adequadamente. De um governo que retirou o capítulo do relatório sobre segurança interna que mencionava aqueles grupos de extrema-direita. De uma coligação do PSD e do CDS que procura agradar ao eleitorado do primo André Ventura, e por isso tem medo de dizer ao que vem. A falta de vergonha de portuguesas e portugueses que votam naquela violência e que não se importam de olhar para uma poça de sangue e encontrar nela o reflexo da sua cara.
O ataque de Sangue e Honra podia bem ter sido um movimento concertado dos 1143. Podia ser uma marcha organizada dos camisas negras do Habeas Corpus. Ou podia apenas ser um comício de camisas castanhas, encabeçado por engravatados de azul-escuro, mas flanqueado por seguranças de semblante carregado, preparados para nos esbofetear ao menor movimento democrático. Num partido onde o único calcanhar de Aquiles é um copo de água e um golpe de azia, não se esqueçam.
Portugal está à beira do precipício. Os partidos do arco da democracia parecem desgovernados. A abstenção, que ainda manda no país, poderá estar irrecuperável. O ataque de neonazis nas nossas ruas é sintomático de um povo descalço, que não sabe que está prestes a cair.
Organizem-se. Protestem. Gritem. Falem com os vossos e com os vizinhos com quem nunca trocaram palavras. Não tenham medo de bater o pé. A paz é uma arma tão ou mais forte que a violência. Basta saber usá-la. Se, não há tanto tempo, conseguimos derrubar Passos e os seus lacaios, será agora preciso fazer cair os seus filhos simbólicos, André e Luís.
Antes que seja tarde, e acabemos na cama do hospital a ler comentários ofensivos sobre o nosso simples ato de resistência que foi respirar.
Um abraço ao Adérito e à Maria do Céu. A toda A Barraca. Continuamos aqui. Ainda não é o fim do mundo. É apenas um pouco tarde, mas já se percebeu que a luta e a resistência terão de ser feitas nas ruas. Portugal continental, Açores e Madeira uniram-se, hoje, em manifestações pela Cultura como forma de descontruir o fascismo que perdeu a vergonha.

Alexandra Manes
Aqui há uns anos, se alguém te contasse que verias um anúncio apelando ao regresso da ilegalização da interrupção voluntária da gravidez, em Portugal, com uma mensagem final a dizer que estava pago pelo “Guru Mike Billions”, tenho quase a certeza de que a resposta seria imediata e incisiva: estás maluca? Tudo isto aconteceu, por estes dias, sem grande traumatismo e com a cumplicidade da TVI, canal que tem vindo a crescer na sua postura de apoio às forças da extrema-direita, em anos recentes. Longe vão os tempos em que apenas a CMTV detinha tal distinção.
No final de 2016, quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, poucas pessoas adivinhariam o que estaria a infetar o nosso planeta. Um vírus, perigoso e letal, promovido pelo discurso de ódio, e assente no culto à ignorância. Naquele tempo, já existiam os famosos “influencers”, mas eram ainda adolescentes, em geral relativamente pobres, apoiados numa câmara de má qualidade, um microfone fraquinho e uma secretária tosca, no seu quarto de família.
Nos quatro anos que se seguiram, esses miúdos tornaram-se poderosos adultos. A indústria dos influenciadores cresceu na sombra do novo fascismo americano, alimentada pela ignorância e pelas migalhas dos multibilionários que dão de comer aos perigosos cães de fila, como é o caso de Donald, Jair ou, mais recentemente, André. Os influenciadores americanos, baseados na filosofia do capitalismo selvagem, apoiaram-se na comercialização dos seus conteúdos para as bases do eleitorado de extrema-direita. Certamente, porque é mais fácil vender produtos a quem pouco gosta de pensar, mas também porque foram contratados para o efeito. É que os tais multibilionários traçaram uma estratégia para dominar, e essa passa por deter o controlo das novas gerações.
Assim, o “influencing” é a nova e mais poderosa arma de propaganda da atualidade, sendo praticamente assegurada por inteiro, através de jovens produtores de conteúdos direcionados ao extremismo e à violência. Com base nas teorias neoliberais dos “mileis”, os influenciadores cresceram, vendendo banha da cobra a gente que caiu que nem patinhos. Os mais novos, reveem-se em casos de sucesso de rapazes e raparigas que antes dos trinta já eram podres de ricos, e querem seguir as suas ideias, muitas vezes cegamente. O dinheiro é o grande poder desta gente, que tudo faz para levar as nossas juventudes para o caminho do obscurantismo.
Assim começou, nos Estados Unidos, com personalidades como Logan Paul, Andrew Tate ou o famosíssimo Joe Rogan, entre muitos outros. Gente que não tinha particular talento, que não aparecer em frente a uma câmara e apelar aos que assistem, para que lhes deem atenção. Quando começaram a dizer coisas demasiado controversas, sobre racismo, violência doméstica e choques culturais, não se vieram desculpar.
Radicalizaram-se. Muitos fizeram-no durante o COVID-19, incapazes de compreender o poderoso efeito que uma pandemia tem numa sociedade, e limitando-se a cair nas garras da pseudociência e da confusão mental.
Em Portugal, a situação é em tudo semelhante. Se não reconhecem os nomes que atrás citei, devem começar já a pesquisar por Numeiro, Wuant, Miguel Milhão, Tiago Grila e outros que tal. Há um movimento da chamada “macho esfera” que está a crescer com rapidez e eficácia, nas barbas de quase todas as mães e pais que deixam que isso aconteça. Seguindo os passos dos colegas trumpistas, os cheganos avançam a todo o gás para os palcos do Tik Tok e do Youtube, bem como para os microfones da praga de podcasts que se espalhou pelo país a fora, sem controlo de qualidade.
João Barbosa é um rapazola dessa equipa, sendo talvez o mais famoso dos tugas que ali se meteram, no momento. Os mais novos conhecem-no como Numeiro, primeiro youtuber, depois podcaster, vendedor de muitos produtos e marcas, algumas ilegais em Portugal, e construtor de um pequeno império de seguidores que fazem tudo o que ele lhes disser. Considera-se o Andrew Tate português, sendo que Tate foi já publicamente exposto como neonazi e abusador de mulheres. Numeiro, para além de apelar à violência doméstica, juntou-se recentemente à equipa de André Ventura, fazendo campanha pelo país, com um Lamborghini pintado com as cores do chega e galvanizando as suas legiões de jovens para votarem naquele partido. Muitos que votaram em 2025 pela primeira vez, seguiram os conselhos do ídolo Numeiro, e foram dar o ouro aos bandidos.
Exemplo de natureza semelhante, mas ainda mais perigoso, é o de Miguel Milhão, um empresário que representa tudo o que vai mal na cultura do neoliberalismo anarquizado. Milhão é um quarentão com idade para ter juízo, que se continua a comportar como um rapazola influencer enquanto usa as suas empresas para vender produtos e resultados discutíveis. A Prozis, principal peça do jogo de Miguel, está publicitada por todos os grandes influenciadores em Portugal, tendo até alcançado uma dimensão internacional de relevo, mesmo que o que venda seja muito parecido com a banha da mais venenosa cobra.
Milhão, como os seus amigos, rapidamente percebeu que vender produtos a cheganos é mais fácil, porque mais facilmente se enganam os que se deixam vender pela demagogia barata, e focou a sua atenção no mercado da extrema-direita. Apoiando Ventura e os seus correligionários, o multimilionário tem sido um dos principais manipuladores na sombra da propaganda partidária, dando apoio a Rita Matias e a mais umas quantas pessoas de tenra idade que se venderam ao discurso de ódio. Recentemente, com o país à beira do precipício da ditadura, lançou o tal anúncio a favor da ilegalização do aborto, usando-a como nova arma de arremesso cultural, para provocar mais caos e desordem. É isso que eles querem. Dividir, para conquistar.
O resultado de tal momento televisivo, foi a disseminação do ódio às mulheres que tomaram e tomam a decisão de interromper a gravidez. O que Milhão não tenta perceber é a razão para tal opção. Num discurso vago de conteúdo, de imagens paternalistas, Milhão, defende o nascimento, mas não a vida digna que qualquer criança merece. Milhão, como homem privilegiado que é, considera que a mulher que toma tal decisão, não passa de alguém desprovido de sentimentos, como se passar pelo procedimento da IVG fosse uma ida a um centro comercial. Milhão ter-se-á questionado acerca do número de homens que não assumem a paternidade? Que recusam o uso do preservativo porque lhes inibe o prazer? Terá ideia de quantas famílias monoparentais existem em Portugal, na sua grande maioria assumidas pelas mães que se defrontam com imensas dificuldades financeiras, jurídicas e de falta de apoio? A todas e a todos “Milhãos” deste país recomendo a leitura do livro “Ejacula com Responsabilidade”, da autoria de Gabrielle Blair. Talvez, percebam que o homem é tão responsável pelo procedimento da IVG quanto a mulher. Já agora, aproveito para vos relembrar de que a Vasectomia é um procedimento realizado pelo SNS e pelo SRS, de forma gratuita.
Eu lutei para legalizar a IVG. Tal como muitas outras pessoas o fizeram. Recuso-me a voltar a essa batalha, porque a ideologia é mais do que clara e evidente. Só não vê, quem não quer. No entanto, não posso deixar de vos vir aqui alertar. Prestem atenção a estes tipos. São eles que estão a controlar os vossos filhos e sobrinhos, na sombra, mas com tenacidade e ódio visceral. Quando Trump ganhou o atual mandato, o discurso de agradecimento envolveu palavras de homenagem ao “grande e poderoso Joe Rogan” e a outros influenciadores americanos. Por cá, Milhão é o mais parecido que temos com eles. Qualquer dia, será Ventura a agradecer-lhe, talvez com um cargo no futuro Ministério da Propaganda. Não pensamos antes, e depois já era…