
Alexandra Manes
Conta-nos a narrativa bíblica o famoso episódio da Negação de Pedro, quando o apóstolo e futuro Papa da igreja de Deus terá dito que não conhecia Jesus Cristo, três vezes, ao longo da fatídica noite em que o profeta foi traído e aprisionado. Tanta vez terá Pedro dito que não, que acabou a chorar no amanhecer do dia seguinte, profundamente arrependido pela sua falta de espinha dorsal.
Assim vai a Direita em Portugal. Vivemos o rescaldo de um processo eleitoral histórico, já aqui por mim analisado de forma sumária, e amplamente discutido nas ruas, nas televisões e nos salões da alta nobreza empresarial. Nos dias que se seguiram, a política continuou ligada à Bíblia, de certa forma. É que, para além do arrependimento de Montenegro e Rocha, também houve a peregrinação de André Ventura ao túmulo de Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei. Se não havia grandes dúvidas acerca da ligação de alguns colegas do gangue àquela sociedade secreta, ficamos agora com a certeza de que o querido líder é, pelo menos, simpatizante do cilício. Que ele prefere a opressão ao Papa, já o sabíamos.
Mas, voltando à negação e ao arrependimento da Direita, o que acontece pelos dias que correm é um processo revolucionário em curso, com um potencial destrutivo evidente e, aparentemente, inevitável. D. Luís de Spinumviva enviou os seus correligionários aos jornais e programas de comentário político para rapidamente normalizar a ideia de se recuar no famoso “não é não”, porque estava na altura de aceitar um partido com manifesto político salazarista como parceiro viável para uma revisão constitucional. O conselheiro Rocha, liberal entre liberais, prepara-se para ir mais longe e vender a alma aos “mileis” que lhe deram espaço. Pelo que se vai sabendo, o objetivo é baixar salários mínimos, limitar direitos, aumentar deveres e começar o caminho para a privatização total.
A revisão constitucional está aí. Nesta semana que vos escrevo, em que a instauração da ditadura faz 99 anos, Portugal está de joelhos, rendido às evidências. O povo, ainda que não na sua maioria, porque a abstenção permanece expressiva, parece querer muito um governo de extrema-direita. Passamos de Salazar como o melhor português, para um comentador de futebol que escreveu uns romances baratos, de cordel e ganhou a vida a ajudar empresários a fazer malabarismos financeiros. Até nisso, temos baixado alguma qualidade. Será uma espécie de ditador da Temu que se avizinha?
Por cá, sabemos com o que contar. As açorianas e os açorianos estão rendidos à seita, não se tendo manifestado de forma substancial, mesmo quando votaram para eleger o senhor da legislação do glifosato, e quem vai para Lisboa afinal é a número três. Mesmo não sendo o único partido a alterar a ordem da lista, acaba por ser contraditório à lógica do “somos antissistema”, quando na prática o que fizeram foi, em praça pública, humilhar a sra. Deputada que sobe dois lugares na lista e assume o cargo, denominando-a de “inexperiente”, como argumento para não ter assumido o primeiro lugar.
As pessoas que se afirmam de direita democrática começam a sentir o peso da consciência. Praticamente todos os dias há uma novidade delirante, afinal de contas. Votaram na AD ou na IL, ou no PPM ou lá o que foi. Mas agora vão levar é com o Ventura e com, pelo menos, 23 deputados eleitos que já tiveram problemas com a justiça.
São tempos de perpetuar reflexões que já deviam ter sido feitas há anos e reestruturar partidos que já se deviam ter refundado há demasiado tempo. Pelo caminho, procuram-se culpas em vez de soluções. Das sombras, surgem cada vez mais personalidades que pensávamos decentes, ou esquecidas pelo tempo. Os canais de jornaleiros, que nunca param, vão construindo palcos cada vez mais altos para colocar os ativistas, comentadores e representantes de um partido que quer destruir a liberdade de imprensa. Homens e mulheres que em tempos acreditamos serem bons profissionais, imparciais e defensores da justiça, rebaixam-se à vergonha de conduzir entrevistas cor-de-rosa, onde Ventura e o seu séquito de estimação recebe o tratamento da nova realeza portuguesa, com certeza. Pelas contas feitas, André foi convidado especial dessa gente mais 108% que qualquer outro líder partidário, nos últimos doze meses.
Um dos casos mais gritantes, que foi também capitalizado pela extrema-direita, mas que partiu de uma mulher que, ao que tudo indica, é apenas de extrema falta de noção, foi o de Isabel Jonet. Para os mais distraídos, refiro-me à pessoa que, infelizmente, ainda é Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, estrutura que foi fundada com boas intenções e mérito, mas que está totalmente controlada por uma ideologia tóxica, que domina a nossa sociedade.
O Banco Alimentar é, pela sua própria existência, um mecanismo de caridadezinha, que está lá para calcar os mais necessitados e perpetuar as suas carências. É uma instituição que tem sido aproveitada, por alguma burguesia de fracos morais, no sentido de ter um palco e um desconto social, sem fazer significativa diferença. Não me refiro às voluntárias e aos voluntários, cujo trabalho enalteço, pelo suor que lá deixam, em nome de uma causa que acreditam ser boa. Refiro-me a pessoas como Isabel, que recentemente disse acreditar ser necessário colocar as pessoas que recebem RSI a trabalhar para ter essa prerrogativa. O que a senhora Jonet não disse, mas ficou subentendido, é que acredita nas conversas de tasca do Ventura, dos que não querem trabalhar, e que estão apenas a mamar na teta do Estado. Defende essa mulher, supostamente educada e bem formada, uma visão que está mais que desprovida de qualquer fundo de verdade. E continuou a fazê-lo, tal como com outras polémicas suas do passado, mesmo quando confrontada com a realidade.
Isabel Jonet, comentadores da nossa praça, pessoas, em geral, que estão a contribuir para isto tudo, precisam de revisitar a sua fome de conhecimento, certamente. Talvez seja tempo de um banco alimentar para combater a pobreza de espírito.
Quanto aos demais, a culpa não pode morrer solteira nas fileiras dos nossos partidos democráticos. Ou tomam decisões, ou morrerão ajoelhados junto ao trono de Ventura. Não é tempo de reflexão. É tempo de ação. O fascismo não se combate com ponderações eternas. Se queremos passar o centenário do 28 de maio em Liberdade, precisamos de ser melhores.

Alexandra Manes
Tenho por hábito escrever os textos que envio para partilha convosco durante a semana anterior à sua publicação. Com raras exceções, tal permite maturar a forma como se colocam as questões e se reflete sobre as soluções, no entanto, desta vez, aguardei pelo resultado eleitoral. Ainda que tenha votado, antecipadamente e em consciência, permaneci ansiosa por poder reconhecer a vontade popular deste domingo. Não por almejar algum resultado em particular, que não fosse a vontade da democracia e a derrota dos novos fascismos, em concordância com o que se quer para o país.
Os resultados não foram os que eu desejava, mas como democrática que sou, e por muito que custe, aceito-os. Foi a população que ditou os números e percentagens. Foi o povo que determinou o seu/nosso futuro e o das gerações vindouras. E, por isso mesmo, felicito a deputada e os deputados eleitos pelos Açores, apelando a que não se esqueçam de quem aqui fica.
No entanto, constatar que mais da metade das e dos eleitores, inscritos nos cadernos eleitorais dos Açores, não votaram, obriga a uma enorme reflexão acerca das razões para tal. Uns, certamente, por descredibilização na política, outros por iliteracia política. E isto não é denominar ninguém de ignorante! É uma realidade. Nem todas e todos nós nascemos no mesmo ambiente, nem nos interessamos pelas mesmas temáticas. Há muita coisa que não percebo e assumo-o, sem qualquer problema. A iliteracia política não pode continuar a ser um tabu. Ela existe. E há que trabalhar para credibilizar a política e fazer chegar às pessoas que é esta que determina o presente e o futuro. Parece-me algo essencial.
Preocupa-me o futuro do país por observar as circunstâncias particulares em que vivemos, e não poder deixar de ter imenso receio do que se avizinha na linha do horizonte. Portugal, como qualquer país europeu, é bastante influenciado pelos Estados Unidos. Com o final da segunda Grande Guerra e a conquista de liberdades, veio a Guerra Fria, entre os poderes económicos e os controlos totalitários. No meio, ficaram os países enfraquecidos, que se deitaram à sombra das duas potências e acordaram em decadência e fragilidade. Graças a essa nova realidade, o futuro que Portugal vai construir após as eleições é previsível, se soubermos ler nas cartas dos norte-americanos as possibilidades em crescendo.
Trump e a sua corja de novos fascistas já foi alvo de milhentas análises, feitas por todo o tipo de pessoas, com as mais variadas ideologias e certezas. Não é objeto de trabalho neste texto a recriação de uma interpretação pessoal sobre o assunto. Quem ler este texto já sabe o que penso sobre o gangue de criminosos, brutamontes e chalupas que ocupa a Casa Branca e as suas sucursais. Todavia, importa perceber como é que lá chegaram. E esse caminho foi feito pela total falência do centrismo americano.
Nas ruas, falou-se muito em alianças ao meio. Políticas de convergência, protagonizadas e encarnadas no acordo de cavalheiros traçado entre Pedro Nuno Santos e Montenegro, referente à presidência da Assembleia da República, e que só serviu a um dos lados. Na política da atualidade, em decadência moral, os acordos tendem a cumprir o engrandecimento de apenas uma das partes. A outra, acaba lesada, direta ou indiretamente. Também por isso, o centrismo não pode fazer escola em Portugal, como não o fez nos Estados Unidos.
Para a esquerda do centro, os problemas que se levantam passam pelas grandes divisões internas, muitas vezes insanáveis, por motivos inexplicáveis. Partidos que, ideologicamente, tocam-se em quase todos os aspetos, congregam ódios e brigas que os levam a dialogar com muita dificuldade. As gerações de estadistas, já com idades avançadas, continuam a bloquear as pessoas que andam nos trintas e que são capazes de falar a linguagem do eleitorado contemporâneo. A esquerda permanece fustigada por si mesma, e teima em ter dificuldade em levantar-se. Não será demais recordar o legado do famoso pacto que António Costa traçou com o Bloco e o PCP. Por muito que se deseje branquear a história, nunca o país foi tão prolífero, no século XXI.
Esse poderia, contando com o Livre como novo vértice de pensamento, permitir combater o inchaço do conservadorismo bafiento e das grandes forças do ódio, do nazismo e do novo fascismo, financiadas pelos grupos económicos. Nos Estados Unidos, assistimos a uma resistência organizada por uma mulher, de 35 anos, lado a lado com um homem de 83, numa aliança de forças desesperadas por mudar uma nação que se afoga em raiva e incompreensão. A solução para fugirem aos monstros fascistas será, inevitavelmente, uma esquerda social forte e unida, capaz de remover do seu interior os falsos moralistas e os que lá andam apenas em busca de um poleiro.
Por outro lado, qualquer pessoa que analise de forma imparcial a situação política no mundo, saberá que nem só da esquerda poderá viver a Humanidade. Tal como em quase tudo na vida, é preciso equilíbrios que permitam à sociedade organizar o seu pensamento de forma clara, com todas as vertentes disponíveis para refletir e crescer. E, para isso, será preciso uma direita, que nos dê a alternativa de, pelo menos, dizer que não é por ali que vamos.
O PSD não é essa direita, atualmente. O grande resultado da campanha, e do que lhe antecedeu, foi a certeza de que Luís Montenegro é um líder à imagem dos seus dois grandes mentores: Cavaco e Coelho. Não pratica o ato de pensar por si mesmo, não lê nem se cultiva. Dá pouco valor à cultura, achando que é com a mais popular de todas as pimbalhadas que vai comemorar o Dia do Trabalhador, e aproveitando a mais pequena oportunidade para cancelar o 25 de abril. O caminho que ele percorre, ladeado por correligionários de todas as idades, é o mais perigoso percurso para a direita.
Também aí podemos inspirar-nos no modelo dos Estados Unidos. Com Bush e os seus sucessores, o partido republicano foi-se afastando do centrismo tradicional, extremando posições sobre causas sociais, alimentando ódios, casos e casinhos. Montenegro não é Trump, mas é, talvez, uma espécie de Mitt Romney, se o mesmo tivesse ganho as eleições. Está na porta, para impedir a entrada de pessoas que pensem pela sua própria cabeça e que sejam capazes de reformar um partido que se disse um dia social-democrata, mas que agora é mais neoliberal que os grandes neoliberais.
Com a continuação de Montenegro, ladeado por Hugo Soares, o PSD arrisca-se a cair na teia de Ventura. Trata-se de uma questão evidente, já executada de forma rápida e eficaz em Washington, e que Portugal replica de forma ténue, por enquanto.
Tristemente, alerto para o facto de não ser necessário que a direita se una formalmente para causar danos. Os 2/3 de deputados/as necessários já lá estão. E neste momento, PSD, IL, chega e CDS somam o suficiente para mexer na Constituição. O perigo deixou de ser abstrato para se tornar real, calculado e iminente. A Constituição da República Portuguesa não é um documento qualquer. É a esperança da continuidade de muitos dos nossos direitos, que não deve ser maquilhada, porque mais tarde não haverá botox suficiente para a recuperar.
Com o resultado de domingo, temo pelo fim da saúde pública, da Educação, do Direito à greve e a contratos de trabalhos e salários dignos que permitam combater a precariedade. Temo pela possibilidade da privatização da Segurança Social e de uma Justiça obrigada a se ajoelhar ao poder político, pois já percebemos que o 25 de Abril ficará somente em nota de rodapé ou reescrito ao gosto de quem sempre o odiou.
A mim, resta-me a vitória do Sporting Clube de Portugal, que permitiu que Portugal e muitos lugares no mundo (afinal, somos um país de emigrantes que odeiam imigrantes) se vestissem de verde e branco, numa onda de alegria e de familiaridade. Mas, resta-me, também não baixar os braços e render-me ao sucedido. Ontem lutei, hoje luto e amanhã lutarei, ainda mais, pelos valores e princípios em que acredito. Para um futuro melhor.

Alexandra Manes
Decorrem os últimos dias de uma campanha eleitoral que deveria estar ao rubro. Desde os dias inglórios da Primeira República que já não se sentia um clima de instabilidade política tão aceso. Ou pelo menos alguns querem vender-nos essa narrativa. Todavia, o que é mais certo é que nem sequer parece que estamos propriamente em campanha. Na televisão passam os debates e os comícios, com as entrevistas repetidas e remastigadas até à exaustão. Nas ruas, ouvimos as músicas em repetição, saídas de carrinhas travestidas em molduras para as caras das senhoras e, na esmagadora maioria, dos senhores candidatos. Deveria ser coisa para nos empolgar. Para nos obrigar a refletir. Para nos orientar pensamento.
Mas não é, pois não? Quantas e quantos de nós sentem verdadeiramente a véspera das eleições? Quantas pessoas deram a devida importância a esta campanha? Já leram o programa dos partidos? Sabem alguma medida concreta?
Nos Açores, salvo raras exceções, a campanha eleitoral resume-se, como quase sempre, às visitas/reuniões com direito a espaço televisivo e às redes sociais, algo que para alguns era inconcebível, até perceberem que estas são uma ferramenta que, devidamente utilizada, consegue uma abrangência enorme. Aqui pelas nossas ilhas já restam muito poucas iniciativas para um político que se queira destacar e inovar. E neste caso, nem é preciso propriamente um destaque. Os candidatos são, na generalidade, os mesmos. As mulheres parece que continuam escassas no Atlântico. É quase como se fôssemos uma terra de conservadores e machistas com elevados índices de violência doméstica e repressão social.
A AD transformou esta campanha, num cenário de vitimização diluída em mentira, em que a eleição se resume a uma espécie de final do festival da canção, onde estamos a torcer pelo mais bem vestido ou pela miss simpatia. É lamentável assistir ao declínio do pensamento livre e da massa crítica. Fomos empurrados até esta miséria de ato eleitoral, na qual muitas pessoas estão literalmente na dúvida entre a espada e a parede.
Pelo caminho, o país voltou a estar parado. Os governantes utilizam este tempo para desculparem a sua incompetência. Mesmo nas regiões autónomas, são muitas as vozes que correm nos bastidores a desculparem-se com a velha máxima portuguesa: “isso só lá para depois das eleições, e mesmo assim não sei, porque depois mete-se o verão e sabem como é…”
Sabem, não é? O velho truque do apagão e do deslumbramento. Os populistas sedentos de tomar o palácio. E os palacianos inquietos e desinsofridos, prontos para lhes entregar as chaves. Pelo caminho, perdem-se as causas legítimas e as lutas necessárias. O 25 de abril passa para maio e o Zeca Afonso canta sobre os sonhos do menino da província que só queria uma empresa para dar aos filhos. Não se fala na pobreza galopante. Não se recordam os números assustadores na educação e na saúde. Escudam-se os engravatados na imigração e na deportação, tomando o exemplo do Rei-Sol do outro lado do oceano.
Também aqui falhamos totalmente nestes assuntos. Compromissos com a república que podiam estar a ser resolvidos ficaram para trás. Falou-se de casos e casinhos, mas faltou perceber a razão pela qual os Srs. Deputados da AD, eleitos pelo círculo eleitoral dos Açores, permitiram a imposição de um teto máximo de 600 euros, para a aquisição de uma viagem para o restante território nacional, por exemplo. Mas, agora, é que vai ser. Agora é que Paulo Moniz e Francisco Pimentel pretendem reverter essa situação vergonhosa, imposta pelo seu governo. Até à campanha eleitoral, a coesão territorial era algo supérfluo. Tiveram sorte com a queda do Governo, facilitada por eles próprios. Agora, podem bradar aos céus o seu descontentamento com tal.
O texto desta semana não é mais do que um desabafo, de quem passou pelo mundo da política, de quem lutou por uma realidade de proximidade, e vai agora, como sempre, ao boletim eleitoral, encarando-o como um direito e um dever cívico. Votei antecipadamente. Votei certa e em consciência da necessidade de Portugal mudar de rumo. Votei à Esquerda, acreditando que o Futuro é Já. Um voto consciente de que quem executa os projetos são as pessoas e que esses projetos não podem ser uma série de discursos que não se adequam às práticas, conforme dá jeito às lideranças políticas.
Por tudo o que possam identificar de errado na política, é fundamental votar. Hoje, mais do que nunca. Mas, também, seria fundamental exigir mais da nossa classe política. Obrigar a retomar procedimentos e a centrar ideias e temáticas, para que o outro senhor, com o seu coelho e a sua trupe de malfeitores, não chegue lá.
A política necessita de ser empática, com uma aproximação diária às pessoas e às suas necessidades. Que mais nenhuma mulher ou homem pensionista tenha de ouvir, por parte de um primeiro-ministro, em campanha, que a culpa das baixas pensões é resultado da sua carreira contributiva.

Alexandra Manes
Não se conhece ainda, a fundo, o processo que decorreu nas últimas semanas, referente à queda de uma aluna, com consequente enfermidade evidente, fratura da clavícula e outras maleitas no corpo. A informação que veio a ser transmitida publicamente parte, essencialmente, da mãe da aluna, que o fez com a natural ansiedade e revolta de quem se viu de coração na mão perante o surrealismo daquela situação. Das entidades competentes, pouco se soube de concreto, e tudo o resto foram apenas palavras de defesa sobre o aparentemente indefensável.
Por não conhecer a totalidade dos factos, não será viável escrever sobre este assunto de forma detalhada. Não sou mãe, mas sou filha, e considero ter empatia suficiente para estar profundamente solidária com quem por tudo isto passou.
A minha solidariedade vai, desde logo, para a jovem, para a sua mãe e restante família, afligida não só pela aparente gravidade do caso, mas também pela enxurrada de opiniões públicas que foram surgindo nos últimos tempos. Viver numa ilha nem sempre é fácil. Desejo-lhes pele rija para aguentar os habituais autos de fé que se seguem a estes episódios.
A solidariedade vai também para quem trabalha naquela escola, dedicada ao patrono Vitorino Nemésio, homem da pedagogia e da cultura, que certamente estaria constrangido com a atual realidade que assola a região que o viu nascer. O caso da jovem aluna, vítima deste sistema, espelha a crueldade com que a máquina burocrática trata os mais fracos e os necessitados. Numa entrevista de poucos minutos, as entidades responsáveis deixaram subjacente que, na eventualidade de ter surgido algum problema no processo, os motivos prendiam-se com a falta de verbas, protocolos e estratégias para a gestão quotidiana de um estabelecimento como aquele.
Qualquer pessoa que trabalhe numa escola, na Região Autónoma dos Açores, identificará a gravidade da atual realidade financeira na Educação, pois por muito que se fale nas verbas orçamentais atribuídas à Educação, não nos podemos esquecer de que uma grande fatia é para a Ação Social Escolar, consequência de sermos uma Região pobre. Professores que preparam e imprimem os materiais em casa, a expensas próprias, descontado do ordenado, e que levam os seus equipamentos para trabalhar nas salas comuns. Um corpo não docente envelhecido que, no cumprimento de rácios, se encontra esgotado física e emocionalmente, com funções essenciais, mas cada vez mais exigentes.
Não me dá qualquer prazer continuar aqui a criticar esta secretaria e o seu gabinete, seja ele o oficialmente nomeado, seja o descentralizado que nunca deixou de ali trabalhar, mesmo que já não tenha espaço próprio para mandar. Não há nada de pessoal no que escrevo. É apenas necessário, porque as coisas teimam em não mudar e, conforme se escuta nos corredores do Palacete Silveira e Paulo e nas esquinas da rua Carreira dos Cavalos, há um sistema montado que permanece sem conseguir definir e executar uma estratégia.
Faço-o porque continuo a acreditar que a Educação é o único elevador social, a única ferramenta que é capaz de quebrar ciclos de pobreza, numa região onde os indicadores sociais demonstram a maior falha da nossa Autonomia. Faço-o porque acredito que numa região com tamanhas desigualdades sociais, onde todas as suas consequências se fazem sentir, a Educação tem o poder de alterar o futuro, que tendem traçar à nascença, de muitas e de muitos jovens.
Faço-o porque as instituições escolares, públicas, IPSS ou privadas, não são armazéns. São alavancas para o desenvolvimento sócio económico desta Região.
Mas, o vírus de crueldade burocrática, que sempre afetou uma parte da função pública, está totalmente instalado na Secretaria da Educação e Assuntos Culturais. Não podemos deixar de relembrar, quando se fala em opressão de pessoas desfavorecidas, a quantidade de agentes culturais que aguardam resultados para 2025, para saber o que fazer à sua vida. Não é demais falar nas paredes do antigo convento, caídas pelo chão com o peso de uma maquinaria pesada, junto à Santa Casa de Angra do Heroísmo, sem que aparentemente alguém da direção regional competente tenha feito algo para o impedir. E não nos devemos calar sobre os museus, as bibliotecas e os gabinetes onde caem bocados do teto e onde a cultura está remetida para a gaveta de inferior relevância.
A atual Secretária foi escolhida pelos dois executivos de José Manuel Bolieiro como representante de uma vida de sindicalista e política militante, no arquipélago, no país e no Parlamento Europeu. Afirmou-se como defensora de docentes e do sistema de Educação. Teve de acolher a cultura para seu infortúnio. E o grande resultado da sua carreira, talvez o maior dos seus legados, talvez seja o de uma Região cheia de escolas sem dinheiro para tirar fotocópias e museus sem dinheiro para comprar papel higiénico.
O aparelho por ela construído e mantido, com antigas e atuais figuras a trabalhar em simultâneo, e com o peso de qualquer decisão retirado às pessoas com formação e capacidade para o efeito, não é mais do que um ato de metaforicamente atirar pelas escadas abaixo todo um setor, onde falta cultura, perdeu-se a boa educação e é preciso muita ginástica moral para conseguir dormir à noite. Não será preciso ir mais longe do que uma peça de teatro para perceber quem são as marionetas desta história.
Com as legislativas, as autárquicas e as presidenciais a caminho, é altura de Bolieiro pensar em remodelar algumas partes do seu governo. Pressionem quem é preciso pressionar.
As e os vossos filhos merecem melhor. A nossa arte merece mais. O património universal merece respeito. O corpo não docente e docente merece dignidade. Temos de exigir mais.

Alexandra Manes
O Parlamento português fecha as portas. Está interrompida a reunião de plenário. Pelos corredores do pequeno poder, circulam os assessores e estagiários, numa correria interminável, para imprimir mais papelada, levar recados e trazer ameaças, justificando-se por ali existirem.
À noite estão no sofá, de cabeça entre as pernas, a desejar nunca ter escolhido tal inglória carreira, mas esperançosos num futuro ambicioso que nunca chegará.
O Parlamento está interrompido. Pedro Nuno Santos desce da sua bancada parlamentar devagarinho, e contempla duas portas por onde pode sair. Ao centro, nada de novo, para além de mais umas quantas teias de conservadoras aranhas. Na direita, estão dois matulões, com cara de ladrões de malas, prontos a recebê-lo. Pedro não sabe por onde ir, mas sabe que não irá por aquela portinha pequenina, à esquerda, onde para lá passar teria de despir uma série de casacos.
Com o Parlamento interrompido, Hugo Soares corre apressadamente em direção ao gabinete do chefe. Passa à frente a qualquer estagiário que se preze, demonstrando bem os motivos que o levaram aonde está. É o estagiário-mor, primeiro na linha da frente para repetir até à exaustão todos os argumentos que lhe impingirem, mesmo que não os perceba, nem sequer deseje perceber. O que interessa é defender, com razão, ou sem ela.
Hugo alcança a porta de Luís e bate regularmente à porta da capela. Do outro lado, Nuno Melo, completamente fardado em trajes militares decorados com a bandeira de Olivença, entreabre uma frecha. Tudo a postos para a sua entrada, caro colega.
Montenegro aguarda, silenciosamente, no topo de um estrado, de mãos entrelaçadas.
Numa primeira impressão, poderia parecer que o ainda primeiro-ministro medita sobre a sua precária situação. Observadores mais atentos poderão reparar na garrafa meio vazia, que esconde o nervosismo e tapa as rugas. Talvez consequência de algum comportamento urbano-rural, já denunciado pelo professor Marcelo? Nunca saberemos, agora que o presidente perdeu a voz num trágico acidente de choque de imoralidades. Luís Montenegro ergue o olhar na direção de Hugo Soares. Estará tudo perdido? O estagiário abana a cabeça e jura que ainda conseguirá negociar com Nuno Santos.
Recorda ao seu patrão os tempos das Jotas, onde tudo se negociava à porta fechada e nunca era preciso ir a eleições, sem ser para formalizar o que já se sabia. Relembra que ele próprio sempre foi um dos grandes caciques da sua época, e que não era agora que ia perder tudo, só porque jogavam em frente a mais câmaras. Esperava-lhes uma estrondosa vitória, ao lado do futuro presidente Marques Mendes, vencendo nas câmaras municipais de todo o país e com André Ventura a tirar cafés na sede do PSD da Malveira.
O ainda primeiro-ministro suspira. Está cansado daqueles “casos e casinhos”. Também ele foi das Jotas e estagiário-mor de Pedro Passos Coelho. Mas está grisalho. Com filhos crescidos e uma empresa bem-criada para alimentar. O sol já não lhe nasce com calor, e parece cada vez mais verde. Tudo o que Hugo lhe diz sabe a uma emoção de desconfiança. Pega na garrafa e enche mais um trago. Na etiqueta pode ler-se a marca branca: «SpinumViva Melhor», produto original da futura presidente de Portugal: Cristina Ferreira.
Pedro Nuno Santos passa à porta do gabinete do seu adversário. Pondera entrar. Já citou Sá Carneiro. Daí até ao bloco central é só um passinho de gigante. Ventura espreita ao fundo do corredor e lambe os beiços, de forma quase tão perniciosa quanto, alegadamente o seu colega de partido terá feito, enquanto acariciava crianças menores de idade. O líder do PS avança para a maçaneta, mas há qualquer coisa que o demove.
Será chuva? Será vento? Vergonha não foi certamente, mas há autárquicas no final deste ano quente, e é preciso mostrar alguma fibra. Fernando Medina, preso no teto por dois papagaios cor-de-laranja, solta uns impropérios e voa para longe, de regresso à torre do feiticeiro do Cavaquistão.
Os trabalhos no Parlamento retomam a sua força e eis que se dá o momento esperado. Montenegro, já tombado pelo remanescente da garrafa, aceita o seu destino de forma turva, enquanto Hugo Soares rasga as vestes e afirma que ainda irão vencer as eleições, e cada vez que abria a boca, mais me fazia relembrar Rabelais, no Rebanho de Panurge, “Panurge, sem mais dizer, atira ao mar o carneiro gritando e balindo. Todos os outros carneiros, gritando e balindo no mesmo tom, começaram a atirar-se ao mar logo a seguir, todos em fila. Cada um procurava atirar-se antes dos outros seus companheiros. Era impossível impedi-los, pois vós sabeis ser natural no carneiro seguir sempre o da frente, seja para onde for que ele vá.”.
Quase que aposta, mas deixa isso para quando for visitar os outros patrões ao casino. Portugal apanha mais uma gripe, e como é um país de grandes patriarcados, sofre daquele problema já bem diagnosticado por Lobo Antunes: a constipação masculina.
Neste caso, não sabemos se haverá pachos suficientes para curar esta febre toda, e a Lurdes está de férias, que não lhe pagam o suficiente para isto. Vamos para a primavera e, com o nevoeiro a levantar, talvez Sebastião não cavalgue entre as brumas cheganas, nem traga uma bandeira da Argentina liberal. Em quem é que se vota, até vos posso recomendar. Mas talvez o Tiririca tivesse razão. Pior que está, dificilmente fica.

Alexandra Manes
O título desta reflexão poderia ter sido outro, menos incisivo, mas prende-se com uma irritação que cresce dentro de mim, e sei que de muitas outras pessoas, nos dias que correm. O conservadorismo regressou, para tomar o lugar dianteiro na forma como todo o mundo encara a vida quotidiana. Normalizou-se a ideia de que precisamos de regressar a um tempo onde fomos felizes. Perdemos o sonho de ser melhores e apenas desejamos ser o que já um dia julgamos ter sido.
Se isso se passa a nível mundial com uma violência que emana do centro de poder de Washington e da oligarquia que a Casa Branca pariu, em Portugal esse problema não é novo. É, aliás, uma das mais antigas tradições do tuga. Ser conservador é quase tão português quanto escutar fado em Alfama, comer tripas no Porto ou beber uma poncha à pescador ao cair da tarde, no Funchal.
Ao longo de séculos intermináveis, foram muitos os autores que discorreram sobre a condição marítima de se ser português. Julgaram-nos aventureiros, capazes de cruzar mares e descobrir terras. Glorificaram o espírito indomável de um tuga que nunca existiu, para fazer da nossa nação uma herança que merece N maiúsculo e honras de Estado. Tenho muitas dúvidas e questões sobre tudo isso, que culminou com a política de propaganda de António Ferro e Oliveira Salazar, ainda hoje bem visível nos congressos de partidos como o PSD ou a mais recente e não menos infeliz Iniciativa Liberal.
O conservador português terá nascido nessa ideia de glórias antigas e condições exclusivas do nosso povo. Mas, a partir desse lamentável estaleiro, a obra expandiu-se a passou para lá do horizonte político-ideológico. Não nos esqueçamos que Pedro ganhou a batalha pelo Liberalismo, contudo foi o Absolutismo de Miguel que venceu a guerra pela alma do reino.
Hoje, encontramos o conservador tanto na esquerda como na direita, e quase sempre ao centro. Deparamos com a sua maneira de olhar o mundo na praça de Fátima, no Santuário do Santo Cristo ou na Senhora do Monte. Constatamos que infetou a sede da Opus Dei, os palácios da Maçonaria, os taxistas do Bairro Alto e as tasquinhas da Tia. Verificamos a presença do conservador nos salões de Cascais e nas salinhas da Ribeira, tanto na betinha que vai à feira da Golegã com os tios, como na peixeira que grita o preço do pargo, por entre vírgulas e palavrões.
Nos velhos comunistas de outros tempos, que tanto combateram pela igualdade de um povo e pela comunhão de um ideal, vemos pessoas que agora reagem com homofobia ao simples desejo de alguém ser livre. Nos de sangue azul, que se dizem agentes provocadores de mudanças sociais, não nos surpreenderá assim tanto perceber que o que lhes interessa é regressar a tempos de tradição bafienta, onde o povo se ajoelhava à porta do senhor feudal, e onde a única coisa que interessava era ter uns trocos para meio copo de vinho e uma tourada de praça.
Graças a esses conservadores, o país sofre o profundo flagelo da incompetência. Sem rebeldia nem ensejo de mudança para um futuro, passamos a produzir políticos de muita fraca qualidade, que se apoiam em populismos para sobreviver, mas que não conseguem perspetivar estratégia que vá mais longe do que a de proteger a sua própria pele. Essa é a principal razão que leva a que se agarrem às mesas de voto interno, com favores e propostas. É o motivo que produz votos de apoio a Javier Milei, que são consensuais entre os ricos latifundiários e os microempresários. E é nessa mentalidade que se reúnem as condições necessárias para mercenários sem moral se congregarem em torno de um partido de índole fascizante, que despreza o pobre e o infeliz, e almeja ser rei sentado num trono construído por malas furtadas e outros crimes bem mais perigosos.
O conservador esteve nas caixas de comentários das redes sociais a proteger os polícias que agora foram acusados de ter sabotado o assassinato de Odair Moniz. Levantou os braços para defender quem espancou Ademir Moreno à porta de uma discoteca, na cidade da Horta. Defendeu o despedimento de mulheres lactantes. Reuniu esforços para fazer esquecer as vítimas de violência doméstica, em defesa de mentiras sobre a criminalidade estrangeira. E está na direita, e na esquerda, não se esqueçam. Porque também há os que querem extinguir a condição de transexual, porque não a entendem. Há jovens que andam com a palavra emancipação ao peito, mas não se importam de dar uns sopapos na namorada se ela se armar em espertalhona.
E gente que passeia cravos na mão, enquanto no seio do seu coração acredita que o que é preciso é uma mão forte para mandar nestes miúdos que se sentam no meio da estrada a protestar o fim do mundo.
O conservador odeia por igual e não percebe, ou finge não perceber, que o tempo chegará em que lhe virão buscar também. Primeiro a menina transexual, depois o homossexual, segue-se o negro e a cigana, o ativista e a fulana feminista.
Mas, chegará também o dia dos oligarcas portugueses, e dos Venturas que eles financiam, tomarem as rédeas deste país, se nada fizermos em contrário. E será nesse dia que o conservadorzinho, que nem dinheiro tem para se sentar na tomada de posse, será também colocado junto do grupo de perseguidos. Aí já será muito tarde.
Não se esqueçam de relembrar isso a quem vos rodeia. Ser conservador é um erro que não podemos pagar nos tempos que correm. Honremos certamente o nosso passado, valorizando historiadores, antropólogos e arqueólogos, mas não deixemos de construir futuro.
Afinal, não é necessário fazer Portugal grande, outra vez. É preciso é fazer de Portugal o que ele nunca foi. A começar por nós.

Alexandra Manes
Encostem-lhe à parede. Se é isso que ele quer, que se faça. Encostem. Metam-no de mãos atrás das costas, a tremer com frio e com medo. Com a pele arrepiada e a alma amedrontada. Sem saber se daqui a umas horas vai dormir num chão frio ou numa cama morna, requentada com o preço de quem paga uma renda para partilhar casa com mil e um.
Encostem-lhe à parede e façam dele o mártir que almeja ser para a sua extrema. Façam-no de slogans e frases feitas. Encham os canais de comunicação social com os nomes dos grandes e pequenos líderes.
Recordem os impérios fiscais, derrubados pelo mau génio de uns senhores do tamanho da sola do sapato.
Encostem-lhe à parede e tragam o funcionário dos serviços de manutenção municipal.
Borrifem-no com glifosato. É bom para o mau ambiente. Encham-lhe as algibeiras com as moedas contadas do armazém que ainda conta com bens dentro do prazo, por vender desde a lei de proteção da saúde nacional. Desinfetem a alma ideológica do arquipélago, e nunca se esqueçam que por cada erva espontânea que se corte, seja à mão, seja com veneno, mais três vão renascer.
Encostem-me à parede. Digam-me que eu sou uma perigosa esquerdista de valores morais questionáveis, com uma vontade inquebrável de mudar o mundo para melhor.
Falem-me das canhotas e dos diabos, para nos lembrar que este ainda é o arquipélago dos jovens conservadores de terço ao final do dia.
Recordem-me o papel de uma mulher na cozinha, sem mencionar o efeito, mas apoiando a sua finalidade.
Encostem-nos à parede. Digam-nos em que medida almejam destruir o arquipélago. E depois procedam na conformidade da mesma, forçando os líderes a seguir uma estratégia que não é deles.
Segreguem-se escolas, creches e espaços públicos.
Ponham a andar daqui para fora aquelas pessoas que trabalham, para sobrar apenas as que andam nos corredores das assembleias da vida a pedir favores e a queimar tempo e paciência.
Encostem-lhes à parede. Não vale a pena voltarem as açorianas e os açorianos que vão ser deportados pelo idiota do poder do outro lado do Atlântico. Não queremos criminosos de t-shirt aqui nas ilhas. Os únicos que apoiamos são os criminosos de gravata. Que financiam os senhores das suásticas e dos planos de contingência democrática. As pessoas que forem corridas pelo outro senhor não merecem cá estar.
Mesmo que a única coisa de mal que tenham feito é ter ido em busca de uma Esperança.
Encostem pessoas doentes à parede. Afinal, a saúde mental não se vê numa radiografia, nem se diagnostica com uma análise sanguínea. Encostem profissionais de saúde à parede, pois mais sérios do que os perseguidores, não existem. E, depois, gritem que há falta de especialistas. Façam o número de sempre: dizer e fazer o seu contrário.
Encostem à parede a democracia. Já é tarde para essa velha senhora. Já devíamos saber que não há espaço para mulheres com alguma idade numa sociedade que só prevê a existência feminina até ao prazo de validade sexual de um público sedento de estrelas de cinema.
A política enterra-se a cada dia que vamos passando nos cruzamentos das redes sociais com as irrealidades das assembleias regionais desta vida.
Encosto-me à parede. Olho para ela. Estática. Irreverente, como deve de ser. Conheço o conceito de anarquia. Ele nunca ouviu falar. Sabe apenas o que é ser burgesso.
Arrepia-me a pele ao pensar no que ainda está para vir. A parede não fala comigo.
Está imobilizada pelo medo e pela inércia. Perdeu-se a capacidade de servir as pessoas que a serviram. A parede é como as sondagens. Anuncia maus ventos e péssimos casamentos.
Nenhum de nós será capaz de assumir a perfeição. Todas as alianças traçadas nos últimos anos correram mal. Com a assunção dos oligarcas, começamos a perceber, finalmente, que não é um problema exclusivo à nossa classe política. Os grandes bilionários desta vida foram-nos manipulando e controlando as narrativas. E nós fomos na sua onda.
Mas, na verdade, há que reconhecer quando os bois se tratam pelos nomes. E os bois são cada vez mais. Manifestam-se com números falsos e declarações de incompetência política, dos mais altos pódios das assembleias destes arquipélagos que nos fazem ser.
Só lhes interessa ser o que sempre foram. Reacionários, lambe-botas, sem juízo nem moral. Pouco importa quem é encostado à parede. Desde que lhes dê votos.

Alexandra Manes
Já há algum tempo que se tornou habitual utilizarmos a expressão “atípico” para descrever os doze meses que tradicionalmente antecedem uma passagem de ano. 2024 não foi exceção. Foi, realmente, um ano fora do comum.
Continuaram os conflitos internacionais de grande peso para o resto do mundo, agora acompanhados pela reeleição de um dos mais perigosos autocratas a tomar o poder em anos recentes, nos Estados Unidos. Janeiro começa com a sua cerimónia de tomada de posse, e com as primeiras medidas, entre as quais está prometida a deportação de milhares de pessoas, algumas delas açorianas, ao que já foi possível apurar pelas autoridades competentes.
Fica, desde já, uma mensagem direta aos gabinetes responsáveis: preparam-se, pois neste ano será necessário reforçar a estratégia de acolhimento dos que regressarem e vai ser preciso redobrar o trabalho de cidadania, para combater a xenofobia e a radicalização a que vamos assistindo no mundo inteiro.
Ao nível da política mundial, continuou o descalabro extremado, com as forças moderadas na Alemanha e em França a perderem o pouco terreno que lhes restava para a direita e, principalmente, para a extrema-direita de cariz marcadamente fascista. Graças às debilidades de liderança de Macron, a única alternativa que parece viável a França, é a de Le Pen, filha do ódio.
A Olaf Scholz, só lhe resta preparar as malas e rezar para que não seja a AfD a tomar conta do seu assento, porque senão o Reichstag corre o risco de arder uma vez mais.
Tudo isto para chegarmos ao grande acontecimento internacional de 2024. Elon Musk, e os restantes oligarcas, saíram do armário. Ao longo dos últimos dez anos, uma força de bilionários e cabecilhas dos grandes negócios das armas, da tecnologia e da destruição social, foram preparando e assumindo posições estratégicas enquanto ideólogos das forças disruptivas do extremo político. Nos últimos meses do ano que abandonamos, Musk finalmente deu a cara e disse ao que vinha. Deseja destruir a democracia e construir um novo regime, onde o Dinheiro seja Deus, os pobres sirvam os ricos, e a sobrevivência social seja um privilégio dos subservientes. Milei, na Argentina, já segue essa filosofia, com um “sucesso” que a Iniciativa Liberal deseja replicar em Portugal.
No nosso país, foram muitos os acontecimentos atribulados. A saída de António Costa, por questões já esquecidas e nunca comprovadas, levou a que Montenegro tenha sido eleito, mesmo que com uma minoria considerável, ficando refém de acordos parlamentares. Assim, o país seguiu o resto do ano a meio gás, com novas catástrofes na saúde, na educação, na cultura e na habitação. Os preços aumentam, as tágides no Tejo clamam pela saída de Moedas, mas o PSD está, de facto, instalado nos três assentos da governação, em Lisboa, Ponta Delgada e…
Bem, a coisa no Funchal parece que não funcionou bem assim. Albuquerque passou metade do ano a fugir ao assunto, enquanto dormitava nas suas férias à beira-mar e a ilha da Madeira ardia. Apanhado no meio do fumo levantado pelos serventes de André Ventura, o PSD-Madeira vai agora enfrentar a maior crise política da sua história, sem saber bem o que fazer, conforme já o atestou em sucessivas e infelizes entrevistas, nos últimos dias.
2025 será o ano em que terão de se resolver esses problemas, mas também os problemas autárquicos, em geral. Esse será o momento para avançar com todos e mais alguns projetos de obras. Promessas de grandes eventos, investimentos eternos e colaborações nunca vistas. Mercados municipais que ficaram por fazer, despedimentos coletivos apenas evitados pela força do movimento cidadão. Portos mal construídos ou sequer imaginados.
Tudo isso é fado que se esquece nessa época. Afinal de contas, é altura de eleições, a campanha já começou, e António Ventura já foi engomar o fato, para os devidos efeitos, e já deve sonhar em tornar o centro histórico de Angra do Heroísmo numa feira agrícola permanente.
Aqui pelo arquipélago, os grandes acontecimentos de 2024 foram demasiados para as linhas que se seguem. Destaque, desde logo, para o aumento da discriminação social, com as recomendações aprovadas no que concerne ao acesso às creches nos Açores. Assim, o que 2024 apresentou como mais marcante, nos Açores, terá mesmo sido o cimentar do pacto de regime entre o PSD e o chega. Não podemos olhar para este ano sem sublinhar esse facto incontornável.
A coligação que governa a região já pouco tem de CDS. Muito mais é o que une Bolieiro a Pacheco do que aquilo que em tempos foi dito que os separava. Essa realidade continuará em 2025, e até ser útil fazer cair o governo açoriano, como aconteceu na legislatura passada e, agora, na Madeira.
Ignorar essa realidade vai levar à destruição da nossa democracia e, no entanto, parece que é o que desejam muitas e muitos que votam no PSD e nos seus aliados periféricos.
2025 vai ser um ano atípico. Já se está mesmo a ver. O que se espera é que mais pessoas comecem a questionar a opressão a que se se tem assistido, cá, como lá.
Não me canso de dizer que somos nós, em comunidade, que temos a força para obrigar à mudança. Por isso, os votos para o novo ano não são de sucesso e prosperidade. São de união, pensamento-livre e luta. Muita luta, que é o que estamos a necessitar.

Alexandra Manes
Quando cai o dia para dar lugar à noite seguinte, e o incrível lusco-fusco ganha contornos únicos, entre o azul da manhã e o breu noturno, observo o crepúsculo da hora, através da paisagem que se ensimesma à frente de onde estou, do Porto Judeu para os Ilhéus das Cabras. Tomo a liberdade de perguntar a um grupo de pessoas que observa aquela visão ao meu lado. Questiono sobre que imagens associam à silhueta daquelas duas ilhotas irmãs, flutuando ao sabor da chegada da escuridão. E, numa questão de segundos, alguém responde, invocando a literatura e a ode literária, representada pelo chapéu do nosso querido Principezinho.
Essa tinha sido, também, a minha perceção, mas a minha primeira reação passou por questionar a lógica de pensamento subjacente a tal afirmação. Mas recuei, permitindo-me abalizar o que sentia na minha experiência profissional e no meu desenvolvimento pessoal. Nem sempre é de explicações que precisamos. Quantas vezes não precisamos apenas de uma oportunidade para pensar? Quantos dias da nossa caminhada não seriam mais fáceis se nos fosse dada a liberdade para sentir e ser sem ter que justificar quem somos?
Enfrentar esses desafios é um trabalho hercúleo, tantas vezes injustamente esquecido, e frequentemente abafado pelo barulho do trânsito e da azáfama da vida que se convencionou como quotidiana. Assim sinto o esforço do Sérgio Nascimento, e reconheço nele um mérito que me apraz valorizar nas primeiras linhas de 2025.
Sérgio foi (e sempre será) um dos dinamizadores da instituição “Olhar Poente”, organização que abre caudais de igualdade para todos os rios que correm da cabeça de crianças e adolescentes. Ali, as diferenças são apenas pontos de partida para a construção de pontes que ligam cada um desses rios, e forma um grande oceano com a sua complexidade inerente, mas assente na moral e no reconhecimento mútuo.
“Olhar Poente” celebrou recentemente quinze anos de existência, com a liderança do Sérgio e com uma equipa preparada, que é a sua maior aliada no desenvolvimento de um projeto visionário e inovador. Congregou trabalhadoras e trabalhadores, pais e mães de uma comunidade em expansão, edificando um sonho comum, de familiaridade pedagógica, verdadeiramente fora da caixa a que nos fomos habituando. Aquela é uma equipa que prepara e foca a inclusão com uma genialidade operacional que merece verdadeiro destaque.
Cada criança que por ali passa vai abandonar os conceitos adultos de discriminação e distinção classista. Cada pessoa que ali renasce, sabe que não é a cor de pele, nem a religião, muito menos a proveniência social, que nos separa. O que nos une é a liberdade do nosso pensamento, onde não é preciso motivo para justificar o que o nosso olhar interpreta em cada paisagem que observa.
“Olhar Poente” dinamiza um trabalho de valorização individual para a construção do coletivo. Aposta na formação, na qualificação e coesão da equipa, compreendo que essa construção permanente é essencial para o sucesso das múltiplas respostas necessárias para cada desafio que se levanta. A cooperação é o pilar fundacional para que cada criança entenda a comunidade em união e perceba que esse é o principal caminho para responder ao futuro.
Reconheço um esforço digno, partindo da freguesia da Vila Nova, na ilha Terceira, para abarcar grande parte do concelho da Praia da Vitória, criando espaços de aprendizagem onde o lúdico e o pedagógico se misturam e comungam em harmonia. Não falamos de caixas para acolher crianças, enquanto os encarregados de educação trabalham. Não se trata de uma prisão improvisada, na senda do que se ouve discutir em sede política. Trata-se de uma interação permanente, entre adultos e crianças, onde quem aprende também ensina.
A “Olha Poente” tem vindo a promover trabalho em vários projetos paralelos, conseguindo a criação de mais de sessenta postos de trabalhos, e de onde destaco «SOS Casa»,«Babysitting & Animação de Eventos», entre outros. Acrescem parcerias que permitiram aprofundar conhecimentos e promover partilhas em iniciativas como a da realização do «1.ºCongresso Insular Olhar o Futuro», que juntou especialistas nas áreas da Educação e da Saúde.
Recebeu várias distinções, entre elas a do Prémio «Healthy Workplaces», única existente nas Regiões Autónomas, e o Selo Protetor da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, entregue pela primeira vez nos Açores.
Não me restam dúvidas acerca do mérito do trabalho promovido pela “Olhar Poente”, que foi agora novamente reconhecida, desta vez pela Junta de Freguesia da Vila Nova, enquanto entidade de mérito e excelência.
Num recente ato eleitoral, democrático, foram eleitos os novos órgãos sociais da instituição. Desta vez, caberá a uma mulher – Sandra Serpa -, o cargo de Presidente e a Francisco Melo o de Vice-Presidente.
Reconheço publicamente a determinação, força e dedicação da Sandra, a qual envolveu-se com esta instituição desde o seu início. O conhecimento, o pragmatismo, empenho e a sensibilidade em questões sociais do Francisco, bem como a disponibilidade de toda a equipa, estando convicta acerca do futuro da “Olhar Poente”, da continuação e expansão desta instituição.
É-me impossível mencionar todas as pessoas que fazem parte desta equipa por uma questão de espaço, mas Marina, Vânia, Josefa, Fabiana, Carlota, Gabriel, Valdemar e restantes, o V. trabalho é a felicidade de muitas famílias.
Ao Sérgio, que sempre reconheceu o esforço da equipa de trabalho, retomo as palavras de Antoine de Saint-Exupéry, para agradecer tudo o que foi feito, e afirmar que foi um espelho deste seu belíssimo pensamento: “As pessoas crescidas têm sempre necessidade de explicações. Nunca compreendem nada sozinhas e é fatigante para as crianças estarem sempre a dar explicações.”
Obrigada. Um abraço, para o Sérgio, para a Sara e para o Manuel, afinal foi a partir de um sonho familiar que tudo isto se concretizou.
Feliz 2025!

Alexandra Manes
A taxa de risco de pobreza permanece a mais alta do país. Não vale a pena dizer que baixou em 2023, quando quase um quarto das pessoas que moram nos Açores continuam à beira da fome e da falência. Não vale de nada virem os políticos anunciar que estão a conseguir baixar os números, quando se fala em dormir ao relento, e quando ir às compras é contrair dívidas.
A pobreza, o risco da mesma, e as consequências nefastas para a nossa sociedade, são reflexo de décadas e mais décadas de ingerência, mas são também o resultado de uma estratégia de perpetuação das classes baixas. Ao populismo, interessa manter uma fatia da população no limiar da desgraça, para poder vender votos a troco de um apoio ao medicamento ou de uma redução ilusória da idade da reforma, que pode bem só chegar no dia de São Nunca, de tarde.
Recuemos ao começo do ano passado. O escritor Joel Neto anunciou uma obra que alertava para a realidade da pobreza insular. Jénifer, ou a princesa de França. Interessante novela sobre as consequências de se viver pobre, num bairro imaginário, que poderia ser um de muitos que preenchem a realidade do nosso arquipélago. Um encontro entre o olhar de uma classe média cada vez mais elitizada, e uma criança inocente, vítima de ter nascido na casa errada, que só queria ser feliz.
Existem muitos mais casos desses do que gostaríamos de imaginar. Joel também foi vítima de uma política sistémica, de se varrer os pobres para debaixo do tapete. Foi agastado por alguns ataques infelizes, mas aguentou-se e manteve a sua postura de denúncia da arruinada realidade de algumas partes das nossas belas ilhas.
Contra amigos e camaradas de outros tempos, sublinhe-se. Não muito diferente foi a recente atitude de Paulo Jorge Ribeiro, num artigo de opinião publicado no Diário Insular, e que não posso deixar de elogiar, por não baixar os braços contra o extremar do neoliberalismo económico e moral. É de neoliberalismo que falamos.
Mais de um ano depois de Jénifer, um relatório do Serviço Regional de Estatística dos Açores, remete para os tais 24.2%, de pessoas em risco de pobreza, anunciando que se baixou cerca de 2%, que é como quem diz que não se baixou quase nada, e que ainda estamos muito longe da média nacional. E mesmo essa média não é famosa, nem deve ser motivo de orgulho. Basta haver uma família em risco de pobreza, para ser demasiado. E isso, começa nos gabinetes de gestão.
Politicamente falando, o neoliberalismo é um cancro que se espalha entre as altas estruturas do poder, e impede que sejam tomadas posições verdadeiramente úteis para o desenvolvimento de uma sociedade igualitária. É a partir desses tumores que a imoralidade se espalha à educação e à cultura, promovendo-se uma separação de classes, onde uns podem ter tudo, e outros não devem ter nada. Na saúde, essa distinção caminha para a sua construção, com a constante conversa de que precisamos de rever o sistema nacional. Pois precisamos! Precisamos de lhe dar condições para atender a todas as pessoas que precisam dele.
A pobreza é uma doença, daquelas que convém que não haja cura, para se poder continuar a vender medicação cara. Os partidos do arco da atual governação batem-se publicamente pelo apoio aos mais necessitados, mas depois reúnem à porta fechada com os grandes empresários, para organizar uma estratégia que mantenha uma boa parte das açorianas e dos açorianos amarrados a essa algema que é o mercado e a famosa mão invisível.
A coligação quer convencer o arquipélago com papas e bolos, mas os planos que afirmam preparar já deviam estar a ser aplicados e nem sequer são conhecidos. O que foi conhecido foi a sua postura perante os mais necessitados, votando a favor da tenebrosa medida do partido do senhor Ventura, para impedir que os mais pobres tenham acesso por igual à educação das suas crianças, construindo uma nova sociedade de classes, desde o nascimento, passando pela Creche, e até à prematura morte dos que vivem debaixo do risco dos tais 24.2%.
Não conheço a Jénifer, mas conheço demasiadas Jéniferes. Cresci numa ilha com problemas de igualdade económica e social. Cruzei-me com muitas outras realidades parecidas, em todas as ilhas dos nossos Açores. Vejo-a aumentar, com o cancro a espalhar-se entre nós. As gravatas que nos comandam assim o desejam. Mas não nos esquecemos de votar e de continuar a lutar, porque é preciso não esquecer o cântico negro, e saber que não é este o caminho pelo qual queremos ir.