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Os animais são entretenimento?

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito

As tradições são uma parte importante da cultura de um povo, mas nenhuma tradição deve estar acima do respeito pela vida e bem-estar dos animais. Aquilo que era aceitável no passado deixa de o ser quando a sociedade evolui e passa a reconhecer que os animais são seres sencientes, capazes de sentir dor, medo e sofrimento. Por isso, está mais do que na hora de questionar práticas que continuam a existir apenas porque “sempre foi assim”.

Todos os anos, nos Açores, sobretudo durante o Verão, centenas de animais são utilizados em atividades festivas que os expõem ao stress, violência e, muitas vezes, a ferimentos. Touradas, desfiles alegóricos em festividades religiosas, cavalhadas, apanhas de porco, etc.

Podemos chamar cultura a estas práticas? Até onde é aceitável o sofrimento de outro ser em nome de uma tradição? Até quando deve a evolução ética da sociedade ficar suspensa para preservar costumes que já não correspondem aos valores do presente? Queremos viver presos ao passado ou respeitar o passado, vivendo o presente para construir um futuro ético e humano?

Estamos habituados a transformar tudo em objeto de consumo, de lucro ou de entretenimento, e os animais não escapam a essa lógica.

Chamar cultura a práticas que causam humilhação ou sofrimento a outros seres não elimina o sofrimento que provocam, apenas camufla um comportamento que pode ser classificado de sadismo. Na medida em que pretende encontrar uma justificativa para, voluntariamente e de forma intencional, permitir que as pessoas se divirtam à custa do sofrimento de outros e com isso obter satisfação, com a validação financeira do erário público.

Uma tradição perde o seu valor e dignidade quando depende da dor de um ser para entreter.
Existem inúmeras formas de preservar a identidade cultural sem recorrer à exploração animal. A criatividade, a música, a dança, o teatro e as recriações históricas mantêm vivas tradições sem sofrimento. A verdadeira riqueza cultural está na capacidade de evoluirmos sem perder as raízes.

Inúmeros responsáveis políticos evitam enfrentar este problema por receio de perder apoio eleitoral ou desagradar grupos, especialmente por alguns desses apoiantes integrarem executivos. No entanto, governar exige coragem para tomar decisões difíceis quando estão em causa princípios éticos e interesses comunitários. Os políticos não devem limitar-se a seguir a suposta opinião mais popular e fácil.

Não foi para isso que foram eleitos. Devem liderar pelo exemplo e promover mudanças que reflitam os valores de uma sociedade justa e compassiva.

Proteger os animais não significa atacar a cultura nem desrespeitar as tradições. Significa reconhecer que o progresso implica abandonar práticas que já não correspondem aos valores do presente, sobretudo quando a sociedade começa a reivindicar mudança. As tradições evoluem, temos inúmeros exemplos disso mesmo. E aquelas que causam sofrimento animal devem evoluir rapidamente, dando lugar a alternativas mais humanas.

Nenhuma tradição justifica a crueldade animal, independentemente do seu grau na Escala da Maldade. É urgente que a coragem política dê voz às mudanças que a sociedade reivindica, mesmo quando existir resistência.

Uma cultura verdadeiramente digna não se mede pela antiguidade das suas tradições, mas pela capacidade de respeitar todos os seres vivos.

Deixem os animais viver em paz.

Quando uma cidade de animais nos fala sobre nós

Micaela Pimentel

Quando a Disney lançou Zootopia 2 (ou Zootrópolis 2, como lhe chamamos por cá), muita gente esperava apenas mais uma aventura divertida passada numa cidade cheia de animais que falam. E, de facto, à superfície continua lá tudo: humor rápido, personagens carismáticas e um mundo visualmente vibrante. Mas, tal como no primeiro filme, por baixo da leveza existe algo mais incómodo e mais humano. Zootrópolis sempre foi, no fundo, um espelho.

Uma cidade onde predadores e presas convivem parece, à primeira vista, uma metáfora simples sobre tolerância. Mas a história vai mais longe. Fala de preconceito, de medo coletivo e da facilidade com que criamos narrativas sobre “os outros”. Em Zootrópolis, os estereótipos parecem caricaturais até percebermos o quão familiares são.

O filme lembra-nos que a convivência não é automática. É frágil. Basta um rumor, uma suspeita ou uma crise para que a desconfiança se instale e as diferenças se transformem rapidamente em linhas de divisão. Mas há uma dimensão da história que talvez seja ainda mais relevante: a relação entre poder, dinheiro e culpa.

Enquanto alguns personagens lutam apenas para provar que merecem um lugar naquela cidade, outros movimentam-se com uma liberdade muito maior. O verdadeiro antagonista da história não representa apenas maldade individual, representa algo mais estrutural. Representa a forma como o poder económico, político ou social pode manipular perceções e direcionar suspeitas.

E é aqui que personagens vulneráveis, como a cobra, ganham um significado particular. Tornam-se símbolos de algo muito comum nas sociedades humanas: a tendência para apontar o dedo aos mais frágeis. Aos que são diferentes. Aos que têm menos voz.

É mais fácil suspeitar de quem está exposto do que questionar quem controla os bastidores.
Na ficção, essa dinâmica torna-se clara. No mundo real, muitas vezes passa despercebida. Criamos rótulos simples para explicar realidades complexas, esquecendo que as histórias raramente são tão lineares como gostaríamos.

Talvez seja por isso que filmes como Zootrópolis funcionam tão bem. Porque colocam questões profundamente sociais num contexto aparentemente inocente. Uma coelhinha polícia, uma raposa trapaceira, uma cidade onde cada espécie tenta encontrar o seu lugar. Parece distante da nossa realidade até percebermos que não é.

No contacto com pessoas reais, percebe-se rapidamente que os rótulos quase nunca contam a história inteira. Há vidas marcadas por circunstâncias que não cabem em categorias simples. Há desigualdades invisíveis que moldam escolhas, oportunidades e até a forma como cada pessoa é vista pelos outros.
Zootrópolis não resolve esses problemas. Nenhum filme o faria. Mas lembra-nos de algo importante: a empatia não deve terminar quando a história acaba.

Porque, no fundo, aquela cidade de animais não é apenas fantasia. É uma versão ampliada das tensões, dos medos e das injustiças que continuam a existir entre nós.

No final, saímos do filme com a sensação de que aquela cidade de animais é menos fantástica do que parece. Porque, no fundo, Zootrópolis não é sobre coelhos, raposas ou predadores. É sobre nós e sobre a forma como escolhemos viver juntos.

A Rustie

Maria Chaves Martins

Há uma fábula que precisa ser contada: a da Rustie.

A história da Rustie é comovente e um poderoso lembrete da necessidade de justiça e compaixão na forma como nos relacionamos com os animais.

A tragédia que envolveu a jovem cadela não é apenas um caso de negligência, mas uma representação de um ciclo cruel e sistémico de abuso e impunidade, infelizmente, não raro entre muitos animais que nos rodeiam.

Não se deixem cegar pelo romantismo ideológico de que não existem crimes hediondos praticados contra animais nos Açores – o que parece justificar alguma inoperância política e legal, servindo para branquear alguns comportamentos da Justiça. As necessidades de prevenção geral existem, são reais.
Rustie viveu confinada, sem afeto e sem os cuidados básicos que lhe eram devidos, representando muitas outras criaturas indefesas que sofrem em silêncio, vítimas da indiferença dos tutores que falsearam o compromisso de prestação de zelo e cuidado.

O desprezo diário pela saúde emocional da Rustie não foi o pior, apenas deixava antever o desfecho do seu triste fado.

O fim da vida de Rustie foi tão violento não só pela violência com que foi morta, como pela Justiça que não foi feita, visto esta ter sido leniente com o responsável pelo crime, despindo as falhas de um sistema que muitas vezes não se posiciona de forma firme e eficiente quando se trata de proteger os animais.
O que é verdadeiramente perturbador na história de Rustie não são apenas os atos de violência em si, mas a forma como o sistema judicial tratou esse crime, com uma “pena” que mais parece uma forma de aliviar a consciência do perpetrador, sem que a gravidade da ação fosse devidamente reconhecida.
A sociedade precisa refletir: como podemos permitir que seres inocentes, como Rustie, sejam tratados dessa maneira, sem que haja consequências severas para os responsáveis?

A Justiça deve servir de elemento dissuasor da prática de futuros crimes não só para o próprio agente, como para a sociedade. Deve ser um exemplo. Isto é prevenção. Sem isto estamos a esvaziar as funções do direito penal.

Salvaguarde-se que, pese embora a Justiça não tenha cumprido as suas funções, a censura social ainda tem o seu peso.

Embora a história de Rustie seja um exemplo trágico, pode ser vista como um apelo à ação.

Os defensores da causa animal devem continuar a lutar para que a mudança seja real e não apenas virtual.

Há um largo caminho a ser percorrido para mudar o “mindset” na perceção social dos animais, para que não sejam tratados como objetos descartáveis, mas como companheiros merecedores de respeito, amor e dignidade.

A luta pela justiça pela Rustie e por todos os animais é nobre.

Para que casos como o de Rustie não se repitam, é fundamental que a sociedade aponte o dedo a quem maltrata os animais, não se cale, denuncie.

A Rustie era uma cadela meiga, que morreu numa madrugada de Janeiro após lhe terem sido desferidos violentos golpes no crânio por um objeto contundente (sacho ou catana), de forma inesperada, sem qualquer justificação, exceto a vontade do seu tutor em desfazer-se da mesma por estar “farto dela”. Foi enterrada no fundo do quintal e foi precisa intervenção judicial para ser realizada a necropsia que retratou o horror vivido pela Rustie nos seus últimos momentos de vida. Mesmo assim, a (in)Justiça decidiu suspender o processo-crime, impondo ao seu agressor a obrigação de entregar uns trocos para salvar a sua alma.