
DL: A Santa Casa da Misericórdia de Santo António da Lagoa celebra 25 anos e manifestou a intenção de criar uma creche aberta 24 horas. Como é que surge esta ideia?
Surge por várias solicitações, nomeadamente as dos nossos próprios colaboradores. Já temos um grupo de 12 enfermeiros que colocaram essa questão. Mas, para além disso, também há outras pessoas de fora da instituição que trabalham por turnos e têm essa necessidade, pois não têm familiares com quem deixar os filhos. Trata-se de dar uma resposta que vai ao encontro de cada uma dessas pessoas. Como já demos o nosso primeiro passo, adquirimos o terreno — uma moradia unifamiliar num espaço bem centralizado, com boas acessibilidades e as melhores condições. Sonhámos com esse espaço e estamos a projetá-lo. Estamos todos empenhados para que se dê resposta a esse pedido que vem dos nossos cidadãos.
DL: E legalmente é possível?
É possível. Segundo o que já falei com o diretor regional, logo que se entenda que é necessário e útil, acho que as coisas podem avançar.
DL: O que é que falta?
Neste momento estamos a trabalhar no projeto e já tive várias reuniões. A capacidade é para 48 crianças. Já estamos a trabalhar na tipologia, a adaptar o edifício existente. Estou esperançado que, no ano de 2027, já existam condições para avançar com este equipamento. Também é preciso ver que temos um grande projeto em mãos, o CACI, que se vai inaugurar dentro de dois ou três meses. Compreendo que se tenha de fazer um agendamento de trabalho, porque não é fácil. Importa primeiro acabar o projeto de arquitetura e só depois arrancar com mais este grande investimento. O Instituto de Segurança Social já confirmou que há duzentas e tal crianças à espera de vaga, por isso, o primeiro passo está dado. O funcionamento durante 24 horas será depois reivindicado para que a creche seja diferenciada.
DL: E quanto ao Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI), o que é que falta?
Neste momento, faltam alguns acabamentos finais. Temos os equipamentos todos já em contentores para entrar. O único problema é o acesso: estamos a pavimentar as vias circundantes. Penso que, dentro de um mês e meio, já estará pronto para ser inaugurado.
DL: Com quantas valências é que a Santa Casa da Misericórdia de Santo António da Lagoa vai ficar?
Ficará com nove valências, das quais quatro funcionam 24 horas por dia. Temos 96 colaboradores atualmente, vamos passar para uma média de 140 e atenderemos, por dia, uma média de 273 utentes. Estamos agora nas avaliações curriculares para contratar mais 42 pessoas. Isto inclui desde a infância à juventude e aos mais idosos. Daremos um salto grande no sentido de ir ao encontro das necessidades da nossa população.
DL: Recentemente, o Governo da República falhou com os pagamentos às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). De que forma isso afetou a instituição na Lagoa?
Tivemos alguns problemas, por exemplo, com o subsídio de Natal. Tivemos de recorrer à banca. A situação não foi fácil porque não temos grandes recursos nem rendimentos extra. Somos a única Santa Casa na ilha de São Miguel que não tem farmácia. Por isso, vivemos dos nossos protocolos e acordos com o Governo. Em qualquer intervenção, as coisas têm de ser bem estudadas. Os protocolos têm de ser ajustados e não se pode brincar, porque estamos aqui voluntariamente e não deveríamos estar preocupados se, ao chegar ao fim do mês, não temos financiamento. Faço este alerta às autoridades governamentais: têm de ter respeito e critérios definidos previamente para sabermos com o que podemos contar. Para a gestão da tesouraria, é muito complicado. O modelo de financiamento tem de ser bem estudado por um grupo de trabalho para que não existam desconfianças.
DL: Ainda há verbas a receber?
Sim, ainda temos algumas verbas a receber. O que digo é que as coisas têm de acontecer. As pessoas têm de olhar para o facto de estarmos aqui, dia a dia, a trabalhar desinteressadamente. Acho que deve haver maior atenção quanto ao financiamento.
DL: A continuidade do programa “Novos Idosos” era uma reivindicação sua. É positivo o facto de o projeto ter continuado?
Para quem vive na sua casa com qualidade, não há riqueza melhor. Estou satisfeito com o seu prolongamento até ao final de 2026. Agora, estou esperançado que isto ganhe um outro modelo para amadurecer. O projeto agora funciona como piloto, mas acho que têm de trabalhar durante este ano para criar um modelo já assente na realidade da nossa região.
DL: A instituição que ajudou a fundar celebrou 25 anos. Que balanço faz?
Um balanço bastante positivo e brilhante. Como é a mais jovem da região, teve um trajeto que nunca parou e temos projetos para o futuro. Além da creche, temos os Cuidados Continuados. Já adquirimos o terreno e estamos a trabalhar no projeto para mais 20 camas, o que criará mais emprego. Será a norte do nosso lar, que vai crescer. Terá uma particularidade única porque vamos rentabilizar: será a mesma cozinha, a mesma lavandaria e os mesmos serviços de apoio. Economicamente, será singular. É um balanço que me deixa muito orgulhoso. Todas as mesas administrativas que por aqui passaram trabalharam com espírito empreendedor. E a maior riqueza são os nossos colaboradores, pois as pessoas é que são a linha da frente. Isto é uma família e se não funcionar como tal, as coisas não andam.
DL: Quer deixar uma mensagem à comunidade?
A mensagem que quero deixar é que vamos continuar a trabalhar. O nosso compromisso está renovado nestes 25 anos. Quero incentivar as mesas administrativas que estão comigo para que deem seguimento a este trabalho. A nossa instituição é a maior do concelho e a que tem mais projetos sociais em carteira. Por isso, vamos todos dar as mãos. A comunidade está connosco e penso que todos reconhecem que estamos aqui para servir com espírito de entrega e compromisso.

O novo Centro de Atividades para Capacitação e Inclusão (CACI) da Santa Casa da Misericórdia de Santo António, na cidade da Lagoa, é a grande aposta da instituição para 2026. Com um custo de 5,7 milhões de euros, as obras, que decorrem desde fevereiro de 2024, tinha a conclusão prevista para este mês de agosto. O novo espaço, situado na rua da Quintã, em Santa Cruz, tem uma área de 1886 m² e terá duas valências: uma com capacidade para 18 utentes e outra para acolher 30 utentes.
O Diário da Lagoa visitou a obra na companhia do diretor técnico da valência do lar de idosos, Tiago Almeida, que explicou as mais-valias do investimento e mostrou o trabalho em curso. A conclusão das obras está agora prevista para o final deste ano e o Centro deverá entrar em funcionamento no início do próximo, respondendo a uma já elevada lista de espera.
Ao Diário da Lagoa, o provedor da Santa Casa, António Augusto Borges, descreve o projeto como um “sonho”. O CACI está a ser construído para integrar duas valências que irão complementar os serviços já existentes da instituição. E diz que tem “esperança de inaugurar a obra no aniversário dos 25 anos da Santa Casa, a 12 de janeiro de 2026”.
“Os pais, hoje em dia, têm uma grande preocupação: ter um filho com alguma deficiência e não ter sítio para o deixar”, afirmou o provedor, destacando a ansiedade das famílias e a importância de oferecer uma resposta “fantástica” a essa procura. A lista de espera já conta com cerca de 15 pessoas, o que demonstra a necessidade urgente do novo equipamento. O projeto, que irá aproveitar e ampliar um edifício já existente no local, será um “espaço nativo, bastante bonito”, com áreas verdes e jardins para os utentes, explica o responsável. A obra integra-se na estratégia do Governo dos Açores de expandir a rede de equipamentos sociais na região.
Segundo o executivo açoriano, o novo CACI irá disponibilizar duas novas respostas sociais essenciais: um Centro de Atividades para Capacitação e Inclusão (CACI), destinado a pessoas com deficiência a partir dos 18 anos, que se vai focar em atividades ocupacionais para promover a autonomia e a inclusão e um Lar Residencial, para acolhimento temporário ou permanente de pessoas com deficiência.
A secretária regional da Saúde e Segurança Social, Mónica Seidi, sublinhou em março passado a importância do projeto para “reforçar a inclusão e o apoio social” na região. “Este investimento resulta de um processo de diálogo e parceria com várias entidades e reflete o compromisso do Governo dos Açores com políticas de inclusão”, disse na altura a governante. Este equipamento irá centralizar no concelho da Lagoa serviços que até agora não existiam, “encerrando um circuito de ofertas sociais essenciais para a população”, sublinhou Mónica Seidi.
O projeto é uma iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Santo António da Lagoa, uma instituição que apoia 108 utentes. A obra está a cargo da empresa AFAVIAS Açores, com a fiscalização da GAB 118, e o prazo de execução previsto inicialmente era de 540 dias.

O programa “Novos Idosos” da Santa Casa da Misericórdia de Santo António, na Lagoa, já alcançou as 50 pessoas, mas a sua expansão e sustentabilidade estão em risco devido à escassez de cuidadores com contrato estável, uma vez que a maioria opera através de recibos verdes. A preocupação foi manifestada por António Augusto Borges, provedor da instituição, que destacou a necessidade urgente de apoio governamental para garantir a continuidade do projeto.
Em entrevista ao DL, António Augusto Borges sublinha que a falta de estabilidade laboral dos cuidadores é o principal entrave para que o programa atinja o seu potencial máximo. “O problema é o recibo verde”, afirmou o provedor. “Temos muita dificuldade. Se não, já teríamos atingido os 50 [idosos], mas o problema é que não existem cuidadores disponíveis.”
Apesar das dificuldades, o provedor destacou o sucesso do projeto, que tem uma lista de espera de oito pessoas, depois de 104 inscrições iniciais. “Há muita gente, ainda tem outros na lista de espera”, frisou. “Desistências, até hoje, nunca se verificaram, ou seja, as desistências são pessoas que, na realidade, não podem mesmo continuar em casa”. O provedor revelou ainda que a questão será um dos temas a levar à sua próxima audiência com o Presidente do Governo Regional dos Açores.

No final da entrevista, o provedor fez questão de realçar o papel fundamental da equipa da Santa Casa da Misericórdia de Santo António que considera a maior riqueza da instituição. “A gente pode estar falando aqui de tudo o que a gente puder falar”, disse. “E, acima de tudo, a maior riqueza são os recursos humanos”.
António Augusto Borges salientou que a missão de trabalhar com idosos e pessoas com deficiência exige vocação e sacrifício, mas que a equipa da Misericórdia da Lagoa demonstra um grande espírito de entrega. “Tentamos criar aqui um ambiente familiar, um espírito de missão, um espírito de entrega”, concluiu.