
A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, na ilha do Faial, vai acolher a final regional do Desafio Kahoot Cultura Geral dos Açores, que este ano assinala a sua oitava edição e tem como tema central a comemoração dos 50 anos da autonomia regional. O evento terá início pelas 10h00.
Na final vão estar presentes os três primeiros classificados de cada ciclo de ensino – 1.º, 2.º e 3.º ciclos – e ainda a categoria Azores Quiz, disputada em inglês e destinada aos alunos do ensino secundário das nove ilhas do arquipélago. Ao todo serão cerca de trinta concorrentes, acompanhados pelos professores que dinamizam a iniciativa em cada uma das ilhas.
O Desafio Kahoot Cultura Geral dos Açores tem-se afirmado como um marco dos planos de atividades das escolas e uma atividade atrativa para os alunos que, ano após ano, procuram repetir a experiência, enquanto aprofundam o conhecimento da sua terra.
Este concurso consiste numa competição digital, disputada através da plataforma ????????ℎ????????????, e incide sobretudo nas temáticas de História, Geografia, Cultura, Literatura, Botânica, Biologia e Etnografia das nove ilhas dos Açores.

O presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, participou na sessão solene comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril de 1974, realizada na Assembleia da República, em Lisboa.
A cerimónia voltou a assinalar uma das datas mais marcantes da história de Portugal, evocando o fim de décadas de ditadura e o início de um caminho sustentado na liberdade, na democracia e na participação dos cidadãos na vida pública.
As comemorações deste ano decorrem num contexto simbólico, ao coincidirem com os 50 anos da Constituição da República Portuguesa e da autonomia regional, dois marcos que resultam diretamente do processo democrático iniciado com a Revolução dos Cravos.
José Manuel Bolieiro tem sublinhado que o 25 de Abril “abriu um novo horizonte histórico”, ao restabelecer a liberdade e criar condições para que a autonomia dos Açores pudesse ser afirmada em democracia. Neste âmbito, destaca a Constituição de 1976 como “um momento fundador”, por reconhecer “com clareza e densidade” a autonomia político-administrativa do arquipélago.
Segundo o governante, esse enquadramento permitiu dotar a região “de órgãos de governo próprio e de um espaço institucional legítimo” para afirmar as suas especificidades e defender os seus interesses.
José Manuel Bolieiro tem igualmente defendido que o 25 de Abril representa “uma conquista democrática em Portugal e nos Açores”, cuja memória deve continuar a mobilizar a sociedade para a defesa da liberdade, da participação cívica e do aprofundamento da autonomia.

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Há uma reflexão que gosto de fazer sempre que chega Abril: o que estamos a fazer com a liberdade que recebemos?
Falamos muitas vezes do 25 de Abril como um marco da nossa história e é. Foi o momento em que o país teve a coragem de mudar, de escolher a democracia e de abrir caminho para que cada pessoa pudesse decidir o seu próprio destino.
Mas a liberdade não vive apenas no passado. A liberdade pede presença. Pede cuidado. Pede responsabilidade.
Nos Açores, essa conquista teve um significado ainda mais profundo. Com a liberdade chegou também a Autonomia, a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, de olhar para as nossas ilhas com os nossos próprios olhos, de assumir, com maturidade e sentido de responsabilidade, o rumo do nosso futuro.
Mas, não tenhamos ilusões, a Autonomia foi, acima de tudo, uma conquista. Não nasceu num dia, nem foi um dado adquirido, foi construída com tempo, com coragem e com muita persistência. Foi o resultado de uma luta longa, feita de vozes que não se calaram, de pessoas que resistiram e de um Povo que nunca deixou de acreditar em si. Foi essa caminhada, tantas vezes difícil, que nos trouxe até aqui. E foi também a afirmação de que saberíamos cuidar da nossa terra, valorizar o que é nosso e construir um caminho com identidade própria.
Ao longo destes anos, fomos crescendo enquanto região. Fomos consolidando instituições, afirmando a nossa voz e construindo uma identidade que hoje é reconhecida e respeitada dentro e fora do país.
Mas há algo que nunca podemos esquecer: a liberdade não é uma obra acabada.
A liberdade constrói-se todos os dias.
Constrói-se quando as pessoas sentem que o seu trabalho tem valor.
Quando os jovens acreditam que podem ficar nas suas ilhas e ali construir a sua vida, com dignidade e esperança. Quando as comunidades se juntam, não para desistir perante as dificuldades, mas para as transformar em oportunidades, com confiança no futuro.
Talvez seja por isso que eu acredite tanto nas pessoas da nossa terra.
Acredito nos agricultores que continuam a trabalhar mesmo quando o caminho é difícil. Nos jovens que arriscam, que inovam, que insistem em criar algo novo. Nas comunidades que cuidam umas das outras e que mantêm viva a essência das nossas ilhas.
Os Açores sempre foram feitos desta força. Desta resiliência que não faz ruído, mas que nunca cede. De gente que não espera que os caminhos apareçam, mas sim, de gente que os constrói, todos os dias.
Mas construir futuro exige mais. Exige visão, responsabilidade e, sobretudo, coragem para acreditar no potencial da nossa terra e do nosso Povo. Exige também escolhas, compromisso e a capacidade de não desistir perante os desafios.
E nós temos razões para acreditar.
Temos recursos únicos, uma ligação profunda à nossa terra e comunidades que sabem o valor de caminhar juntas. Temos uma identidade que nos distingue e que nos dá força.
O verdadeiro desafio está em transformar esse potencial em oportunidades reais, oportunidades para trabalhar, viver e criar família nas nossas ilhas, com qualidade de vida e estabilidade.
A vida tem-me ensinado que o verdadeiro valor das coisas raramente está no que é mais complexo. Está no que é verdadeiro: no respeito pela terra, no cuidado com a vida e na capacidade de caminharmos juntos.
É por isso que continuo a acreditar profundamente nos Açores.
Acredito num arquipélago que valoriza quem trabalha. Que cria oportunidades para os seus jovens. Que preserva a sua identidade sem deixar de olhar para o futuro.
Mais de cinquenta anos depois do 25 de Abril, a liberdade continua a ser um convite.
Um convite para participarmos mais. Para cuidarmos melhor do que é nosso. Para acreditarmos que o futuro não está escrito, constrói-se.
E constrói-se todos os dias, com trabalho, com confiança e com esperança.
Porque, no fundo, somos isso mesmo: um Povo feito de raízes e de sonhos.
Raízes que nos prendem à terra, à nossa história e às pessoas que vieram antes de nós.
E sonhos que nos empurram para a frente, lembrando-nos que a liberdade só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando nos dá coragem para continuar a construir, com responsabilidade e com esperança, o futuro dos Açores.

O presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, anunciou o lançamento do concurso de fotografia “50 Anos de Autonomia”, uma iniciativa que resulta de uma parceria entre o Parlamento açoriano e a Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores (AFAA), com o objetivo de “valorizar a identidade açoriana, a memória coletiva e o percurso democrático do arquipélago”.
A iniciativa, integrada nas comemorações do cinquentenário da Autonomia, “pretende celebrar o caminho feito ao longo de cinco décadas na Região, valorizando a forma como os açorianos se veem a si próprios e ao seu território, através da arte e da criatividade”, afirmou o presidente do Parlamento durante a assinatura do protocolo de cooperação entre a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e a Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores (AFAA).
As candidaturas, abertas a todos os fotógrafos, amadores e profissionais, residentes ou não nos Açores, abrem na próxima segunda-feira, dia 13 de abril e decorrem até 31 de agosto de 2026. Sob o tema “Ser Açores”, o concurso convida os participantes a explorar uma identidade moldada pelo mar, pelo isolamento e pela resiliência, desafiando-os a refletir sobre o passado, a interpretar o presente e imaginar o futuro da autonomia açoriana.
Cada participante poderá submeter até quatro fotografias, sem restrições quanto às técnicas utilizadas, devendo os trabalhos refletir adequação ao tema proposto, impacto visual, qualidade técnica, composição e mensagem. O júri será composto pelo fotojornalista da SIC, Rui Caria e pelos fotógrafos independentes Luís Godinho e Pepe Brix, em representação da AFAA e, em representação da ALRAA, Hélio Silveira e Isabel Nolasco, ambos fotógrafos amadores e técnicos superiores da ALRAA.
A exposição resultante do concurso terá carácter itinerante e será composta por uma seleção de vinte fotografias, sendo atribuídos três prémios monetários aos trabalhos vencedores. A inauguração da exposição e a apresentação dos resultados terão lugar no dia 20 de outubro, no átrio da Assembleia Legislativa, na cidade da Horta, ilha do Faial.
O regulamento completo estará disponível a partir do dia 13 de abril no site oficial da Assembleia Legislativa, em www.alra.pt, bem como nas redes sociais da ALRAA e da AFAA.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Há um problema nos Açores de que pouco se fala com frontalidade, mas que continua a condicionar decisões, atrasar o desenvolvimento e dividir aquilo que devia estar unido: o bairrismo entre ilhas.
Não falo de identidade local, essa é saudável, faz parte de quem somos e deve ser preservada. Falo, sim, de um bairrismo doentio, pequeno e muitas vezes alimentado por discursos fáceis, que transformam a realidade numa competição permanente entre ilhas. Agravado quando alguns personagens estão em lugares de decisão ou influencia.
E há uma frase que resume bem esse problema: “vai tudo para São Miguel”.
Repete-se como um mantra. Mas raramente é acompanhada de factos, dados ou análise séria. É uma frase que nasce mais da perceção do que da realidade, e, pior ainda, serve muitas vezes para justificar erros, ineficiências e falta de estratégia.
O desenvolvimento dos Açores não pode ser feito à base de slogans. Nem pode ser construído numa lógia de “tirar a uns para dar a outros”. Isso não é coesão. Isso é criar desequilíbrios.
Mas também é um erro, e convém dizê-lo sem medo, penalizar as zonas onde existe maior concentração populacional, maior atividade económica e, naturalmente, maiores necessidades. Escolas, hospitais, habitação, segurança, infraestruturas: tudo isso cresce onde há mais gente. Ignorar isto não é justiça. É negar a realidade.
Durante anos criou-se a ideia de que equidade significa replicar tudo em todo o lado, independentemente da escala, da procura ou da viabilidade. Essa visão não só é errada, como está a custar caro à Região.
Equidade não é igualdade cega. Equidade é garantir que todos têm acesso ao essencial, saúde, educação, mobilidade, dignidade, ajustando as respostas às realidades concretas de cada ilha.
E aqui começa o verdadeiro problema: exigir tudo, em todo o lado, sem assumir responsabilidades.
Não podemos exigir transportes marítimos regulares e eficientes e depois não ter capacidade de planeamento básico, como a criação de reservas quando sabemos que existem falhas.
Não podemos exigir ligações aéreas diretas para o exterior em quase todas as ilhas e, ao mesmo tempo, ignorar que muitas dessas rotas operam com baixa ocupação e prejuízos elevados. Obrigar companhias a manter rotas inviáveis não é desenvolvimento, é acumular problemas que alguém, mais cedo ou mais tarde, vai pagar. E, no fim, pagamos todos.
Curiosamente, muitos dos que mais falam em “centralismo” são, na prática, os mais centralistas de todos, não no sentido geográfico, mas no sentido mental. Defendem apenas o seu território, o seu interesse imediato, a sua ilha. Raramente os vemos com uma visão global dos Açores. Raramente os vemos defender o todo.
E é precisamente essa falta de visão conjunta que nos está a bloquear.
A realidade é simples: governar os Açores é, em muitos aspetos, como gerir uma família com recursos limitados.
Imaginemos uma família com rendimentos modestos e vários filhos. Todos querem o melhor, e é legítimo que queiram. Mas o orçamento não permite dar tudo a todos, da mesma forma, ao mesmo tempo.
Se a decisão for feita apenas com base em quem grita mais alto, a consequência é previsível: endividamento, desequilíbrio e, no limite, colapso.
Gerir bem implica fazer escolhas. Implica definir prioridades. Implica, muitas vezes, dizer “não” no curto prazo para garantir sustentabilidade no futuro.
E isso exige maturidade social e política.
Os Açores precisam dessa maturidade. Precisam de deixar para trás discursos fáceis e assumir uma visão estratégica, equilibrada e realista.
Enquanto continuarmos presos a este bairrismo pequeno, vamos continuar a desperdiçar recursos, a alimentar conflitos artificiais e a travar o desenvolvimento da Região.
A verdade é simples: ou pensamos os Açores como um todo, ou vamos continuar a perder todos, ilha por ilha.

A diáspora açoriana no Brasil está no centro da agenda política regional nos próximos dias, com o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, a dar início a uma visita oficial de alto significado simbólico. Segundo a nota enviada pelo executivo açoriano à nossa redação, a deslocação ocorre num momento de particular relevo histórico, coincidindo com as celebrações dos 50 anos da Autonomia dos Açores. O governante, acompanhado pelo diretor regional das Comunidades, José Andrade, e pela investigadora Susana Goulart Costa, tem como objetivo estreitar os laços com as comunidades lusodescendentes nos estados do Rio Grande do Sul e do Maranhão, num périplo que combina diplomacia cultural, apresentações académicas e a inauguração de novos espaços de memória.
O roteiro arrancou este sábado, 21 de março, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, onde a comitiva visitou a Casa dos Açores local para celebrar o 23.º aniversário da instituição. O programa em terras gaúchas ganha especial contorno em Porto Alegre, cidade que detém o título de maior metrópole do mundo fundada por açorianos. No Teatro da Santa Casa, inserido nas festividades da “Semana de Porto Alegre”, será lançada a obra “Açores: Nove Ilhas, Nove Histórias”, da autoria de Susana Goulart Costa. Este livro, editado pela Secretaria Regional em parceria com a Casa dos Açores local, pretende ser uma ferramenta de proximidade e conhecimento sobre a realidade atual e histórica do arquipélago junto dos descendentes de terceira e quarta gerações.
A segunda etapa da viagem foca-se no Nordeste brasileiro, especificamente em São Luís do Maranhão, onde a agenda institucional atinge o seu ponto alto na segunda-feira, 23 de março. Antes dos atos protocolares, Paulo Estêvão realizará uma visita de cortesia ao antigo Presidente da República do Brasil, José Sarney, seguindo-se uma apresentação académica da obra de Susana Goulart Costa na Universidade Estadual do Maranhão. O culminar da visita oficial acontecerá durante a tarde, com o governante açoriano e o Governador do Estado do Maranhão a presidirem à inauguração oficial da “Praça dos Açores” e do “Museu Açoriano”. Estas novas infraestruturas representam um marco decisivo na preservação do legado cultural dos nossos antepassados naquela região, garantindo que a identidade açoriana permaneça viva e visível no quotidiano brasileiro.

A Associação CVA – Centro de Vida Autónoma dos Açores promoveu recentemente a palestra “Assistência Pessoal: a engenharia da autonomia – do ser ao destino”, um evento que serviu para debater o impacto da ausência de assistência a pessoas com deficiência e os seus efeitos práticos e psicológicos. A iniciativa contou com a presença da vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Cristina do Canto Tavares, que, segundo uma nota enviada pela autarquia à nossa redação, reconheceu a importância dos testemunhos partilhados para “refletir e definir qual o caminho a seguir” no âmbito das políticas de inclusão.
A Associação CVA, que conta atualmente com 38 associados, foca a sua atividade no apoio a pessoas com deficiência através de um serviço de assistência pessoal. Esta ferramenta é apresentada como um recurso para a promoção da vida independente, disponibilizando apoio na realização das atividades diárias, de acordo com as necessidades e escolhas de cada indivíduo. Sobre o trabalho da associação, que conta com um ano de existência, a vereadora afirmou acreditar que a instituição “tem muito mais para dar à nossa sociedade”, deixando o compromisso de um apoio financeiro municipal para técnicos ou equipamentos assim que a CVA esteja constituída como IPSS.
Durante a sessão, foram também abordados os mecanismos públicos já existentes, com destaque para o Balcão da Inclusão de Ponta Delgada. Segundo a autarca responsável pela área social, este serviço “centraliza informações e garante respostas sociais às pessoas com deficiência ou com incapacidade do concelho”, visando contribuir para uma vida mais autónoma. Cristina do Canto Tavares referiu ainda medidas como o reforço do Fundo Municipal de Solidariedade Social e majorações em apoios ao arrendamento e bolsas de estudo para famílias que integrem pessoas com incapacidade.
O encontro terminou com um convite à participação cívica, tendo sido solicitado aos presentes o envio de contributos e sugestões para o Plano Municipal para a Igualdade e Não Discriminação da Câmara Municipal de Ponta Delgada. De acordo com a vereadora, a colaboração direta com quem lida com estas realidades é fundamental para a eficácia das decisões públicas, sublinhando que “só juntos conseguiremos definir políticas e chegar a soluções benéficas para todas as pessoas”.

Bruno Pacheco
Cinquenta anos de autonomia deveriam bastar para discutir o futuro dos Açores. Pelos vistos, vão servir sobretudo para organizar conferências, multiplicar sessões solenes e servir croquetes acompanhados de bules de chá em respeitáveis salões institucionais.
Não é propriamente uma surpresa. Sempre que chega a hora de celebrar algo importante na nossa vida política, há uma curiosa tendência a transformar a reflexão em cerimónia e o debate em protocolo. A autonomia, pelos vistos, também não escapou a esse destino.
Se a apresentação do programa oficial das comemorações dos 50 anos da Autonomia Constitucional já tinha servido de aperitivo para o que aí vinha — incluindo o debate sobre Autonomia e Comunidades, um evento escandalosamente marcado por propaganda laranja —, as chamadas Conversas da Autonomia, realizadas no Palácio dos Capitães-Generais, vieram apenas confirmar o que já era mais ou menos evidente: arriscamo-nos a ter comemorações pífias, em circuito fechado, destinadas sobretudo a falar sobre o que já fomos… e não sobre aquilo que queremos ser.
Do último encontro, e do que foi possível perceber pela comunicação social, registe-se uma honrosa exceção: a intervenção do diretor do TERINOV, que lembrou algo essencial — autonomia sem sustentação no conhecimento é apenas uma ilusão permanente.
Tudo o resto foi mais do mesmo. Até intervenções por encomenda tivemos.
As comemorações dos 50 anos da Autonomia parecem ter sido concebidas por um comité altamente especializado: especialistas em programas institucionais perfeitamente inofensivos.
Conferências. Sessões solenes. Exposições. Debates entre pessoas que já concordavam umas com as outras antes de começarem a falar.
Tudo muito digno. Tudo muito protocolar. Tudo muito… inofensivo.
Se alguém estivesse à procura de uma forma segura de celebrar meio século de autogoverno sem correr o risco de discutir seriamente o futuro da autonomia, dificilmente conseguiria fazer melhor. Voilá.
O curioso é que estas comemorações tratam a autonomia como se fosse uma relíquia histórica cuidadosamente guardada numa vitrina. Olha-se para ela. Admira-se. Lê-se a legenda. Mas parece que ninguém está particularmente interessado em perguntar se o objeto ainda funciona.
A autonomia dos Açores consolidou-se em 1976, no novo enquadramento constitucional português, mas a sua energia política começou a fermentar ainda antes, nos meses turbulentos de 1974 e 1975, quando se discutia intensamente como garantir autogoverno, em diferentes formatos e feitios.
Foi um tempo de debates intensos, tensões políticas e ideias novas. A autonomia não nasceu de um consenso morno. Teve direito à Guerra das Bandeiras, a discursos inflamados e a noites mal dormidas.
Passaram cinquenta anos. E surgiram novos desafios: dependência financeira estrutural (agravada nos últimos 5 anos); soberania energética num mundo instável; inverno demográfico em várias ilhas; a biodiversidade como ativo estratégica; e governação multinível na União Europeia.
E, no entanto, nas comemorações parece que ainda continuamos na fase do “foi muito importante naquela altura”. Como se o principal desafio da autonomia fosse recordar que ela existe.
Falta densidade cívica. Falta ouvir quem percorre as arquinhas da vida. Falta sobretudo densidade política.
Porque o verdadeiro debate sobre a autonomia não é apenas histórico ou comemorativo. É um debate sobre poder: que poderes tem hoje a Região, quais são efetivamente exercidos e quais continuam condicionados pela prática política ou pela dependência financeira.
Mas, no fundo, talvez o verdadeiro problema seja outro. Enquanto organizamos conferências sobre a história da autonomia, vamos, discretamente, evitando discutir a sua realidade atual. Uma autonomia cada vez mais dependente financeiramente, cada vez mais condicionada por decisões tomadas fora do arquipélago e cada vez mais tratada como um capítulo administrativo da República (ver o caso do subsidio de mobilidade).
Celebrar a autonomia sem discutir o poder real que ela exerce hoje é um exercício confortável. Mas é também uma forma particularmente elegante de evitar a pergunta mais incómoda de todas: que autonomia temos hoje e que autonomia queremos realmente ter amanhã?
Nasceu na rua, nas freguesias, nas cooperativas, nas associações e nas Casas do Povo. Nasceu de uma necessidade simples: os açorianos governarem o próprio destino. Por isso é estranho que, cinquenta anos depois, as comemorações pareçam concentrar-se sobretudo nos salões institucionais…e de chá.
Chegados aqui impõe-se a questão: E porque não fazer da celebração da Autonomia uma grande Assembleia Cidadã, desconcentrada e descentralizada? Da Fajã Grande as Santos Espíritos, todas as veredas e canadas dos nossos Açores têm de (deveriam) ser percorridas no âmbito destas comemorações. Todas…mas vamos ficar pelos salões.
‘Que autonomia temos hoje? Que autonomia precisamos amanhã? O que mudou na relação entre Lisboa e os Açores? Vamos andar sempre de mão estendida como nos últimos anos?…apenas algumas questões par as assembleias de cidadãos.
Se quiséssemos realmente aproveitar os 50 anos da autonomia para preparar o futuro, talvez estivéssemos a discutir coisas bem mais concretas.
A elaboração de um Livro Branco da Autonomia, por exemplo, que sistematizasse meio século de experiência autonómica e identificasse os caminhos para as próximas décadas; uma discussão séria, e sem as demagogias alaranjadas, sobre a revisão da Lei de Finanças das Regiões Autónomas; Um debate profundo sobre o pleno exercício dos poderes autonómicos, muitas vezes mais condicionados pela prática política do que pela própria Constituição. E, claro, as questões do mar e do… espaço.
Nada contra os croquetes. Nem contra os salões de chá. Toda a civilização precisa dos seus rituais, mas a autonomia não pode ser pensada para viver dentro de um programa de eventos.
Talvez um aniversário de cinquenta anos merecesse algo mais do que uma sucessão de eventos em auditórios respeitáveis. Merece, sim, um arquipélago inteiro a discutir o seu futuro. Porque a autonomia não foi criada para ser comemorada. Foi criada para ser exercida.
E isso, sejamos claros, não acontece entre um discurso protocolar, um aperto de mão institucional e um prato de croquetes cuidadosamente alinhados numa bandeja de prata servidos num salão de chá…de um palácio ao virar da esquina.

O presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, convidou formalmente o presidente da república, António José Seguro, para presidir à sessão solene comemorativa dos 50 anos da autonomia dos Açores. O convite, enviado através de uma missiva endereçada esta tarde, propõe que o chefe de estado encabece as celebrações que terão lugar no próximo dia 4 de setembro, na sede do parlamento açoriano, na cidade da Horta.
Segundo nota de imprensa enviada pela ALRAA, a iniciativa de Luís Garcia surge na sequência da recente tomada de posse do presidente da república, aproveitando o momento para sublinhar o profundo significado histórico desta data, tanto para o arquipélago açoriano como para o todo nacional. Na carta enviada a Belém, o presidente do parlamento regional destaca o percurso de cinco décadas de afirmação política, social e institucional dos Açores, consolidando o seu papel dentro do atual quadro constitucional português.
Para o líder do legislativo açoriano, a celebração deste meio século de autonomia representa um marco de particular relevância, assinalando um período de desenvolvimento contínuo e de amadurecimento do modelo político-administrativo da região. Luís Garcia manifestou ainda a elevada expectativa de contar com a presença de António José Seguro, realçando que a participação do chefe de estado nesta ocasião solene é fundamental para o reforço do relacionamento institucional entre os órgãos de soberania e os órgãos de governo próprio dos Açores, num momento de afirmação da identidade e da maturidade autonómica.

A Faculdade de Economia e Gestão da Universidade dos Açores (UAc) promove esta quarta-feira, 5 de março, a lição de jubilação do Professor Doutor Mário Fortuna. Sob o tema “Meio Século de Economia Açoriana em Autonomia: Avanços e Desafios”, a conferência terá lugar entre as 16h30 e as 18h00, no anfiteatro IX do campus de Ponta Delgada.
Segundo a nota de imprensa enviada pela faculdade, o evento marca o encerramento formal da atividade docente de uma das figuras mais proeminentes da academia regional. A sessão celebra uma carreira dedicada ao ensino, à investigação, à gestão universitária e à intervenção cívica.
Doutorado pelo Boston College (EUA) e Professor Catedrático desde 2004, Mário Fortuna consolidou um percurso que incluiu passagens por instituições internacionais de referência e a formação de sucessivas gerações de economistas. Fora do meio académico, o docente exerceu o cargo de secretário regional da Economia, em 1990, e liderou o Secretariado Regional da Ordem dos Economistas, bem como a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada.
Na Universidade dos Açores, o seu contributo foi estruturante. Desempenhou funções de relevo como presidente do Conselho Científico e diretor do departamento de Economia e Gestão, tendo sido uma peça fundamental na criação e reestruturação de cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento que afirmaram a instituição nas áreas do turismo e da gestão.
Para além da vertente académica, a lição de jubilação reflete a experiência de quem acompanhou a economia açoriana a partir de diferentes prismas, incluindo a governação pública. O debate que se segue à lição contará com a presença do presidente da Faculdade de Economia e Gestão, João Teixeira, sendo aberto a estudantes, docentes e ao público em geral.
A sessão tem entrada livre e não requer inscrição prévia. Haverá ainda a entrega de certificados de participação aos interessados, naquele que será um momento de homenagem e de reflexão sobre o percurso económico do arquipélago nas últimas cinco décadas.