Log in

A história do piloto-mecânico da Lagoa

Das madrugadas na oficina às curvas das estradas açorianas, Rúben Borges prova que o rali é um “vício” alimentado pelo próprio suor. E desde há vários anos que assim é e vai continuar a ser, espera este lagoense

 Rúben Borges segue de perto o mundo dos ralis desde muito novo © DL

Há paixões que não se explicam, herdam-se. Para o piloto natural de Lagoa, nascido em 1984, o cheiro a óleo queimado e o som dos motores de combustão nunca foram ruído, mas sim uma espécie de banda sonora. Criado no Cabouco, com passagens marcantes pela casa da avó paterna em Santa Cruz, este entusiasta personifica o espírito do piloto açoriano.

O seu “berço” foi a oficina do pai. “Esta área nasceu comigo. O meu pai estava a manter uma oficina mecânica e a primeira vez que me sento dentro de um carro e começo a conduzir é pelos sete ou oito anos”, confessa com nostalgia.

A escola do “Fisher”, na Lagoa, deu-lhe a educação formal, mas foi a garagem que lhe conferiu a “licença” para sonhar. Quando chegou a hora de decidir o futuro profissional, o destino parecia traçado: “na altura, quando decidi escolher, era muito difícil a gente entrar no ramo automóvel porque tinha um monte de fiscalizações”, recorda.

A paixão pelas provas de estrada surgiu como uma extensão natural da sua vida na oficina. Seguia os ralis com fervor, admirando figuras como Augusto Ponte, que descreve como uma pessoa especial que lhe deu o “clique” definitivo. Em 1994, o som dos carros a passar perto da casa da avó já lhe acelerava o coração. “Eu andava sempre ali perto dele, foi das pessoas que me deram o ‘clique’ nos ralis e isso nunca se esquece, porque foi aquela primeira pessoa que teve impacto”, afirma. 

Contudo, a transição para o banco do condutor só aconteceu oficialmente em 2021. O veículo escolhido reflete a sua identidade: um diesel com história, que pertenceu anteriormente a Ricardo e Paulo, os seus mentores na oficina Auto Central, onde trabalha há 24 anos. “Hoje em dia, se não é o Ricardo e o Paulo, acho que eu não consigo estar neste projeto sozinho nos ralis. São duas pessoas que me ajudam muito”, admite.

“Tiro muito tempo da minha vida pessoal”

Ser piloto amador nos Açores é um exercício que requer equilíbrio. Diferente das equipas profissionais, aqui é o próprio piloto quem prepara tudo. “Trabalho bastante e tiro muito tempo da minha vida pessoal, deixo muita coisa para trás para me dedicar aos ralis”, desabafa. Este espírito de sacrifício conta com a solidariedade de colegas. Em casa, o filho de 16 anos compreende a paixão do pai, embora prefira manter distância da oficina: “Ele não gosta, fica com medo”, brinca o piloto, aceitando que o seu verdadeiro legado será o exemplo de determinação.

Rúben Borges recorda o percurso de navegadores como Rúben Silva, até à parceria atual com Mateus e Emanuel Cabral. A relação é testada ao limite, como aconteceu no último rali, onde um entusiasmo excessivo resultou num toque num passeio e num furo logo a abrir. “Eu falhei na Super Especial. Estava entusiasmado e com o carro fiz alguma coisinha que não foi com jeito”, reconhece. 

Recentemente, o piloto e mecânico adicionou o kickboxing ao seu dia a dia. Praticante desde o verão passado, vê na modalidade uma ferramenta para a estrada. “O kickboxing ajuda muito nos ralis em termos de preparação física, de reflexos e de concentração. Então, imaginei que devia optar pelo kickboxing e gosto muito”, explica, revelando que já pondera entrar em competição também nesta área.

Olhando para o futuro, o sonho é ambicioso: “Eu gostava de fazer um campeonato inteiro. Gostava muito. Mas nove ralis durante o ano é muito complicado”, confessa. Por enquanto, continua a ser o piloto-mecânico que gere o azar com serenidade: “Quando faço os ralis, eu penso de rali a rali porque pode-se ter um azar e não conseguir”. Enquanto houver asfalto e vontade, este piloto continuará a alimentar uma paixão que nasceu cedo.

“O medo existe, mas aprende-se a controlá-lo e a agir com profissionalismo”

Bruno Oliveira é agente da PSP em Rabo de Peixe e lida com todo o tipo de pessoas no seu dia a dia. Já foi guarda-redes e treinador de guarda-redes. Agora, nos tempos livres, dedica-se a pintar carros

Bruno Oliveira também representou diversos clubes e esteve ao serviço do Operário © ACÁCIO MATEUS

Nasceu em Lisboa, no Bairro de Alvalade, em 1978, mas foi nos Açores, mormente em São Miguel, que se estabeleceu profissionalmente, ilha onde ainda hoje reside e exerce a profissão de agente da PSP. Mas Bruno Oliveira também é conhecido pela sua profunda ligação ao futebol e pela dedicação a um part-time que deixa qualquer tipo de viatura como nova.

O resumo da infância vivida na capital portuguesa, antes de rumar à maior ilha dos Açores, é feito na primeira pessoa: “Cresci em Lisboa, num contexto simples, mas muito rico em vivências. Passei grande parte da infância na rua, a jogar à bola e a conviver com amigos do bairro, algo muito típico da época. Foi uma infância marcada por valores como o respeito, a entreajuda e a noção de responsabilidade, muito incutidos pela família. A cidade, com toda a sua diversidade social, ajudou-me desde cedo a perceber realidades muito diferentes”, recordou.

Embalado pelas recordações e com as memórias bem presentes, Bruno Oliveira mostrou ser um homem de convicções fortes, não tivesse ele decidido abraçar uma carreira na Polícia de Segurança Pública (PSP) bem cedo, inspirado pela missão de servir o bem comum.

“A ideia de ingressar na PSP começou a ganhar forma ainda jovem. Sempre tive um forte sentido de justiça e uma vontade genuína de ajudar os outros. O contacto com elementos da polícia e a perceção do papel fundamental que desempenham na sociedade foram determinantes. A estabilidade profissional também foi um fator importante, mas, acima de tudo, pesou a missão de servir a população”, disse.
Quem opta por esta via profissional não espera facilidades no dia a dia. E Bruno Oliveira sabe-o perfeitamente, não apenas pela exigência do serviço, mas, igualmente, pelo diferente tipo de pessoas com que tem que lidar nas mais diversas situações.

Daí reconhecer que o percurso na PSP tem sido “exigente, mas muito enriquecedor, tanto a nível profissional, como pessoal. O trabalho diário envolve contacto direto com o público, prevenção criminal e intervenção em ocorrências diversas”, especificou.

Não raras vezes, Bruno Oliveira lida com “todo o tipo de pessoas”, desde “cidadãos em dificuldade, vítimas, mas também suspeitos da prática de crimes”. É, assumiu, “um trabalho que exige equilíbrio emocional, capacidade de comunicação e tomada de decisão sob pressão”.

Senti que o risco era real”

Na vida de um agente da PSP o risco está sempre presente. Bruno Oliveira reconhece-o sem rodeios. “Sim! Houve situações em que senti que o risco era real. Faz parte da profissão. Nessas alturas, o treino, a experiência e o trabalho em equipa fazem toda a diferença. O medo existe, mas aprende-se a controlá-lo e a agir com profissionalismo”.

A opção Açores foi como que por arrastamento devido à carreira profissional dos pais. “A ida para os Açores surgiu no âmbito da carreira profissional dos meus pais, através de uma oportunidade de colocação. Foi um desafio grande, não só a nível profissional, mas também pessoal. A adaptação a um novo contexto geográfico e social acabou por ser muito positiva e marcou-me profundamente”, adiantou.

O futebol e a pintura como paixões

Nos Açores, Bruno Oliveira também se dedicou ao futebol, primeiro como guarda-redes, depois como treinador de guarda-redes. Representou diversos clubes na ilha e, mais recentemente, esteve ao serviço do Operário na qualidade de treinador dos guardiões dos fabris. As recordações são, por isso, muitas.
“O futebol foi sempre uma paixão. Como guarda-redes vivi momentos muito intensos, de grande responsabilidade e superação. Mais tarde, como treinador de guarda-redes, tive a oportunidade de transmitir conhecimentos e ajudar jovens atletas a evoluir, o que foi extremamente gratificante. O futebol galvanizou alguns valores fundamentais como disciplina, resiliência e espírito de equipa”, reconhece.
Entretanto, no último ano, optou por fazer uma pausa para “reorganizar prioridades”. “A pausa prendeu-se, sobretudo, com questões pessoais. Nem sempre é fácil conciliar tudo e senti necessidade de abrandar e reorganizar prioridades. Não foi um adeus definitivo, mas sim um tempo para refletir e recuperar energia”, adiantou.

Pausa no futebol, mas não na pintura automóvel, outra das suas paixões, algo que foi “descobrindo ao longo do tempo”. Primeiro por “curiosidade”, mas depois, com o passar dos anos, “acabou por se tornar uma atividade que me dá grande satisfação. Gosto do lado prático e criativo da pintura automóvel, do cuidado com o detalhe e do resultado final. É uma forma de desligar do stress do dia a dia”, disse.

Autarquia lagoense acompanha no terreno operações em Água de Pau

© CM LAGOA

O presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Frederico Sousa, acompanhou no terreno as operações de resposta e recuperação na sequência da intempérie que, este sábado, afetou a Vila de Água de Pau, no concelho de Lagoa, provocada pela forte precipitação que se fez sentir na ilha de São Miguel.

De acordo com nota de imprensa enviada pela autarquia lagoense, das situações reportadas destacam-se inundações em habitações e vias públicas na sequência do transbordo de ribeiras que provocaram o arrastamento de viaturas. Apesar dos danos materiais significativos, não há registo de vítimas.

Destaca-se a situação de inundação de uma moradia que ficou sem condições de habitabilidade, apesar de não se verificar a necessidade de realojamento, pelo facto dos habitantes da mesma terem ficado alojados em casa de familiares. Por outro lado, e pela força das águas que transbordaram da ribeira situada na Rua da Ribeira Seca, denominada de Ribeira de Santiago, foram arrastadas quatro viaturas, para a ribeira. No total, cerca de 15 viaturas ligeiras sofreram danos.

Durante o dia de sábado a autarquia refere que foi ativado, de imediato, o Plano Municipal de Proteção Civil do Município da Lagoa, e a Câmara Municipal, juntamente como apoio da Junta de Freguesia da Vila de Água de Pau, procederam à mobilização de meios de transportes e recursos humanos municipais para os trabalhos de limpeza e desobstrução das vias e das condutas da ribeira, bem como apoio às pessoas lesadas pelas inundações.

A limpeza e desobstrução das vias ficou concluída após oito horas de trabalho contínuo, acompanhados pelo presidente da Câmara da Lagoa, Frederico Sousa, pela presidente da Junta de Freguesia de Vila de Água de Pau, Vanessa Silva, a que se juntaram técnicas do Instituto de Segurança Social.

Durante esta segunda-feira, Frederico Sousa, Vanessa Silva e o serviço de proteção municipal da autarquia, acompanhados por técnicos da Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, encontram-se no local para proceder à análise e vistoria rigorosa à zona da Ribeira do Santiago, de forma a identificar as possíveis causas desta situação, uma vez que se verificou a presença de detritos no local, nomeadamente troncos de madeira, cuja remoção está a ser efetuada pelos operacionais da Secretaria do Ambiente e Câmara Municipal.

Relativamente aos prejuízos, já foram desencadeados pela autarquia da Lagoa, procedimentos no âmbito do Plano Municipal de Proteção Civil, para a ativação do Fundo de Emergência Climática do Governo Regional dos Açores, em estreita articulação e colaboração com a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática.

Carros arrastados por cheias em Água de Pau

© DL

Um número ainda indeterminado de carros, estima-se que cerca de 10 viaturas foram arrastadas pela força na água numa ribeira que passa na zona dos Barrancos na Vila de Água de Pau, na Lagoa, na última madrugada.

Não há registo de feridos. No local, decorrem trabalhos de limpeza da zona, para onde foram arrastados vários troncos de árvores e detritos. Elementos do serviço de Proteção Civil estão no local a proceder à limpeza do mesmo, com recurso a maquinaria pesada.

A chuva da última madrugada causou 32 ocorrências na ilha de São Miguel, sendo as mais graves nos concelhos de Ponta Delgada, Ribeira Grande e Lagoa.

CO2 nos Açores: Vulcões, Carros e Energia

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Recentemente, vi uma notícia sobre um estudo do CIVISA que indica que o Vulcão do Fogo emite aproximadamente 232 toneladas de CO2 por dia. Este valor pode parecer assustador, mas quando colocado em contexto, percebemos que não é um problema. Para demonstrar isso, vamos comparar esta emissão com outras fontes de CO2 e constatar que, na realidade, a nossa atenção deveria estar noutros locais. Falando em valores anuais para facilitar a análise, as 232 toneladas diárias equivalem a cerca de 84.360 toneladas por ano.

De acordo com dados da Agência Europeia para o Ambiente, a emissão média de CO2 dos carros novos vendidos em 2021 em Portugal foi de 105 g por quilómetro. Para acomodar a frota açoriana, que inclui veículos mais antigos, vamos considerar uma média de 130 g de CO2 por Km. O INE estima que a distância anual percorrida por um carro seja de cerca de 12.000 Km, o que nos dá uma emissão média de 1,5 toneladas de CO2 por ano por veículo. Considerando que nos Açores existem entre 150.000 a 200.000 carros, podemos estimar que a frota automóvel emite um total de 225.000 toneladas de CO2 por ano, quase o triplo das emissões do Vulcão do Fogo.

Mas vamos olhar para um setor que mais emite CO2 na região: a produção de energia elétrica. De acordo com o relatório anual da EDA, a emissão específica de CO2 na Região Autónoma dos Açores (RAA) foi de 454,5 g CO2/kWh em 2024. Com uma produção total de 861.226 MWh, o sistema elétrico da região emitiu cerca de 391.250 toneladas de CO2 em 2024, quase cinco vezes mais que o Vulcão do Fogo.

A produção de eletricidade na Madeira tem valores de emissão CO2 específicos muito semelhantes. Em comparação com Portugal Continental, as emissões são na ordem das 40 g CO2/kWh, cerca de 10 vezes menos do que em qualquer um dos arquipélagos. Mas há uma diferença crucial nas tendências. A percentagem de energia renovável no Continente tem aumentado de forma notável na última década. Em 2014, as renováveis representavam 27% da produção no Continente e 36% nos Açores. Em 2024, o Continente atingiu 71% de fontes renováveis, enquanto a percentagem nos Açores ficou em 34,3%, mostrando uma estagnação. Comparativamente ao arquipélago da Madeira, em 2014 a produção a partir de fontes renováveis estimava-se ser entre 25% e 30% e, em 2024, foi de 45%. Este aumento prova que a utilização de fontes renováveis em arquipélagos não é um problema intransponível nem único aos Açores.

Embora as ilhas mais pequenas enfrentem desafios na produção de energia renovável, elas representam uma fatia menor do consumo total. A ilha de São Miguel sozinha é responsável por cerca de 70% do consumo de toda a RAA. É aqui que reside a chave para a descarbonização. O problema não é o Vulcão do Fogo emitir 232 toneladas de CO2 por dia. O problema é que, apesar do seu potencial, em 2024 apenas 35,6% da energia produzida em São Miguel é de origem geotérmica.

A solução não passa por temer o vulcão, mas sim por aproveitar a sua energia.