
Júlio Tavares Oliveira
Formado em Português/Inglês
Há amores – muitos amores, muitas vezes os primeiros amores – que não têm direito a cartas de amor trocadas, que não vivem, direito, as suas cartas de amor, ou uma correspondência feliz; há amores que só se sabem – e se ouvem – pela dor constante que provocam, pelo ardume grave, e interno, que propagam, pela inflamação que os conduz e que os consome por dentro.
O amor sem cartas de amor é aquele amor inflamado, capaz, infundado, que não se ouve falar em lado nenhum pelos melhores motivos: é agressivo, violento, imparável, mas quieto, sisudo, miúdo, minúsculo; esse amor é o amor dos heróis e dos anti-heróis, dos eternos românticos apaixonados, dos nobres cavalheiros, de flor na lapela, que não cortejam, nem fazem flirt, mas que desejam tão intensa quando inconsequentemente, incondicionalmente, um amor qualquer que os destrói lenta e lentamente.
Mas não é desse amor sem cartas de amor que nascem os amores mais duradouros – distinga-se paixão de amor e traremos, nesse tratamento, nessa degustação, um amor pacífico, um amor estável, um amor que se baseia na correspondência.
Os amores incondicionais são extremamente agressivos e brutalmente corrosivos – são obsessivos, são obcecados, não têm, nem conhecem, limites.
São, de forma mais ou menos constante, uma ultrapassagem perigosa, um encontro marcado, mas magoado, em contramão, uma curva apertada a alta velocidade; um despiste incontrolável de sentimentos e emoções. Os amores, que são violentas paixões do coração, quando não são correspondidos por quem se ama desta forma, não trazem sossego, mas muita revolta e incompreensão.
E a revolta, na grande parte das vezes, traz a potência do crime, do litígio, do perigo – para quem se apaixona e para quem foge dessa paixão.
Os avisos são muitos e estão suspensos à nossa volta: mensagens constantes, chamadas constantes, perseguição, e tanto mais – por quem ama, incondicionalmente, a quem não ama, de todo, esse “incondicionalmente”, mas que o detesta.
É, diria eu, uma doença incapacitante, uma cegueira, que litiga, de forma abismal, contra quem daria a sua própria vida pela vida da pessoa que ama, mas que o detesta – e esta é a doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós. É, diria eu, uma necessidade, também, de se procurar ajuda especializada.
É aí que entra a necessidade, primeiro, de se reconhecer a si mesmo; e de se procurar ajuda – e há muita gente que nos pode, de facto, ajudar.
Posso dizer que já estive do lado que se apaixona, se calhar mais do que uma vez, incondicionalmente por alguém, numa vã inglória da vida – numa paixão que não se controla, nem se aprende a dominar, nem conhece as suas limitações ou os seus limites à sua superação constante, na tentativa de agradar, de todas as formas, a pessoa amada – invariavelmente, toda a paixão incondicional sem correspondência provoca repugnação, nojo, ou medo em quem se sente impotente, e incapaz, de parar tal proeza.
Aprender a largar não é fácil; aprender a aceitar o que nos magoa é difícil. Sobretudo para quem, como eu, ama de uma forma difícil de entender no mundo de hoje – de uma forma, por vezes, que se deixa ficar em último para que quem amamos fique em primeiro. A doença – se será? – de se amar de uma forma que nos prejudica tanto, e que só nos traz coisas negativas, lágrimas e prantos, importa, da parte de todos nós, que não se apontem dedos desnecessários, importa que não se julgue o incondicional por ser isto que é: incondicional.

Nuno Costa Santos
Escritor e argumentista
Tive afortunado acesso ao original, recém-adquirido por um coleccionador micaelense, de uma carta de Antero de Quental para José Bensaúde, destacado industrial açoriano com importante inclinação para as artes e para a cultura, de quem era muito amigo desde cedo. Tão amigo que foi em sua casa que viveu entre finais de Agosto de 1891 e 11 de Setembro de 1891, o dia da sua dramática morte com esperança ao fundo.
A carta revela o conhecimento que Antero manifestava por aquilo em que de melhor se destacavam povos que não os peninsulares. Aí, o poeta e intelectual português, a propósito de uma questão colocada por Bensaúde sobre a educação dos filhos – foi pai de Alfredo, Joaquim, Ester e Raúl -, discorre sobre as virtudes do ensino na Alemanha, que, a seu ver, suplantavam, de modo inequívoco, as do ensino francês, inglês e americano. A sofisticação alemã quer em ciência quer em moralidade são destacadas – tal como a combinação, sempre fundamental mas muitas vezes descurada, entre a instrucção teórica e a prática. A dado passo, escreve, no seu modo assertivo e absoluto de ser: “Os métodos alemães têm outra profundidade, e é por excelência a Alemanha o país da pedagogia”. (Noutra carta, que encontrei no volume primeiro das cartas, editado pela Universidade dos Açores, dirá que a Suíça, pedagogicamente, oferece iguais garantias de qualidade). Promete que em breve esclarecerá José sobre quais eram, na altura, os melhores colégios e que, para o edifício da compilação, contaria com o conselho dos alemães mais instruídos a residir em Lisboa. Um trabalho de casa feito com a generosidade que se dedica aos melhores amigos.
Para aferir sobre a forma como o fundador da Fábrica de Tabaco Micaelense, figura reconhecidamente crente e empenhada numa ideia de desenvolvimento cultural e social das comunidades, acolheu os conselhos de Quental em relação ao destino escolar da descendência, basta referir que Alfredo, o seu filho mais velho, viajou, com 16 anos, para a Alemanha com o objectivo de prosseguir os estudos. Primeiro, estudou em escolas particulares e, depois, entrou para a Escola Técnica Superior de Hanover, onde veio a terminar, em 1879, o curso de engenharia. Mais algumas notas curriculares que ajudam a desvendar um percurso académico notável. Em 1881, concluiu o doutoramento em Mineralogia na Universidade de Gottingen e, após uma passagem por Espanha, foi trabalhar para Lisboa, cidade na qual, em 1884, se tornou docente de Mineralogia no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa.
Depois de, em 1892, ter publicado uma muito crítica – e, por isso mesmo, refutada e ignorada – proposta de reforma do ensino tecnológico em Portugal, em 1911, Alfredo Bensaúde concretizou um projecto ambicioso e determinante para o futuro do país, imaginado e realizado tendo como referência as escolas alemãs onde se formou: o da criação do Instituto Superior Técnico. Foi ele que, já em plena República, fundou o Técnico, como é conhecido, e foi ele o seu primeiro director.
Ao passar os olhos por esta carta, em privilegiada versão original, fiquei, então, a saber que o “génio que era um santo”, referência central da sua geração, magnífico inspirador do pensamento português, agitador bem preparado e utópico de ideais e consciências, também contribuiu à sua maneira, com um conselho dado a um amigo que o requereu, para o crescimento concreto, prático, da educação em Portugal. O nome deste homem-mito, intransigentemente pelo progresso, irredutivelmente sonhador de um país outro, mais exigente e ambicioso, está nas primeiras linhas da História da fundação e do desenvolvimento do nosso ensino técnico e tecnológico. Sem a sua pista, José não teria enviado Alfredo para as instituições que, assumidamente, o inspiraram a criar aquela que, hoje, é a maior escola portuguesa de Engenharia, Arquitectura, Ciência e Tecnologia e uma das mais prestigiadas instituições de Engenharia na Europa. Mais um motivo de gratidão para com Antero.