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Na Lagoa faz-se cerâmica com e da natureza

Ateliers inserem-se no âmbito de um programa europeu para as regiões ultraperiféricas e têm como mentora a ceramista Maria Pedro Olaio

Participantes utilizam pedaços de “natureza morta” para decalcar no grés © SARA SOUSA OLIVEIRA

É com as mãos no barro que os objetos vão conquistando a sua forma. Mas antes disso, é preciso recolher aquilo que a natureza quiser dar. O grupo de voluntários, inscritos no workshop cerâmico “Vozes da natureza”, começaram por se reunir junto ao trilho da Janela do Inferno para percorrer os vários quilómetros de pura natureza, sendo este um dos trilhos mais procurados da ilha de São Miguel. Pelo caminho, recolheram flores, folhas, restos de troncos que estavam abandonados. Em sacos, trouxeram toda esta “natureza morta” para o o atelier da ceramista Maria Pedro Olaio, na Lagoa, ilha de São Miguel. 

“Esta iniciativa surge no âmbito de um projeto elaborado pelos alunos do curso de Serviço Social [da Universidade dos Açores] que apresentaram uma candidatura a um programa europeu para as regiões ultraperiféricas e o projeto chama-se o We Be Nature. Está-se a trabalhar a questão da ‘Land Art’ e nesse seguimento foi feito este ateliê cerâmico que pretende estabelecer um diálogo com outro projeto da universidade que é o Trans Light Houses e o Trilho da Água – Janela do Inferno”, começa por explicar Eduardo Marques, professor e investigador da Universidade dos Açores. “Aquilo que se pretendeu fazer foi desafiar participantes de todas as idades e de todas as áreas sócio-profissionais a retratar a biodiversidade do Trilho da Água em peças cerâmicas”, sintetiza o responsável. 

No atelier de Maria Pedro Olaio, é tempo de pôr as “mãos ao barro”, neste caso, ao grés – um material parecido com barro branco. Dos vários participantes do workshop, quase todos são principiantes na arte de moldar o grés. Mas a inexperiência não parece intimidar quem se aventura nesta arte. 

“Está a ser muito bom mesmo, porque acaba por conseguir desligar o teu cérebro do mundo quotidiano, das tuas rotinas, e acaba por ser super motivador, interessante, melhor do que aquilo que eu esperava”, considera Sónia Gomes, participante. A professora e ceramista Maria Pedro Olaio explica que “com apontamentos de árvores, flores e folhas é possível transferi-los e passá-los para a cerâmica, o resultado ainda não está pintado mas quando estiver pintado acho que vai ser ótimo”, considera. 

Ana Nascimento é outra estreante na arte do barro: “está a ser incrível. Não imaginava que ia conseguir fazer alguma coisa mas olha, saiu algumas peças, estou feliz, gostei mesmo da experiência”. Questionada se era mais fácil ou difícil do que imaginava, Ana Nascimento responde: “mais ou menos. Parece fácil, mas quando a gente vai pegando no barro começam a surgir algumas coisas e a gente fala ‘opa, não é bem assim’, mas a experiência foi incrível”, garante. 

Laura Marques, participante, já trabalhou com barro na escola. Acha que a iniciativa “é uma boa ideia, temos aqui um grupo simpático e fazemos as nossas peças”. Laura Marques explica o que tem em mãos: “vou fazer um aglomerado de folhas à volta, depois vou fazer um recipiente que pode ser usado para diversas coisas, já fiz as seis folhas e vou juntá-las assim à volta para formar uma taça”. 

Maria Pedro Olaio e a paixão pela cerâmica

Maria Pedro Olaio já expôs na Bélgica, Espanha, Portugal continental e Açores © SARA SOUSA OLIVEIRA

A criatividade dá largas à imaginação onde, do nada, se pode fazer quase tudo. Que o diga Maria Pedro Olaio, a responsável por guiar o workshop. É ceramista há mais de 20 anos. Natural de Coimbra, conta como começou a sua paixão pela cerâmica. “ Fui estudar artes para a Universidade das Artes de Coimbra e quando cheguei, era para seguir pintura porque o meu pai é pintor, o meu avô era pintor de arte e toda a minha família eram pintores, da parte do meu pai”, conta. Mas acabou por se interessar por outra área artística. “Comecei a ter pintura mas depois comecei também a ter cerâmica porque nós tínhamos várias disciplinas. Não sei porquê a cerâmica, o trabalho com as mãos e o barro, criar as peças em volume tridimensional, isso atraiu-me mais, então eu optei por fazer o curso de cerâmica. Basicamente foi isso, foi assim uma espécie de chamamento”, diz. 

Já expôs em Espanha, na Bélgica, em vários sítios de Portugal continental e nos Açores onde mora há 15 anos. O seu trabalho está também em dois museus nacionais: no Museu da Cerâmica, nas Caldas da Rainha, e no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra.

“Tenho feito um percurso não tão vendável, não é uma coisa que eu faça como comércio, porque sou professora, mas como uma coisa que me chama interiormente, talvez como escrever um poema, não é?”, considera Maria Pedro Olaio. 

A ceramista diz que pretende “continuar a dar formações” tendo também “um gosto muito grande de dar formação a idosos ou crianças, eles virem aqui uma vez por mês porque acho que eles precisam de atividades”, considera.