
DL: Na entrevista que nos deu em 2024 referiu que “a Lagoa está abandonada”. Continua a pensar da mesma forma?
Sim, continuo. Eu acho que a Lagoa foi esquecida pelo Poder Local. Um concelho tão grande, no meio da ilha e com tanto potencial, poderia ser mais projetado, mais dinâmico, apoiar mais o tecido empresarial local, revitalizar-se, criar eventos-chamariz, eventos-âncora que atraiam as pessoas à Lagoa. Onde está o investimento na Lagoa nos últimos anos? Não vejo nada feito, apenas pequenas intervenções. Falta aquela obra grande que mostre que o investimento foi feito. Há pequenas iniciativas, outras que são promessas antigas, agora, com a proximidade das eleições, começam a tapar buracos e a promover inaugurações só para ficar bonito. Lembro-me, por exemplo, do Auditório Ferreira da Silva, que fazia parte de inúmeros programas eleitorais e só há dois anos foi inaugurado, e com tantas falhas. Estão a realizar eventos, mas onde está o essencial? É preciso incluir os lagoenses no seu concelho, torná-los participativos e colaborativos. Os lagoenses são muito vaidosos do que lhes pertence e, quando é bem feito, apreciam. Falta que os lagoenses voltem a ter orgulho naquilo que é seu.
DL: Então o que é que falta efetivamente nas cinco freguesias da Lagoa?
Por exemplo, falta um Mercado Agrícola. Temos imensos agricultores e muitos empresários que poderiam participar nesse mercado, e há essa vontade. Há anos que se fala nisso.
É preciso dinamizar os jovens, as nossas filarmónicas locais, criar escolas de música e apoiar os ranchos folclóricos, pois a cultura é muito importante. A cultura é sempre tratada como um parente pobre e as verbas acabam por ser apenas migalhas. Esquecem-se que, ao incentivar a cultura, estamos, se calhar, resolvendo e prevenindo muitos outros problemas no futuro, como o da droga.
Se investirmos na cultura e atrairmos esses jovens, isso vai gerar envolvimento, porque envolve também as famílias e as coletividades — como as filarmónicas, os ranchos folclóricos e os grupos de jovens.
Precisamos que haja investimento nas coletividades, nas escolas e nos ATL’s. Seria muito mais eficaz, por exemplo, investir em programas como a “Escola Segura” e em ações de formação do que, por exemplo, investir na criação de uma cooperação de bombeiros. A Lagoa está adormecida.
DL: Não concorda com a opção de um posto avançado de Bombeiros na Lagoa ou com a criação de um quartel?
A Lagoa está, no máximo, a 10 minutos de Ponta Delgada e com boa acessibilidade. Talvez o que se justifique seja um reforço já que atendem tanto Ponta Delgada quanto a Lagoa. Seria mais eficaz reforçar o quartel de Ponta Delgada com mais meios, tanto humanos quanto de equipamentos. A Lagoa já tem um compromisso e atualmente já lhes presta apoio. Creio que deveríamos partir daí e não criar algo do zero. Um quartel de bombeiros na Lagoa é uma ideia megalómana e completamente sem sentido. Temos um quartel de bombeiros em Ponta Delgada, então deveríamos focar em apoiá-lo de forma mais robusta e melhorá-lo, em vez de ter dois que, no final, podem não funcionar bem.
DL: Foram anunciadas novas habitações para a Lagoa.
Eu já não acredito nessas promessas feitas em período pré-eleitoral. A questão das casas é um caso gritante, pois o concelho tem um problema de falta de habitação, mas isso é transversal a outros concelhos.
Foram anunciados 25 milhões de euros para a Lagoa. Onde está esse dinheiro? Estava orçamentado e foi anunciado pela então presidente. Falta muita transparência, não basta apenas anunciar, pois são fundos do PRR. Temos de perceber realmente se vão ficar prontas no próximo ano. E para quem são essas casas? São para a classe média, que é quem efetivamente precisa? É irónico que o discurso do atual presidente tenha sido de que as casas são para os jovens da classe média. Ora, isso é o discurso do Chega. Só acordaram agora? O Chega já defende isso há muito tempo, pois quem essencialmente precisa de casas é a classe média. Esta nunca pediu casas de graça, mas sim, casas que pudessem pagar, com opção de compra.
O Estado não pode continuar a sustentar as pessoas, as pessoas têm de dar o seu contributo. Se querem uma casa, têm de trabalhar por ela.
DL: O Tecnoparque e a Fábrica do Álcool são temas de debate, agora também a Frente Marítima. É sinal de que o concelho está a crescer?
São investimentos que poderiam fazer a diferença na Lagoa, mas falta o grande investimento, o tal verdadeiro chamariz. Há quantos anos se fala nessa bendita fábrica? E continua lá. Quando a campanha começar, vamos voltar a falar na Fábrica e no Tecnoparque? Ações concretas, colocar as mãos à obra, é o que precisamos.
Acabam as eleições, ganha-se o poder e tudo fica arrumado na gaveta até que, quatro anos depois, volta-se a falar do mesmo. Não pode ser, não se pode desistir dos projetos. Temos que insistir e trabalhar para o bem da população, senão não faz sentido.
DL: Quer deixar uma mensagem aos lagoenses?
Peço que confiem em mim. Estou aqui, não para fazer promessas, mas porque abracei este projeto e vesti a camisola. Sou da Lagoa, fui a vida toda e adoro a Lagoa. Estou aqui para trabalhar com todos e para todos, sem excluir ninguém, e peço a vossa ajuda.
Salvar a Lagoa, limpá-la, transformá-la, colocá-la no mapa e revitalizá-la. Quero que as pessoas falem da Lagoa que a visitem para conhecer as suas belezas naturais, os restaurantes, as pessoas e as tradições. Mas para isso é preciso um trabalho que não foi feito.
Portanto, espero que as pessoas me deem essa oportunidade. Se, daqui a quatro anos, não gostarem, haverá novas eleições e poderão escolher outra opção. Mas estou aqui e assumo este compromisso com os lagoenses, e é para isso que vou trabalhar, desde que confiem em mim. Estou preparadíssima.

André Silveira
A noite eleitoral das Legislativas de domingo trouxe algumas poucas confirmações e uma enorme surpresa: a dimensão do crescimento do Chega, que se tornou a segunda força política nacional, com resultados impressionantes nos Açores, contrariando todas as previsões e sondagens. Olhando para os dados históricos, antecipava-se já que o partido poderia alcançar um resultado em alta, mas nem os mais entusiastas, nem os mais pessimistas, previam que atingisse esta expressão, em particular nos Açores após o triste escândalo que envolve o deputado eleito em 2024 e artigos de viagem. Mais desconcertante ainda foi perceber que, ao contrário do que se dizia, este crescimento não se fez à custa da abstenção, que, aliás, aumentou, mas sim de votos captados diretamente aos partidos tradicionais. PS e PSD perderam terreno, influência e ligação à realidade social e política, e o mapa eleitoral tingido de azul escuro deixa avisos sérios a quem os quiser ler.
Começando pelo PS. Os resultados de ontem são uma catástrofe política, daquelas que não podem passar sem consequências, nem cujas feridas não deixarão profundas cicatrizes. O partido, que há muito se tornou refém das suas próprias estruturas e interesses internos, paga agora o preço de anos de arrogância, de escândalos sucessivos e de uma governação distante da realidade das pessoas. Não basta mudar de líder ou fazer um congresso. O PS precisa de uma verdadeira renovação e refundação se quiser voltar a ser relevante. Cá e lá. Sendo que o risco da irrelevância é real.
O PSD, apesar de ter eleito mais um deputado devido às idiossincrasias do método de Hondt, vive uma situação embaraçosa. Perde votos em toda a linha, perde em freguesias que historicamente controlava e, mais grave, fica atrás do Chega em dois concelhos Açorianos. Em São Miguel, o cenário é particularmente preocupante. Apesar de estes serem resultados de umas legislativas nacionais, e de não se deverem tirar conclusões diretas para o panorama regional ou autárquico, há sinais que não podem ser ignorados. O mapa de São Miguel pintado de azul escuro é um aviso claro de que os partidos ditos tradicionais estão a caminho da irrelevância se não se souberem renovar e, sobretudo, se não começarem a falar a sério para os jovens.
Em São Miguel em particular, a implantação do Chega é surpreendente, não apenas pela expressão que atinge, mas pela forma metódica e persistente como foi construída. Feita através de políticas de base pura e dura, rua a rua, freguesia a freguesia, com candidatos e estruturas locais a assegurarem o trabalho de proximidade que PS e PSD abandonaram há anos. O PS, preso a uma estrutura em ruínas no pós-24 anos de poder absoluto, sem militância ativa e desmobilizado. O PSD, refém de lideranças incompetentes e incapaz de perceber o valor da política de proximidade. Onde uns desapareceram, outros ocuparam o espaço. O resultado está à vista.
Basta ouvir as reações no dia das eleições para perceber que persistirão em negar a realidade, agarrados a uma narrativa de negação que culpa fatores externos pelo desastre eleitoral, ignorando responsabilidades próprias. Reduzir este crescimento do Chega a um mero fenómeno de protesto, ou sugerir que os eleitores não sabem em quem votam, é não apenas um insulto à inteligência coletiva, mas também uma expressão de arrogância política que só contribuirá para aprofundar o fosso entre eleitos e eleitores.
Uma nota positiva para a Iniciativa Liberal, que cresce e consolida a sua posição como quarta força política. É verdade que continua a ser um partido muito urbano e concentrado em algumas ilhas, mas o crescimento consistente mostra que há espaço para um discurso alternativo, liberal nos costumes e na economia. Falha, no entanto, em apresentar um projeto verdadeiramente regional e em dialogar com o eleitorado fora das cidades principais.
Estas eleições deixam um aviso claro: quem não se renovar, quem continuar a ignorar o descontentamento popular, quem persistir nos velhos vícios da política insular, arrisca-se a tornar-se irrelevante. Os partidos tradicionais ainda vão a tempo, mas a janela está a fechar-se rapidamente. Nos Açores, onde o descontentamento é cada vez mais visível, ignorar este sinal seria um erro de consequências históricas.

Alexandra Manes
Tenho por hábito escrever os textos que envio para partilha convosco durante a semana anterior à sua publicação. Com raras exceções, tal permite maturar a forma como se colocam as questões e se reflete sobre as soluções, no entanto, desta vez, aguardei pelo resultado eleitoral. Ainda que tenha votado, antecipadamente e em consciência, permaneci ansiosa por poder reconhecer a vontade popular deste domingo. Não por almejar algum resultado em particular, que não fosse a vontade da democracia e a derrota dos novos fascismos, em concordância com o que se quer para o país.
Os resultados não foram os que eu desejava, mas como democrática que sou, e por muito que custe, aceito-os. Foi a população que ditou os números e percentagens. Foi o povo que determinou o seu/nosso futuro e o das gerações vindouras. E, por isso mesmo, felicito a deputada e os deputados eleitos pelos Açores, apelando a que não se esqueçam de quem aqui fica.
No entanto, constatar que mais da metade das e dos eleitores, inscritos nos cadernos eleitorais dos Açores, não votaram, obriga a uma enorme reflexão acerca das razões para tal. Uns, certamente, por descredibilização na política, outros por iliteracia política. E isto não é denominar ninguém de ignorante! É uma realidade. Nem todas e todos nós nascemos no mesmo ambiente, nem nos interessamos pelas mesmas temáticas. Há muita coisa que não percebo e assumo-o, sem qualquer problema. A iliteracia política não pode continuar a ser um tabu. Ela existe. E há que trabalhar para credibilizar a política e fazer chegar às pessoas que é esta que determina o presente e o futuro. Parece-me algo essencial.
Preocupa-me o futuro do país por observar as circunstâncias particulares em que vivemos, e não poder deixar de ter imenso receio do que se avizinha na linha do horizonte. Portugal, como qualquer país europeu, é bastante influenciado pelos Estados Unidos. Com o final da segunda Grande Guerra e a conquista de liberdades, veio a Guerra Fria, entre os poderes económicos e os controlos totalitários. No meio, ficaram os países enfraquecidos, que se deitaram à sombra das duas potências e acordaram em decadência e fragilidade. Graças a essa nova realidade, o futuro que Portugal vai construir após as eleições é previsível, se soubermos ler nas cartas dos norte-americanos as possibilidades em crescendo.
Trump e a sua corja de novos fascistas já foi alvo de milhentas análises, feitas por todo o tipo de pessoas, com as mais variadas ideologias e certezas. Não é objeto de trabalho neste texto a recriação de uma interpretação pessoal sobre o assunto. Quem ler este texto já sabe o que penso sobre o gangue de criminosos, brutamontes e chalupas que ocupa a Casa Branca e as suas sucursais. Todavia, importa perceber como é que lá chegaram. E esse caminho foi feito pela total falência do centrismo americano.
Nas ruas, falou-se muito em alianças ao meio. Políticas de convergência, protagonizadas e encarnadas no acordo de cavalheiros traçado entre Pedro Nuno Santos e Montenegro, referente à presidência da Assembleia da República, e que só serviu a um dos lados. Na política da atualidade, em decadência moral, os acordos tendem a cumprir o engrandecimento de apenas uma das partes. A outra, acaba lesada, direta ou indiretamente. Também por isso, o centrismo não pode fazer escola em Portugal, como não o fez nos Estados Unidos.
Para a esquerda do centro, os problemas que se levantam passam pelas grandes divisões internas, muitas vezes insanáveis, por motivos inexplicáveis. Partidos que, ideologicamente, tocam-se em quase todos os aspetos, congregam ódios e brigas que os levam a dialogar com muita dificuldade. As gerações de estadistas, já com idades avançadas, continuam a bloquear as pessoas que andam nos trintas e que são capazes de falar a linguagem do eleitorado contemporâneo. A esquerda permanece fustigada por si mesma, e teima em ter dificuldade em levantar-se. Não será demais recordar o legado do famoso pacto que António Costa traçou com o Bloco e o PCP. Por muito que se deseje branquear a história, nunca o país foi tão prolífero, no século XXI.
Esse poderia, contando com o Livre como novo vértice de pensamento, permitir combater o inchaço do conservadorismo bafiento e das grandes forças do ódio, do nazismo e do novo fascismo, financiadas pelos grupos económicos. Nos Estados Unidos, assistimos a uma resistência organizada por uma mulher, de 35 anos, lado a lado com um homem de 83, numa aliança de forças desesperadas por mudar uma nação que se afoga em raiva e incompreensão. A solução para fugirem aos monstros fascistas será, inevitavelmente, uma esquerda social forte e unida, capaz de remover do seu interior os falsos moralistas e os que lá andam apenas em busca de um poleiro.
Por outro lado, qualquer pessoa que analise de forma imparcial a situação política no mundo, saberá que nem só da esquerda poderá viver a Humanidade. Tal como em quase tudo na vida, é preciso equilíbrios que permitam à sociedade organizar o seu pensamento de forma clara, com todas as vertentes disponíveis para refletir e crescer. E, para isso, será preciso uma direita, que nos dê a alternativa de, pelo menos, dizer que não é por ali que vamos.
O PSD não é essa direita, atualmente. O grande resultado da campanha, e do que lhe antecedeu, foi a certeza de que Luís Montenegro é um líder à imagem dos seus dois grandes mentores: Cavaco e Coelho. Não pratica o ato de pensar por si mesmo, não lê nem se cultiva. Dá pouco valor à cultura, achando que é com a mais popular de todas as pimbalhadas que vai comemorar o Dia do Trabalhador, e aproveitando a mais pequena oportunidade para cancelar o 25 de abril. O caminho que ele percorre, ladeado por correligionários de todas as idades, é o mais perigoso percurso para a direita.
Também aí podemos inspirar-nos no modelo dos Estados Unidos. Com Bush e os seus sucessores, o partido republicano foi-se afastando do centrismo tradicional, extremando posições sobre causas sociais, alimentando ódios, casos e casinhos. Montenegro não é Trump, mas é, talvez, uma espécie de Mitt Romney, se o mesmo tivesse ganho as eleições. Está na porta, para impedir a entrada de pessoas que pensem pela sua própria cabeça e que sejam capazes de reformar um partido que se disse um dia social-democrata, mas que agora é mais neoliberal que os grandes neoliberais.
Com a continuação de Montenegro, ladeado por Hugo Soares, o PSD arrisca-se a cair na teia de Ventura. Trata-se de uma questão evidente, já executada de forma rápida e eficaz em Washington, e que Portugal replica de forma ténue, por enquanto.
Tristemente, alerto para o facto de não ser necessário que a direita se una formalmente para causar danos. Os 2/3 de deputados/as necessários já lá estão. E neste momento, PSD, IL, chega e CDS somam o suficiente para mexer na Constituição. O perigo deixou de ser abstrato para se tornar real, calculado e iminente. A Constituição da República Portuguesa não é um documento qualquer. É a esperança da continuidade de muitos dos nossos direitos, que não deve ser maquilhada, porque mais tarde não haverá botox suficiente para a recuperar.
Com o resultado de domingo, temo pelo fim da saúde pública, da Educação, do Direito à greve e a contratos de trabalhos e salários dignos que permitam combater a precariedade. Temo pela possibilidade da privatização da Segurança Social e de uma Justiça obrigada a se ajoelhar ao poder político, pois já percebemos que o 25 de Abril ficará somente em nota de rodapé ou reescrito ao gosto de quem sempre o odiou.
A mim, resta-me a vitória do Sporting Clube de Portugal, que permitiu que Portugal e muitos lugares no mundo (afinal, somos um país de emigrantes que odeiam imigrantes) se vestissem de verde e branco, numa onda de alegria e de familiaridade. Mas, resta-me, também não baixar os braços e render-me ao sucedido. Ontem lutei, hoje luto e amanhã lutarei, ainda mais, pelos valores e princípios em que acredito. Para um futuro melhor.

José Paulo Sousa
Deputado do CHEGA Açores
No dia 31/03/2025, último dia do 1.º trimestre de 2025, encerrou-se o período em que as descargas de goraz (Pagellus bogaraveo) foram incluídas na contagem trimestral em vigor.
Como os números não mentem, no site da Lotaçor pode-se confirmar aquilo que já se previa, mais de 40 toneladas de goraz, das 123 toneladas disponibilizadas para o primeiro trimestre, ficaram por capturar.
Já no dia 06/03/2025 apresentámos um requerimento questionando o Governo Regional sobre os motivos que levaram à decisão de distribuir a quota de goraz por ilha, medida contra a qual sempre me manifestei, duvidando da sua eficácia, dos interesses subjacentes e que agora posso, através de dados, continuar a manifestar-me contra a mesma.
Apesar de todas as chamadas de atenção, o Senhor Secretário do Mar e Pescas e o Senhor Presidente da Federação das Pescas dos Açores, ainda assim, não cederam, preferindo manter pescadores em terra a perder rendimentos diariamente, em vez de abrir a quota a nível regional.
Peço que se recordem, nos próximos dias, quando a Comissão Europeia aplicar um corte drástico à nossa quota regional de goraz, quem são os responsáveis e quem faz chegar a Bruxelas dados que demonstram a nossa incapacidade de gerir e capturar aquilo que nos foi proposto — e que, inevitavelmente, será mais que argumento para o corte que se avizinha. As Pescas têm sido arma de arremesso eleição após eleição, mas com medidas muito pouco eficazes.
No fim de contas, este método apenas serviu para criar divisões entre pescadores, entre Associações e até entre partidos, sem beneficiar ninguém, mas prejudicando inúmeras famílias — o que, ironicamente, foi uma acusação feita pelo próprio Senhor Presidente da Federação das Pescas a quem é contra este tipo de solução, que como se consta, não é solução.
Não posso deixar também de esclarecer alguns pontos, para que fiquem assentes, sem margem para dúvidas, porque gosto de mostrar ao que venho.
A quem cabe a responsabilidade pelas decisões, é ao Governo Regional, por intermédio dos Secretários ou Diretores com competência na matéria, foram estes os nomeados para o efeito. Isto, sempre que possível, em concordância e conformidade com as Associações e Federações representativas do setor, que devem ser consultadas e contribuir com soluções construtivas, no entanto, não devem deter o poder de decisão.
Se o verdadeiro propósito desta medida fosse, como foi citado pelo Sr. Presidente da Federação das Pescas, pescar menos e aumentar rendimentos, não haveria uma distribuição de quota por ilha, mas sim um aumento do tamanho mínimo de captura ou outra solução, em que se diminui a captura de categorias de pescado pouco valorizadas, em vez de proibir como optaram. A proibição não aumentou rendimentos, ao contrário, deixou pescadores a perder dinheiro diariamente.
E por fim, todos temos direito a opinião, seja ela a favor ou manifestamente contra qualquer ação ou método, e nenhuma associação ou federação deve ditar a um partido o que este pode ou não fazer ou que opinião pode ter. É da inteira responsabilidade dos órgãos do partido esta decisão.
O que é imprescindível é manter o diálogo aberto para encontrar soluções que beneficiem a todos!
Desta forma, e ainda com esperança, espero que reconheçam que este método não é eficaz, não beneficia ninguém, não aumenta a sustentabilidade e só serve para criar divisionismos e perder tempo, enquanto há muito mais a resolver.
Ainda é possível salvar a pesca nos Açores, mas com medidas sérias, sem “brincar” a quem pode ou não pescar mais, com bom senso de todos, e com planos a longo prazo, não de novos planos a cada eleição.
Todos temos de fazer parte desta missão, e relembro, as Associações têm o direito (e até o dever) de emitir os seus pareceres e contribuir com soluções. Porém, no dia que eu tiver de me opor tanto ao Governo quanto a alguma Associação, por algo que discorde, e em defesa dos Açorianos e das suas famílias, cá estarei para o fazer, sem hesitar!


José Paulo Sousa
Deputado do CHEGA Açores
Desde o início dos anos 2000 que temos nos Açores um declínio acentuado na captura de goraz. Anos melhores, anos piores, mas sempre a descer, e com isto a quota também. Como comparação, em 2003, ano em que foi implementada pelo Conselho de Ministros das Pescas da União Europeia, a quota atribuída para esta espécie na Região era de 1.160 toneladas, um valor bastante razoável, mas em 2024 foi de apenas 600 toneladas, tendo sido capturadas apenas 508 toneladas, apesar do número de embarcações atualmente ser sensivelmente o mesmo que em 2010. Algo de muito errado se passa aqui.
Para este ano de 2025, temos apenas 276 toneladas de quota para o primeiro semestre, e para o segundo há de ser o que Deus quiser (depende de um parecer técnico-científico e dos relatórios elaborados pelo Comité Científico, Técnico e Económico das Pescas da Comissão Europeia), o que traduzindo por miúdos quer dizer um corte garantido!
A sustentabilidade do setor das pescas nunca passou do papel, tal como a sua restruturação tarda em sair, pois quem tem definido as regras fá-lo sempre a jeito de alguns, nem que prejudique todos os outros. Interessa é empurrar os problemas “com a barriga para a frente”, prometer muito e garantir os votos em cada ciclo eleitoral. Nunca houve nos Açores uma política proativa virada para a produção, para o desenvolvimento, para o aumento da capacidade instalada, para a dinamização da cadeia de valor. O que houve no passado e mantém-se no presente é a navegação a sopro dos tecnocratas de Bruxelas.
Quando se pensava que já tínhamos assistido a tudo, eis que vem o Governo Regional restituir as quotas por ilha – mais um erro grosseiro, que não resolve problema algum e só atrapalha, gerando apenas mais revolta no setor, nomeadamente nas ilhas com menor frota de pesca.
A sobre-exploração desta espécie levou inevitavelmente à queda do stock disponível e a um declínio acentuado do peixe disponível na maioria das ilhas, onde em alguns pesqueiros, outrora abundantes, estão como se diz na gíria da pesca “rapados”. Quem vive do mar sabe e diz “já não há peixe como antigamente”, pelo menos para a pesca local que está muito limitada em termos de alcance, e será ainda mais escasso se nada for feito.
As medidas adotadas nos últimos anos para combater esta autêntica calamidade, até à data, não resolveram absolutamente nada e todos os anos se repete o mesmo problema. Há regulamentações que deveriam estar em vigor há muito tempo, as quais devem ser devidamente explicadas e ajustadas à realidade para evitar dúvidas e controvérsias desnecessárias. Mas, uma vez mais, a incompetência e a falta de coragem imperam, numa região que gasta milhões e milhões de euros em estudos marinhos, mas que não consegue tirar dessas resmas de papel uma medida adequada ao setor. Como diz um amigo meu, por acaso pescador, FÉ! Pois de facto as atuais políticas de pescas são atos de fé não consubstanciados na realidade concreta e afastada dos problemas dos pescadores.
Uma dessas medidas que há muito deveria ter sido implementada é o aumento do tamanho mínimo de captura. Um goraz de 33 centímetros não tem o mesmo valor comercial que um de 40 centímetros. Capturar menos pode significar lucrar mais, mas tal mudança exige tempo e compensações adequadas. Mas quem nos tem governado, nomeadamente o PS que governou os Açores durante 24 anos, limitou-se a gerir o definhamento do setor, deixando ao abandono equipamentos portuários, não tomando medidas concretas que invertam este ciclo de empobrecimento da pesca.
Outra medida tem a ver com o período de defeso durante a época reprodutiva, o qual está a ser desconsiderado nas políticas de pesca. Atualmente, captura-se peixe que, na sua maioria, ainda está a reproduzir pela primeira vez. Estão a matar o peixe de hoje e o de amanhã, pois entram nestes dias em lota toneladas de gorazes carregados de ovas – um atentado ecológico e económico. Esta medida restritiva da captura na época da reprodução para ser implementada tem de estar associada a mecanismos de compensações e de garantias de rendimento.
Os pescadores são o parente pobre do Governo, quando se trata de apoios, incentivos ou compensações – basta comparar com o que se passa na agricultura onde não há rateios ao POSEI, onde diariamente existem portarias de apoios ao setor cooperativo quase todo falido, compensações por calamidades, apoios diversos, etc. Não é que os agricultores não mereçam, a questão é que os pescadores ficam sempre esquecidos.
Temos de ter governantes que fazem política para as próximas gerações e não para as próximas eleições. Não podemos desmantelar o setor das pescas esperando que mais tarde os stocks sejam repostos e as quotas aumentem, pois sem barcos e sem pescadores, essas quotas irão parar a outros países. O desmantelamento do setor das pescas é algo irreversível pois não se consegue de um dia para o outro arranjar novos barcos e novos pescadores e sejamos honestos e realistas: O que os nossos concorrentes querem e desejam é que os mares dos Açores sirvam de viveiro para os outros países pescarem!
As pescas não podem acabar nos Açores. Se isto acontecer, não só iremos perder um dos nossos setores mais estratégicos do ponto de vista económico e social, como será mais uma prova de que as políticas europeias são erráticas, promovem a subsidiodependência e servem interesses obscuros que não os interesses dos Açorianos.

A nova presidente do conselho de administração do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), Paula Macedo, foi questionada pela deputada do Chega, Hélia Cardoso a propósito das obras da reabilitação do edifício após o incêndio em maio deste ano.
De acordo com nota de imprensa enviada às redações pelo Chega, durante a Comissão de Assuntos Sociais, a parlamentar quis saber quando vão avançar as obras e se o plano funcional sempre irá cumprir os prazos estabelecidos.
Na resposta, Paula Macedo indicou que há duas empresas a realizar dois planos funcionais distintos – um deles mais abrangente e garantindo outros perfis assistenciais, que só deverá estar concluído em finais de dezembro.
Quanto às obras no HDES, a nova presidente indicou que deverão iniciar-se em 2025, não avançando com uma data concreta para o início da requalificação após o incêndio.
Hélia Cardoso questionou também Paula Macedo acerca da nova equipa do conselho de administração. Paula Macedo indicou que irá acumular o cargo de presidente do conselho de administração e de diretora Clínica até final do ano, embora sem avançar nomes.
A parlamentar questionou ainda sobre o espaço exíguo no serviço de urgência do hospital modular, em comparação com a urgência do HDES, ao que Paula Macedo indicou que o espaço útil da Urgência do Hospital é inferior a 1.000 m2 enquanto a dos módulos já ultrapassa essa área.
As obras de requalificação do edifício do HDES terão sempre de ser alvo de um concurso público, indicou Paula Macedo, dado o avultado investimento necessário, mas as obras de valor mais baixo, a acontecer de acordo com o plano funcional, irão avançando mais cedo.
A deputada do Chega questionou, por fim, a presidente do conselho de administração face ao investimento que será necessário realizar para equipar o hospital modular. A responsável pelo HDES esclareceu que os equipamentos existentes no edifício do hospital serão para se manter, mas que é necessário apetrechar a nova unidade modular com novos equipamentos dimensionados para aquele espaço.

Olivéria Santos tem 48 anos. Nasceu a 7 de maio de 1976 e é natural da Vila de Água de Pau. Em 1996 foi para Portalegre estudar Jornalismo e Comunicação, mas diz que o seu objetivo era voltar. A paixão pelo jornalismo levou-a a passar pelas rádios Atlântida e TSF Açores, por revistas como a Rotações e a Factos, jornais como Açoriano Oriental, Correio dos Açores, Diário dos Açores e Açores 9.
Em relação ao jornalismo, está certa de que “infelizmente ainda é uma profissão que não é devidamente reconhecida”, pois é “mal paga e falta muito ao jornalismo cá na região”, por isso ficou “muito desiludida”.
DL: Agora que é deputada, como olha para o jornalismo que se faz na região?
Noto que realmente eu tinha razão, porque quando venho para o Chega venho para fazer assessoria, na altura ao grupo parlamentar, começo a ver que se não faço uma nota de imprensa não sai nada sobre o Chega na imprensa. E não se trata de má vontade, são as redações que não têm hipótese de sair, de ir a conferências de imprensa ou fazer entrevistas. Felizmente na altura houve este convite para vir para a assessoria de imprensa do CHEGA mas eu já estava seriamente a pensar em mudar e sair do jornalismo.
DL: Como recebeu o convite para assessorar o Chega/Açores?
Fiquei muito contente. Senti um misto de desafio e alegria. Mas sempre pensei que ia correr bem. Na altura já conhecia o Chega, não tão profundamente, porque foi um processo de aprendizagem mas conhecia o José Pacheco, pela proximidade de terras e porque já tínhamos convivido em termos sociais. Havia coisas que concordava plenamente, outras que ficava na dúvida porque só sabia o que a comunicação social dizia. E muitas coisas eram retiradas do contexto e ainda assim acontece porque passam uma mensagem errada da verdadeira mensagem que o Chega quer passar. E estou a cada dia mais convencida que estou onde eu queria estar.
DL: Há medo por parte da comunicação social em relação ao Chega?
Eu acho que sim. Ainda recentemente comemorou-se os 50 anos do 25 de abril e fiz uma declaração política na Assembleia em que falava de democracia. A democracia é isto, é eu poder ser livre ao ponto de poder ingressar num partido como o Chega. Um partido que veio mostrar que pode ser diferente. O 25 de abril deu-nos essa liberdade de podermos escolher. Há discriminação, claramente, devido a uma tolice que foi inventada a nível nacional por comentadores de que é um partido racista, xenófobo, homofóbico. Racista nunca fui, xenófoba também não, homofóbica muito menos, e nem sequer tenho que andar a dar explicações porque é que não sou racista, pois eu sou um ser humano, não aceito que me obriguem a provar que não seja. Não tenho de provar nada a ninguém, simplesmente não sou e o partido também não é. Se há pessoas no partido que são racistas, xenófobas ou homofóbicas isso existe em todos os partidos e em toda a sociedade.
DL: De que forma, enquanto deputada e lagoense, pode contribuir para a Lagoa?
Eu acho que já estou a contribuir. O facto de ser natural e viver em Água de Pau, ser do concelho da Lagoa, e de ter sido eleita, só isso já contribuiu para ajudar o concelho. E não porque eu vá fazer medidas concretas para a Lagoa. Falo-ei se efetivamente houver alguma situação. Ao ser deputada já estou a beneficiar a Lagoa, porque tudo o que fizer terá como objetivo ajudar os açorianos e aos ajudar os açorianos estou a ajudar os lagoenses e pauenses. Por exemplo, uma das nossas bandeiras: prioridade nas creches para as famílias que trabalham. Se essa medida for aprovada vai beneficiar também os lagoenses. Os idosos, o aumento do cheque pequenino. Os da Lagoa e de Água de Pau também vão beneficiar. As nossas medidas acabam por beneficiar todos os açorianos, inclusive os residentes no concelho da Lagoa. Por exemplo, uma situação que me lembro foi a da ajuda aos pescadores da Caloura. Havia ali um problema e ainda há, não está resolvido, com a zona protegida da Caloura e nós colocamos um projeto de resolução na Assembleia a pedir que fosse criado um regime de exceção para os pescadores da Caloura para poderem ir ao mar a partir daquele porto. Os pescadores conhecem-me, vieram falar comigo, eu sou filha de pescador, é um setor de atividade que me é muito próximo e isso permite-me conhecer alguma da realidade. Vivi com o meu pai e tios a falar da pesca e fui aprendendo com eles. E essa foi uma situação que me chamou a atenção e trabalhamos nisso. Este é um caso concreto relativo a Água de Pau. Mas se fosse a mesma situação no Porto Formoso, em São Mateus ou no Corvo teríamos feito o mesmo. Eu por ser de Água de Pau não vou fazer medidas só para Água de Pau. Sou uma deputada eleita pela ilha de São Miguel, natural de Água de Pau, mas todo o meu trabalho será em benefício dos Açores, sendo certo que qualquer uma dessas matérias irá ajudar também os habitantes da Lagoa e, claro, os de Água de Pau.
DL: O que é que falta à Lagoa?
A Lagoa está abandonada, precisava de ser mais potenciada. Há aqui um trabalho muito grande que cabe à Câmara Municipal, não ao Governo. No que diz respeito a Água de Pau sinto que o poder local afastou-se. Parece que é aquela freguesia que não faz parte do concelho da Lagoa. Qualquer pessoa que vá ao concelho da Lagoa e fala, por exemplo, com uma pessoa do Rosário, de Santa Cruz, e pergunta de onde é, ela responde que é da Lagoa. Se perguntarmos a um pauense ele vai responder que é de Água de Pau.
A Lagoa está no meio da ilha de São Miguel, está próxima de todos os concelhos, temos uma beleza lindíssima. Podíamos ser mais usados e apostar mais nos jovens e nas jovens empresas, motivá-los, não ser só um dormitório. É isso que falta, motivar e chamar as pessoas para investirem no concelho.
DL: Quanto ao futuro. Os resultados nas legislativas surpreenderam ou motivaram-vos mais ainda?
Surpreendidos não fomos. Quando entrei no Chega e vim para assessora de imprensa, não me passava pela cabeça que a seguir iria ingressar numa lista em segundo lugar. Foi um trabalho que fomos trilhando. Fui acompanhando o José Pacheco e passei a chefe de gabinete porque o jornalismo deu-me uma bagagem grande. Claro que estamos sempre a aprender mas isso ajudou bastante. Os cinco deputados eram a nossa meta. E esse crescimento acarreta uma grande responsabilidade e não podemos defraudar as expetativas de quem votou em nós. Acreditamos que esse crescimento vai continuar aqui nos Açores. O Chega veio para ficar, a nível nacional vai chegar ao segundo lugar e quem sabe daqui a uns anos formar governo e ter um Primeiro ministro, porque o paradigma está a mudar, o contexto social e a vida económica mudaram e os partidos também têm que acompanhar essa mudança. O Chega é um partido que acompanha essa mudança, o PS e o PSD não acompanharam, nem estão a seguir o rumo que a sociedade precisa. São partidos que estão ultrapassados e que deviam, para o seu próprio bem e sobrevivência, acompanhar os novos tempos. E, depois, temos um país tão pequeno mas com tantos casos de corrupção. E quem é que se lixa? Somos nós que pagamos impostos. Eles ficam com o nosso dinheiro e não são culpabilizados por isso e a justiça é lenta, os processos acabam por prescrever. É preciso inverter esse estado de coisas, pois o sistema está podre. As pessoas entram na política não a pensar no que podem fazer para melhorar a vida do vizinho, mas sim em que é que podem beneficiar com isso. Não é correto. Eu entrei na política com uma missão, pois quero estar aqui para defender aquilo em que acredito, segundo a minha ética. Não vim para ter benefícios pessoais, embora tenha obviamente o meu ordenado. Eu vim a pensar em que posso melhorar a vida das pessoas, nem que seja uma coisa mínima.
DL: Falta empatia na política?
Falta imensa empatia e compaixão. Às vezes entra-se na estratégia política, chega-se ao ponto de ferir e de ir para a esfera pessoal, ultrapassa-se certos limites. Falta empatia, compaixão e solidariedade. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Mas estou muito otimista, pois esta legislatura começou muito bem e houve uma mudança de entendimento, uma aproximação do presidente do Governo regional ao Chega. Acredito que se as coisas continuarem assim, podemos todos trabalhar juntos e levar a legislatura a um bom rumo.

Nasceu na freguesia de São Roque, em Ponta Delgada, em 1971, naquela que considera ter sido a “pior época do Estado Novo”. Foi na freguesia onde cresceu que ganhou o gosto pelas romarias, pela música e pelo Espírito Santo, e entre as histórias que nos conta confessa que: “tenho muitas histórias que tropeço nelas, pois grande parte da minha vida não a planeei”.
A entrada que considera “mais a sério” no mundo da política aconteceu a meias com o seu amigo Paulo Gusmão devido à admiração pelo antigo líder do CDS-PP, Manuel Monteiro. Mas é em 2005 que José Pacheco se muda para a Ribeira Chã, na Lagoa, e inicia um projeto pessoal enquanto designer gráfico. Depois do CDS-PP, passou pelo PPM e mais tarde esteve no PSD/Lagoa como independente e é quando estava de saída do partido com o qual diz não se identificar que recebe o telefonema de Diogo Amorim Pacheco do Chega.
DL: Como reagiu quando descobriu que iria ser deputado pelo Chega?
Eu nunca quis ser deputado na vida, mas eu preparei-me durante meses e acreditava. Já o Carlos Furtado não acreditava. E eu até disse a ele que íamos eleger em São Miguel, na compensação e se corresse bem até podíamos eleger na ilha Terceira. Eu acreditava nisso. Mas na Terceira também nos correu mal e só mesmo perto das eleições percebemos onde estávamos metidos. Mas a vida é assim mesmo.
DL: Que balanço faz do primeiro mandato?
Foi bom, eu preparei-me. Aprendi desde muito novo que um dos maiores perigos da política é o deslumbramento. Estou sempre a dizer isso aos meus colegas. O pior não é errar ou dizer uma asneira, é deslumbrar-se. Há que ser sempre muito humilde. E peço a Deus, todos os dias, para que me dê essa força. Eu gosto tanto da minha terra que eu podia ser deputado nacional e eu não quis. Tive muitas oportunidades na minha vida de sair daqui.
DL: Acredita que é possível o Chega alcançar o poder?
Eu acho que tudo é possível. Não nos podemos pôr em bicos de pés, mas se amanhã me baterem à porta a dizer que vou ser presidente do Governo regional, então, sim senhor. Eu nunca virei as costas a um desafio. Mas se me perguntarem se quero ser presidente do Governo? Não. Também nunca quis ser deputado. Mas se me disserem que é esta a minha missão, então pronto. A política é madrasta e muito má para as pessoas, por isso encaro a política com muito humor, com muito jogo de cintura.
DL: De que forma, enquanto deputado e lagoense, pode contribuir para a Lagoa?
É possível na medida em que tenho até contribuído. Não faço grande bandeira disso até por uma questão de alguma reserva. Se eu começar a falar demasiado das coisas que vou puxando para a Lagoa, a certa altura vão dizer que vou puxar para mim próprio, mas não. Há uma história sobre as luzes do Pisão. Isso levou-me dias a decidir se eu punha ou não no compromisso com o Governo anterior. Foi das poucas coisas que eles cumpriram. Eu achava que aquilo estava devasso e que precisava de iluminação, porque não tinha e era uma coisa simples e barata de se fazer. E já está.
Há mais coisas que tenho visto mas prefiro sempre não falar nisso porque sou deputado dos Açores. Não puxo para minha ilha nem para a minha freguesia, nada. Agora quando eu ando por cima dos problemas doi-me a alma e vou fazendo isso mais discretamente. Sou lagoense sou, adoptado, mas não quero que pensem que sou o deputado da Lagoa, pois sou deputado dos Açores. Foi sempre esse espírito que eu tive e, aliás, eu disse aos meus colegas que aqui no nosso grupo parlamentar não há deputados das Flores, nem da Terceira nem de São Miguel, aqui há deputados dos Açores. Mas, sejamos honestos intelectualmente, se nós estamos a ver as coisas com mais frequência porque moramos e passamos nos sítios é natural que nos chame mais atenção. Por exemplo, no outro dia chamaram-me atenção para o estado de uma estrada em que outrora passava muito mas atualmente não. Que é aquela que liga a Vila Franca do Campo à Achada das Furnas. Ligaram-me duas ou três pessoas sobre isso e têm razão. No dia a seguir tive uma reunião com José Manuel Bolieiro e disse-lhe que já tinha ido ver a tal estrada e realmente tem que se fazer alguma coisa. Eu acho que é assim que se deve estar na política.
DL: O que é que falta à Lagoa?
A Lagoa tem um problema grave. O empresário Norberto Ponte uma vez disse uma coisa muito engraçada que eu fixei. A Lagoa precisava de ter uma Torre Eiffel. Ou seja, a Lagoa não tem nada icónico. Quase todos os concelhos têm algo, mas a Lagoa não tem. É muito dormitório, na periferia de Ponta Delgada. Sempre teve boa restauração, mas não se pode criar artificialmente coisas icónicas. Caiu-se muito no ridículo, por exemplo, com festivais como o “Lagoa Com Vida” que era copiar o que os outros fazem e fazer concorrência, deu prejuízo.
Por exemplo, o Império de São Pedro eu já disse à presidente da Câmara Municipal que no meu entender, e mesmo o de Ponta Delgada, que nunca devia ser a autarquia a organizar. Teria que existir uma comissão independente. É uma concorrência desleal aos outros impérios que fazem como podem. É desleal e desvirtua. O poder político nunca deve estar na Igreja nem a Igreja deve estar no poder político. Isso desvirtua o que é o Espírito Santo.
DL: Considera a Fábrica do Álcool icónica?
Eu não acho. Tenho todo o respeito pelo património e penso que se pudermos fazer algo de positivo, sim, mas não vamos fazer daquilo a Torre Eiffel porque nunca vai ser. Acho que se vai enterrar ali milhões e vai-se fazer experimentalismos. Nunca se esqueçam do Parque Tecnológico do qual se falava que ia ser mas neste momento já não é.
DL: Como encara o crescimento do Tecnoparque na Lagoa?
Acho que devíamos esquecer a parte da tecnologia, que até pode lá estar, e transformavamos aquilo num parque multiusos com algum ordenamento paisagístico. Penso que se prenderam muito a um conceito que nunca funcionou nem vai funcionar. Está lá o Nonagon mas quem lá vai percebe que aquilo é nada.
DL: E a freguesia onde reside, a Ribeira Chã?
A Ribeira Chã tem sofrido um desinvestimento há dezenas de anos. Até fui lá candidato e na altura já explicava isso aos miúdos que tocavam música comigo. Se nós não criarmos habitação vocês vão desaparecer todos daqui. E eles desapareceram todos de lá. É normal pois temos que criar âncoras. Eu tive projetos para aquela zona. Um deles era criar um parque de campismo. Não quer dizer que é a solução, é uma das soluções. Ali tínhamos o espaço certo, temos miradouros e praias. É das coisas mais fáceis de fazer porque há lá muito espaço. Eu acho que também há uma falta de vontade. Temos uma vereadora que mora na Ribeira Chã, ela não vê o que falta? Ninguém se preocupa com nada, a Ribeira Chã está completamente esquecida.
Aquela visão que o padre Flores teve de fazer de um pequeno lugar, um Centro Cultural Urbano, essa visão ninguém a percebeu e deixaram morrer.
Há uma que vou guardar para a minha vida que foi o esforço pessoal que eu tive para criar os Filhos da Terra e que é a única coisa que vou agradecer à Cristina Calisto que foi ter-nos arranjado um espaço que estava abandonado e fechado por capricho. De resto eu dizia tantas vezes que não queríamos dinheiro, queríamos era tocar.
DL: Como encara o facto de Cristina Calisto suspender o mandato de deputada?
Eu acho que isso não se deve fazer, isso é enganar as pessoas. Não foi só ela, houve uma data de autarcas e isto é do pior que a política tem. Por isso é que as pessoas não acreditam na política. Então eu digo que agora eu vou ser deputado, vou defender vocês todos. No dia a seguir, sou eleito e digo que estava a brincar e que afinal vou para a câmara porque afinal não vou para o governo? Nunca tive nada contra a Cristina Calisto, até fico com pena. Mas acho que o PS está há demasiado tempo na Lagoa e eu gosto muito da mudança.
DL: Nas legislativas nacionais o Chega aparece como terceira força política na Lagoa. Como vê isso?
Isso vale o que vale, porque já ando nisto há algum tempo e sei que as coisas às vezes não são assim tão lineares. Agora traz-nos grande responsabilidade. Eu acho que temos uma autarquia extremamente fraca e que não faz ideia para onde caminha ou o que está a fazer e o que quer para o futuro. Gere o dia a dia como um cata vento e isto é preciso dizer às pessoas. Como é que se conseguem perpetuar no poder? Comprando os votos. São as latas de tinta, são as obras em casa, são as festaloras. Isso não enche a barriga a ninguém e muito menos garante o futuro aos nossos filhos. Esses senhores quando saírem vão deixar zero na Lagoa.
DL: A nível regional, como é que encara este novo ciclo político? Vai chegar ao fim do mandato?
Pode chegar, mas não depende de mim, depende deles. E eles sabem disso e essa conversa já tivemos. Neste momento, se me perguntarem “as coisas estão a correr bem?”, “estão excelentes, não estão bem, estão ótimas”. Tem havido um diálogo constante, não só com o presidente do governo. Eu acho que eles aprenderam alguma coisa. Penso que eles também tinham um problema (ou dois) complicado chamado CDS-PP. O Artur Lima e Paulo Estêvão entalaram isso tudo. Eu e o Paulo Estêvão andamos mais brigados, mas um dia destes fazemos as pazes. Eu sou amigo do Paulo há muitos anos mesmo. Já nos conhecemos há muitos anos. Não podemos casar uns com os outros, temos é que nos respeitar.