
Há quatro anos, uma neta atravessou o Atlântico guiada por uma fotografia amarelada e uma mágoa antiga. Elizabeth Borges Pedro, a neta mais nova, procurava o rasto do avô, Elias Maria Borges, um soldado da Grande Guerra cujo legado físico — as suas medalhas — tinha sido roubado por mãos gananciosas.
Elias Borges teve quatro filhos: Manuel Maria Borges, Norberto Maria Borges, Ema Borges Branquinho e Cizália Borges. Todos, infelizmente, já faleceram. Na altura em que a neta nos contactou, o Diário da Lagoa abriu as suas páginas a esta busca e à possibilidade de publicar o veredicto caso Elizabeth Pedro descobrisse a história. Hoje, nesta edição, em parte dedicada à Liberdade, a resposta chega com a força de um dever cumprido.
Elizabeth não precisou de encontrar o ladrão para fazer justiça ao avô. Através de uma investigação meticulosa, descobriu que Elias não foi apenas um nome numa lista de embarque; foi, na verdade, um protagonista na defesa da Europa. Entre 1916 e 1918, o soldado de Água de Pau operou obuses de artilharia pesada em França, integrando o esforço aliado para travar o avanço alemão rumo ao Canal da Mancha.
A história de Elias é feita de contrastes profundos. É a história do soldado que foi hospitalizado no dia da sangrenta Batalha de Cambrai, a 25 de novembro de 1917, mas que sobreviveu para regressar à frente de combate. É a história do homem que aprendeu a língua de Molière nas trincheiras e que, ao retornar à paz da sua ilha, ainda cantarolava a marcha militar Mademoiselle d’Armentières, trazendo o eco do mundo para as ruas da sua vila.
“O meu avô operava a artilharia de obuses. Ele lutou na Batalha de Lys, a 9 de abril de 1918, repelindo a ofensiva alemã nos campos da Flandres. Embora os alemães tivessem avançado anteriormente, os Aliados conseguiram contê-los”, conta Elizabeth.
O avô de Elizabeth recebeu uma condecoração honrosa por ter sido artilheiro português durante a Primeira Guerra Mundial: a Medalha Militar da Cruz de Guerra, instituída em 1916. Esta foi-lhe concedida devido à relevante participação do Corpo de Artilharia Pesada Português ao lado das forças britânicas, particularmente durante a Batalha de Lys.
O roubo da Cruz de Guerra, a medalha que deveria ter sido entregue a Norberto Maria Borges, pai de Elizabeth, permanece na sombra sobre quem a levou. “O ladrão continuará anónimo”, escreve a neta com a serenidade de quem sabe que o julgamento do tempo é implacável. Mas o que importa agora é que o rosto de Elias (agora restaurado na fotografia que acompanha este artigo) já não é uma imagem desfocada.
Elias Maria Borges terá sido o único soldado de Água de Pau a regressar a casa. Trouxe consigo cicatrizes invisíveis e uma alegria que a guerra não apagou. Elizabeth, a neta mais nova que nunca o conheceu, descreve-o agora como um homem “bondoso, generoso e alegre”.
Para Elizabeth, “é incrível como o meu avô sobreviveu a uma guerra tão sangrenta e a duas batalhas com tantas perdas. Hoje, os seus descendentes estão espalhados pelas terras de alguns dos seus companheiros de batalha e aliados: no Canadá, nos Estados Unidos e nas Bermudas.”
A neta relata que um primo lhe contou que, “todos os anos, o meu avô colocava uma tangerina na árvore de Natal para representar cada neto”. Elizabeth, contudo, nunca teve a honra de o conhecer, pois ele faleceu no Canadá apenas um ano após o seu nascimento. Tinha 84 anos.
“Não sei se a minha tangerina chegou a crescer naquela árvore, mas este artigo representará a minha tangerina”, confessa a neta.
A missão está cumprida. Elizabeth veio em busca de uma medalha e encontrou a alma do avô. A condecoração pode estar numa gaveta alheia, mas a honra do artilheiro de Água de Pau voltou finalmente a casa, guardada na memória, por quem se recusou a esquecer.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou esta segunda-feira, 24 de novembro, Jorge Rita com o grau de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial, na classe do Mérito Agrícola, numa cerimónia realizada no Palácio de Belém, em Lisboa.
A distinção reconhece o percurso e o contributo de Jorge Rita para o desenvolvimento do sector agrícola e do movimento associativo nos Açores e a nível nacional.
Recorde-se que Jorge Rita iniciou a sua atividade no setor associativo em 1999, como vice-presidente da direção da Associação Agrícola de São Miguel (AASM) e da Cooperativa União Agrícola.
Em 2002, foi eleito presidente de ambas as instituições, funções que exerce até ao presente. Desde 2008, preside igualmente à Federação Agrícola dos Açores. É ainda vice-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). Paralelamente, lidera o Centro de Estratégia Regional para a Carne dos Açores (CERCA) e desempenha vários cargos de relevo em entidades representativas do setor. É presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Criadores da Raça Frísia desde 2003, da Associação para o Desenvolvimento e Promoção Rural (ASDEPR) desde 2008, e da Assembleia Geral da Associação Nacional de Engordadores de Bovinos desde 2013.
A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) homenageou, esta terça-feira, dia 25 de novembro, Jorge Rita no jantar comemorativo dos 50 anos da CAP, realizado no Palácio de Xabregas, em Lisboa.
A distinção reconhece os 20 anos de dedicação do dirigente açoriano aos órgãos sociais da CAP e o seu “contributo determinante para a defesa e valorização da agricultura nos Açores e em Portugal” indica a nota de imprensa da AASM.