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Bispo de Angra defende jornalismo humanizado e alerta para os riscos da inteligência artificial

No âmbito do 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, D. Armando Esteves Domingues sublinhou a importância dos jornalistas como intérpretes da realidade e apelou a uma resistência ética contra a desinformação e o isolamento digital

© IGREJA AÇORES/CR

O Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, defendeu esta manhã a urgência de uma comunicação ética e profundamente humanizada. O alerta surge num contexto de crescente preocupação com os perigos da desinformação e o uso descontrolado da inteligência artificial no espaço público.

Num encontro com profissionais da comunicação social, realizado no Centro Pastoral Pio XII e partilhado em nota de imprensa pela Diocese de Angra, o prelado assinalou antecipadamente o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. A efeméride celebra-se no próximo domingo, 17 de maio, sob o mote “Preservar vozes e rostos humanos”.

Durante a sua intervenção, o bispo diocesano destacou que, num tempo de incerteza, a responsabilidade dos profissionais do setor é fundamental para a promoção da dignidade humana. “Os jornalistas são fundamentais porque fazem uma interpretação autêntica da realidade”, afirmou D. Armando Esteves Domingues.

O prelado reiterou que o papel do jornalismo é, hoje mais do que nunca, um serviço público de literacia mediática. Esta missão torna-se crucial perante a crescente dificuldade que os cidadãos enfrentam em distinguir a verdade nos canais digitais e nas redes sociais.

Demonstrando preocupação com o aumento dos discursos de ódio e a polarização, o Bispo de Angra lamentou a falta de “protagonistas responsáveis” que atuem como descodificadores da verdade. Para D. Armando, a sociedade atual parece ainda incapaz de concretizar valores essenciais como a fraternidade.

© IGREJA AÇORES/CR

Para o prelado, a tecnologia não deve ser absolutizada nem substituir o discernimento humano. “Não se pode confundir o homem com as ferramentas, nem permitir que estas o substituam”, sublinhou, apelando a que a comunicação promova o encontro e a esperança em vez de ser usada para condenar.

D. Armando apontou ainda o modelo cristão da encarnação como o exemplo máximo de uma mensagem que se faz proximidade e pessoa. O bispo desafiou os presentes a combaterem a velocidade impessoal da informação através do rigor e da valorização da presença humana.

O evento contou também com o contributo do jornalista Osvaldo Cabral, antigo diretor da RTP Açores. O profissional traçou um percurso histórico sobre a visão dos últimos seis pontificados acerca do progresso tecnológico e o seu impacto na sociedade.

Osvaldo Cabral recordou o conceito de Internet como o “Novo Areópago”, cunhado por João Paulo II em 2002. Contrastou esta visão com os alertas recentes do Papa Leão XIV sobre as “bolhas digitais” e a dependência de algoritmos que moldam relações artificiais e isoladas.

Segundo a análise do jornalista, a Igreja tem procurado humanizar as invenções técnicas, vendo os meios de comunicação como espaços estratégicos de diálogo. Esta visão converge com os objetivos do jornalismo de proximidade, focado na clareza e no compromisso com os mais frágeis.

D. Armando Esteves Domingues desenha roteiro de renovação e proximidade para a Páscoa nos Açores

Desde o apelo à superação do isolamento clerical na Missa Crismal até ao gesto simbólico de lavar os pés a sem-abrigos na Ceia do Senhor, o Bispo de Angra apresenta uma Igreja que se quer “fora do narcisismo” e centrada no serviço aos mais frágeis

© IGREJA AÇORES/CR

A Diocese de Angra vive a Semana Santa de 2026 sob a proposta de transformação de D. Armando Esteves Domingues: a busca pela vitória do “Homem Novo”. Nas mensagens e celebrações que marcaram os últimos dias em São Miguel e na Terceira, o prelado tem insistido que a Páscoa não pode ser um conjunto de ritos isolados, mas sim uma “peregrinação espiritual” que resulte numa mudança concreta de vida, assente na oração e, sobretudo, na caridade ativa.

Este percurso culminou esta quinta-feira, 2 de abril, com a celebração da Missa da Ceia do Senhor na Sé de Angra, onde o Bispo uniu o simbolismo do altar ao “chão da vida”, lavando os pés a 12 homens em situação de sem-abrigo acompanhados pela associação Novo Rumo.

Na manhã da passada terça-feira, durante a Missa Crismal, o Bispo já havia deixado um aviso ao clero e aos fiéis sobre os perigos do “narcisismo” e da autorreferência. D. Armando alertou para a tentação de uma “pastoral de sobrevivência” ou de isolamento, exacerbada pelos desafios da insularidade e pela falta de meios. Em contrapartida, propôs uma “fidelidade que gera futuro”, baseada na fraternidade presbiteral e na consciência de que o ministério sacerdotal só faz sentido se estiver mergulhado no povo e atento às suas feridas. Para o prelado, a unção recebida pelos padres deve ser o “óleo da alegria” que toca rostos concretos: idosos sós, famílias em dificuldade, migrantes e vítimas de abusos.

A dimensão social tem sido, aliás, o fio condutor de todas as intervenções deste período pascal. A Renúncia Quaresmal deste ano, destinada às populações afetadas por calamidades via Cáritas e Diocese de Leiria, reforça o apelo à compaixão que o Bispo detalhou na Ceia do Senhor. Ao ajoelhar-se perante os mais pobres, D. Armando recordou que a Eucaristia exige uma “gramática de Cristo”: aproximar-se, tocar e servir sem julgar. “A Eucaristia sem caridade é vazia”, afirmou, sublinhando que ser cristão nos Açores hoje passa por ser “pão que se reparte”, garantindo que a esperança da Ressurreição chegue efetivamente a quem mais precisa de sentir a ternura do “Bom Pastor”.

Segue-se agora a Sexta-feira Santa, com a celebração da Paixão do Senhor, incluindo a Liturgia da Palavra, a Adoração da Cruz e a Comunhão, às 15h00.

A Vigília Pascal, considerada “a maior de todas as vigílias do ano”, integra a Liturgia da Luz, da Palavra, Batismal e Eucarística, a partir das 21h00.

As celebrações culminam no Domingo de Páscoa, com missa de Páscoa às 11 horas. Todas serão presididas pelo bispo D. Armando Esteves Domingues.

 

Igreja alerta para desequilíbrio entre lucro e dignidade na nova reforma laboral

Vozes ligadas à Doutrina Social da Igreja, ouvidas pela agência Igreja Açores, criticam a prioridade dada ao capital na anteproposta “Trabalho XXI” e pedem maior proteção para os trabalhadores mais vulneráveis

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A anteproposta de reforma laboral “Trabalho XXI”, atualmente em discussão na concertação social, está a suscitar sérias reservas no seio da Igreja Católica, que aponta um desequilíbrio entre a procura pela eficiência económica e a salvaguarda da dignidade humana. Em declarações recolhidas pelo sítio Igreja Açores, especialistas e clérigos manifestam preocupação com o espírito do documento apresentado pelo Governo da República, que altera mais de uma centena de artigos do Código do Trabalho para adaptar a legislação à era digital.

Para o padre José Júlio Rocha, assistente da Comissão Diocesana Justiça e Paz, o problema reside na base ideológica da proposta, afirmando que “se o espírito da proposta é mais a produção e o enriquecimento rápido, então parte de um princípio errado”. O teólogo moralista reforça que a Igreja coloca sempre a pessoa acima do capital, lamentando uma tendência de “capitalismo de especulação” que reduz o trabalhador a uma mera “engrenagem do processo produtivo”.

Esta visão é partilhada pelo sociólogo Rolando Lalanda Gonçalves, que identifica na proposta uma orientação excessiva para a eficácia da gestão das empresas em detrimento da valorização de quem trabalha. Segundo o especialista, a legislação deve servir para proteger a “parte mais fraca” de uma relação que é naturalmente desigual, sublinhando que “colocar o trabalho apenas como mais um fator produtivo penaliza definitivamente o trabalhador e a sua dignidade”.

Apesar do tom crítico, ambos os analistas reconhecem avanços em matérias de modernização, nomeadamente no alargamento da licença parental até aos seis meses, nas novas regras para o teletrabalho e no reforço do direito à formação. Contudo, alertam para os riscos do regresso do banco de horas individual e da flexibilização de horários, que podem penalizar grupos mais frágeis, como os jovens e os trabalhadores indiferenciados.

O debate ganha ainda mais peso com a intervenção de D. José Traquina, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e da Mobilidade Humana. Numa homilia recente, o bispo manifestou profunda preocupação com a “globalização da insegurança” e o impacto da economia nas famílias portuguesas, lamentando as dificuldades no acesso à habitação em contraste com os lucros elevados do setor financeiro. “Há pessoas que trabalham a vida inteira e não conseguem ter casa própria e ficam escandalizadas com a publicação dos lucros anuais dos Bancos”, afirmou D. José Traquina, reforçando que uma sociedade só é desenvolvida se garantir dignidade e distribuição justa da riqueza.

Este posicionamento da Igreja, que ecoa desde a encíclica Rerum Novarum até ao Papa Francisco, reafirma que o trabalho humano deve ser o fundamento da justiça e do bem comum, nunca podendo ser subjugado aos interesses insaciáveis de poder ou lucro.

Ouvidoria de Vila Franca do Campo prepara visita pastoral do Bispo de Angra

D. Armando Esteves Domingues percorre o concelho entre 19 e 26 de abril num encontro que mobiliza paróquias e instituições locais

© ACÁCIO MATEUS

A ouvidoria de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, recebe entre os dias 19 e 26 de abril, a visita pastoral do bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues. A iniciativa, que envolve paróquias, movimentos e instituições locais, é encarada pela comunidade vilafranquense como um momento de renovação espiritual e de reforço da comunhão eclesial. Segundo notícia da agência Igreja Açores, a preparação tem decorrido ao longo dos últimos meses através de encontros com os conselhos pastorais e económicos, com o objetivo de envolver todos os agentes neste processo de receção ao prelado.

Para o ouvidor, padre José Borges, esta visita transcende a formalidade do calendário episcopal. “Não se trata apenas de um ato administrativo ou de uma formalidade do calendário episcopal. Acima de tudo, é um encontro de família”, afirma o sacerdote, sublinhando que o propósito é permitir uma proximidade real entre o Bispo e os fiéis. A vinda do prelado acontece num contexto de caminho sinodal, onde D. Armando Esteves Domingues é reconhecido pela sua “grande capacidade de proximidade e uma escuta muito atenta”, características que o padre José Borges considera fundamentais para a missão da Igreja junto das populações.

Um dos eixos centrais desta visita é o aprofundamento do sacramento do batismo, inserido na caminhada para os 500 anos da Diocese de Angra. O ouvidor recorda que “é no batismo que começa o ser cristão”, esperando que esta passagem do Bispo ajude a reavivar essa identidade em cada fiel. Carlos Vieira, coordenador do Conselho Pastoral da ouvidoria, reforça que o programa incluirá visitas às instituições e forças vivas de cada freguesia, procurando também analisar desafios como a participação nas celebrações. Em paralelo, destaca o dinamismo de espaços como o Santuário de Nossa Senhora da Paz, que se tem afirmado como um centro de espiritualidade e acolhimento para peregrinos na região.

Vila Franca do Campo prepara visita pastoral com assembleia eclesial

Encontro promovido pela equipa sinodal diocesana reuniu leigos e clero para refletir sobre o papel da comunidade e os desafios da sinodalidade

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A ouvidoria de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, acolheu no centro paroquial da matriz, a primeira assembleia eclesial destinada a preparar a visita pastoral do bispo de Angra, agendada para o período de 19 a 26 de abril. O encontro foi realizado em parceria com a equipa sinodal diocesana e reuniu representantes de paróquias, movimentos e serviços locais. O objetivo central passou por sensibilizar a comunidade para este momento de “graça”, como descreveu o ouvidor de Vila Franca, padre José Borges, sublinhando a importância de reavivar o compromisso cristão a partir do batismo.

Durante a sessão, o padre José Borges destacou que o percurso da Igreja deve ser feito com a participação ativa de todos, sem exceções. “Todos são importantes: os que estão dentro, os que estão mais afastados, os que chegam e os que estão envolvidos nos sacramentos”, afirmou o sacerdote, defendendo um maior protagonismo dos leigos que vivem a sua fé no quotidiano, desde as famílias às fábricas. Para o ouvidor, a continuidade e a vitalidade das paróquias dependem de pessoas que “não apenas mostram que foram batizadas, mas que vivem o seu batismo” nos mais diversos contextos sociais da ilha.

© IGREJA AÇORES/CR

O encontro dividiu-se entre a reflexão teórica sobre documentos do sínodo e um momento prático de “conversação no espírito”, onde se debateram os obstáculos à participação comunitária. De acordo com a equipa sinodal, embora existam estruturas de colaboração, ainda persiste um compromisso reduzido por parte dos leigos em algumas áreas. O coordenador da equipa, padre José Júlio Rocha, reforçou a visão de uma Igreja menos clerical e mais próxima das pessoas, onde o sacerdote atua como um pastor que caminha junto ao povo. “O que queremos é promover uma igreja aberta ao espírito, que caminha junta na sua diversidade”, concluiu o responsável, sintetizando o espírito de renovação que se pretende para a diocese.

“Sejam fermento e transformem as vossas comunidades”, apela o padre Fernando Teixeira na romaria que juntou várias gerações

Iniciativa da Comunidade de Nossa Senhora de Fátima reuniu cerca de 500 peregrinos de várias paróquias, num caminho marcado por dinâmicas de introspeção e pela forte presença de jovens

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Ainda antes do nascer do sol, quando a madrugada guarda o silêncio que amplia o som de cada passo, a Romaria da Comunidade de Nossa Senhora de Fátima, em Ponta Delgada, começou a contornar as estradas. Entre quase meio milhar de peregrinos, cruzam-se histórias que ajudam a perceber o sentido profundo de um caminho que, este ano, fez paragem no miradouro do Pisão, perto da Ribeira Chã, concelho da Lagoa, num lembrete de que a romaria nunca acaba, pois somos peregrinos a vida inteira.

Patrícia Varão e a filha Maria João, de 11 anos, são presenças assíduas. A filha segue na frente, como uma das “meninas da Cruz”. A mãe, mais atrás, confessa com orgulho: “Desde que me lembro, venho sempre nesta romaria”. Embora pertençam à paróquia de Nossa Senhora do Rosário, na Lagoa, sentem-se em casa. Para Patrícia, a romaria é “um retiro, um parar dos afazeres para ter um tempo só para nós, com Deus… um tempo de introspeção e reflexão”.

Na correria dos dias, onde tudo parece urgente, a romaria por contraste oferece silêncio, oração e disponibilidade interior. É nesse espaço que muitos dizem reencontrar Deus.

Ao longo do percurso, os participantes foram convidados a viver dinâmicas espirituais. Este ano, cada romeiro recebeu uma pedra acompanhada de um poema na primeira paragem de descanso. “As pedras estão no caminho. Guardemo-las todas porque podemos construir um castelo”, explicou uma das dinamizadoras no Centro Pastoral Pio XII. O grupo de cerca de 500 peregrinos — composto na sua maioria por mulheres, mas também por homens e muitos jovens — acolheu a metáfora: cada pedra representa os desafios e momentos de crescimento. “Que cada pedra seja a descoberta de um dom; que sejamos capazes de perceber onde nos encaixamos, pois grãos de areia constroem uma linda praia”, acrescentou.

Imagem viva da Igreja em movimento

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Para o pároco Fernando Teixeira, esta romaria é uma imagem viva da Igreja em movimento. Embora já não caminhe fisicamente, faz-se presente pelo espírito. “Aproveitem a caminhada, fortaleçam-se e, no regresso às vossas comunidades, sejam fermento. Ajudem a transformar a vossa paróquia, sejam amigos”, desafiou o sacerdote, num “caderno de encargos” para uma jornada que culminou com a Eucaristia ao pôr do sol.

O padre Norberto Brum, dinamizador destas romarias quaresmais, sublinhou que a caminhada ganha um significado particular no percurso pastoral da diocese: “Procuramos renovar esta graça batismal e reafirmar o dom de sermos filhos de Deus e termos um Deus que caminha connosco”.

A iniciativa rompe também com o modelo tradicional de romarias exclusivamente masculinas ou femininas. “É uma romaria diferente por ter homens e mulheres; é uma forma de sentirmos esta Igreja como comunidade e povo que se renova dia a dia”, esclareceu o sacerdote.

O simbolismo do vaso novo

Entre as novidades deste ano esteve a dinâmica do vaso partido. Durante a celebração do perdão, um vaso foi quebrado para representar a fragilidade da vida humana, e cada participante depositou ali as suas intenções. No final, os fragmentos foram simbolicamente integrados num vaso novo. “É a nossa vida, muitas vezes fragmentada, que se transforma. É essa mudança que Deus opera em nós”, descreveu o padre Norberto.

Antes da partida, também o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, deixou uma mensagem centrada na persistência: “Quanto mais caminhamos, mais longe vamos… é triste o cristão que para. Quanto mais caminhardes, mais O encontrareis”.

Novas vozes na estrada

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Para a Irmã Hirondina Mendes, da Congregação de São José de Cluny, a experiência foi uma revelação. “É um momento de interiorizar a fé e partilhar os nossos sofrimentos com os de Cristo e da humanidade. Há uma sede de Deus nesta humanidade e é interessante ver tanta gente a procurar essa fonte verdadeira”, afirmou, impressionada com a emoção partilhada pelo grupo.

Bárbara Ramos, natural de Trás-os-Montes e estudante de Medicina, viveu a romaria pela primeira vez. “É desafiante e sinto uma grande irmandade. Esta diferença geracional é uma novidade para mim”, contou a jovem, que vive atualmente um processo de redescoberta espiritual e de aproximação à Igreja.

Batizados na Esperança

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Organizada pela Comunidade de Nossa Senhora de Fátima, esta sexta edição da romaria comunitária, sob o tema “Batizados na Esperança”, integra-se no caminho rumo aos 500 anos da Diocese de Angra.
Mais do que os números ou os quilómetros, os peregrinos demonstram que o que fica desta jornada é o que acontece no interior de cada um. Entre pedras simbólicas, silêncio e partilhas, cada passo recordou uma verdade fundamental: por vezes, é preciso caminhar devagar para reencontrar o essencial.

Comissão analisa documentos inéditos para viabilizar beatificação da Madre Teresa da Anunciada

Encontro presencial de dois dias no Santuário do Senhor Santo Cristo marca uma fase decisiva na preparação do processo que visa elevar aos altares a religiosa responsável pelo maior culto de devoção dos Açores

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A recém-nomeada Comissão Histórica responsável por estudar as fontes e a documentação relativas à vida e às virtudes da Madre Teresa da Anunciada deu um passo decisivo esta semana com a realização da sua primeira reunião presencial. O encontro, que decorreu entre segunda e terça-feira no Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, marca uma nova fase na preparação da eventual abertura do processo de beatificação da religiosa clarissa do século XVII. Segundo a coordenadora da comissão, a historiadora Margarida Sá Nogueira Lalanda, estes dois dias de trabalho intensivo permitiram não só consultar documentação histórica inédita ou pouco estudada, mas também definir as etapas concretas que orientarão a investigação nos próximos meses. Durante a estadia, os especialistas reuniram-se com o reitor do Santuário, com o bispo de Angra e com investigadores locais, consolidando uma equipa que une o rigor científico à devoção secular que envolve a figura da Madre Teresa.

A criação oficial desta comissão foi anunciada a 3 de novembro, data do 491.º aniversário da Diocese de Angra, através de um decreto episcopal onde D. Armando Esteves Domingues explicou que o Santuário assumiu formalmente a autoria da causa de beatificação. O grupo de trabalho é presidido por Margarida Lalanda, investigadora do CHAM – Centro de Humanidades e especialista em cultura conventual nos Açores, contando ainda com o contributo do historiador António Camões Gouveia, da Universidade Nova de Lisboa, e da linguista e historiadora Paula Almeida Mendes, da Universidade do Porto. Por ocasião desta nomeação, o reitor do Santuário, cónego Manuel Carlos Alves, sublinhou a importância do rigor neste percurso, manifestando o desejo de que a causa avance “de forma sólida e conclusiva”. O responsável recordou que, embora o processo tenha conhecido várias tentativas de reativação ao longo dos séculos que não chegaram a bom porto, desta vez pretende-se um caminho ininterrupto até Roma, procurando uma “resposta definitiva da Igreja”.

Madre Teresa da Anunciada, nascida Teresa de Jesus em 1658, na Ribeira Seca, continua a ser a figura central da identidade religiosa micaelense, tendo sido a principal impulsionadora do culto do Senhor Santo Cristo após a sua entrada no Convento da Esperança em 1682. O legado de caridade e firmeza espiritual que deixou sustenta um processo de beatificação que teve o seu primeiro fôlego em 1740, mas que nunca chegou a ser concluído. Com este novo impulso, a Comissão Histórica foca-se agora na validação das provas necessárias para a abertura formal da causa a nível diocesano, à qual se seguirá a nomeação de uma Comissão Teológica e de um postulador. Como refere a coordenação dos trabalhos, esta etapa presencial foi fundamental para “debater abordagens de investigação” que permitam, finalmente, levar a bom termo as aspirações de muitos açorianos que veem na religiosa um exemplo máximo de santidade.

Celebração dos 40 Anos da Ouvidoria da Lagoa foca-se em desafios atuais e na questão da pobreza

Bispo de Angra presidiu à celebração evocativa na igreja Matriz da Lagoa e desafiou os fiéis a olhar os pobres “olhos nos olhos”

© CLIFE BOTELHO

O Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, presidiu no passado dia 16 de novembro, a uma missa na igreja Matriz, em Santa Cruz, para comemorar os 40 anos da Ouvidoria da Lagoa, coincidindo com o Dia Mundial dos Pobres.

Na sua intervenção, o Bispo incentivou a comunidade a ir além da simples manutenção das tradições, pedindo coragem para encarar os desafios de hoje, ajudar os mais vulneráveis e colaborar de forma mais ampla. O prelado destacou também que a pobreza é fundamental na missão da Igreja, afirmando que os mais pobres estão no centro de todo o trabalho pastoral. Citando referências da Igreja, reforçou que a pobreza não é apenas uma questão social, mas sim “uma questão familiar”. Sublinhou que a falta de apoio espiritual é a pior forma de discriminação contra os pobres, defendendo que eles devem ser vistos individualmente, “olhos nos olhos”.

“A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual”, disse.

O bispo alertou ainda para a proliferação de falsos profetas que exploram medos e conflitos, pedindo discernimento num tempo onde importa escolher “evangelho ou ideologia, integração ou exclusão, amor ou indiferença”. E recordou que, no Evangelho, cada tragédia anunciada é acompanhada por um ponto de viragem: “Tudo muda sempre que cuido de um pedacinho da minha terra e das suas feridas”.

O prelado advertiu para o fascínio contemporâneo por tecnologias, conquistas humanas e figuras de sucesso, lembrando, porém, a sua transitoriedade: “Só o homem, imagem de Deus, é eterno. É melhor que tudo desmorone, incluindo as igrejas mais bonitas, do que desmorone um único homem”.

O alerta contra falsas promessas e a importância da fé

© CLIFE BOTELHO

No âmbito do atual ano pastoral, o Bispo de Angra desafiou os presentes a refletirem sobre a coerência do seu testemunho de fé, tanto nas celebrações como no apoio direto aos pobres. Perguntou se as paróquias estavam preparadas para caminhos mais participativos e para incluir quem está à margem, tanto a nível social como espiritual.

Ao felicitar a Ouvidoria, o Bispo destacou o papel da paróquia como um local de convívio e comunhão. Reforçou a importância dos leigos na missão da Igreja, dizendo que são eles que devem levar a mensagem do Evangelho para os seus locais de trabalho, para a política, a economia e para o mundo digital. Anunciou ainda que os Conselhos Pastorais passarão a ser obrigatórios em todas as paróquias e que a formação deve continuar para além da catequese e da confirmação.

O Bispo terminou a homilia com uma nota de esperança, afirmando que o futuro não é o caos, mas sim “o abraço definitivo do amor” de Deus.

A Ouvidoria da Lagoa, criada em 1984, engloba sete paróquias e, segundo a agência Igreja Açores, é uma das ouvidorias da diocese que regista “grandes bolsas de pobreza”.

Abertas pré-inscrições na Escola Diocesana de Formação

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Estão abertas as pré-inscrições para os diferentes cursos da Escola Diocesana de Formação da mais nova instância formativa do Seminário Episcopal de Angra e do Serviço de Coordenação da Formação Diocesana.

O organismo foi criado com a missão de proporcionar aos fiéis uma formação cristã sólida e aprofundada, que os capacite a compreender, viver e testemunhar a fé de modo consciente e esclarecido.

Existem três modalidades de formação. O Curso Básico de Teologia – dirigido a todos os que desejam aprofundar o conhecimento da fé cristã de forma estruturada e pastoralmente enraizada. Destina-se, de modo particular, a leigos comprometidos nas comunidades, catequistas, agentes pastorais e membros de movimentos e serviços da Igreja. Este curso oferece uma formação integral que alia o saber teológico à experiência espiritual e comunitária;

A Formação para Ministérios Instituídos – destinada aos fiéis chamados ao serviço como Leitores e Acólitos, e em breve também para os ministérios do Catequista e da Caridade. Esta formação visa preparar os candidatos para o exercício responsável e espiritual dos seus ministérios, cultivando uma autêntica espiritualidade do serviço e do compromisso eclesial;

E, por fim, os Cursos Livres – uma modalidade flexível e personalizada, aberta a todos os que desejem aprofundar a fé de forma gradual e adaptada aos seus interesses. O aluno pode escolher entre diversas áreas, como Sagrada Escritura, Liturgia, Teologia Moral, História da Igreja, Doutrina Social da Igreja e Espiritualidade, sem obrigação de seguir um percurso fixo.

As pré-inscrições e informações detalhadas sobre cada curso já se encontram disponíveis no sítio online da escola.

Três diáconos vão ser ordenados presbíteros pelo bispo de Angra

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Os diáconos Rui Pedro Soares, Leonel Vieira e André Furtado vão ser ordenados presbíteros pelo bispo de Angra, a 23 de novembro, pelas 11h00, na Igreja de São José, em Ponta Delgada, segundo notícia da Igreja Açores (IA).

A celebração, que será transmitida em direto na página de Facebook da Igreja Açores e do Seminário de Angra, é aberta a todos “sendo um dos momentos altos do ano pastoral que começou no passado dia 3 de novembro, de olhos postos no Jubileu da Esperança”, lê-se ainda.

André Furtado, natural da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário na Lagoa, citado na mesma notícia, entende que “o sacerdote deve ser o homem de esperança que semeia na vida e no coração de cada homem e uma mulher essa esperança, levando a cada um Deus de amor”.

O jovem que o seu percurso no Seminário Episcopal de Angra, onde ingressou depois de ter completado os estudos básicos e secundário em São Miguel. Está há um ano a trabalhar nas paróquias das Feteiras, Ginetes e Candelária, acompanhando o padre Nuno Maiato, lê-se.

“Espero ser um homem de fé, um homem de oração e principalmente um homem da proximidade com Deus e com o povo de Deus, que não se deixe envolver no ativismo”, afirmou o futuro presbítero à IA. “O padre não é um homem solitário, mas solidário, que se dá e doa, que vive por Cristo, com Cristo e em Cristo e encarna na vida este Deus que tem um rosto de alegria, que acolhe e que une e nunca divide”, expressou ainda.

Por sua vez, Leonel Vieira, tem 25 anos e é natural da Paróquia de Sant´Ana nas Furnas. Também completou os seus estudos no Seminário Episcopal de Angra e é diácono há menos de um ano. Tem desenvolveido trabalho pastoral na ilha Terceira, acompanhando o sacerdote que serve na Agualva, ouvidoria da Praia.

“Espero que o meu sacerdócio não seja apenas uma função mas uma forma de vida, um autêntico compromisso, uma jornada que me permita ser um farol de luz para aqueles que buscam a fé num tempo de incertezas”, refere destacando a importância de uma vida “entregue a Deus mas sinal de esperança” para todos”, contou o jovem à IA.

Rui Pedro Soares, de 27 anos, é natural do Faial, mas reside nas Furnas há 14 anos. Também completou os estudos no Seminário de Angra. “Sinto alguma ansiedade, própria destes momentos e o peso que a ordenação implica: esta adesão total à pessoa de Jesus Cristo e dar-me inteiramente à Igreja e ao serviço dos outros” refere à Igreja Açores, destacando a disponibilidade para a “entrega a tudo o que o Senhor pedir”.

“Quando somos jovens e acreditamos que Deus opera em nós esta força, como se fosse uma caldeira, desperta em nós esta vontade de ir, trabalhar e vamos com fervor e espírito  de missão, mas carregados desta força explosiva”, disse ainda Rui Soares, em declarações à IA.

De acordo com a Igreja Açores, a diocese de Angra tem neste momento 133 sacerdotes. O mais velho tem 93 anos e o mais novo tem 28 anos, ambos naturais de São Miguel.