
Filho de mãe portuguesa e pai brasileiro, por largos anos esteve ligado ao jornalismo e à comunicação. De colunista do Segundo Caderno do jornal O Globo, no Brasil, decide em 2010 mudar de rumo e tornar-se dramaturgo e roteirista. Gustavo Pinheiro, dramaturgo de “DOISdeNÓS”, traz já em setembro ao Coliseu Micaelense, na ilha de São Miguel, nos Açores, uma comédia encenada por Antonio Fagundes, que assina a apresentação do seu livro, Christiane Torloni, Alexandra Martins e Thiago Fragoso, com a direção de José Possi Neto. O Diário da Lagoa teve a oportunidade de trocar algumas perguntas e respostas com o reconhecido dramaturgo.
DL: Quem é o Gustavo Pinheiro?
Nasci no Rio de Janeiro, tenho 45 anos, filho de um pai brasileiro e uma mãe portuguesa, nascida em Vila do Conde, que veio para o Brasil ainda menina, aos nove anos. Desde sempre tenho uma relação muito íntima, profunda e carinhosa com Portugal, onde já estive inúmeras vezes. Cresci ouvindo as histórias, tradições, cantigas da minha avó, que era de Barcelos. Então pode imaginar a emoção que está sendo a perspectiva de fazer a minha primeira digressão a Portugal com o meu espetáculo “Dois de Nós”, esse trabalho lindo que não para de nos dar alegrias.
DL: Qual a sua formação académica e como foi o seu percurso?
Sou formado em Jornalismo (Comunicação Social). Trabalhei na área por mais de 15 anos, em redação de jornal, revista e assessoria de imprensa. Mas chegou um momento da vida, lá pelo ano 2010, em que sentia que aquela etapa já estava vivida e o que eu queria mesmo era escrever ficção. Então passei a fazer todo curso que podia, estudei roteiro, dramaturgia, diálogo, tudo que podia.
DL: Qual foi o seu primeiro trabalho?
Em 2015 me inscrevi no concurso Seleção Brasil em Cena, que premiava novos autores com a montagem do texto. Participei com a minha primeira peça, “A Tropa” (que está em cartaz até hoje no Brasil – @a.tropa), e ganhei o concurso. Em março 2016 a peça estreou e a vida nunca mais foi a mesma, para minha alegria.
DL: O que sente quando recorda o seu percurso?
É uma mistura de sensações. Orgulho, gratidão e insegurança. Orgulho, por ter tido coragem de não me acomodar e correr em busca do que queria. Gratidão, por saber que meu trabalho alcança, emociona e diverte tantas pessoas. E uma pitada de insegurança por saber que não tem “jogo ganho”, que o nosso trabalho é levantar e fazer, todos os dias.
DL: “A apatia que nos assola diante da morte dos outros confirma que já estamos mortos também”. Fale-nos sobre essa citação.
Se não me engano, essa frase fazia parte de uma coluna que escrevi à época da pandemia, quando víamos as pessoas morrerem aos milhares. No Brasil foram mais de 700 mil pessoas. Uma vergonha. Um tempo triste e sombrio.
DL: Aos seus olhos, ser artista é doloroso?
Também. Ser artista é um monte de coisa, inclusive doloroso. É uma vida muito incerta. O sucesso de hoje não significa nada amanhã. É um eterno recomeçar. Mas parece-me que o desafio é fazer dessa incerteza um valor e não um problema. No entanto, além de doloroso, ser artista é muito prazeroso e recompensador. É mágico uma plateia de 700, 1.000, 1.500 pessoas aplaudindo de pé um trabalho que se fez sozinho, em casa, trancado num escritório, de maneira absolutamente solitária.
DL: Como surgiu a obra “DOISdeNÓS”?
Quando assisti “Três Mulheres Altas”, de Edward Albee, em Nova York, fiquei muito tocado pelo que a peça propunha. Anos depois, traduzi a peça para o Brasil e o tema voltou a me rondar. Mas eu tinha vontade de transpor aquela discussão para a vida dos casais, coisa que o Albee não faz. Esse foi meu ponto de partida.

DL: Tem um elenco com imenso talento. Como foi a escolha?
Quando conheci o Antonio Fagundes e a Alexandra Martins – e acabamos ficando amigos – achei que era a ideia de peça perfeita para eles. E comecei a escrever. Meses depois, quando entreguei o texto, eles se animaram para encenar, convidaram a Christiane Torloni e o Thiago Fragoso, o que foi outra alegria, e cá estamos. Vamos chegar a Portugal com mais de 70 mil espetadores em um ano rodando o Brasil. Sem dúvida, é uma grande alegria.
DL: Descreva, se possível, os quatro elementos do elenco.
Antonio Fagundes interpreta Pedro Paulo, um homem na casa dos 70 anos, que já passou por poucas e boas, e que precisou rever muitos valores e certezas que teve na vida. Christiane Torloni é Maria Helena, uma mulher segura e que guarda uma grande questão na vida. Thiago Fragoso é Pepê, um jovem seguro e ambicioso, que tem muitos planos para o seu futuro. E Alexandra Martins é Leninha, uma jovem que precisou abrir mão dos seus sonhos para se dedicada à família, ao lar e à maternidade.
DL: O que é que os micaelenses poderão esperar do espetáculo que vigorará nos dias 26 e 27 de setembro de 2025?
Os micaelenses podem esperar um espetáculo belíssimo, divertidíssimo e também muito emocionante. Estamos todos honrados e felizes em levar “Dois de Nós” para os Açores, loucos para conhecer a ilha de São Miguel e tudo o mais que for possível.
DL: O que lhe falta para sentir-se completo enquanto artista?
Falta tudo que ainda não fiz. (risos)