
André Silveira
No próximo dia 18 de maio, os Açorianos serão chamados às urnas para eleger os seus cinco representantes na Assembleia da República. E, ao contrário do que muitos poderão pensar, o desfecho desta eleição no círculo dos Açores não está completamente escrito. Dir-se-ia, até, que há mais em jogo do que o habitual.
A tradição eleitoral e o peso histórico dos dois maiores partidos, PS e PSD, ditam quase sempre um cenário previsível: dois deputados para cada, sobrando o quinto mandato para discussão. Nas legislativas de 2024, foi o Chega a conseguir esse lugar, num contexto de crescimento nacional e com uma campanha agressiva a nível regional. Mas este ano o contexto mudou. E mudou muito. No mínimo, diria que mudou por uma ou duas malas de razões.
A Aliança Democrática, coligação que junta PSD, CDS e PPM no círculo dos Açores, parte como favorita para repetir, ou até melhorar, o resultado anterior, apesar de não conseguir explicar aos eleitores porque razão nos Açores o PPM faz parte da coligação, mas no continente é oposição. O PS, apesar do desgaste regional e de uma dinâmica regional menos entusiasmante, tem uma base eleitoral consolidada, o que lhe garante, à partida, dois mandatos. As sondagens, ainda que escassas e, convenhamos, muitas vezes de validade duvidosa quando aplicadas à realidade arquipelágica, confirmam este equilíbrio. Assim sendo, o que se vai realmente decidir no dia 18 é quem fica com o quinto deputado.
E aqui o cenário é de incerteza. A luta será renhida entre o terceiro nome da lista da AD, o terceiro do PS, o cabeça de lista do Chega e o da Iniciativa Liberal . E qualquer deslize ou acerto de estratégia pode valer esse mandato. A matemática é simples: bastarão algumas centenas de votos de diferença para definir o eleito. Isto porque, com cinco lugares apenas, a margem entre o quarto e o quinto eleito poderá ser mínima.
A posição do Chega é delicada. O partido viu-se envolvido recentemente no caso polémico com o seu deputado na Assembleia da República pelos Açores, episódio que manchou a imagem da estrutura regional e abalou a sua base de apoio. A juntar a isso, o líder nacional do partido não tem sido particularmente eficaz nesta campanha, com intervenções pouco ajustadas à realidade Açoriana e uma estratégia que parece cada vez mais desfasada das preocupações locais. Os temas fundamentais que o Chega insiste em trazer para o debate nacional, como a imigração ou o discurso securitário, têm pouca relevância junto dos Açorianos, que neste momento olham mais para a economia regional, o custo de vida, a mobilidade e a gestão da autonomia. Ainda assim, o cabeça de lista do Chega pelos Açores apresenta-se este ano com um perfil bastante mais qualificado e acima da opção feita nas últimas legislativas, o que pode atenuar parte do desgaste. Se este abalo eleitoral se confirmar, abre-se espaço para a Iniciativa Liberal crescer e, embora altamente improvável, quem sabe, fazer história ao eleger um deputado, algo que seria inédito no círculo dos Açores.
Mas para isso, a IL terá de se afirmar como terceira força regional nestas eleições. Algo que, embora difícil, não seria completamente surpreendente, tendo em conta a quebra do Chega e a saturação que muitos eleitores sentem em relação às opções tradicionais e ao recente escândalo. O discurso liberal, centrado na redução da burocracia, na promoção da liberdade económica e na defesa de uma autonomia mais adulta e menos subsidiada, poderá captar eleitorado urbano e jovem, sobretudo em Ponta Delgada e Angra do Heroísmo.
Neste contexto, mais do que conhecer os líderes nacionais ou os slogans das campanhas, importa saber quem são, afinal, os protagonistas desta disputa. Quem são o terceiro candidato da lista da AD, o terceiro do PS, o cabeça de lista do Chega e o da IL? Que ideias defendem? Que propostas levam para a Assembleia da República? Que visão têm para os Açores e para o futuro da autonomia? Dos quatro, qual o que serviria melhor os interesses da região na República?
Um debate público entre estes quatro candidatos seria não apenas útil, mas absolutamente imprescindível. Seria a ocasião ideal para que os Açorianos distinguissem quem tem substância, conhecimento e um compromisso genuíno com a defesa dos interesses regionais, de quem fará apenas número. Permitiria avaliar quem detém, de facto, conhecimento profundo sobre a complexidade da realidade Açoriana. Mais do que isso, possibilitaria perceber quem estará na Assembleia da República para fazer a diferença em nome dos Açorianos e da Autonomia, e quem não passa de mais uma nomeação política de conveniência, desprovida de valor acrescentado para a defesa da Região.
Convém recordar que, tradicionalmente, o terceiro candidato da AD e o terceiro do PS são figuras politicamente secundárias, quase sempre desconhecidas da generalidade dos Açorianos, escolhidas mais por conveniências internas dos partidos do que pelo seu valor político regional. Numa eleição tão decisiva para a região, com tantos dossiers fundamentais em discussão no continente, não faz sentido que se vote às cegas ou por arrasto partidário, sem escrutínio rigoroso daqueles que poderão, afinal, representar os Açorianos na República.
Por fim, há um tema que não se pode deixar de sublinhar: a urgência de se avançar para um círculo de compensação nacional. Tal como existe nos Açores para as eleições legislativas regionais, permitiria que os votos em partidos mais pequenos não se perdessem completamente, como hoje acontece. Nos Açores, todos os votos que não forem para PS, AD, Chega ou IL não servirão para eleger alguém, o que desincentiva o voto em alternativas e empobrece a democracia. Um círculo de compensação, como elemento estruturante de uma democracia madura e pluralista, garantiria maior representatividade e faria justiça ao princípio de que todos os votos devem contar.
No dia 18, mais do que escolher partidos, escolhem-se pessoas. E mais do que votar por hábito ou fidelidade, é tempo de votar com exigência e critério. Porque o quinto deputado Açoriano na Assembleia da República pode, mais do que nunca, fazer a diferença.