
Octávio Lima
Professor
Há alguns anos, uma mulher pediu-me amizade numa rede social. Alegava conhecer-me da infância e, para confirmar a sua identidade, citava nomes da minha família, amigos de antigamente e vizinhos da época.
A história por trás do pedido era como um conto: ela era a menina que, no final dos anos 1960, tinha emigrado com os pais para o outro lado do Atlântico, onde se radicou, não tendo mais regressado ao lugar onde nasceu.
As impressões que guarda do seu passado na ilha permanecem congeladas no tempo. As imagens do seu presente, porém, resumem-se a manifestações exacerbadas, nas redes sociais, de um novo patriotismo: o apoio incondicional ao atual chefe máximo e o combate feroz àqueles que, tal como ela há sessenta anos, imigraram sonhando colher os doces frutos da prometida árvore dos dólares.
Quando a saturação desses temas se instala, replica todos os feitos que tornaram o seu país de acolhimento a maior potência mundial. Assim, espraia-se na celebração do Dia da Queda das Torres, do Dia da Independência, do Halloween, do Dia de Ação de Graças – com os seus inevitáveis perus desmedidos. E, na míngua absoluta de assunto, subsiste sempre o postal de uma bandeira cravada na areia, contra o pano de fundo de um pôr do sol no horizonte.
Ela não está sozinha; muito pelo contrário. Sempre que ostenta o seu orgulho patriótico e desprezo pelos imigrantes, recebe apoio incondicional de amigas que não só reforçam a mensagem, como lhe acrescentam substância e tempero. Uma cola-lhe a imagem de um fac-símile do Preâmbulo da Constituição, riscado com o grafito ‘We the people have had enough’. Outra acrescenta a estampa do Grande Chefe. Uma terceira anexa um selo que agradece o ‘heroico trabalho’ das milícias de caça ao imigrante.
Creio residir aqui uma ironia profunda e triste: quem conheceu na pele o desenraizamento, a saudade e a luta por uma vida melhor, vira agora as costas a quem trilha o mesmo caminho. Esta emigrante que hoje critica os imigrantes poderá ser vítima do que os especialistas chamam de ‘amnésia geracional’, apagando da memória as lutas dos seus antepassados — ou as suas próprias.
A história da emigração portuguesa é um testemunho de resiliência, mas também de solidariedade comunitária. Esquecê-lo é trair a nossa memória coletiva. O sucesso alcançado não deve ser uma escada que se puxa para cima, mas uma ponte que se estende para trás.
No fundo, a condição de imigrante — com a sua vulnerabilidade e esperança — é um laço humano mais forte do que qualquer diferença de origem ou época. Negar este fio que nos une é, em última análise, negar uma parte essencial de quem somos.

Depois da missa das cinco e antes das Trindades da manhã, ainda no inverno, os homens e rapazes da nossa vila de Água de Pau começavam a acorrer à Praça Velha, onde todos os dias se procurava e encontrava trabalho nas nossas terras de cultivo, até quase ao cume da serra.
Todas as ruas levavam até lá, confirmando o ditado popular que dizia: «Todos os caminhos da nossa terra vão dar à Praça». Por regra, era assim, durante muitos anos. Poucos se livravam desse destino, a não ser que aprendessem outro ofício, seguissem os estudos – o que era um milagre – ou embarcassem para o Brasil, para a América, para a Argentina ou para Curaçau, à procura da sua sorte.
O José Luís, o «mata-gatas», sonhava acordado com um vapor que passava em frente à Ponta da Galera, a caminho da América. O sonho dele era embarcar «de penedo», pois sempre que passava um daqueles barcos baleeiros, ele subia até à rocha e acenava, esticando-se nas pontas dos pés, às vezes até pulando, para dar nas vistas de quem estivesse no barco, na esperança de o levarem.
Nem que fosse para trabalhar no barco, na faina do óleo da baleia que abastecia os candeeiros que iluminavam as cidades da América, como lhe tinha contado um tio da América ao ti Chico da Helena, a «burrica».
O José Luís não gostava nada de ir para a Praça: «A Senhora dos Anjos me livre do castigo do sacho, da arrematação da praça para ir dar o dia por aqui e por ali nas terras de cada um».
Na escola, um dia, lembra-se ele, o professor pediu uma redação com o tema: O que gostarias de ser quando fores grande? Dos mais astutos da turma, o José Luís pôs-se a pensar, lápis na boca, olhos fixos no teto, a tentar encontrar uma maneira de se livrar da tarefa. Depois de refletir um pouco, retirou o lápis da boca e começou a escrever. Passado algum tempo, já tinha escrito mais de uma dúzia de linhas, o suficiente, pensou ele.
A caligrafia dele era de excelente qualidade, das melhores, se não a melhor de todos os alunos da Escola do Outeiro. O professor costumava usá-lo como exemplo para os outros alunos e até para outra professora da escola em Água de Pau. Pena que o José Luís fosse tão irrequieto, tinha sempre o bicho carpinteiro.
Depois de corrigir as redações, o professor entregou-as de volta aos alunos, mas quando chegou à vez do José Luís, não resistiu e leu a sua redação em voz alta para todos:
«Quando eu for grande, gostava de ser bispo. Diz meu pai que é uma vida rica. Come-se do bom e do melhor e pouco ou nada se faz. O pior é falar latim. Mas o que mais importa é livrar-me da Praça, que é uma lástima de vida. Oxalá que consiga, mas ando cá desconfiado que não vai ser nada fácil, pois os empregos de bispo, e mesmo outros, estão muito escassos. Diz meu pai que são sete cães a um osso. Mas também diz que tudo isto há de acabar, haverá uma reviravolta e, então, desaparecerá do mapa a arrematação do trabalhador na Praça…»
O professor, discretamente, corrigiu alguns erros de pontuação, mas fez questão de sorrir de escantilhão, sem dar muita confiança.
José Luís chegou a casa e mostrou a redação à mãe, a senhora Lurdes Ramela. Depois de ler, ela lançou-lhe um olhar doce, passando-lhe a mão pela cabeça, como que a afagar-lhe o carinho. A irmã Gorete, a «sola-grossa», não dava muita importância à escola e, por isso, olhava com inveja o irmão, com um olhar matreiro.
O Luís «mata-gatas» era inteligente, por isso, ninguém sabia bem por que razão ganhou esse apelido, mas pensava-se que era porque o associaram a um homem da terra, o Luís Fragata, que tinha matado uma ou mais gatas. A corisca da Helena «burrica» foi quem lhe começou a chamar assim, e ficou. Mas, felizmente, o nome não lhe ficou para sempre.
Na verdade, o destino sorriu ao Luís da tia Lurdes Ramela, que, teimosamente, continuava a descer a rua dos Ferreiros, olhando sempre para o mar. Sempre que avistava um barco a atravessar o mar da prata, em frente ao Jubileu e Cerco, corria pela ladeira abaixo da Galera em direção ao seu penedo, na esperança de que o vissem a acenar, como alguém pedindo: «Levem-me!»
Um dia, finalmente, um barco baleeiro americano vindo da ilha do Faial arriou um bote e enviaram alguém para o apanhar e levaram-no para a América! Durante quase dois meses, o Luís trabalhou com outros homens na faina baleeira, transformando a gordura do mamífero em óleo, que ia sendo armazenado nos barris a bordo. O fedor horrível daquela tarefa nunca o derrotou. Quando finalmente os barris estavam cheios, seguiram rumo a New Bedford, o maior porto baleeiro da costa leste dos Estados Unidos.
Ao chegar, com algumas patacas na algibeira que não lhe serviam de nada, pois o trato que fizera para ser levado no barco para a América envolvia integrar-se ao trabalho até o fim da viagem, sem pagamento, apostou num emprego no porto da cidade. Já com alguns dólares no bolso, decidiu escrever uma carta aos pais, que o tinham dado por morto, acreditando que ele tinha desaparecido na apanha de lapas na ponta da Galera.
Um dia, a senhora Maria da Estação dos Correios de Água de Pau mandou o seu filho Rodolfo entregar uma carta da América, enviada por Louis Eye-Gunk (tradução de Ramela) para a tia Lurdes Ramela , que vivia na rua da Boavista [hoje rua do Pico]. Pelo caminho, Rodolfo não tirava os olhos das listras azuis e vermelhas estampadas no envelope.
«Ti Lurdes Ramela, minha mãe arrecebeu essa carta da América pá senhora».
A tia Lurdes Ramela, assim que abriu o envelope e reconheceu a caligrafia bem feita do seu filho, caiu no sofá de vimes, quase desfalecida. «Meu querido Luís, estás vivo, alma de Deus!»
«Querida Nossa Senhora dos Anjos, obrigada minha Santa, vou de promessa na procissão com um molhe de círios às costas. Ah, isso é que vou!»
A filha Gorete, «sola-grossa», comovida, prometeu à mãe que a ajudaria a carregar os círios na procissão do dia 15 de agosto, pois sabia que a mãe nunca conseguiria suportar tal esforço.
«Mamã, o Luís mudou de nome lá na América. Agora chama-se Louis Eye-Gunk. Quando a gente for para a América, achas que vão mudar o meu nome também?»
Gorete olhou para a mãe, mas o pensamento estava nas 500 «dólas» que o irmão mandara. «Estas e mais umas patacas que teu pai foi guardando na algibeira do colchão de folha de toqueiro de milho, a gente vai todos para a América, queres ver, quando o teu irmão arranjar casa para todos nós lá?»
«Vai agora, minha filha, à grota dos cães, chama teu pai que foi dar um dia com o António «chemiado» e diz-lhe que eu mando dizer que ele se vá embora para casa, que me venha ajudar! E continua… Vamos para a América e o «chemiado» que se lixe com o trabalho de escravo dele, na raíz do passo que lhe vazou!»
Anda rapariga e não te esqueças de nada do que te disse para dizeres! Ala-pés!