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Maestro Carlos Sousa: “Que a paixão seja sempre o motor de tudo o que fizerem”

Natural da Povoação, na ilha de São Miguel, Carlos Sousa, 38 anos, desde muito cedo desenvolveu um profundo interesse pela música. É maestro e em junho de 2009 foi agraciado pelo Governo regional dos Açores com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico – coletiva. Possui licenciatura em Educação Musical e Mestrado em Ensino de Educação Musical. À frente da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação, foi distinguido também pelo jornal Correio dos Açores como o jovem Talento Regional da Música em 2017

© CM POVOAÇÃO

DL: Como começou o gosto pela música?
Quando ainda era criança, e ainda nem tinha aprendido a tocar um instrumento, seguia a filarmónica da minha freguesia, marchando atrás do senhor do bombo e cantarolando as marchas que a banda tocava na altura. Aos sete anos, ingressei na escola de música da Filarmónica União e Amizade da Lomba do Loução — que, infelizmente, está atualmente encerrada — e foi aí que iniciei os meus estudos musicais.

DL: Como foi o seu percurso até ao presente?
Depois da escola de música da filarmónica, decidi frequentar a Academia de Música da Povoação, na classe de trombone. Ao mesmo tempo, ingressei na Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação como trombonista. Mais tarde, na mesma academia, comecei a frequentar as aulas de direção de banda, sob a orientação do professor Christopher Alexander, e foi aí que dei os primeiros passos como maestro.
Inicialmente, dirigi a Orquestra Ligeira da Escola Básica da Povoação e o Grupo Coral de Nossa Senhora dos Remédios. Aos 18 anos, fui convidado a dirigir a Sociedade Musical do Sagrado Coração de Jesus, do Faial da Terra, onde fui maestro durante 10 anos. Foi nesta banda que organizei o primeiro Workshop de Bandas Filarmónicas de São Miguel, uma iniciativa que contou com quatro edições e foi frequentada, em média, por cerca de 90 músicos oriundos de toda a ilha.
Aos 20, ingressei na Banda Militar dos Açores e estive ao serviço do Exército Português durante sete anos, sendo os últimos três na Banda Militar da Madeira.
Fui para a Madeira para tirar a licenciatura em Educação Musical e, paralelamente, fui maestro da Banda Paroquial de São Lourenço da Camacha. Durante esse período, venci o concurso de composição do Hino da Cidade de Santa Cruz, por ocasião da comemoração dos seus 500 anos.
Em 2014, ingressei na Escola Superior de Educação do Porto, onde completei o Mestrado em Ensino da Educação Musical. Enquanto estive no Porto, mantive a ligação com a filarmonia, colaborando com a Banda Musical de Calvos e com a Banda Musical de Amarante.
Ao concluir os meus estudos e regressar a São Miguel, fui convidado para ser maestro da Sociedade Recreativa Filarmónica Fundação Brasileira, da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação e, posteriormente, da Filarmónica Aliança dos Prazeres.
Estudei Direção de Banda com os maestros José Ignacio Petit, Paulo Martins e Alexandre Coelho. Atualmente, tenho o privilégio de continuar a aprender e a crescer profissionalmente ao lado do Maestro Délio Gonçalves, com quem mantenho uma colaboração enriquecedora.
Hoje, sou maestro da Banda Harmonia Mosteirense, mantenho a direção artística da Orquestra Ligeira da Povoação, sou diretor artístico da Gala Regional de Pequenos Cantores da Povoação – Caravela d’Ouro, e professor de Educação Musical na Escola Básica e Secundária do Nordeste.

DL: Quais foram as suas maiores adversidades durante a sua carreira?
Penso que a maior adversidade que enfrentei na minha carreira está relacionada com um grave acidente (atropelamento), que afetou significativamente os meus estudos e a prática musical, assim como outras oportunidades que, na altura, estavam ao meu alcance para seguir um percurso de vida diferente — ainda que sempre ligado à música.

DL: Nos dias de hoje, como é ser professor?
Atualmente, ser professor é um grande desafio, mas também uma enorme responsabilidade e privilégio. No meu caso, como professor de Educação Musical, sinto-me verdadeiramente realizado. Gosto muito do que faço e tenho a sorte de conseguir cativar os meus alunos para as minhas aulas. Ver o entusiasmo deles, o progresso que fazem e o modo como se envolvem com a música dá sentido ao meu trabalho e motiva-me diariamente. É gratificante perceber que, através da música, consigo criar um ambiente positivo, estimular a criatividade e contribuir para o desenvolvimento pessoal e emocional dos alunos.

DL: Sente-se reconhecido enquanto Maestro?
O maior reconhecimento que posso ter como maestro é a sorte de, em todos os grupos musicais que dirigi, contar com o envolvimento e o apoio de todos os elementos. A assiduidade nos ensaios, o espírito de compromisso e, acima de tudo, o facto de ter conseguido deixar uma marca positiva que contribuiu para a evolução de cada grupo são, para mim, sinais claros desse reconhecimento. Por isso, sim — independentemente do grupo ou da época, sinto-me verdadeiramente reconhecido como maestro.

© COLISEU MICAELENSE

DL: Como foi a experiência de dirigir a III Edição Entre a Lava e o Mar junto do Maninho (Phelipe Ferreira)?
Foi uma experiência incrível! Trabalhar aquele género de repertório e colaborar com um músico como o Maninho foi, sem dúvida, um momento marcante e extremamente enriquecedor na minha carreira. A energia durante os ensaios, a troca de ideias e a partilha musical foram inspiradoras. Ver a envolvência do público ao longo do concerto foi profundamente gratificante — e o feedback que recebemos após o espetáculo superou todas as expectativas.
Acredito que é fundamental mostrar que as filarmónicas têm capacidade para apresentar propostas diferentes, inovadoras e artísticas, aproximando-se assim das camadas mais jovens da nossa região. Projetos como este ajudam a quebrar barreiras, a renovar o interesse pela música filarmónica e a demonstrar a sua relevância no panorama musical atual.

DL: Conte-nos o seu papel na Gala dos Pequenos Cantores Caravela D’Ouro.
Na Gala Regional de Pequenos Cantores da Povoação – Caravela d’Ouro, sou responsável por toda a direção artística do festival. Elaboro a maior parte dos arranjos para a orquestra e para o coro, coordeno todos os ensaios coletivos e colaboro com a Maestrina Andreia Amaral na preparação dos ensaios individuais dos solistas.
Procuro sempre que o festival tenha um caráter pedagógico e que deixe uma marca positiva nas crianças que participam. Este ano, por exemplo, preparámos e ensinámos uma música tradicional da Povoação, intitulada Balho da Povoação. A minha intenção com iniciativas como esta é dar a conhecer às camadas mais jovens o nosso património musical, criando laços com a cultura local e garantindo que, no futuro, estas crianças tenham consciência e orgulho daquilo que é nosso — da nossa identidade e das nossas tradições.

DL: Fale do(s) seu(s) próximo(s) projetos.
Este ano, com a Banda Harmonia Mosteirense, para além dos serviços habituais de uma filarmónica, temos previstas várias atividades de destaque. Entre elas, uma deslocação às Sanjoaninas, na ilha Terceira, e um concerto na Festa do Emigrante, na ilha das Flores. Está também planeado um workshop sob a orientação do Maestro Délio Gonçalves, bem como um concerto muito especial com os Anjos, no Coliseu Micaelense, no dia 16 de novembro.
Daremos ainda continuidade à segunda edição do Festival de Bandas Tenente José Dias, iniciativa que visa valorizar o seu repertório e promover o intercâmbio entre bandas filarmónicas.
Com a Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação, está igualmente previsto um concerto fora da ilha de São Miguel, noutra ilha do arquipélago, ainda durante este ano, reforçando o nosso compromisso com a descentralização da oferta cultural e a promoção da música ligeira açoriana.

DL: O que vê ou como descreve a sua equipa de músicos?
A Banda Harmonia Mosteirense é, acima de tudo, uma família! É composta por um grupo de músicos verdadeiramente apaixonados pela filarmonia e profundamente dedicados à sua banda. Esse espírito de união e entrega é, sem dúvida, meio caminho andado para o sucesso de qualquer filarmónica. A banda conta também com uma direção empenhada e incansável na busca das melhores soluções para garantir o seu crescimento e estabilidade. Esta direção é liderada por Manuel Fernando Almeida — um presidente exemplar, que nunca desiste de lutar pelo que acredita e que está sempre disposto a fazer o melhor pela sua “Fandanga”, como carinhosamente chama à banda.
No que diz respeito à Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação (OLCMP), tenho a sorte de trabalhar com um grupo extraordinário — músicos dedicados, sempre disponíveis para aprender mais e motivados para abraçar todos os desafios que lhes proponho. Conto ainda com o apoio fundamental na direção artística do meu amigo João Pedro Resendes, que considero como um verdadeiro irmão mais velho, sempre presente e disponível.
Não poderia falar da OLCMP sem referir a figura do Vereador da Cultura da Povoação, Dr. Rui Fravica — um homem atento, comprometido com a cultura do concelho e particularmente dedicado à sua orquestra. Tem sido incansável em garantir as melhores condições para o nosso trabalho, ouvindo e atendendo com seriedade às necessidades da orquestra. Este apoio institucional é essencial para que possamos continuar a crescer e a levar a nossa música cada vez mais longe.

DL: O que tem a transmitir aos futuros talentos?
Aos futuros talentos, diria para nunca desistirem dos seus sonhos. O caminho da música — como o de qualquer arte — exige dedicação, paciência e resiliência, mas é também um dos mais gratificantes que se pode trilhar. Que a paixão seja sempre o motor de tudo o que fizerem. Aproveitem todas as oportunidades para aprender, ouvir, errar e crescer. Rodeiem-se de pessoas que os inspirem e que acreditem em vocês.
E, acima de tudo, lembrem-se de que talento só floresce verdadeiramente quando é acompanhado por trabalho, humildade e amor pelo que se faz. Se acreditarem no vosso valor e forem fiéis à vossa essência, o vosso talento encontrará sempre o seu lugar.

O testemunho de quem conhece o Maestro

«O Carlos, o Maestro. Conheci o Carlos num contexto completamente diferente do que qualquer casal normal, num concerto. Arrepiei ao vê-lo dirigir, porque o Carlos sente cada batida da música e todos o seguem sem exceção! O que me fez apaixonar por ele foi isso mesmo, o Amor e o Empenho que ele tem no que faz! Fui conhecendo muitos maestros, fui me inserindo neste mundo da música, sem desmerecer qualquer um, o Carlos é especial! Ele vive para a música, ele soa para a música, ele é música. O Carlos faz-nos muita falta e nem sempre foi fácil lidar com a sua ausência, mas sempre que me sento na cadeira para assistir a um concerto dele, volto a ter a mesma sensação do que no primeiro dia que o vi! E melhor que tudo isso é ver o Orgulho nos olhos da nossa filha! Eu tenho muito Orgulho no Homem, Marido, Pai que é, no fundo ele só está a viver o seu sonho e quem sou eu para lhe cortar as pernas? Seguimos juntos, pois o casamento é isto! Amo o meu eterno Maestro!»

JOANA SOUSA, ESPOSA

«Desde criança que o meu irmão Carlos tem uma grande paixão pela música, podemos até dizer que a música corre-lhe nas veias, um dom que Deus lhe deu, herança dos nossos avós.
Apesar da nossa diferença de idade, lembro-me perfeitamente que enquanto eu ia brincar com os meus amigos depois das aulas e, principalmente aos fins de semana, o meu irmão Carlos fechava-se no quarto a tocar música com os seus instrumentos, o que torna um exemplo enquanto músico.
Isto deve-se a todo esforço e dedicação ao longo dos anos, pois o Carlos sempre viveu para a música! Mas o Carlos não é só um grande profissional, enquanto músico ou professor, ele é um grande amigo meu e dos seus amigos, um filho exemplar e um grande irmão, no verdadeiro sentido da palavra, acima de tudo constituiu uma linda família que o apoia e ama muito.
Não há palavras para descrever o imenso orgulho que sinto em ser irmão do Carlos, um dos melhores músicos dos Açores. Abraço meu querido irmão!»

DIOGO DE SOUSA, IRMÃO

Luís Filipe Borges: “não há maior desafio do que criar algo literalmente do zero”

Açoriano, multifacetado e conhecido dos palcos na televisão portuguesa na área do entretenimento e da comunicação, Luís Filipe Borges esteve à conversa com o Diário da Lagoa

© DIOGO ROLA

Nasceu e foi “criado na Terceira, concebido em São Miguel”, começa por contar Luís Filipe Borges ao Diário da Lagoa (DL). Aos 47 anos diz que se sente “orgulhoso” e um “apaixonado conhecedor de todos os quartos da nossa casa arquipelágica”, considerando-se por isso um “açoriano universal”. Entre risos revela, igualmente, que nas palavras de sua mãe – quando esta está chateada – que é alguém que “não quer mesmo morrer estúpido”.
É licenciado em Direito mas enveredou por outros caminhos, demonstrando a capacidade multifacetada, primeiro como o anfitrião das quatro séries do “talk-show” A Revolta dos Pastéis de Nata, na RTP2. Depois, no mesmo canal, apresentou o programa de “stand-up comedy” Sempre em Pé. Participou ainda em O Homem que Mordeu o Cão, na TVI, Feitos ao Bife e co-apresentou, com Fernando Casqueira, Conta-me História, ambos na RTP1. Apresentou também o 5 Para a Meia-Noite e foi co-apresentador do programa de rádio 5 Para o Meio-Dia. Colabora com a imprensa, tem vários livros publicados e mais recentemente estreou-se como realizador de filmes ao lançar uma curta, rodada na ilha do Pico, intitulada de “First Date”, uma comédia romântica que já chegou inclusive às casas de cinema na diáspora, onde recebeu a nomeação de “Best Director” na categoria de curtas-metragens no New Bedford Film Festival.

DL: Como foi sair da ilha Terceira?
Horrível. Não queria, porque tinha uma péssima experiência com as idas regulares ao continente (o meu pai é Beirão) e, na verdade, só fui porque todos os meus amigos iam… Não quis ficar sozinho atrás [risos]. Ironicamente, hoje em dia, desse grupo de velhos compadres do liceu restam apenas eu e outro na capital. E, se a minha vida profissional o permitisse, já viveria no Pico há pelo menos meia dúzia de anos.

DL: Como foi o seu percurso no mundo da televisão?
Gosto de lhe chamar um “acidente feliz”. Nunca me passara pela cabeça dar a cara em TV. O que queria era viver da escrita. Curiosamente, foi uma crónica diária de humor que publicava num diário lisboeta já defunto que me levou a receber o convite para gravar um piloto do que viria a ser o meu primeiro programa como apresentador, A Revolta dos Pastéis de Nata. A partir daí, uma data de outras coisas bonitas aconteceram – sobretudo durante um período de pelo menos 12 anos.

DL: Sendo apresentador e guionista, como enquadra a versão stand-up comedy?
De modo muito natural, uma vez que o stand-up comedian é, no fundo, um argumentista de humor que desenvolveu o necessário par de tomates para se expor perante plateias. E alguns dos mais corajosos que conheço são mulheres. As suas palavras, a sua atitude, um microfone e nenhuma quarta parede.

DL: Como consegue cativar as pessoas na arte de fazer rir?
Se soubesse a fórmula científica estaria muito provavelmente a responder a esta entrevista desde uma penthouse no Upper West Side [risos]. Há gostos para tudo, Portugal tem uma diversidade de propostas na comédia verdadeiramente riquíssima, sobretudo tendo em conta a dimensão do país, e ocupo com abnegação o meu humilde lugar. Uma das coisas mais importantes para se ter, penso, é capacidade de autodepreciação; outra, é compreender que o público é tal e qual os cães… farejam o medo. Se te topam inseguro, voz trémula, micro a estremecer, engasgado… escolhe outro caminho para a tua vida.

DL: Prefere televisão, rádio, teatro, cinema ou ser escritor?
Tenho uma curiosidade infinita por tudo o que possa ser protegido pelo gigante guarda-chuva da Comunicação. Porém, de pistola apontada à cabeça e só podendo escolher uma, diria escrever. Sem dúvida. Porque não há maior desafio do que criar algo literalmente do zero, começando naquela página em branco impassível, com o cursor a piscar como quem diz “Então? E agora?”. Além disso, seja TV, rádio, teatro, cinema ou o que for, tudo (t-u-d-o) começa pela escrita.

DL: Quem são ou foram as suas referências para o seu desenvolvimento pessoal versus profissional?
Herman José, Dave Chapelle, Jon Stewart e Conan O’Brien. No pessoal, sem dúvida alguma o melhor professor que tive na vida, António Bulcão, faialense, advogado, músico, escritor, ainda hoje – sem tirar nem pôr – um dos melhores cronistas que este país tem, e responsável pela primeira vez que pisei um palco e participei na criação de um espetáculo: uma homenagem a Natália Correia, poucos meses após a sua morte.

DL: Fale-nos acerca do podcast Homens de uma Certa Idade.
Chegamos a um momento da vida em que só queremos trabalhar com quem nos faz bem, acrescenta, motiva. O Raminhos recebeu um convite do Observador para o seu universo de podcasts, queriam saber o que ele tinha na manga, e de imediato falou connosco (até porque já partilháramos a experiência dos espetáculos “3 é Demais”). Eu por acaso até tinha este título na gaveta há algum tempo, propusemos e foi aceite de imediato. Têm sido uns meses absolutamente excecionais. E gravamos às oito da manhã o que, no caso dos três, implica acordar às seis e um quarto para estar a horas no estúdio em Alvalade [risos].

DL: O que pensa sobre o António Raminhos e o Marco Horácio e como é a logística de cooperação entre vós?
São dois dos melhores seres humanos que alguma vez conhecerei e a nossa colaboração assenta na espontaneidade e numa regra simples: se dois concordam, mas o outro não, não se avança. No caso do Homens de uma Certa Idade temos um esquema básico de pousio: em cada episódio um de nós é responsável pelo tema/pergunta com que arrancamos, bem como pela escolha das três pessoas a quem pedir respostas a essa mesma pergunta (por mensagens via áudio de Whatsapp), e ainda pela música com que nos despedimos no final. Depois é só deixar rolar e o nosso conhecimento mútuo, experiência e amizade fazem o “resto”. Mesmo assim, acho que ainda não passou uma semana sem que um de nós tenha surpreendido os outros com uma informação sobre si completamente nova ou insólita [risos].

DL: Seria inédito questionar se prefere a ilha de São Miguel ou a Terceira, mas o que absorveu da sua recente visita aos micaelenses?
Sou completamente apaixonado por São Miguel, com receio de que o avassalador aumento da vaga turística nestes últimos anos tenha implicações nefastas para o seu ecossistema e, por consequência, para a sua população. Proponho que todos, micaelenses ou não, acompanhem (e apoiem) o extraordinário trabalho que tem sido levado a cabo pelo Blue Azores.

DL: Como foi mostrar o melhor da sua terra ao seu “brother from another mother”?
Temos ainda um longo caminho por diante, uma vez que ainda só rodámos em São Miguel (a ilha que o Raminhos conhece melhor, de longe) e o programa só estreará lá para setembro/outubro do próximo ano. Mas diria que, como sempre, e após pelo menos 20 anos de amizade, largas centenas de espetáculos juntos, ‘n’ projetos e cumplicidade, só poderia ser uma experiência absolutamente revigorante, plena, de dois velhos companheiros com uma química à prova de bala. E foi obviamente maravilhoso e gratificante apresentar-lhe pessoas como o Luís Banrezes, Eugénia Contente, João Moniz, Eleonora Marino Duarte, Pedro Almeida Maia, Paula Gouveia, Sidónio Bettencourt, Sara Massa, Zeca Medeiros, Katia Guerreiro, entre outros.

DL: Conte-nos o motivo do seu adereço icónico, a boina.
Já tem sido raríssimo usar boina, embora continue a adorar chapéus, mas a razão é tão simples quanto esta: o cinzentismo do curso de Direito (pelo menos entre 95 e 2000). Queria algo que me distinguisse da marralha de rapazinhos armados em sérios, com blazers e pastinhas executivas logo aos 18, 19 anos, quais doutores-proveta.

DL: Ainda acha que “desilude a família desde 1977”?
No sentido em que me tornei o primeiro “Dr.” da mesma, mas depois “marimbei-me” de imediato na licenciatura, sim [risos].

Miguel Estorninho: “sempre pronto a ouvir uma nova ideia e a construir algo bonito e diferente”

Formado em Ciências da Comunicação, Miguel Estorninho trocou a Graciosa por São Miguel onde alimenta o projeto Nativos Podcast

© NATIVOS PODCAST

«O Miguel Estorninho é o que se diz por autêntico líder nato, a capacidade de organização da equipa e tudo o que se prende pela gestão de recursos humanos passa pelas mãos do Miguel.
Porta-voz da Digital, Cara do Podcast.
Embora nem sempre seja fácil de trabalhar com amigos, conseguimos separar bem as águas e é como se fosse uma relação trabalho-amizade 24/7.
Estamos uns para os outros nos trabalhos e nas diversões.»

GIL FARIA E MIGUEL MONTEIRO

DL: Quem é o Miguel Ângelo Estorninho?
Cresci numa ilha pequena — a Graciosa — e, ao longo da vida, tenho tentado construir o meu caminho com esforço, criatividade e alguma teimosia.
Gosto de comunicar, de criar coisas com propósito e de juntar pessoas à volta de boas ideias.
Sou fundador da Digital Natives Portugal, uma agência de comunicação regional, e apresentador do Nativos Podcast, um projeto que me tem desafiado bastante e, ao mesmo tempo, ajudado a crescer — não só a nível profissional, mas também pessoal.
Gosto de pensar que sou uma pessoa atenta, com um lado sensível que nem sempre deixo à vista, mas que está muito presente. Tenho amigos incríveis, uma família que valorizo muito, e tento todos os dias estar mais presente para quem realmente importa.
Estou sempre pronto a ouvir uma nova ideia e a construir algo bonito e diferente. Quero continuar a viver desafiando-me e a crescer diariamente nos vários ciclos da vida.

DL: Como foi sair da ilha Graciosa para São Miguel?
Sair da ilha Graciosa para São Miguel foi uma das mudanças mais marcantes da minha vida.
Cresci numa ilha com cerca de quatro mil habitantes, onde toda a gente se conhece e onde existe uma certa tranquilidade… mas também alguma limitação em termos de oportunidades.
Crescer num lugar tão pequeno ajudou bastante a minha criatividade — quando somos miúdos, inventamos brincadeiras, criamos histórias, e acredito que isso teve impacto direto no que faço hoje, que passa muito por criar e contar histórias.
Quando vim para São Miguel, o início foi estranho. Senti falta da calma, das referências, da família e da proximidade de tudo. Mas, ao mesmo tempo, havia uma vontade muito grande de me afirmar, de encontrar o meu espaço, de construir algo meu.
Foi cá que conheci os meus amigos e sócios Gil Faria e Miguel Monteiro, com quem acabei por partilhar a aventura empresarial em que estou inserido.

DL: Qual a sua formação e o motivo da escolha?
A minha formação acabou por surgir quase por acaso. Como muitos jovens no início da vida adulta, estava um pouco perdido sobre o que estudar e onde estudar. Havia muitas opções e a minha média não era impressionante.
Precisei de experimentar um pouco da vida para perceber o que realmente gostava. Entrei inicialmente em Relações Públicas na Universidade dos Açores — os primeiros anos foram mais de descoberta pessoal do que propriamente de foco académico.
Mais tarde, mudei-me para Lisboa e fui estudar Ciências da Comunicação. Escolhi esse curso porque, desde cedo, senti uma ligação forte com as palavras, com a forma como as histórias são contadas e com o impacto que a comunicação pode ter nas pessoas. Sempre fui curioso, observador e com vontade de entender o mundo e encontrar a minha forma de expressão.

DL: Quais e como foram os primeiros passos no mercado de trabalho?
Depois de terminar a formação, comecei a fazer trabalhos ligados à comunicação digital, redes sociais e produção de conteúdos. Nada era muito impressionante, mas foi o suficiente para perceber que gostava realmente daquela área.
Fui ganhando experiência, cometendo erros e aprendendo com eles. Aos poucos, comecei a acreditar que podia criar algo meu. Foi nessa fase que surgiu a ideia de fundar a Digital Natives Portugal, com o objetivo de apoiar marcas e projetos locais, mas com uma abordagem mais moderna, criativa e autêntica.

DL: Por que decidiu permanecer na ilha de São Miguel?
Vivi sete anos em Lisboa, onde estudei e trabalhei, mas mantive sempre uma ligação forte a São Miguel e aos Açores. Cheguei a vir cá fazer estágios e colaborar com empresas regionais.
Em setembro de 2024, fez sentido regressar. Queria estar mais perto da família, dos amigos, da minha empresa, da ilha e da natureza — e viver com o estilo de vida que os Açores oferecem.

DL: Conte-nos a história ou percurso do seu projeto atual. Como começou, como prepara os cenários, como escolhe as pessoas?
O Nativos Podcast é uma ideia com vários anos. Ninguém inventa a“roda” apenas se adapta a “a roda”, já havia outros programas do género mas queríamos criar algo com identidade açoriana, feito por nós, com o nosso olhar.
Há cerca de cinco anos, eu e o Gil Faria pensámos na ideia, mas ficou em “águas de bacalhau”. Só em 2024, com o meu regresso a São Miguel e com o crescimento da nossa equipa, é que fez sentido avançar.
A ideia sempre foi destacar açorianos que se evidenciam nas suas áreas, independentemente da idade, género ou área de atuação. O foco está no percurso, na essência e na inspiração que podem gerar nos outros.
Decidimos gravar em locais diversos — interiores e exteriores — mas mantendo o mesmo cenário visual: os emblemáticos sofás. O projeto tem crescido com trabalho, dedicação e muito carinho. No fundo, é uma extensão de mim, da equipa e da Digital Natives e uma forma de valorizar o que temos por cá.

DL: Descreva as pessoas que abraçaram o projeto e o papel de cada uma.
Tudo começa com uma ideia, mas sem pessoas nada se faz. O Nativos Podcast tem sido abençoado por contar com uma equipa fantástica.
O Gil Faria está na edição e coordenação de produção. O Miguel Monteiro trata da logística e da captação. O André Saudade cuida da captação de vídeo e fotografia, e tem sido um grande companheiro. O Diogo Bernardo também trabalha na imagem e vídeo, e tem uma crença forte no projeto mesmo quando tudo parece correr mal. O André Borges (Tojó) juntou-se quando percebemos que precisávamos de apoio no som e conquistou esse espaço que foi essencial e muito importante para nós.
Temos ainda o Rafael Tavares e o Bruno Medeiros, que sempre que é preciso substituem alguém da equipa de captação e o Rodrigo Beleza que nos tem ajudado e muito na logística de tudo.
E não posso deixar de referir a Inês Monteiro a responsável pelo design visual, desde o logotipo às cores e símbolos. A imagem do podcast nasceu do talento dela.
Apesar de eu ser a “cara” do projeto, nada seria possível sem estas pessoas. Sou mesmo muito grato a cada uma delas.

DL: Qual o impacto que pretende transmitir?
Ainda sinto que, no continente, muitas vezes se olha para os açorianos com uma visão redutora associada ao campo, ao mar ou às vacas felizes. Mas há por cá pessoas incríveis, com trajetos impressionantes, capazes, criativas e muito inspiradoras.
Se conseguirmos dar visibilidade a essas pessoas, expressar esse talento e contribuir para o reconhecimento do valor açoriano, já é um impacto muito positivo.

DL: Queijadas da Graciosa ou a sua equipa?
Sem dúvida que as Queijadas da Graciosa. Estou a brincar. [risos]
Apesar de ser um grande apreciador da marca e do produto, a minha equipa, que é feita de amigos meus, ocupa um lugar muito mais importante no meu coração.

DL: O que pretende para o futuro?
Temos vários objetivos para o futuro. Esta temporada do Nativos Podcast terá pelo menos oito episódios, lançados ao longo de oito domingos. Depois disso, gostaríamos de avançar para uma terceira temporada.
O nosso grande sonho é terminar o ano com um espetáculo ao vivo. Ainda é uma ideia em fase inicial, mas tudo depende do feedback do público.
Vamos ver o que o futuro nos reserva e essa é, talvez, a parte mais bonita.

“Temos de colocar a qualificação dos açorianos como prioridade”

Em entrevista ao Diário da Lagoa, Francisco César fala sobre o seu percurso, que esteve desde cedo ligado à política, e sobre os desafios que os Açores enfrentam

Presidente do PS Açores e deputado na AssembleIa da República coloca a qualificação dos açorianos como prioridade © PS AÇORES

Desde cedo ligou-se à política por ser a política o assunto mais falado em casa. Francisco César, 46 anos, nasceu em Lisboa e veio para São Miguel com três anos. É economista, adepto fervoroso do Sporting, presidente do PS Açores e deputado na AssembleIa da República. Numa breve história pelo seu percurso, conta-nos o que pensa do presente e do futuro da região, não esquecendo o passado.

DL: O seu pai está ligado à política, sempre viveu num ambiente familiar ligado à política. Como é que foi crescer nesse ambiente?
Desde que me lembro, atuo neste ambiente. Eu cresci no meio de campanhas políticas, desde miúdo. O meu pai e a minha mãe conheceram-se na política. A minha mãe trabalhava no PS Nacional e o meu pai estava aqui no PS regional e conheceram-se. Nas reuniões, eu ficava na reunião, sentado, a ouvir, caladinho, na altura. Fiz um estúdio de rádio na minha casa em que eu lia os manifestos políticos do partido e gravava, compunha música. Gravava tempos de antena e a minha mãe gozava comigo, porque eu chamava aquilo de rádio Feteiras, porque na altura os meus pais tinham uma casa nas Feteiras.

 DL: E era lá que fazia isso?
Sim, a política acabou por ser uma coisa natural. A minha casa sempre foi uma casa cheia de livros. E hoje, tanto que assim seja, também, para o meu filho.

DL: Nunca se sentiu obrigado a ler?
Antes do contrário, eu gostava. Eu até acho que os meus pais preferiam que eu não me tivesse metido nisso. Eu acho que é o sentimento de qualquer pai, porque eu próprio, eu olho para o meu filho, que vai fazer 13 anos, e vamos ver… Isto da política tem a sua graça, mas dói, não é fácil. A política implica nos sujeitarmos a um escrutínio e a uma apreciação da parte de terceiros, que é, ao mesmo tempo, gratificante, mas é também muito cruel.

DL: Como é que se protege a família disso?
Isto é um processo. Os meus pais, e eu, fui particularmente afetado pela questão da família na política. E isso dói, ou seja, as pessoas fazem uma valorização dos outros com base em pressupostos ou preconceitos que as pessoas têm em relação aos outros. E nós somos sempre julgados. Tento proteger a minha família, através de um bom núcleo familiar. 

DL: Quem é o homem por detrás do político?
Essa é das perguntas mais interessantes, mas, no entanto, das mais difíceis. Eu verdadeiramente gostava de ter sido economista. Economista, ou seja, praticar. Eu sou muito impaciente. Mas eu sou profundamente normal nas minhas coisas. Gosto de ler, gosto de sair, até gosto de cantar. Mal. Eu sou muito distraído, as pessoas não sabem. Eu, às vezes, desligo. É uma das coisas boas que consigo. E estou no meu mundo, com o meu filho, a fazer a minha vida, com a minha família. Gosto de fazer praia, gosto de fazer boxe, gosto de fazer exercício físico, gosto de ir ao supermercado. Gosto de fazer aquilo que as pessoas normais gostam de fazer. E gosto de experimentar coisas novas. 

DL: Quais são os principais desafios da região?
O primeiro desafio que nós temos é o desafio do conhecimento, da qualificação. Eu costumo dizer, o comboio da competitividade já saiu. Há muito tempo, nestas regiões, e a locomotiva dos Açores ainda está no apeadeiro. E, portanto, para nós conseguirmos lá chegar, temos que colocar a qualificação dos açorianos como uma prioridade. O mercado interno é bom que funcione, mas não dá para sobreviver. O meu receio é que as grandes empresas não apostam no internacional. Como é que isso é possível? Em primeiro lugar, nós temos de ajudar as nossas empresas a apostar. Tem que haver uma sensibilidade. Nós temos de lhes diminuir o risco da aposta. Mas, sobretudo, nós temos de trazer empresas para cá.

DL: O mar é o futuro?
O mar é um dos setores. O mar, a energia. O primeiro de todos é o conhecimento. Porque a única forma é que nós não temos continuidade territorial. A região pode entrar numa situação quase de insolvência ou de resgate financeiro. Eu acho que se apostar na economia e se tiver cuidado com o orçamento, eu acho que isto é possível resolver.

DL: Qual é a posição do PS face ao hospital modular?
A opção neste momento é o da  construção de um hospital novo, mas o que é um hospital novo? É alterar 80% do que está e acrescentar mais outro tanto. Quem paga isto? Quem sustenta? Nós neste momento não temos capacidade financeira para suportar o atual Serviço Regional de Saúde. Não temos. Todos os hospitais são subfinanciados. Quem o diz é o Governo, não sou eu. Todos os hospitais são subfinanciados. Portanto, se nós duplicarmos o tamanho do hospital, alguém acha que ele vai ficar mais barato?
As decisões que são tomadas, são tomadas em nome do povo, porque nós somos os seus representantes. Quando tomamos uma decisão que poderá comprometer o Serviço Regional de Saúde, ou pelo menos, tem um impacto tão grande do ponto de vista do Serviço Regional de Saúde na comunidade. Isto não pode ser discutido por técnicos. Os técnicos dão os seus pareceres, mas quem decide são os políticos. Porque os políticos são os únicos num sistema democrático que estão mandatados para o fazer. Porquê? Porque aos técnicos ninguém vai pedir contas. Os estudos técnicos podem achar muita coisa, mas é a democracia quem decide, são os responsáveis políticos e representantes do povo. Mas tenho esperança, senão eu não estava aqui.

Presidente do Governo regional acredita que é possível transformar os Açores “numa região de oportunidades”

José Manuel Bolieiro recebeu o Diário da Lagoa no Palácio de Sant´Ana para uma longa e descontraída entrevista. Durante uma hora, falou do seu percurso e dos desafios que a região enfrentou e enfrenta atualmente

Presidente do Governo dos Açores recebeu o Diário da Lagoa no Palácio de Sant´Ana © MARIANA ROVOREDO/DL

Foi na Lomba do Loução, Nossa Senhora dos Remédios, concelho da Povoação, que cresceu até aos 14 anos. Teve “uma infância num meio rural muito distante, periférico”, aponta, enquanto assegura nunca lhe ter faltado o “calor” e o “amor” da família onde nasceu a 23 de junho de 1965. Aos 14 anos, rumou a Ponta Delgada para prosseguir os estudos na Escola Secundária Antero de Quental. Foi na casa de uma das suas irmãs, na Calheta, que ficou até concluir o 12º ano, em 1983 Como bolseiro, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. “Consegui bolsa, foi a primeira vez que andei de avião na minha vida, a primeira vez que andei de comboio”, recorda José Manuel Bolieiro. “Felizmente encarei esse desafio com grande vontade” e “gostei muito”, acrescenta.

Finalizou, depois, o curso de Direito em 1988, onde procurou ser um estudante que queria “saber e compreender”, até que decidiu regressar aos Açores onde começou a trabalhar na presidência do Governo dos Açores, como consultor jurídico.

Na política diz que se iniciou com o incentivo de amigos, destacando a influência de Vítor Cruz. Começou primeiro como independente, passando depois a militante da Juventude Social Democrata e depois no PSD. Inicialmente na terra que o viu crescer, na Povoação, mais tarde já na presidência da Câmara Municipal de Ponta Delgada até chegar a presidente do Governo dos Açores.

Ao nosso jornal confessa que atualmente não lhe sobra muito tempo livre mas gosta de andar de mota. Atualmente ocupa praticamente todo o seu tempo “à causa pública”, porém, realça que o que conta é a “consciência” de estar a dedicar-se, no melhor que sabe, “para servir bem os açorianos”.

© MARIANA ROVOREDO/DL

DL: Como é que tomou a decisão de se candidatar a líder do PSD/Açores em 2019?
Foi difícil porque eu era presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, estava focado no meu desempenho como autarca. Mas, por outro lado, sentia que podia dar o meu contributo face a tantos incentivos. Foram as circunstâncias e era o meu dever, perante o apelo e a oportunidade de devolver uma certa unidade ao PSD. Tive que, assim, dedicar-me a um trabalho difícil de projetar o partido para se afirmar como alternativa de governação.
Eu senti que era importante e possível, e fruto também das minhas convicções ideológicas.
Um partido que tinha acabado de sofrer uma crise de liderança, que estava relativamente desagregado, que há 24 anos estava na oposição, cria reservas de confiança. E agregar as pessoas com a convicção e alguma coragem para exporem a sua diferença e a afirmação da nossa alternativa coletiva, foi difícil. Mas foi-se conquistando aos poucos.

DL: Houve quem duvidasse da sua capacidade em manter o Governo. Qual tem sido o segredo?
Muita paciência democrática, humildade e capacidade de aceitar as diferenças, logo que elas não sejam deturpadas da matriz principal do nosso percurso e possam ser absorvidas. É o tal espírito de que nós não estamos aqui num eleitoralismo, pois tendo a responsabilidade do essencial da sua doutrina, da sua mensagem, do seu projeto que deve ser cumprido, pode e deve-se ter flexibilidade para, num quadro de denominadores comuns, introduzir outras ideias. Nem sempre são ideias novas, mas ângulos de visão relativamente diferentes e mais catalizadores e, num caso ou outro, até disruptivos. Eu quando falo na capacidade de envolver as pessoas, não é apenas do lado do decisor, é o lado do decisor e do destinatário das decisões. Ao serem envolvidos, a decisão tem mais capacidade de ter sucesso e eficácia.

DL: Considera-se um presidente de consensos?
Eu procuro fazer isso. E eu direi que sim, eu gosto dos consensos.
Os consensos são, para mim, a melhor maneira de um decisor encontrar realização no destinatário da decisão. Portanto, eu quando falo no consenso, ou na capacidade de ideologia de envolver as pessoas, não é apenas do lado do decisor, é o lado do decisor e do destinatário das decisões. Porque sem terem envolvidos com isso, a decisão tem mais capacidade de ter sucesso e eficácia do que propriamente ter um exercício autoritário e depois bater na parede por resistência e até repúdio dos destinatários das decisões.

DL: Como encontra tempo para si e o que é que faz nos tempos livres?
Infelizmente, tenho dedicado muito do meu tempo à missão. Gosto de andar de mota. Obviamente gosto da minha família, mas para que saibam, estou divorciado, tenho duas filhas adultas, e portanto vivo sozinho. E isso tem-me permitido ter mais dedicação à causa pública. Eu não tenho vícios. Gosto de andar de mota mas passeio muito pouco. E não tenho tirado férias de longa duração, são muito poucas, e portanto tenho tido pouco descanso.
Mas o que me conta é o meu estado de alma e a minha consciência. Por isso, tenho tido pouco tempo para mim, mas também tenho a minha consciência de que neste espírito de missão tenho feito e dedicado o meu melhor para fazer e servir bem aos Açores e aos açorianos.

DL: Neste tempo de governação, qual foi o momento mais difícil?
Foram vários. Tivemos que ser inovadores, pioneiros neste processo democrático de pluralidade partidária na governação. No início havia o medo, a proibição, o condicionamento da vivência das pessoas, tendo em conta um controle epidemiológico. Quase simultaneamente, o risco de fechar as portas da SATA, que é uma empresa decisiva para a mobilidade dos açorianos. Também as dificuldades financeiras, toda a despesa com a pandemia. Ter que salvaguardar empregos, a sustentabilidade e segurança das empresas, tudo isto foi muito penoso. E muitos achavam que o Governo não ia durar seis meses, mas fomos, paulatinamente, construindo soluções. Também a situação com a crise sismovulcânica em São Jorge, na qual tivemos uma boa gestão. Aí ficou claro que a linguagem tinha que ser igualmente verdadeira e científica. Depois, o chumbo orçamental, os seis meses sem orçamento, as novas eleições em que penso que houve uma dose de irresponsabilidade, pois não posso negar a evidência de que o Partido Socialista (PS) achava que com novas eleições voltaria ao poder. A coligação foi testada, ganhamos novamente. Aliás, mais do que isso, o PS voltou a perder as eleições.

DL: E as críticas ao hospital modular? Acredita que é a melhor opção?
Sobre questões de grande especialidade técnica, prefiro ouvir quem sabe e não quem tem opinião sem conhecimento. Intuições, perspetivas de um determinado ângulo, são possíveis e até respeitáveis, mas outra coisa é a amplitude essencial da solução.
Relativamente a tudo que aqui já relatei, faltava o incêndio no HDES. É a verificação dos impactos, que não é de construção civil, é do sistema, dos equipamentos, das redundâncias, da certificação e de toda a logística que é necessária para tratar as pessoas, pois ter doentes com cuidados de grande sensibilidade com obras ao lado, é um absurdo. Estamos a falar de garantias de segurança, não é preciso ser cientista para perceber isso. A própria preocupação que eu senti nos testemunhos dos clínicos, entre os da direcção clínica, com o consenso maioritário, em que a prioridade era a segurança do doente. Não é o cêntimo, nem o milhão, mas sim a segurança. A estrutura clínica fez as suas avaliações e entendeu que esta é a melhor solução. O modular serve, porque tem garantia de qualidade e, por outro lado, pode ser deslocalizado e utilizado no futuro em outros lugares em São Miguel ou até em outras ilhas. Estou convencido que fizemos bem.

DL: O PS acusa-o muitas vezes de estar refém do Chega. Sente-se refém?
Eu habituei-me, infelizmente e em certa medida, a essas acusações. Mas, quem se afirmou disponível para viabilizar a estabilidade do mandato foi o Chega, e tem sido leal. Isto não quer dizer que se confunda com a governação, que pense como o governo pensa. Até discutem muitas diferenças, mais com o CDS e PPM. Torna-se difícil esse trabalho, mas tenho que reconhecer que o diálogo tem permitido a estabilidade governativa. Há algumas coisas em que são absolutamente diferentes, porque obviamente manifesta-se como um partido anti-regime. Não me sinto refém, porque tenho sentido a responsabilidade e a concretização de um esforço por parte do Chega, que é decisivo no apoio à estabilidade governativa, seja na aprovação ou na viabilização do programa de governo, na aprovação das orientações a médio prazo ou dos planos de orçamento anuais.

DL: Na Lagoa já temos um Centro de Saúde, recentemente levantou-se a questão da criação de uma associação de bombeiros. Vai ser este Governo a resolver esta lacuna?
Eu nunca vi uma grande reivindicação relativamente ao Centro de Saúde na Lagoa. Fui eu, pela minha convicção, numa ideia de mudanças de paradigmas, pois não faz sentido, na ilha de São Miguel, termos seis concelhos e um deles não ter um Centro de Saúde. Aproveitando as instalações e as capacidades instaladas no posto de saúde, apostamos numa remodelação do edifício e reconfiguração da gestão de recursos humanos técnicos diferenciados. Esta governação fez o que foi sempre recusado, pelos anteriores governos, em 24 anos de PS.
Relativamente à constituição, ou não, de uma associação de bombeiros, essa cabe ao domínio da iniciativa privada. Deve ter, na minha opinião, um forte financiamento do poder local para a sua sustentabilidade. Entendo, por isso, que é importante termos uma estratégia de protecção civil de proximidade, mas deixo isso no domínio do impulso cívico da população da Lagoa. O que posso garantir é que da parte do governo terá de existir apoio. Isso envolve muita despesa, o que me parece é que se pode otimizar as capacidades instaladas e até reforçá-las. Vejo com bons olhos se houver este impulso e a garantia da sustentabilidade. Se surgir, o governo estará cá para contribuir como tem feito com todas as outras associações de bombeiros.

DL: Como imagina os Açores daqui a quatro anos?
Com oportunidades devido à sua geografia, quer seja na modernização, na qualificação humana, na dimensão marítima e espacial, associada às novas tecnologias, à ciência, à investigação e ao digital, onde pode existir uma grande oportunidade para o país e para a Europa. A economia azul, a economia espacial, a economia da inovação e da investigação tecnológica, a exploração e o conhecimento do mar profundo e das oportunidades espaciais são fundamentais para os Açores. E, também, enquanto destino turístico e arquipélago de sustentabilidade. Isso permite-nos criar riqueza, porque é o consumidor que vem a ter connosco e consome o nosso produto de valor acrescentado. Trata-se de transformar os Açores numa região de oportunidades.

Presidente da autarquia lagoense não descarta a criação de uma associação de bombeiros com sede no concelho

Novo presidente da Câmara Municipal de Lagoa traça o que pretende para o concelho que lidera numa entrevista ao Diário da Lagoa

Após três anos como vice-presidente, Frederico Sousa, assumiu a presidência da autarquia no passado dia 1 de janeiro © CM LAGOA

É engenheiro Civil de formação, tendo exercido funções no setor privado e no público até outubro de 2014, ano em que assumiu funções de diretor regional da Solidariedade Social e, depois, em 2016, de diretor regional das Obras Públicas e Comunicações. Em 2021, foi eleito pela lista liderada pela socialista Cristina Calisto, com o objetivo de “desenvolver um projeto autárquico para uma década”. Após três anos como vice-presidente, assumiu a presidência da autarquia lagoense, no passado dia 1 de janeiro, e agora diz que o faz “com muito orgulho e sentido de responsabilidade”.

DL: Como nasceu o seu interesse pela política?
A política sempre fez parte da minha vida, por influência dos meus pais, despertando em mim o interesse pelo exercício de funções que permitem ter a capacidade de influenciar positivamente a vida das pessoas. A minha primeira experiência foi como deputado na Assembleia Municipal de Lagoa, há mais de 12 anos. Agora, como presidente da câmara municipal de Lagoa, tenho a oportunidade de fazer ainda mais pelo meu concelho e por todos os lagoenses.

DL: Quais são as prioridades do executivo camarário até às próximas autárquicas?
Os primeiros três anos do atual mandato foram importantes no cumprimento de alguns objetivos e compromissos, nomeadamente, a inauguração do Auditório Ferreira da Silva, na Vila de Água de Pau; a requalificação da estrada de Portugal e das Comunidades e da Fonte Velha, na freguesia do Cabouco; a construção da nova via junto ao Convento de Santo António, a inauguração do Pavilhão Professor Jorge Amaral, a requalificação da zona sul da baía de Sta. Cruz; a inauguração do GAM do Rosário, a requalificação da Rua 25 de Abril, a criação de mais de 150 novos lugares de estacionamento no concelho, entre outros compromissos cumpridos. No entanto, foram também três anos de planeamento e preparação do futuro, sendo que pretendemos até às próximas autárquicas proceder à requalificação da Praça Dona Amélia Faria e Maia, da zona da Matinha no Tecnopaque, do bar e receção do complexo municipal de piscinas da Lagoa, a instalação de parques infantis e equipamentos de desporto no concelho, dar início à requalificação da zona norte da Baía de Santa Cruz, instalar o novo relvado no Campo Municipal Mestre José Costa Leste, na Vila de Água de Pau, bem como a criação de mais 150 novos lugares de estacionamento, entre outros projetos e intervenções socioculturais, desportivas e de âmbito habitacional no concelho.

DL: Após as autárquicas, assumindo que será candidato, o que considera que falta resolver nas cinco freguesias do concelho?
Desde logo, dar seguimento aos projetos candidatados ao PO2030, nomeadamente a Requalificação e Reforço da Frente Marítima da Cidade de Lagoa, a construção de uma nova ETAR, a construção da nova adutora e sistema de abastecimento de água e a requalificação da Escola Marquês Jácome Correia. Por outro lado, concluir todos os investimentos relacionados com habitação social, previstos no PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] para agregados com graves carências habitacionais e económicas. Apesar deste ser um projeto de continuidade, tenho agora a oportunidade de trabalhar no sentido de consolidar a Lagoa como um concelho coeso e de futuro, com infraestruturas, serviços, habitação, educação, saúde, cultura e desenvolvimento económico, que permitem os Lagoenses viverem com mais qualidade, sem que para tal tenham de sair do seu concelho e das suas freguesias.
A descentralização de serviços e atividades, o reforço e melhoria da mobilidade, criação de novos espaços públicos, reforço das respostas sociais para crianças e idosos e a construção de habitação acessível a agregados jovens que trabalham, são algumas das prioridades, que foram planeadas e projetadas durante o atual mandato e que estão em condições de serem concretizadas durante os próximos anos.

DL: O Tecnoparque continua a crescer. E depois de todos os lotes serem preenchidos para onde e como se pode desenvolver a cidade naquela zona?
O Tecnoparque provou ser um projeto visionário e cujo sucesso é inegável. Neste momento, todos os lotes encontram-se comprometidos, quer os habitacionais quer os empresariais, pelo que em breve serão concretizados no atual Tecnopaque novos projetos relacionados com a saúde, inovação e tecnologia, com qualidade e dimensão considerável, assim como novas zonas comerciais. Por essa razão, a câmara municipal de Lagoa já deu início aos procedimentos para a sua ampliação para uma área adjacente com mais de 70 mil metros quadrados, que irá permitir o desenvolvimento da cidade, nomeadamente através de disponibilização de habitação acessível a agregados jovens.

DL: O incêndio no Sul Villas, em Santa Cruz, demonstra a necessidade de uma cidade como a Lagoa em ter bombeiros. Porquê a opção de um posto avançado em vez de bombeiros sediados na Lagoa?
Julgamos que uma Secção Destacada, como há por exemplo nos Ginetes, é uma solução equilibrada, exequível e, nesse momento, a mais adequada aos recursos existentes para servir os interesses da Lagoa. A nossa localização geográfica, equidistante entre Ponta Delgada, Ribeira Grande e Vila Franca do Campo, permite-nos tirar proveito das três corporações existentes nesses concelhos, aliás como aconteceu no recente incêndio no Sul Villas. Isto não significa que não seja pertinente e útil, para todo o concelho de Lagoa e para as freguesias adjacentes, a criação de uma Secção de Bombeiros na cidade de Lagoa, equipada com meios de primeira intervenção e socorro, capaz de auxiliar rapidamente e de forma mais eficiente a nossa população. No entanto, não descartamos um cenário alternativo, que poderá passar pela criação de uma associação com origem e sede no concelho, caso tal se justifique ou se torne necessário e viável.

DL: O que está a ser feito para que a Lagoa tenha o posto avançado de bombeiros e o porquê da demora?
A Câmara Municipal de Lagoa tem vindo a manifestar, por diversas vias, junto de todas as entidades com responsabilidades nesta matéria, nomeadamente junto do Governo regional dos Açores e da própria Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada e Lagoa, a necessidade de uma Secção Destacada de bombeiros na cidade de Lagoa. Para esse fim, adquirimos e já disponibilizámos equipamentos, viaturas, uma área significativa de terreno e instalações, de forma que esta pretensão possa ser concretizada. Estamos, assim, convictos de que, em breve, será possível dar passos consequentes em relação a este objetivo, até porque somos uma das câmaras que, per capita, mais apoia os Bombeiros.

DL: Este mês o nosso jornal celebra 11 anos. Numa altura em que o jornalismo atravessa uma crise de modelo de negócio, considera que é importante para o concelho o papel que desempenha o Diário da Lagoa?
Numa altura em que as informações tendenciosas e falsas são cada vez mais frequentes nos meios de comunicação, um jornal idóneo é, sem dúvida, algo que faz falta. Na minha opinião, o Diário da Lagoa tem conseguido manter um nível de qualidade informativa que o credibiliza, sendo, sem dúvida, um meio privilegiado para divulgar as atividades camarárias de interesse municipal. Assim, desejo que venham, pelo menos, mais 11 anos de Diário da Lagoa e que continuem a ver na câmara municipal um parceiro para o vosso desenvolvimento.

DL: Quer deixar uma mensagem aos lagoenses?
Quero aproveitar esta oportunidade para transmitir uma mensagem de conforto e confiança no futuro a todos os lagoenses. É minha intenção e compromisso, juntamente com os meus colegas do executivo e os colaboradores da autarquia, fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que a Lagoa seja um concelho de futuro, onde todos, desde os mais jovens aos mais idosos, tenham as melhores condições para viver e sintam orgulho em pertencer à Lagoa.

 “Portugal não é um país para idosos”

Especialista em Serviço Social conta-nos sobre o seu percurso e como o seu saber leva-o a ficar preocupado com o futuro do país e do mundo

Professor e investigador, Eduardo Marques, de 58 anos, é natural de Coimbra mas em 2018 mudou-se para os Açores © DL

Nasceu e cresceu em Coimbra, onde viveu a maior parte de sua vida. A 1 de janeiro de 2018 mudou-se para a ilha de São Miguel para romper com a “rotina profissional”. Escolheu os Açores para viver nesta nova fase da sua vida e apenas alguns meses depois a sua esposa e filha juntaram-se à nova aventura. Tem 58 anos e é professor e investigador na área de Serviço Social, na Universidade dos Açores.

Considera-se “um sonhador” e “uma pessoa preocupada com a natureza, com o futuro do mundo e com o desgoverno deste nosso planeta”.

“Incomoda-me ver tanta injustiça social, tanta desigualdade social e, nesse contexto, acho que estou na profissão certa, no sentido de poder ser protagonista, poder ser ator, poder colaborar, de alguma forma, para a transformação do mundo ou para que este mundo seja um lugar melhor”, afirma ao Diário da Lagoa (DL).

Eduardo Marques conta que sempre esteve ligado ao associativismo, tudo porque o seu objetivo sempre foi “ligar a teoria à prática e, com a prática, poder construir outras teorias” uma vez que “repetir aquilo que já existe”, não o estimula.

O professor e investigador revela uma tripla faceta, a “de professor e investigador que cria conhecimento e que escreve, oferece o conhecimento às atuais e futuras gerações do Serviço Social, não só numa perspetiva regional ou nacional, mas muito focada numa perspetiva internacional”. Numa entrevista de quase duas horas, nesta edição revelamos algumas das suas respostas.

DL: Porquê os Açores?
Foi uma escolha. Já tinha vivido mais de 50 anos em Coimbra. Nasci, estudei e trabalhava lá, mas andei sempre pelo mundo todo. Conheço quase 100 países e sempre me senti um cidadão do mundo. Não só por projetos, mas também porque dei aulas em diversas universidades europeias. Por exemplo, trabalhei muito com a Noruega, com a Itália, com a Áustria e com a Espanha, onde inclusive concluí o meu doutoramento. E sempre tive essa vontade de explorar mais o mundo, de conhecer outras realidades.

DL: Foi convidado pelo Governo de Timor-Leste para desenvolver um programa de voluntariado de competências. Pode contar-nos em que consiste?
Precisam de médicos, de enfermeiros, de professoras, de educadoras. E, nesse sentido, está-se a tentar desenvolver um programa vinculado aos timorenses, para levar daqui recursos. E uma das questões que eu coloquei é que gostaria de levar, pelo menos anualmente, um professor ou um profissional daqui e um aluno para criar estes diálogos entre quem sabe alguma coisa, quem já tem uma grande experiência profissional. E, é claro, quando surge esta possibilidade de poder contribuir para o bem-estar, para o desenvolvimento de outros países, para mim, é o ideal neste sentido de poder ser útil. A gente vai e deixa o nosso conhecimento, a nossa experiência, as nossas vivências, mas vimos lá muito mais ricos.

DL: Está ligado à questão ambiental. Como pode o Serviço Social contribuir para essa causa?
O compromisso do serviço social é com o desenvolvimento humano, com a criação de bem-estar, combater injustiças sociais. Hoje em dia não há possibilidade de combater as injustiças sem termos em consideração o respeito e a preservação dos ecossistemas e da natureza. Vivemos uma crise climática profunda que está a gerar milhões de desalojados, pobres e pessoas deslocadas. Não há outra forma se não trabalharmos em simultâneo com as questões ambientais. É trabalhar na prevenção, na ajuda após a catástrofe e, depois, o mais importante, trabalhar na recuperação das comunidades no pós-catástrofe.
Os assistentes sociais devem colaborar na educação ambiental, pois temos que preservar, temos que educar, temos que sensibilizar. Temos de criar uma lógica de reciprocidade de olhar para a natureza como nossa parceira, como a nossa casa comum, como algo do qual fazemos parte. Por vezes esquecemos que somos natureza, não há nós e a natureza, pois tudo faz parte do planeta, nós somos natureza.

DL: Portugal é um país envelhecido. Devemos ficar preocupados?
Portugal é um dos países mais envelhecidos e temo-nos descuidado e invisibilizado esta realidade que nos está a impactar e que vai criar um grande stresse no sistema de pensões. O nosso foco decididamente deve deixar de ser o dinheiro para passar a ser efetivamente as pessoas e o seu bem-estar. Portugal não é um país para idosos, ou seja, é um país que os maltrata e isso é vergonhoso. Como é que 50 anos depois do 25 de Abril, continuamos por não cumprir Abril, a não cumprir a Constituição da República Portuguesa? Isso choca-me e envergonha-me, pois continuamos a tratar os idosos como pessoas de segunda categoria. Essa desumanização é uma falta de respeito para com eles depois de tudo fizeram por nós. As pessoas idosas têm direito à segurança económica, portanto deixem-se de pensões de miséria. Aquilo que temos de fazer é dar-lhes segurança económica e isso resulta de terem pensões que lhes permitam viver com dignidade. E não me digam que é uma questão de dinheiro, pois o governo português mostrou que pode mandar milhões para uma guerra absurda e injusta, uma guerra por procuração que cumpre objetivos ocidentais e ninguém contesta.

Os idosos precisam mais do que alimento, cama e roupa lavada, eles precisam de ser tratados com dignidade, de ter a sua liberdade e de ter a sua autonomia para não sofrerem com o isolamento ou solidão. Os idosos devem poder conduzir a sua vida, viver e participar na sua comunidade. Eu diria que ainda há muito para fazer, embora reconheça e elogie o esforço de muitos diretores responsáveis por instituições que trabalham no campo do envelhecimento.

DL: Enquanto especialista em Serviço Social alguma vez foi contactado, por exemplo, pelos políticos, para contribuir com o seu saber para a legislação regional?
Nunca me pediram nenhum tipo de contributo ou de opinião e não têm que fazer, mas penso que podiam ouvir os especialistas do Serviço Social. Acabo, por exemplo, por ser mais requisitado por universidades americanas e noutros países. Recentemente em Espanha aconteceu o primeiro encontro de Assistentes Sociais em Desenvolvimento Comunitário e em Serviço de Comunidades, e é um bocadinho paradoxal como é que lá sabem que eu existo. Cá ainda há uma visão muito limitada, pensa-se que o Serviço Social é caridade, mas é muito mais do que isso e deveria ser um instrumento de transformação social, um parceiro na procura do diagnóstico de problemas e soluções. No fundo devia haver mais diálogo entre saberes, mas sempre nessa perspetiva de transformação social e menos de academismo. Ainda se valoriza muito o status quo, precisamos de criar mais comunidade. Eu diria que todos somos relevantes, mas o importante é aquilo que fazemos todos juntos.

Carlos Silveira: o homem dos mil e um desportos sempre à procura de desafios

Referência do voleibol regional e nacional, Carlos Silveira dá-nos a conhecer o homem para além do jogador federado. Sobre a modalidade, o treinador de voleibol aponta um “desfasamento” entre oferta e procura

Carlos Silveira, 48 anos, atualmente é presidente da direção da Associação de Voleibol de São Miguel © DL

É um dos nomes açorianos mais conhecidos no mundo do voleibol. Carlos Raposo Dias da Silveira, 48 anos, nasceu e cresceu em Ponta Delgada, rodeado de desporto. Foi jogador profissional durante 30 anos, tendo conquistado mais de 100 internacionalizações e seis títulos de campeão nacional. Passou por vários clubes, dois dos quais no estrangeiro. Neste momento, é treinador numa academia que fundou e presidente da Associação de Voleibol de São Miguel. Atualmente produz pranchas de surf e outros utensílios em madeira de criptoméria. Carlos Silveira já foi também homenageado enquanto atleta, tendo um pavilhão municipal desportivo em Ponta Delgada recebido o seu nome.

DL: É especialmente conhecido pela sua carreira como jogador profissional de voleibol mas quem é Carlos Silveira?
Sou natural de São Miguel. Até aos 14 anos vivi em Ponta Delgada. Nessa idade comecei a ir para o continente para as seleções nacionais. Aos 16 fui para Lisboa, para o Sporting e estive muitos anos fora. Houve um período em que retornei à ilha durante três anos para abraçar o projeto da Associação Antigos Alunos (AA Alunos). Depois voltei a sair novamente e estive mais cinco anos fora. No regresso, estabeleci-me em Ponta Delgada e fiquei.
Neste momento, o meu dia a dia divide-se por várias áreas. Tenho um trabalho convencional, na Cooperativa Kairós. Para além dessa atividade, tenho outras, que considero passatempos ou part-time,tenho uma academia de voleibol, trabalhamos com os escalões de formação, femininos.
Depois, por uma situação de lazer e gosto, e porque permite uma proximidade com o meu pai, tenho a parte de construir pranchas de surf e utensílios em madeira de criptoméria. Mais recentemente, convidaram-me para fazer parte dos órgãos sociais da Associação de Voleibol de São Miguel. Gosto muito de me envolver nas coisas. É difícil dizer “não”. Neste momento, já não jogo voleibol, formalmente.
Tenho duas filhas e neste momento as duas jogam voleibol. No entanto, em termos familiares, nunca foi um objetivo nosso. A mãe também está ligada ao desporto e é professora de Educação Física. Elas sempre praticaram várias modalidades desde pequenas e sempre lhes foi dada essa oportunidade de poderem experimentar. A parte do voleibol penso que acabou por surgir um pouco pela envolvência do pai e de me irem ver jogar. Acabou por ser um percurso natural.
Tenho o grau mais elevado de título de treinador de voleibol, que me permite treinar qualquer escalão em Portugal e a seleção nacional. Tenho várias formações em diversas áreas, como em treino funcional, crossfit, gestão de recursos humanos.
A minha grande paixão, em termos académicos, nunca foi nenhuma dessas áreas, mas arquitetura. Isso espelha um pouco a minha pessoa. Em tudo o que faço, sou muito competitivo e gosto de aprender com quem sabe, para fazer bem feito. Até determinada altura posso ser autodidata, mas chega a um patamar em que percebo que se tem de recorrer a quem sabe.

DL: Como surgiu o desporto na sua vida?
Sempre estive rodeado de atividades desportivas. No caso do voleibol, não me recordo como surgiu. O meu pai fez carreira profissional no exército, como músico. O exército, já naquela altura, tinha a tarde desportiva. Ia com o meu pai e fui vivenciando aquela atividade. Sempre estive muito próximo das atividades físicas, bastante pelo acompanhamento do meu pai. O meu pai, para além da atividade no exército, sempre esteve ligado a outras modalidades desportivas e sempre foi uma pessoa muito ativa.
A determinada altura, tive de fazer escolhas. Toda a gente me conhece pelo voleibol, mas antes disso estive ligado ao atletismo e aos 11 e aos 12 cheguei a ir a provas nacionais. Num ano, fui vice-campeão de salto em altura e no outro fui vice-campeão de arremesso de bola. Antes do atletismo, estive no futebol e fui federado. Para além disso, ainda hoje jogo golfe. Também já joguei ténis, padel e desportos de raquetes.
Considero-me uma pessoa do desporto, bastante competitiva naquilo em que me meto. Tive a felicidade de, dentro da minha carreira do voleibol, poder experimentar outros desportos e ter outras vivências.
Hoje em dia, jogo muito menos do que jogava há cinco ou 10 anos. O que tenho como requisito é, dentro das atividades que faço, tentar tirar o máximo de prazer.

Carlos Silveira arrecadou seis títulos de campeão nacional e mais de 100 internacionalizações © DL

“Para além de tudo o que o desporto nos dá em termos materiais,
a parte das relações humanas tem um peso muito grande”

CARLOS SILVEIRA

DL: Foram muitos anos como jogador federado, tendo passado por vários clubes, nacionais e estrangeiros. Conseguiu mais de 100 internacionalizações e seis títulos de campeão nacional. Conte-nos sobre a sua carreira profissional no voleibol.
Como federado, joguei vólei até 2021, até aos 46 anos. O meu primeiro clube federado foi o AA Alunos. Devia ter cerca de 11 anos. Depois transitei para o Vólei Clube, onde iniciei a minha carreira enquanto sénior. No ano antes de ir para o continente, joguei nos seniores no AA Alunos em 1992/93. No ano seguinte fui para o Sporting, onde fiquei só um ano. Depois estive nove anos consecutivos no Castelo da Maia, tendo voltado a São Miguel, ao AA Alunos, durante um ano.
Fui para o estrangeiro e a experiência foi bastante boa. Estive no Chipre, durante três anos. No meu primeiro ano lá fomos campeões e no segundo ganhámos a Super Taça e a Taça. No terceiro ano, só ganhamos a Taça. Depois desse desafio, fui para a segunda divisão francesa, para o GFC Ajaccio, num projeto onde o objetivo não era ganhar, mas disputar o título. Ganhamos o campeonato e subimos à primeira liga.
Depois recebi uma proposta do Clube K, para me inserir naquele projeto a longo prazo.
No Clube K houve momentos muito bons, acima das expectativas. Por fim, acabei por sair, em 2018. Foi na altura em que criei a Academia Carlos Silveira. Nesse ano, também joguei em Santa Maria, nos Marienses. Entretanto, fui novamente convidado a voltar ao Clube K, como atleta, na época 2019/20 e aceitei e fiz parte também da equipa técnica.

DL: Que balanço faz da sua carreira enquanto jogador federado?
O balanço é muito positivo, porque me deu oportunidade, no auge da minha carreira e capacidade enquanto atleta, de jogar com e contra os melhores do mundo daquela altura. Tive também a oportunidade de criar amizades, de várias zonas do mundo, que ainda hoje se mantêm. Para além de tudo o que o desporto nos dá em termos materiais, a parte das relações humanas tem um peso muito grande. Pra mim, isso é o que tem maior valor.

DL: Sobre a Academia Carlos Silveira, como tem sido a evolução deste projeto?
Na época de 2020/21 tínhamos apenas um escalão, de sub-12. No pós-covid, demos continuidade, com um universo de 12 atletas, mas no ano a seguir já tínhamos quase 30, em 2021/2022. Hoje temos 70 atletas. Foi sempre a crescer. Agora só temos feminino. Para o masculino temos procura, mas não temos enquadramento técnico. Não há técnicos na ilha. Também é preciso arranjar espaços para treinar e não há. Neste momento temos um problema muito grande em termos de instalações. Há muita procura, mas não há um parque desportivo que consiga alocar toda a procura. Não temos a atividade toda concentrada em apenas um pavilhão.
Temos também uma atividade, para os pais, uma vez por semana, que surgiu por interesse dos próprios pais, para promover o convívio entre eles. Nas atividades que promovemos, temos cerca de 100 pessoas a participar, no total.
Temos um projeto: criar instalações próprias. No entanto, neste momento não temos capacidade financeira para financiarmos totalmente o projeto.
Nesse projeto temos uma visão macro, em termos da envolvência do que é que pode ser a academia, ou seja, pretendemos ter um espaço para a atividade base, que é o voleibol de formação, e que tenha também uma área social, que permita, não só os atletas, como as famílias, poderem ter uma zona de convívio. O ideal seria depois surgir o complemento, em que os pais possam desenvolver atividade física, enquanto as filhas estão a praticar vólei.
É um projeto que não depende só de nós, depende também da abertura de municípios e do tecido empresarial. Neste momento, sou treinador da equipa que deu origem à academia.

DL: Como observa o atual panorama do voleibol nos Açores?
O vólei está numa situação que considero de transição. Temos bastantes clubes e praticantes. Face a esse crescimento, neste momento existe um desfasamento entre a procura e aquilo que os clubes têm capacidade para oferecer, seja em número de treinadores, seja de espaços para praticar. Estamos numa situação problemática, mas desafiante. Se tivermos capacidade de ir solucionando esses problemas, podemos elevar o nosso patamar competitivo. É preciso não desistirmos e construirmos uma envolvência à volta da modalidade que seja sempre construtiva.

Nuno Moniz, o investigador açoriano de Inteligência Artificial nos Estados Unidos que cresceu entre computadores

Para o investigador natural da ilha do Faial, “os Açores estão numa posição particularmente boa para explorar a IA” por exemplo nas áreas marinha, sismologia ou agricultura, diz em entrevista ao Diário da Lagoa

Nuno Moniz é professor associado de investigação na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos da América © D.R.

Cresceu rodeado de computadores. Tirou licenciatura e mestrado em Engenharia Informática. Nuno Moniz, 37 anos, natural da ilha do Faial, começou em Portugal a sua carreira como professor e investigador e desenvolveu projetos premiados. Com a aplicação meuparlamento.pt recebeu um prémio internacional e outro nacional. Na sua tese de doutoramento, desenvolveu um método para antecipar a popularidade de conteúdo online, que lhe valeu o prémio Fraunhofer Portugal Challenge 2017.

Há cerca de dois anos, Nuno Moniz iniciou uma aventura nos Estados Unidos da América, onde investiga temas como o desenvolvimento responsável da Inteligência Artificial (IA),  automatização de previsão de casos e valores e privacidade de dados.

DL: Qual foi o seu percurso formativo?
Sempre tive um grande interesse por computadores. O meu pai tem uma informática no Faial. Durante o meu percurso inicial, acabei por ficar indeciso entre três áreas:música, história e engenharia informática. No fim acabou por ganhar engenharia informática. Era o amor mais antigo. Tirei licenciatura e mestrado em Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP).Ganhei uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia para fazer o doutoramento e fi-lo na Universidade do Porto (UP). Acabei em 2017 e a partir daí continuei o meu trabalho enquanto investigador na INESC TEC. Comecei como professor convidado na Faculdade de Ciências da UP. Há três anos, comecei a explorar outras opções, principalmente fora do país. Aceitei uma posição na Universidade de Notre Dame, no Indiana, Estados Unidos da América (EUA). Estou lá agora como professor associado de investigação, no instituto particular Lucy Family Institute for Data & Society. Desde 2023 sou diretor de um centro conjunto com a Notre Dame-IBM Technology Ethics Lab.

DL: Que investigação realiza nos EUA?
A minha área de investigação, de forma geral, é a inteligência artificial (IA), mas olho para três coisas. A primeira é um tópico particular que se chama “aprendizagem desbalanceada”: como se pode automatizar a previsão de casos ou de valores que não são tão comuns. Olho também para problemas de privacidade de dados e para um tópico mais geral, que inclui várias questões ligadas ao desenvolvimento responsável da IA. Isso toca o aspeto prático da questão: como é que na prática se desenvolve tecnologia de IA que pauta por um guia de responsabilidade desde os seus momentos de desenho, desenvolvimento, progressão, até aos aspetos de interação.

DL: Em que outros trabalhos está envolvido?
Grande parte daquilo que tenho feito recentemente é o tipo de trabalho que realmente me entusiasma, para além do trabalho de organização e serviço à comunidade. O ano passado organizei a Conferência Portuguesa de IA na ilha do Faial. A nível de trabalho científico, estou a trabalhar com colegas da Universidade Católica da Croácia no conceito de modelação de memória, ou seja, investigar de que forma ferramentas como o ChatGPT podem modelar a nossa memória de momentos históricos.

Estou a desenvolver um projeto com o hospital oncológico infantil do México, que olha para um problema muito particular das comunidades indígenas. É difícil desenvolvermos trabalho quando não temos informação e dados sobre os problemas. Estamos a desenvolver um projeto que facilita a escolha da informação diretamente da fonte, ou seja, das comunidades indígenas do México para permitir que a comunidade médica perceba o impacto e situação das crianças que têm cancro. 

Tenho também desenvolvido alguns projetos mais académicos, com a unidade de investigação da IBM Research,  desde em transparência em IA, governança da IA, a nova geração de soluções para a IA, principalmente aquelas que tenham baixo custo energético.

DL: A IA pode ser aplicada em inúmeras situações que podemos não ter noção?
Temos uma tendência para sermos muito positivos com a tecnologia. Acabamos, muitas vezes, por nos deslumbrar com feitos tecnológicos. A IA tem um potencial imenso para ter um impacto fundamental numa série de áreas da nossa vida coletiva que são urgentes, desde a medicina, agricultura, clima, mas muitas vezes não são essas as áreas às quais somos interpelados com múltiplas notícias sobre como esse tipo de tecnologia pode nos ajudar a melhorar. Depois, há toda uma série de questões com a IA que têm de ser reconhecidas: a IA quando desenvolvida e utilizada e posta disponível ao público em geral, quando não é feita de forma ponderada, responsável e humilde, pode ter impactos societais graves e alguns deles irreversíveis. Acho que esta é a adolescência da IA: aquele encontro com a realidade e perceber que não estamos sozinhos no mundo e que aquilo que fazemos tem impacto concreto, por isso já não podemos permitir certas atitudes. Esse é um debate que assistimos hoje. Não é só discussão pública, mas também uma legislação e regulamentação não só a nível nacional como internacional. Acho que não há nenhuma organização internacional que não esteja a ponderar de que forma é que a IA poderá impactar o seu dia a dia e a operação.

DL: Acredita que a IA representa algum perigo para a humanidade?
Não acho que seja um perigo para a humanidade, por definição. Isso faz parte de uma narrativa sem qualquer base prática. Estamos a falar de algo que é incapaz de relatar histórias ou factos históricos de forma correta; que tem dificuldade, às vezes, em fazer matemática simples. Estamos muito longe de qualquer catástrofe a nível de IA, mas isso não quer dizer que não existem perigos concretos, hoje. O que muitas vezes ouvimos sobre os perigos da IA é uma distração completa. Os problemas dessa tecnologia são mais difíceis de discutir, porque existem questões concretas, por exemplo, sobre o ambiente.

DL: Poderemos vir a ter cidades geridas completamente por IA?
Coloco essa questão na categoria de distrações. No entanto, na gestão das cidades, existem imensas oportunidades de como a IA pode ser utilizada de uma forma extremamente positiva. Por exemplo, em antecipar situações de bloqueio ou problemas do dia a dia das cidades, desde focos de poluição e trânsito, até no desenho de políticas públicas. Precisamos de olhar para as questões concretas de como a IA é útil ou inútil/perigosa tendo em conta aquilo que está a ser desenvolvido hoje. Esses problemas são gravíssimos. Estamos num frenesim de construção de centro de dados e centros de computação avançada, de uma forma completamente massiva, que tem um impacto muito considerável no ambiente e que é perigoso para a sociedade.

DL: Como ainda poderemos aplicar a IA aos Açores?
Penso que os Açores estão numa posição particularmente boa para explorar a IA. Os Açores têm desde a parte da biologia marinha, sismologia, dependência da agricultura, enfim. Existe uma série de domínios muito práticos nos quais a IA pode ser explorada.  Há muitas coisas que podem ser feitas, por exemplo, ao nível de perceber melhor aquilo que é a realidade das pescas nos Açores, os ciclos das espécies que nos são muito queridas e economicamente vantajosas. Também, em termos da sua operacionalidade, a nível do governo e das suas instituições. No entanto, temos de ter sempre presentes as limitações de uma região como os Açores e Portugal num todo: a restrição de fundos para uma exploração mais ambiciosa. Já existe evidência suficiente à volta do mundo sobre os benefícios de IA em regiões como os Açores, para haver uma discussão muito guiada e particular sobre que coisa explorar. Tenho a expetativa que esse debate, se ainda não aconteceu ou está a acontecer, que venha a acontecer porque o potencial positivo é claro e é muito entusiasmante.
Acho que em relação aos Açores, seria extremamente interessante perceber até que ponto podemos formar os nossos próprios cientistas nesta área. Existe um potencial enorme de exploração concreta e eficiente de IA em problemas que encontramos nos Açores, só que nós não podemos estar reféns de “fornecedores”. Temos de ter a capacidade autónoma de investigar e desenvolver soluções para os nossos problemas e a Universidade dos Açores seria uma pedra basilar.

DL: Está a sugerir criar-se um curso na área da Inteligência Artificial nos Açores?
Seria um passo entusiasmante na direção de termos iniciativa de explorar como esta área de investigação e de aplicação pode ser benéfica para os Açores.

DL:  A IA ainda não está a ser bem explorada na região?
Tendo em conta a informação que tenho, não. Imagino que não seja, muitas vezes, por falta de vontade, mas pelas limitações orçamentais. No entanto, como tudo na vida, fazemos investimentos. No que toca à nossa posição internacional vantajosa, para áreas como a biologia marinha, existe aí uma série de interseções que podem ser exploradas e estão a ser. Espero que venhamos a ver os frutos disso e que as pessoas expandem essas capacidades dos Açores de fazer investigação e desenvolvimento a nível da IA, ao nosso ritmo e ao nosso tamanho, claro.

“Sem a leitura, é a própria linguagem que empobrece”

Urbano Bettencourt: escritor, professor, o homem das letras em entrevista ao Diário da Lagoa. Numa conversa descontraída fala-nos do seu percurso, da sua escrita, da cultura açoriana e da Língua Portuguesa, no ano em que se celebra os 500 anos de Camões

 Urbano Bettencourt nasceu em 1949 na ilha do Pico, mas vive há 40 anos em São Miguel © CLIFE BOTELHO/ DL

Convidamos Urbano Bettencourt a visitar o Diário da Lagoa e numa longa conversa descontraída, começa por contar que nasceu em 1949, “no extremo leste da ilha do Pico, do lado oposto à ilha do Faial, virado para São Jorge”, na freguesia da Piedade, Lajes do Pico, na zona do Calhau, junto ao mar.

Foi na Piedade que passou parte da sua infância, nos anos 50, em tempos que conta terem sido “de poucos bens” em que as pessoas “sobreviviam em função daquilo que iam produzindo” no cultivo das terras e do que o mar dava. O pai trabalhava na construção naval levando a família a decidir mudar-se para Santo Amaro.

Aos 11 anos, por intervenção do pároco, seguiu para o seminário em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, para prosseguir os estudos, onde ficou dois anos até ir para o seminário de Angra, na Terceira, onde esteve mais sete anos. Após os estudos foi para Setúbal numa “decisão pensada”. Em território continental trabalhou no escritório de um despachante alfandegário, mas em 1971 foi chamado a cumprir serviço militar em Mafra, depois em Évora com uma passagem por Tancos onde fez um curso de Minas e Armadilhas. Em julho de 1972 já “estava de malas feitas”, rumou à Guiné-Bissau onde esteve dois anos. No total, três anos de serviço militar obrigatório.

A Revolução dos Cravos ditou o fim da guerra, trouxe-o de volta ao Pico, por um par de meses, mas optou por se mudar novamente para território continental, desta vez para Lisboa, para “mudar de ares, trabalhar e estudar”, de 1974 a 81. Acaba, ainda, por regressar a Setúbal por mais três anos para exercer a docência. Em 1984, com a esposa e a primeira filha, Sara, decide regressar aos Açores, fixando-se em S. Miguel. Aqui, decorreu a parte substancial da sua atividade profissional (na Escola Secundária Antero de Quental e na Universidade dos Açores), aqui nasceu a sua segunda filha, Mariana.

Desde esse regresso, já se passaram 40 anos até esta entrevista em que nos fala do seu percurso, da sua escrita, da cultura açoriana e da Língua Portuguesa, no ano em que se celebra os 500 anos de Camões.

DL: Lançou-se na escrita por volta de 1970. Como dava a conhecer a sua escrita?
Havia alguns jornais nos Açores que tinham suplementos literários. E na Terceira houve um suplemento que ficou como referência, o “Glacial” do jornal União de Angra do Heroísmo, de 67 a 74. Publiquei também no jornal “O Dever”, do Pico. Em 1977 criamos, em Lisboa, a revista “A memória da água-viva” — eu, o meu amigo Santos Barros e um grupo de pessoas congregadas em torno do Grupo de Intervenção Cultural Açoriano; além da revista editámos livros de poesia e de ensaio, e organizámos sessões com escritores e exposições culturais. Publiquei muito na revista; depois, no início dos anos 80, o Santos Barros dirigiu o suplemento “Contexto” no jornal “Açores” e colaborei muito com ele, a partir ainda de Setúbal. A revista “Atlântida” acolheu também textos meus, a nível ensaístico.
Por tudo isso, no começo dos anos 90, o Professor José Martins Garcia sugeriu que me contratassem para substituí-lo na docência de Literatura Açoriana, que ele introduzira no plano curricular de alguns cursos do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, da Universidade dos Açores.

DL: Quando lançou o seu primeiro livro?
Em 1972, o “Raiz de mágoa”, e em Setúbal, por insistência de um amigo meu, Manuel Pereira de Medeiros, que era de Água Retorta e foi viver para Lisboa e depois para Setúbal onde comprou uma livraria que se transformou depois na grande livraria de Setúbal, a Culsete, que ainda existe embora com outros proprietários; ele próprio se encarregou da execução gráfica do livro.
O primeiro livro serve para marcar um espaço, à espera de outros que eventualmente venham a surgir. O segundo livro, também de poesia, foi já em Lisboa naquele Grupo, em 80, intitulava-se “Marinheiro com residência fixa”. Depois em 87 já em São Miguel publiquei o “Naufrágios Inscrições” já com outra qualidade gráfica e fui escrevendo, derivando depois para o ensaísmo. Entre livros maiores e menores, de prosa, de poesia e de ensaio, são cerca de 25. Neste momento, estou aposentado mas continuo a investigar, a escrever e a comunicar.

DL: O seu último livro publicado foi o “Até que o Mar se Retire”, em 2023. Desde então está a trabalhar em mais algum livro?
Em livro novo, não. Mas acaba de sair, em terceira edição (Companhia das Ilhas, Lajes do Pico), “Santo Amaro sobre o mar», com desenhos de Alberto Péssimo (um pintor natural da Ilha de Moçambique e residente no Porto) – uma narrativa entre a evocação e a invenção, sobre Santo Amaro, a minha freguesia adotiva no Pico.

DL: Sente que a cultura açoriana é valorizada devidamente, ou vai continuar a ser para nichos?
A cultura é um tecido composto por manifestações diversas e campos diferenciados. E, se repararmos bem, alguns desses campos (talvez por serem encarados como mais «acessíveis» e capazes de atingir um público mais abrangente – dentro de uma simples lógica da quantificação e da estatística), têm uma circulação e uma visibilidade que não assistem a outros; à sombra disso, verifica-se por vezes uma traficância de produtos de qualidade muito duvidosa que passam e não deixam qualquer mais-valia em termos de valorização coletiva e individual.
Em todo o caso, há experiências que vão tendo lugar em diversos pontos dos Açores e constituem bons exemplos da cultura como processo de criação e abertura a outros horizontes e modos de ver e pensar. Penso, no entanto, que falta ainda uma rede de suporte que favoreça a circulação dessas propostas e de outras dentro da própria ilha e entre as ilhas.

DL: No ano em que se comemora 500 anos de Camões, como olha para o estado da literatura e da língua portuguesa?
A literatura segue o seu caminho e é sempre difícil atender a tudo num momento específico (mesmo hoje, quando lemos os chamados clássicos, fazemo-lo tendo em conta uma seleção realizada pelas instituições e pelo tempo). Além disso, há aqueles autores que me são próximos e a que regresso com frequência.
Tento, na medida possível, acompanhar e ter uma informação elementar sobre nomes que vão surgindo, os rumos e preocupações da sua escrita, mas não posso ter a pretensão de os ler a todos nem tudo o que escrevem.
O ensino da Língua Portuguesa materna tem hoje meios e práticas que não tinha há muitos anos. Isso devia influenciar mais o modo de utilização da língua. Sempre houve português informal, mas usava-se em contexto informal. Hoje, o informal está por todos os lados, nas televisões, nas redes sociais, e a incorreção atinge mesmo órgãos de comunicação que, pelo seu estatuto, tinham obrigação de respeitar mais a língua que falamos; há situações em que, por ignorância ou desleixo, a língua portuguesa acaba notoriamente maltratada.
Nas redes sociais, aparecem textos interessantes e de leitura recomendável, vindos em parte de pessoas a pensar e comunicar noutros meios mais exigentes; mas ao lado disso surgem também textos em que a expressão e a comunicação sofrem tratos de polé (para não falar de outros aspetos de conteúdo e atitude cívica, que é já uma outra questão).

DL: Sente que já se realizou?
Não. Vamos sempre à procura de algo, de outro caminho, uma tentativa de consolidar alguma coisa que ficou. Vamos experimentando outras coisas e vendo como é que elas interagem connosco e como é que nos sentimos em relação a elas. Isso é um processo contínuo. De qualquer modo, uma coisa que procuro sempre é estar atento ao mundo próximo e à literatura e ver em que medida essa literatura nos serve para a nossa própria expressão e visão do mundo.

DL: Para melhorar o estado atual da “língua maltratada”, o que recomendaria a um jovem?
O que posso desejar é que cada um tenha o cuidado com o meio com o qual se apresenta e com que se constitui enquanto ser falante. Há muitas formas de passar por aí, através de leituras. O essencial é ler bastante e ler textos corretos que nos façam pensar e questionar. Acho que as coisas passam em grande parte pela leitura. Mesmo o ato de escrever precisa da leitura que se fez ou que se faz. Sem a leitura, é a própria linguagem que empobrece. Há um léxico, uma articulação discursiva que não se encontra na linguagem do quotidiano e é preciso passar por eles para enriquecer a nossa capacidade linguística e tornar mais organizada e coerente a expressão do nosso pensamento.