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Pacote patronal

Alexandra Manes

Hugo acordou e abriu as persianas. Recebeu uma mensagem do patrão que informava que naquele dia ia fazer mais três horas, dentro do banco de extraordinárias. Estava perto do final do ano e ainda não tinha cumprido as 150 horas extra que a empresa aprovara, sem a autorização expressa dos trabalhadores. Quem se recusar já sabe: “a porta da rua é serventia da casa”.

No andar de baixo do prédio, Rosário passara a noite em branco. Roía as unhas, até à pele, enquanto pensava no que ia dizer naquela entrevista de emprego que estava programada para daí a duas horas. Uma oferta rara naqueles dias. Um contrato a prazo, sem qualquer regalia, e com a possibilidade de terminar a meio, se a patroa o entender. Mas, como Rosário estava a entrar no mercado de trabalho, as suas opções estavam limitadas a ofertas daquele género. Era isso, ou escravatura. E ela roía as unhas, na dúvida sobre qual a melhor tortura.

Do outro lado da cidade, numa casinha pequenina, com o telhado a cair e manchas de humidade, o casal Esteves discutia de forma acesa. Carla tinha descoberto que o Luís tinha sido despedido e não lhe tinha dito nada. Quando confrontado, desatou a chorar e admitiu que tinha ido para a rua. A empresa mudara de política interna. Fora substituído por um computador. E ainda lhe disseram que era justa causa. Carla não podia acreditar. Tal coisa não poderia ser verdade. Não viviam num mundo desumano assim, pois não?

Aquela manhã chegara a Portugal, e não veio pela calada. Veio vestida com nuvens cinzentas e pacotes apresentados pela Spinumviva, com a validação dos amigos que já não são nem do centro, nem cristãos. Não esquecer os sanguinários partidários da filosofia de Milei, capazes de explorar tudo para justificar vidas humanas com números imaginários. E, claro, sentados nas sombras, a aplaudir, estavam os senhores do ódio. Aqueles que se arrogam de serem machos, mas que deixam o cravo afrouxar e morrer nas suas mãos.

Chamaram-lhe, eufemisticamente, pacote laboral. Uma medida de marketing, certamente patrocinada pela consultadoria de uma empresa digna de futuro primeiro-ministro. Na verdade, é a sangria do povo. Uma última investida junto dos direitos que conquistamos há mais de cinquenta anos, a ferro e fogo. É uma armadilha e uma morte anunciada para o que resta dos pobres e remediados em Portugal. Montenegro está disponível para assinar este acordo com os grandes senhores do patronato, desde que lhe garantam um lugar na mesa, em anos vindouros. Um acordo miserável, parafraseando o outro que acha que a Revolução é brinquedo.

Quando celebramos as datas que andam por aí por estes dias, não se trata de um apagar de velas, e de um sorriso acéfalo. Honrar o 25 de abril e, principalmente, o 1 de maio, é levar a luta para a rua. O país está à beira de acordar com mais horas de trabalho e menos direitos para a classe operária. Mais cego, é quem não o quer ver. Eles estão a aproveitar esta luta para destruir o que resta do sindicalismo. E mais cego é quem ainda não vê. Estamos condenados a cair, mas não precisamos de nos deixar ficar no chão. Juntem-se, este ano, e sempre que for necessário. Marchem junto às casas dos ministros. Não se calem em frente aos fachos e aos patrões. Somos seres humanos. Mulheres e homens com direitos. Obriguem-nos a temer a realidade que não querem que se saiba: o povo é soberano. E o povo tem fome de viver.

Creche e aparece

Alexandra Manes

Mais uma semana que terminou, mais uns quantos debates na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Haveria muita coisa a escrever sobre todos eles. Não se deseja a muita gente a dor de ter de acompanhar aqueles trabalhos, mesmo que para o efeito ainda receba um ordenado razoável para os dias que correm. Quem o faz sem nada ganhar, merece respeito acrescido.

Não acompanhei o plenário na sua totalidade. A saúde nem sempre me vai permitindo, a incompatibilidade de horários e a paciência esgota-se nas palavras de algumas pessoas que ali dizem representar a vontade da sociedade açoriana. Espero bem que não o façam. Mas, na verdade, continuo a acreditar na política e por muito que tente desligar, a dedicação à coisa pública fala mais alto.

Todavia, o que vi foi suficiente para me deixar ansiosa. A cada dia que passa, cresce a impunidade de uma bancada parlamentar que sempre que toma a palavra fá-lo para anunciar bárbaras intenções, transvestidas de política. Falaram de Alojamento Local e da sua pertinência, no mesmo fôlego em que ignoraram os negócios de algumas famílias presentes. De glifosato, já tudo o que havia para escrever foi escrito e bem descrito, pelo que não darei mais para esse peditório. Desta vez falaram, também, foi de creches e de crianças, entre outras coisas.

Por estes dias foi noticiada a existência de graves maus-tratos infantis numa creche, em São Miguel. A tal bancada dos que se dizem donos da bondade, logo correu a tomar a palavra, para publicamente anunciar a proverbial tempestade no circunscrito copo de água. Não tenho dúvidas que as imagens divulgadas, após a comunicação social regional escrever acerca do sucedido, demonstram procedimentos graves por parte de algumas das pessoas que ali trabalham. No entanto, este é um assunto, que já dissecado pela comunicação social e nas redes sociais, cabe à Justiça fazer o seu trabalho, como o está a fazer. O que eu tenho, também, é a certeza de que o que foi pronunciado em Assembleia é igualmente grave. O líder da tal bancada inspirou fundo e apelou a um controlo apertado da nossa sociedade. Utilizar a existência de assassinos para legitimar a pena de morte, ou de pedófilos para promover a violação dos direitos humanos é parte da estratégia de ação destes partidos. O mesmo sucede com as creches e os tais tratamentos desumanos. Pela culpa de algumas pessoas, deverão todas pagar dividendos? Não. O que foi discursado em plena casa da autonomia não pode ser concordante com uma sociedade que se deseja livre e democrática. A creche e o tratamento indevido aconteceram, é certo. Não podemos, com essa situação, almejar instalar um estado policial no país, onde a lei passa por acusar a nossa vizinhança a toda a hora. Isso abre a porta aos velhos chibos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado. E bem sabemos que há muitos com saudades dela. Alguns até se sentam nas assembleias de Portugal.

Compreendo o estado emocional das famílias e a insatisfação da população, em geral. No entanto, generalizar não é a receita para a solução. Como já o disse, a confiança entre as pessoas adultas e crianças deverá ser primordial. A nossa Região tem milhares de pessoas, que diariamente trabalham em Instituições Particulares de Solidariedade Social, as quais têm os seus órgãos eleitos, sufragados pelos/as sócios/as. O sector social emprega milhares de pessoas que tratam as crianças, como se seus/suas filhos/as fossem, durante o impedimento diurno dos/as seus/suas responsáveis. Estou certa de que a minha opinião não será popular, neste momento. Mas, instalar um circuito interno de vigilância permanente poderá representar a violação de privacidade, não das pessoas adultas, mas das próprias crianças. Num período em que se brada à exclusão social de crianças provenientes de ambientes desestruturados, isto poderá representar um fosso social ainda maior.

O estado de vigilância constante que se vai instalando e normalizando não pode ser normal. Estes partidos, de ódio e paranóia, querem-nos amarrados ao nosso medo, a espreitar por cima dos ombros para ter a certeza de que não estamos a ser falsamente acusados. Querem que a dor daquelas crianças seja transformada em votos fáceis, cúmplices de um crime de desconfiança generalizada que fará de Portugal um problema sério no nosso mundo. Para isso, o argumento é fácil: quem não deve, não teme. Mas eles devem, e não é por isso que temem de forma alguma. Não perderei tempo a recordar a barbaridade da legislação sobre creches promovida na nossa Região. Lembro, antes, que Rita Matias leu por estes dias a lista que já ficou lamentavelmente famosa, e depois admitiu que na verdade não verificou a sua veracidade. Sobre os maus-tratos que ela provocou naquelas crianças, ao ler e crucificar os seus nomes, nada se disse da parte da sua bancada parlamentar. Não são deles. Não são jovens de bem. A essas afirmações, o partido da senhora não deu relevância. Afirmou mesmo que quem fez alarido foi a mítica extrema-esquerda, bicho papão construído para justificar a existência de partidos de ideologia fascizante. Matias ganhou notoriedade e, nos Açores, o seu companheiro partidário tentou usar tática oposta, mas igualmente assente no populismo, para fazer carreira. Acabou a defender crianças, dias depois de ter defendido quem quis fazer mal às mesmas. No tal estado policial que querem criar, ele não duraria dois dias.

Estas pessoas acreditam que se vão safar sempre. Não conhecem, nem querem aprender história. Para essa gente, a noite das facas longas é uma força de expressão, e não o dia em que André Ventura se vai fartar da sua utilidade e mandar o segurança a afastar do parlamento. As mulheres vão-se desejar na cozinha, belas e recatadas. Também é disso que viverá o estado de sítio que eles querem oferecer-nos. Ou paramos o comboio agora, ou não haverá mais estações para o mandar parar.

E mesmo na hora, em que escrevo estas linhas, eis que surge mais um “imprevisto”, revelado pelo Economista João Teixeira, em peça da RTP/Açores, que dá conta de um desvio de mais da metade do valor que o Governo Regional (GR) inscreveu no Orçamento Regional, proveniente de fundos comunitários. Caso para questionar. Se inscreveu 400 milhões de euros, quais as razões para a transferência de pouco mais de 170 milhões?

Exigem-se explicações e com carácter de urgência. Que instituição falhou? Qual a razão para o sucedido? Com que bases o GR inscreveu 400 milhões?

Banco Alimentar contra a pobreza de espírito

Alexandra Manes

Conta-nos a narrativa bíblica o famoso episódio da Negação de Pedro, quando o apóstolo e futuro Papa da igreja de Deus terá dito que não conhecia Jesus Cristo, três vezes, ao longo da fatídica noite em que o profeta foi traído e aprisionado. Tanta vez terá Pedro dito que não, que acabou a chorar no amanhecer do dia seguinte, profundamente arrependido pela sua falta de espinha dorsal.

Assim vai a Direita em Portugal. Vivemos o rescaldo de um processo eleitoral histórico, já aqui por mim analisado de forma sumária, e amplamente discutido nas ruas, nas televisões e nos salões da alta nobreza empresarial. Nos dias que se seguiram, a política continuou ligada à Bíblia, de certa forma. É que, para além do arrependimento de Montenegro e Rocha, também houve a peregrinação de André Ventura ao túmulo de Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei. Se não havia grandes dúvidas acerca da ligação de alguns colegas do gangue àquela sociedade secreta, ficamos agora com a certeza de que o querido líder é, pelo menos, simpatizante do cilício. Que ele prefere a opressão ao Papa, já o sabíamos.

Mas, voltando à negação e ao arrependimento da Direita, o que acontece pelos dias que correm é um processo revolucionário em curso, com um potencial destrutivo evidente e, aparentemente, inevitável. D. Luís de Spinumviva enviou os seus correligionários aos jornais e programas de comentário político para rapidamente normalizar a ideia de se recuar no famoso “não é não”, porque estava na altura de aceitar um partido com manifesto político salazarista como parceiro viável para uma revisão constitucional. O conselheiro Rocha, liberal entre liberais, prepara-se para ir mais longe e vender a alma aos “mileis” que lhe deram espaço. Pelo que se vai sabendo, o objetivo é baixar salários mínimos, limitar direitos, aumentar deveres e começar o caminho para a privatização total.

A revisão constitucional está aí. Nesta semana que vos escrevo, em que a instauração da ditadura faz 99 anos, Portugal está de joelhos, rendido às evidências. O povo, ainda que não na sua maioria, porque a abstenção permanece expressiva, parece querer muito um governo de extrema-direita. Passamos de Salazar como o melhor português, para um comentador de futebol que escreveu uns romances baratos, de cordel e ganhou a vida a ajudar empresários a fazer malabarismos financeiros. Até nisso, temos baixado alguma qualidade. Será uma espécie de ditador da Temu que se avizinha?

Por cá, sabemos com o que contar. As açorianas e os açorianos estão rendidos à seita, não se tendo manifestado de forma substancial, mesmo quando votaram para eleger o senhor da legislação do glifosato, e quem vai para Lisboa afinal é a número três. Mesmo não sendo o único partido a alterar a ordem da lista, acaba por ser contraditório à lógica do “somos antissistema”, quando na prática o que fizeram foi, em praça pública, humilhar a sra. Deputada que sobe dois lugares na lista e assume o cargo, denominando-a de “inexperiente”, como argumento para não ter assumido o primeiro lugar.

As pessoas que se afirmam de direita democrática começam a sentir o peso da consciência. Praticamente todos os dias há uma novidade delirante, afinal de contas. Votaram na AD ou na IL, ou no PPM ou lá o que foi. Mas agora vão levar é com o Ventura e com, pelo menos, 23 deputados eleitos que já tiveram problemas com a justiça.

São tempos de perpetuar reflexões que já deviam ter sido feitas há anos e reestruturar partidos que já se deviam ter refundado há demasiado tempo. Pelo caminho, procuram-se culpas em vez de soluções. Das sombras, surgem cada vez mais personalidades que pensávamos decentes, ou esquecidas pelo tempo. Os canais de jornaleiros, que nunca param, vão construindo palcos cada vez mais altos para colocar os ativistas, comentadores e representantes de um partido que quer destruir a liberdade de imprensa. Homens e mulheres que em tempos acreditamos serem bons profissionais, imparciais e defensores da justiça, rebaixam-se à vergonha de conduzir entrevistas cor-de-rosa, onde Ventura e o seu séquito de estimação recebe o tratamento da nova realeza portuguesa, com certeza. Pelas contas feitas, André foi convidado especial dessa gente mais 108% que qualquer outro líder partidário, nos últimos doze meses.

Um dos casos mais gritantes, que foi também capitalizado pela extrema-direita, mas que partiu de uma mulher que, ao que tudo indica, é apenas de extrema falta de noção, foi o de Isabel Jonet. Para os mais distraídos, refiro-me à pessoa que, infelizmente, ainda é Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, estrutura que foi fundada com boas intenções e mérito, mas que está totalmente controlada por uma ideologia tóxica, que domina a nossa sociedade.

O Banco Alimentar é, pela sua própria existência, um mecanismo de caridadezinha, que está lá para calcar os mais necessitados e perpetuar as suas carências. É uma instituição que tem sido aproveitada, por alguma burguesia de fracos morais, no sentido de ter um palco e um desconto social, sem fazer significativa diferença. Não me refiro às voluntárias e aos voluntários, cujo trabalho enalteço, pelo suor que lá deixam, em nome de uma causa que acreditam ser boa. Refiro-me a pessoas como Isabel, que recentemente disse acreditar ser necessário colocar as pessoas que recebem RSI a trabalhar para ter essa prerrogativa. O que a senhora Jonet não disse, mas ficou subentendido, é que acredita nas conversas de tasca do Ventura, dos que não querem trabalhar, e que estão apenas a mamar na teta do Estado. Defende essa mulher, supostamente educada e bem formada, uma visão que está mais que desprovida de qualquer fundo de verdade. E continuou a fazê-lo, tal como com outras polémicas suas do passado, mesmo quando confrontada com a realidade.

Isabel Jonet, comentadores da nossa praça, pessoas, em geral, que estão a contribuir para isto tudo, precisam de revisitar a sua fome de conhecimento, certamente. Talvez seja tempo de um banco alimentar para combater a pobreza de espírito.

Quanto aos demais, a culpa não pode morrer solteira nas fileiras dos nossos partidos democráticos. Ou tomam decisões, ou morrerão ajoelhados junto ao trono de Ventura. Não é tempo de reflexão. É tempo de ação. O fascismo não se combate com ponderações eternas. Se queremos passar o centenário do 28 de maio em Liberdade, precisamos de ser melhores.

Montenegro e o futuro do fascismo em Portugal

Alexandra Manes

Escrevo estas linhas com a expectativa de que as mesmas sejam publicadas durante a semana em que o nosso país celebra o quinquagésimo primeiro aniversário do Dia da Liberdade, a mais importante data refundadora em Portugal. Escrevo-as a penar nas eleições legislativas do próximo mês de maio. A refletir sobre o catastrófico estado da política a nível mundial. E a desejar que este seja um texto que sirva, a eleitores e a eleitoras sociais-democratas, socialistas, ou de outras vertentes não apoiantes de Elon Musk e Javier Milei.

Este é um apelo e uma apreciação do que se pode perspetivar sobre os próximos anos no nosso país. Os Açores são já tubo de ensaio, com a Madeira a servir de exemplo negativo, noutro quadrante. E agora, no próximo mês, vamos aferir resultados e perceber se a escola estará também montada em Lisboa. É que, como nos diz a sabedoria popular, depois de uma porta aberta, tudo pode entrar.

Essa porta ideológica está a ser preparada pelo Partido Social Democrata há algum tempo. Depois dos resultados das últimas eleições legislativas, os poderosos do partido finalmente perceberam a ameaça que lhes espreitava à janela e reconheceram que o eleitorado se esfumava entre as mentiras de Ventura e as falinhas engravatadas dos novos-ricos do neoliberalismo. Quando venceram, por muito pouco, ficaram sem saber se deveriam aceitar uma eventual aliança com aqueles que bem sabiam serem filhos do fascismo. Ao que tudo indica, foi o próprio Luís Montenegro que impôs disciplina, e negou o irmão Ventura. Não creio que o tenha feito por imposição moral, mas antes por desgosto pessoal. Luís e André foram amigos no recreio de Pedro Passos Coelho, e desde então andam a lutar pela sua aprovação. Quem não acreditar, pesquise por um livro chamado “Montenegro” e rapidamente perceber quão antiga é a guerra.

Volvido um ano e um dia, o governo cai. O PSD e o CDS perdem o PPM. O primeiro-ministro parece que perdeu um bocadinho da moral que lhe restava. E uma parte do seu partido perdeu, certamente, o juízo. Ameaçados com a possibilidade de uma derrota, mesmo que relativamente pequena, os sociais-democratas apressam-se a vir à praça pública apelar à unidade com o chega. Não é a primeira vez que o vemos, mas agora parece ser fruto de um esforço concertado. Miguel Relvas, velho amigo do Coelho, do Ventura e dos intrujões todos, tem sido o primeiro a dar a cara, nos seus programas de comentário político, onde vai esgrimir o conhecimento que obteve da sua relevante habilitação académica em ficção, para apelar a uma união nacional entre Luís e André. Também por cá, nos jornais regionais, encontramos artigos, onde se fala da queda de uma coligação para a formação de outra, com incentivo ao começo de uma nova era. O bloco de direita, é como lhe chamam à porta fechada. Colocam-se ao lado daquele partido, sem receio de admitirem que são parecidos com eles, os que contam com mais alegados criminosos por metro quadrado do que a esquadra da polícia no centro de Ponta Delgada.

Para sobreviver e vencer a qualquer custo, as forças vivas do PSD estão dispostas a fazer a derradeira aliança e a dar a mão a Ventura e à sua quadrilha. O eleitorado foi já vítima de uma profunda lavagem de desinformação e ilusão. Já não sabem bem a diferença entre Luís e André. O que lhes interessa é que não sejam socialistas, que esses são os maus da fita, pelo que leram nas redes sociais. Os comentadeiros vão receber os dividendos, seja com um lugar no elenco principal, seja com um negócio futuro, bem posicionado. Depois dos votos serem contabilizados, em maio, há uma forte possibilidade de Montenegro ser obrigado a tomar posse ao lado de Ventura, num novo acordo parlamentar, alicerçado nas boas relações de Bolieiro com Pacheco, e devidamente balizado pelas palavras de Albuquerque, que sempre disse que não tinha linhas vermelhas a ultrapassar.

Há mais de dez anos, o partido Republicano atravessou esse caminho e colocou os seus valores e líderes tradicionais de parte. Deixou de ser um partido de moral conservadora, para dar uma oportunidade a um gatuno, sem ética nem Humanidade. Num país onde só há duas alternativas, como é o caso dos Estados Unidos, a população ficou refém de um partido de centro e um que se dizia de direita, mas vendeu-se ao fascismo. Para ganhar às forças de Clinton, os americanos ofereceram a alma ao maior de todos os demónios. E nasceu um novo movimento, que atravessou o atlântico, devagar, mas conscientemente.

Do fascismo do movimento MAGA até às portas da sede do Chega, foi uma questão de tempo. Ventura é, pelas suas próprias palavras, convicto apoiante de Donald Trump. O esquema que ele perpetuou um Portugal, e que continua a cozinhar, é o mesmo. Vai obrigar o antigo colega a decidir. Ou o PSD ganha as eleições por pouco, ou o Chega vai subir ao poder. A pescadinha está montada. Portugal está entre a espada da corrupção e a parede dos salazaristas.

Não será segredo para quem me lê que eu sou de esquerda. Apelo sempre ao voto nas forças políticas da esquerda, mesmo que nem sempre concorde com tudo o que apregoam. Mas, faço-o porque creio que são os partidos que mais se preocupam com as pessoas, com a sua dignidade e com a emancipação do pensamento e da Humanidade. Compreendo que nem toda a gente queira votar na esquerda. Importa é que saibam que um voto na direita, nas próximas eleições, é um provável voto em André Ventura, de uma maneira, ou de outra. Com uma porta aberta, quase tudo pode entrar. E depois de um parasita entrar na nossa casa, não é nada fácil removê-lo. Os Estados Unidos que o digam.

Cinquenta e um anos depois do 25 de abril, a luta continua a fazer mais sentido do que nunca. A noite escurece, o populismo cresce, os editoriais dos jornais falam bem de Salazar e os comentadores apelam à união de forças para destruir a democracia. Hoje, mais do que nunca, é preciso dizer que fascismo nunca mais! Viva abril! Viva a Liberdade! 25 de Abril, SEMPRE.

A queda do duplex de Montenegro

Alexandra Manes

O Parlamento português fecha as portas. Está interrompida a reunião de plenário. Pelos corredores do pequeno poder, circulam os assessores e estagiários, numa correria interminável, para imprimir mais papelada, levar recados e trazer ameaças, justificando-se por ali existirem.

À noite estão no sofá, de cabeça entre as pernas, a desejar nunca ter escolhido tal inglória carreira, mas esperançosos num futuro ambicioso que nunca chegará.

O Parlamento está interrompido. Pedro Nuno Santos desce da sua bancada parlamentar devagarinho, e contempla duas portas por onde pode sair. Ao centro, nada de novo, para além de mais umas quantas teias de conservadoras aranhas. Na direita, estão dois matulões, com cara de ladrões de malas, prontos a recebê-lo. Pedro não sabe por onde ir, mas sabe que não irá por aquela portinha pequenina, à esquerda, onde para lá passar teria de despir uma série de casacos.

Com o Parlamento interrompido, Hugo Soares corre apressadamente em direção ao gabinete do chefe. Passa à frente a qualquer estagiário que se preze, demonstrando bem os motivos que o levaram aonde está. É o estagiário-mor, primeiro na linha da frente para repetir até à exaustão todos os argumentos que lhe impingirem, mesmo que não os perceba, nem sequer deseje perceber. O que interessa é defender, com razão, ou sem ela.

Hugo alcança a porta de Luís e bate regularmente à porta da capela. Do outro lado, Nuno Melo, completamente fardado em trajes militares decorados com a bandeira de Olivença, entreabre uma frecha. Tudo a postos para a sua entrada, caro colega.

Montenegro aguarda, silenciosamente, no topo de um estrado, de mãos entrelaçadas.

Numa primeira impressão, poderia parecer que o ainda primeiro-ministro medita sobre a sua precária situação. Observadores mais atentos poderão reparar na garrafa meio vazia, que esconde o nervosismo e tapa as rugas. Talvez consequência de algum comportamento urbano-rural, já denunciado pelo professor Marcelo? Nunca saberemos, agora que o presidente perdeu a voz num trágico acidente de choque de imoralidades. Luís Montenegro ergue o olhar na direção de Hugo Soares. Estará tudo perdido? O estagiário abana a cabeça e jura que ainda conseguirá negociar com Nuno Santos.

Recorda ao seu patrão os tempos das Jotas, onde tudo se negociava à porta fechada e nunca era preciso ir a eleições, sem ser para formalizar o que já se sabia. Relembra que ele próprio sempre foi um dos grandes caciques da sua época, e que não era agora que ia perder tudo, só porque jogavam em frente a mais câmaras. Esperava-lhes uma estrondosa vitória, ao lado do futuro presidente Marques Mendes, vencendo nas câmaras municipais de todo o país e com André Ventura a tirar cafés na sede do PSD da Malveira.

O ainda primeiro-ministro suspira. Está cansado daqueles “casos e casinhos”. Também ele foi das Jotas e estagiário-mor de Pedro Passos Coelho. Mas está grisalho. Com filhos crescidos e uma empresa bem-criada para alimentar. O sol já não lhe nasce com calor, e parece cada vez mais verde. Tudo o que Hugo lhe diz sabe a uma emoção de desconfiança. Pega na garrafa e enche mais um trago. Na etiqueta pode ler-se a marca branca: «SpinumViva Melhor», produto original da futura presidente de Portugal: Cristina Ferreira.

Pedro Nuno Santos passa à porta do gabinete do seu adversário. Pondera entrar. Já citou Sá Carneiro. Daí até ao bloco central é só um passinho de gigante. Ventura espreita ao fundo do corredor e lambe os beiços, de forma quase tão perniciosa quanto, alegadamente o seu colega de partido terá feito, enquanto acariciava crianças menores de idade. O líder do PS avança para a maçaneta, mas há qualquer coisa que o demove.

Será chuva? Será vento? Vergonha não foi certamente, mas há autárquicas no final deste ano quente, e é preciso mostrar alguma fibra. Fernando Medina, preso no teto por dois papagaios cor-de-laranja, solta uns impropérios e voa para longe, de regresso à torre do feiticeiro do Cavaquistão.

Os trabalhos no Parlamento retomam a sua força e eis que se dá o momento esperado. Montenegro, já tombado pelo remanescente da garrafa, aceita o seu destino de forma turva, enquanto Hugo Soares rasga as vestes e afirma que ainda irão vencer as eleições, e cada vez que abria a boca, mais me fazia relembrar Rabelais, no Rebanho de Panurge, “Panurge, sem mais dizer, atira ao mar o carneiro gritando e balindo. Todos os outros carneiros, gritando e balindo no mesmo tom, começaram a atirar-se ao mar logo a seguir, todos em fila. Cada um procurava atirar-se antes dos outros seus companheiros. Era impossível impedi-los, pois vós sabeis ser natural no carneiro seguir sempre o da frente, seja para onde for que ele vá.”.

Quase que aposta, mas deixa isso para quando for visitar os outros patrões ao casino. Portugal apanha mais uma gripe, e como é um país de grandes patriarcados, sofre daquele problema já bem diagnosticado por Lobo Antunes: a constipação masculina.

Neste caso, não sabemos se haverá pachos suficientes para curar esta febre toda, e a Lurdes está de férias, que não lhe pagam o suficiente para isto. Vamos para a primavera e, com o nevoeiro a levantar, talvez Sebastião não cavalgue entre as brumas cheganas, nem traga uma bandeira da Argentina liberal. Em quem é que se vota, até vos posso recomendar. Mas talvez o Tiririca tivesse razão. Pior que está, dificilmente fica.

Vamos morrer a combater as guerras erradas

Alexandra Manes

Apanhei a frase que serve de título a esta crónica pelas redes sociais a fora, e pareceu-me ser aquela que melhor descreve a atual rota de navegação da nossa, cada vez mais, frágil Humanidade.

Nas últimas semanas, muitas foram as pessoas que assistiram com espanto e choque ao regresso da política diplomática musculada que Trump gosta de promover. Ofenderam-se profundamente com a forma como o líder dos Estados Unidos tratou desumanamente o presidente ucraniano, sentado na Sala Oval – Casa Branca, alegado bastião da liberdade e democracia.

Houve até quem tenha rasgado vestes e batido no peito três vezes, com total estupefação, por não esperarem tal coisa dos ditos americanos, eternos aliados.

Não perderei muito tempo a desmontar a ridícula figura que fizeram essas pessoas, ultrapassada há décadas. Deixo apenas uma referência aos senhores liberais que recentemente traçaram longos elogios a Javier Milei, a Musk e ao seu lacaio Trump. Não vale de nada estarem agora muito indignados com os resultados que apoiaram. Guardem a hipocrisia para vocês. Cá fora, há trabalho real a fazer.

Com os resultados dessa tal política externa obscena, tudo indica que o mundo está em vésperas de uma guerra mundial. Aguardamos, com o coração preso, a utilização de armas de destruição maciça, mas temos já a certeza das novas movimentações militares em solo europeu, acrescendo a forte possibilidade de conflitos diretos no território americano e até na própria Gronelândia.

A Europa reuniu-se para declarar a militarização apressada. Estima-se mais 1.5% do PIB dos países, para a guerra e para o armamento, que será certamente comprado às grandes indústrias bélicas. Ganham-se bilionários. Perdem-se vidas. Proceda-se em conformidade. É o realizar de um antigo sonho da criação de um exército europeu.

A guerra é, neste momento, inevitável. Poderia ter sido minorada ou até mesmo totalmente bloqueada, noutra época, se os Estados Unidos e a União Europeia tivessem avançado com medidas diplomáticas verdadeiras e com outro tipo de políticas internacionais, de proximidade e pressão, junto da Rússia e dos seus satélites. Agora, com um aliado de Putin em Washington, é tarde.

Avança-se com um conjunto de ameaças e tarifas, contra tarifas, que só terão impacto nas carteiras das pessoas. Preparam-se retiradas estratégicas, despedimentos coletivos e reestruturação de pactos de regime. Dizem os bastidores que será provável a extinção do centenário consulado americano nos Açores. Só não nos levam a Base das Lajes porque lhes dá jeito a eles, e a nós só dá problemas, embora haja quem, subservientemente, recuse o corte umbilical com tal infraestrutura.

Cá dentro, a guerra é outra. Luís Montenegro trabalha para conseguir a proeza de ser o pior primeiro-ministro da história da democracia, congregando em si todas as piores caraterísticas de Cavaco, Santana, Sócrates e Coelho. Depois de ter sido descoberto o seu estatuto de trabalhador-estudante, onde durante o dia estudava política e de tarde jogava golfe com os patrões da Solverde, Montenegro deu uma conferência de imprensa para esclarecer o que se passava. Ladeado pelo executivo governamental, como se fosse Kim Jong-un a anunciar um novo corte de cabelo, o primeiro-ministro de Portugal baralhou-se todo, tendo confessado que havia conflito de interesses enquanto negava que havia conflito de interesses. Passou a tal empresa para o nome dos filhos, mas teve de assinar o papel, o que pareceu ser uma confissão para alegadas quebras no regime de exclusividade. Nem valerá a pena imaginar o tráfico de influências que existiu antes de ele ser primeiro-ministro, mas depois de já ser candidato a tal.

Tudo indica que, graças às trapalhadas do menino Luís, lá vamos nós outra vez a eleições. Mais duas este ano e já completamos o cartão de brinde. Para o ano deveria haver eleições de graça. Os partidos colocam-se já em bicos dos pés na casa de partida, mas constatamos que a realidade é bastante tenebrosa, ao nível de possibilidades de escolha. O regime está profundamente enfraquecido, e as pessoas cansadas de votar. Há brechas abertas para a ascensão de Ventura e do seu gangue. Precisamos, mais do que nunca, de fazer campanha contra a abstenção e a favor da democracia e da liberdade. Estas poderão ser as últimas eleições durante uns tempos valentes.

Foram guerras evitáveis. No mundo, como em Portugal. E nem tempo teremos para falar nos Açores. Isto porque o propósito deste texto era o de falar noutra guerra. Na verdadeira guerra de extermínio da Humanidade, e que já perdemos. Todos os observatórios ambientais dignos desse nome e de validade científica voltaram a registar números assustadores para o começo de 2025.

O mundo como o conhecemos está literalmente a acabar, e os nossos regimes estão mais preocupados em armar pessoas, empobrecer sociedades e abrutalhar a política. Esta sim, parece ser a guerra para terminar todas as guerras. Caminharemos para a alteração climática final, afogados em glifosato de marca branca, e entulhados em votos de abstenção e desinformação.

Há que ter esperança e não baixar os braços. Custa muito, mas é preciso continuar a acreditar na ciência. Pressionar os nossos líderes. Exigir mais dos movimentos de sindicância e libertação das massas. Obrigar-nos à massa crítica. Quebrar as grilhetas do patriarcado e do conservadorismo. Não sobreviveremos como antes, mas podemos continuar a viver num mundo novo. Há potencial de crescimento. Não podemos acreditar que acabou. Venham daí e tragam um amigo e uma amiga, também.

Não há dinheiro

Alexandra Manes

Nenhuma pessoa, no seu perfeito juízo, poderia esperar de um governo regional a capacidade de manter uma dívida a zero, muito menos fazê-lo sem consequências negativas para o restante arquipélago. Contrariamente ao que se lê por aí nas missivas encomendadas, o conservadorismo económico não é, nem nunca foi, uma política de cautela. É, acima de tudo, uma estratégia de valorização dos grandes grupos económicos, em paralelo com o espezinhar dos mais fracos e enfraquecidos socialmente. Trata-se de conceder mais privilégios a quem vem de fora comprar empresas públicas, fajãs e outras coisas que tal, e dar muito menos a quem cá vive e só gostava de ter dinheiro para pagar uma renda no centro da sua cidade. Trata-se de privilegiar quem mais tem e que, num Estado Social, deve contribuir conforme os seus rendimentos.

José Manuel Bolieiro assumiu essa realidade, finalmente, no rescaldo de uma recente reunião com os representantes dos conselhos de ilha. Foi um momento histórico, por ter trazido a terreiro aqueles que, pelo menos em teoria, falam por cada uma das ilhas, para um debate com o líder político em grau mais elevado no nosso arquipélago.

Deveria ter sido espaço para promover novas maneiras de encarar as imensas dificuldades que enfrentamos. Mas isso implicaria uma representatividade mais legítima nos conselhos de ilha, que aparentemente não temos. Não me parece justo que os menos favorecidos estejam a ser supostamente representados por quem nunca lhes quis reconhecer.

Seja como for, Bolieiro disse que não havia dinheiro para tudo, nessa reunião. Não se sabe se houve mudanças estruturais nos gabinetes de comunicação deste governo, até porque eles decidiram extinguir o organismo que deveria servir para o efeito e cuja designação foi somente alterada.

Ainda assim, é inevitável reconhecer que, ultimamente, os líderes políticos começaram a assumir que não há dinheiro. Após anos a cativar verbas em todos os departamentos públicos. Depois de memorandos, circulares e diretrizes internas para alcançar a dívida a zeros. E após tantos discursos conservadores, promotores do grande capital e da iniciativa liberal, por parte do senhor secretário das finanças, Bolieiro assume que não serviu para grande coisa. Não há dinheiro na mesma.

Pois bem, se não há dinheiro para tudo, é preciso pensar na forma como se vai aplicar o que existe. Desde logo, porque continua a chover dentro de departamentos públicos. E porque esses problemas continuam a agravar-se, de dia para dia, temporal em temporal, onda de calor em onda de calor. Nos museus, os edifícios tornam-se ruínas, sem capacidade de se sustentar, e a solução do Governo Regional foi mudar o nome do responsável, que deixou de ser chefe de serviços do património e passou a ser promotor cultural.

Nas escolas, os funcionários desdobram-se entre o trabalho de ajudar as nossas crianças, e o sacrifício de serem empregados de limpeza a tempo inteiro, esvaziando baldes de água da chuva, limpando goteiras arcaicas e sobrevivendo sem saber como vai ser o dia de amanhã. Há secretarias onde demora tanto tempo a ligar o computador que mais valia irem buscar as velhinhas máquinas de fax às reservas museológicas, não fosse o problema de elas estarem estragadas porque também chove lá dentro.

Bolieiro disse que não havia dinheiro para a manutenção das infraestruturas, desculpando-se com a falácia dos fundos comunitários, quando o objetivo desses nunca foi a manutenção, tentando um lavar de mãos. Mas, senhor presidente, há dinheiro para algumas coisas, convenhamos. Enquanto as escolas estão a cair de podres, parece haver dinheiro para um gabinete pessoal, na secretaria da Educação. E enquanto se faz esse gabinete, há ainda uma nova obra no edifício ao lado, para poder ter ali um espaço provisório. Ou seja, são duas empreitadas seguidas, que servem a senhora cujos valores serviriam os professores, os museólogos e todas as pessoas que trabalham em cultura e educação que continuam a apanhar baldes.

Pode não haver dinheiro para tudo, mas para isso devia haver.

No desporto, já se atiram pedras aos telhados de vidro da nova equipa dirigente, com problemas na própria organização da mesma. Na saúde, a vida corre como sabemos. António Ventura não sabe bem onde se enfiar, depois de tantos banhos de glifosato, mas sabe que a tourada é para manter. Até se dão subsídios adicionais de 10.000 euros aos ganadeiros, vejam bem. E falam em subsídio-dependentes? Não há dinheiro é para o que não querem.

Não sabemos que soluções existem no futuro deste governo. Até ao momento, permanece uma nuvem negra por cima de vários dos seus dirigentes. Fazem-se promessas num dia, para uns meses depois vir desmenti-las. As pessoas votaram nisto, é certo. Menos certo é perceber se votaram com conhecimento do que viria a acontecer.

Não há dinheiro, senhor presidente. Mas há dinheiro para muita coisa. Entendam-se as prioridades, ou mudemos de cor, antes que afundemos o pouco que falta para salvar.

A decadência insular

Alexandra Manes

Antero de Quental foi um dos mais importantes entre nós, no Portugal de oitocentos, seja a nível político e social, seja cultural. Ainda hoje, as suas palavras ecoam nas mentes de muitas pessoas que desejam dar continuidade à sede do poeta em continuar a beber do santo Cálice da filosofia. Não é difícil traçar uma linha entre as palavras do ilustre micaelense e as ações de uma conterrânea sua, que nasceu anos depois, e veio a marcar o país com o seu Botequim e as suas acutilantes intervenções. Imbuído do espírito de questionamento que caracteriza todos os estudantes da lusa Atenas, Antero promoveu centenas de tertúlias onde se discutiu tudo e o seu contrário, em busca da luz perdida que se desejava reencontrar no século XX que se avizinhava.

Os mais pessimistas dirão que aquela geração de 70 falhou, e que o fogo que tentaram atear extinguiu-se com a bala que Antero disparou naquele banco de jardim junto à esperança perdida. Não creio que isso seja inteiramente verdade. Mas, no entanto, há reverberações daqueles tempos passados que ainda hoje ecoam nas nossas ruas e assembleias. Os Açores, à semelhança do resto do país, assistem à ascensão de uma classe política e económica que marcha com tiques de absolutismo, falando-se de D. Miguel e Salazar, à porta fechada, e falando-se de Trump à porta aberta, sem medo de qualquer represália.

Há muitos bafientos senhores, bem como algumas senhoras, que se sentam às mesas de praticamente todos os partidos portugueses e que contribuem para a destruição da coletiva consciência do país e, no nosso caso concreto, do arquipélago.

Em tempos, Antero de Quental apresentou as suas teorias sobre as causas que levaram à decadência dos povos peninsulares. Apresento-vos algumas das situações que decorrem da total decadência da nossa Região.

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, onde trabalhei durante anos, e que conheço de forma bastante próxima, transformou-se de 2020 em frente. A chegada de uma nova maneira de não fazer política foi uma machadada nos trabalhos e na maneira de ser de quem tenta fazê-los. Se Luís Garcia se tem comportado com muito mais dignidade que Aguiar Branco, em Lisboa, a verdade é que os esforços do presidente não são suficientes para conter as vergonhosas declarações que vão sendo feitas por deputados e deputadas, sejam elas em formatos de aparte, sejam mesmo para o microfone ligado.

Não justificará perder o tempo de quem me lê com grandes dissertações sobre a pobreza de espírito e de gramática, bem como falência moral, de algumas das intervenções e momentos deprimentes em quase todas as bancadas do parlamento regional. A decadência alcançou pessoas que exercem funções naquela câmara há décadas. Espalhou-se como um vírus e baixou o nível de exigência. As afirmações que ali são feitas são cada vez mais despidas de contexto, de caraterização e até de justificação teórica. Trocam-se opiniões, elogios aos colegas e insultos ao clube adversário. Raramente encontramos uma declaração que seja verdadeiramente política, no sentido genuíno da palavra, o que acaba por ser o espelho de uma sociedade dividida e escravizada aos pés da ditadura do egocentrismo, pelas algemas do digital. Sobre as consequências, também haveria muito a dizer, mas bastará assistir a um plenário que seja, para percebermos a gravidade do que se está a passar.

Outro exemplo recente é o das declarações de Bolieiro, que preferiu omitir verdades para justificar que dos 150 milhões necessários aos Açores, somente metade dessa quantia venha, percebendo-se claramente a solidariedade da coligação nacional para com os Açores. Bolieiro utilizou da memória selectiva e “esqueceu-se” de referir que a Lei das Finanças Regionais, aprovada no tempo dos Governos PS de Guterres e de Carlos César, retirou a Região da falência em que o PSD deixou os Açores em 1996, tendo aumentado as transferências para os Açores, considerando na sua fórmula de cálculo o facto da Região ter 9 ilhas e que foi Passos Coelho, numa segunda revisão, a diminuir as transferências para a Região.

Como é que se altera este panorama? Em primeiro lugar, votando. Votando em gente séria, com princípios e crentes na ciência e nos profissionais. Votando nos que procurarão unir e não partir ainda mais uma sociedade que já é dividida em classes, mas ameaça passar a ser mesmo de castas. Mas é preciso ir mais longe, incentivando pessoas competentes a assumirem a política de forma digna, e, afastando os carreiristas. É necessário estimular a massa crítica, com instituições locais, livrarias prolíferas, associações esforçadas e um sistema de educação robusto. É necessário trabalhar próximo das pessoas e construir pontes entre todos os ilhéus que somos, e que foram demolidos pelo ódio e pela sede de poder de uma direita bafienta. O futuro depende, em primeira instância, de nós. E se decadentes parecemos estar, o que é preciso é ânimo e resiliência, porque há muita coisa ainda para se fazer.