Log in

Quando o medo se torna política

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito

O fascismo é um projeto autodenominado de antissistema que evoluiu, é uma estratégia concertada antidemocrática assente nos ideias históricos que conhecemos – o esqueleto é o mesmo, mas o rosto é outro. Portanto, também ele é em si mesmo um sistema e não um subproduto da esquerda política.
Sociedades marcadas por profundas injustiças tendem a tornar-se perigosamente polarizadas. Quando o topo da pirâmide social é ocupado por uma minoria rica que influencia o poder instalado, já a base — a maioria — é pobre e invisível, e entre ambos há uma classe média frustrada, o modelo de organização social está em risco.

É nesse contexto que surgem os messias a prometer poder e segurança, encontrando um público com vontade para os patrocinar e garantir vitórias eleitorais.

Fala-se de populismo, mas a realidade revela expressões de fascismo, ainda que mascaradas, fruto da evolução social dos relacionamentos, comunicação e ação. O núcleo do ideal fascista mantém-se: opressão de classes; sobre-exploração laboral; submissão das mulheres; discriminação de minorias; afirmação do racismo e da xenofobia; promoção disciplinada do ódio, entre outras.

O fascismo rejeita a crítica e a ciência para neutralizar a contestação, alimentando-se da emoção, do dogma e da obediência. Apela ao medo, ódio e nostalgia de um passado fantasiado. Simplifica a realidade com slogans, mitos e teorias da conspiração. Explora preconceitos sociais, sobretudo na classe média, transforma minorias em bodes expiatórios e cria uma identidade coletiva com base num inimigo comum. Ao apontar grupos específicos — RSI, imigrantes — como responsáveis por problemas sociais, aplica a velha estratégia de “dividir para conquistar”.

A instabilidade – desde a precariedade laboral e habitacional, à insegurança – cria medo e isola as pessoas, toldando-lhes a visão e a apreciação objetiva do que se passa.

Apesar das dinâmicas fascistas, persiste uma inquietante complacência com o seu avanço. Paradoxalmente, é o sistema democrático — que combatem — que lhes garante o direito de se manifestarem, mesmo através de discursos de ódio, interpelações misóginas ou cartazes xenófobos, como se a democracia aceitasse tudo.

As redes sociais têm contribuído para a disseminação das ideologias e o modo de disputa do poder. O fascismo adaptou-se ao ecossistema digital, usando as ferramentas de envolvimento das redes sociais para ganhar tração.

No ambiente digital, o discurso de ódio, o alarmismo e as notícias falsas prosperam porque criam envolvimento emocional. Títulos sensacionalistas, narrativas enganosas e teorias da conspiração espalham-se mais depressa do que relatos factuais ou análises complexas. Nesse ecossistema, as redes sociais transformaram-se em poderosas armas de desinformação e normalização do despotismo.

A concentração da tecnologia nas mãos de privados com ideais totalitários – Musk, facilita a propagação e a normalização da matriz fascista. Daí que seja difícil perceber o caminho que muitos estão a fazer, sem prejuízo da conversadora imagem do fascismo de 1930.

Assiste-se à “ditadura do algoritmo”: as infraestruturas digitais são instrumentos de engenharia social ao serviço do poder. Urge democratizar o espaço digital.

Um pastor encontra um grupo de ovelhas assustadas e avisa-as de que o lobo anda por perto. Oferece-se para as proteger: dá-lhes um pasto viçoso e um estábulo. As ovelhas sentem-se tranquilas. O que não sabem é estão a ser engordadas para servir o pastor.

Montenegro e o futuro do fascismo em Portugal

Alexandra Manes

Escrevo estas linhas com a expectativa de que as mesmas sejam publicadas durante a semana em que o nosso país celebra o quinquagésimo primeiro aniversário do Dia da Liberdade, a mais importante data refundadora em Portugal. Escrevo-as a penar nas eleições legislativas do próximo mês de maio. A refletir sobre o catastrófico estado da política a nível mundial. E a desejar que este seja um texto que sirva, a eleitores e a eleitoras sociais-democratas, socialistas, ou de outras vertentes não apoiantes de Elon Musk e Javier Milei.

Este é um apelo e uma apreciação do que se pode perspetivar sobre os próximos anos no nosso país. Os Açores são já tubo de ensaio, com a Madeira a servir de exemplo negativo, noutro quadrante. E agora, no próximo mês, vamos aferir resultados e perceber se a escola estará também montada em Lisboa. É que, como nos diz a sabedoria popular, depois de uma porta aberta, tudo pode entrar.

Essa porta ideológica está a ser preparada pelo Partido Social Democrata há algum tempo. Depois dos resultados das últimas eleições legislativas, os poderosos do partido finalmente perceberam a ameaça que lhes espreitava à janela e reconheceram que o eleitorado se esfumava entre as mentiras de Ventura e as falinhas engravatadas dos novos-ricos do neoliberalismo. Quando venceram, por muito pouco, ficaram sem saber se deveriam aceitar uma eventual aliança com aqueles que bem sabiam serem filhos do fascismo. Ao que tudo indica, foi o próprio Luís Montenegro que impôs disciplina, e negou o irmão Ventura. Não creio que o tenha feito por imposição moral, mas antes por desgosto pessoal. Luís e André foram amigos no recreio de Pedro Passos Coelho, e desde então andam a lutar pela sua aprovação. Quem não acreditar, pesquise por um livro chamado “Montenegro” e rapidamente perceber quão antiga é a guerra.

Volvido um ano e um dia, o governo cai. O PSD e o CDS perdem o PPM. O primeiro-ministro parece que perdeu um bocadinho da moral que lhe restava. E uma parte do seu partido perdeu, certamente, o juízo. Ameaçados com a possibilidade de uma derrota, mesmo que relativamente pequena, os sociais-democratas apressam-se a vir à praça pública apelar à unidade com o chega. Não é a primeira vez que o vemos, mas agora parece ser fruto de um esforço concertado. Miguel Relvas, velho amigo do Coelho, do Ventura e dos intrujões todos, tem sido o primeiro a dar a cara, nos seus programas de comentário político, onde vai esgrimir o conhecimento que obteve da sua relevante habilitação académica em ficção, para apelar a uma união nacional entre Luís e André. Também por cá, nos jornais regionais, encontramos artigos, onde se fala da queda de uma coligação para a formação de outra, com incentivo ao começo de uma nova era. O bloco de direita, é como lhe chamam à porta fechada. Colocam-se ao lado daquele partido, sem receio de admitirem que são parecidos com eles, os que contam com mais alegados criminosos por metro quadrado do que a esquadra da polícia no centro de Ponta Delgada.

Para sobreviver e vencer a qualquer custo, as forças vivas do PSD estão dispostas a fazer a derradeira aliança e a dar a mão a Ventura e à sua quadrilha. O eleitorado foi já vítima de uma profunda lavagem de desinformação e ilusão. Já não sabem bem a diferença entre Luís e André. O que lhes interessa é que não sejam socialistas, que esses são os maus da fita, pelo que leram nas redes sociais. Os comentadeiros vão receber os dividendos, seja com um lugar no elenco principal, seja com um negócio futuro, bem posicionado. Depois dos votos serem contabilizados, em maio, há uma forte possibilidade de Montenegro ser obrigado a tomar posse ao lado de Ventura, num novo acordo parlamentar, alicerçado nas boas relações de Bolieiro com Pacheco, e devidamente balizado pelas palavras de Albuquerque, que sempre disse que não tinha linhas vermelhas a ultrapassar.

Há mais de dez anos, o partido Republicano atravessou esse caminho e colocou os seus valores e líderes tradicionais de parte. Deixou de ser um partido de moral conservadora, para dar uma oportunidade a um gatuno, sem ética nem Humanidade. Num país onde só há duas alternativas, como é o caso dos Estados Unidos, a população ficou refém de um partido de centro e um que se dizia de direita, mas vendeu-se ao fascismo. Para ganhar às forças de Clinton, os americanos ofereceram a alma ao maior de todos os demónios. E nasceu um novo movimento, que atravessou o atlântico, devagar, mas conscientemente.

Do fascismo do movimento MAGA até às portas da sede do Chega, foi uma questão de tempo. Ventura é, pelas suas próprias palavras, convicto apoiante de Donald Trump. O esquema que ele perpetuou um Portugal, e que continua a cozinhar, é o mesmo. Vai obrigar o antigo colega a decidir. Ou o PSD ganha as eleições por pouco, ou o Chega vai subir ao poder. A pescadinha está montada. Portugal está entre a espada da corrupção e a parede dos salazaristas.

Não será segredo para quem me lê que eu sou de esquerda. Apelo sempre ao voto nas forças políticas da esquerda, mesmo que nem sempre concorde com tudo o que apregoam. Mas, faço-o porque creio que são os partidos que mais se preocupam com as pessoas, com a sua dignidade e com a emancipação do pensamento e da Humanidade. Compreendo que nem toda a gente queira votar na esquerda. Importa é que saibam que um voto na direita, nas próximas eleições, é um provável voto em André Ventura, de uma maneira, ou de outra. Com uma porta aberta, quase tudo pode entrar. E depois de um parasita entrar na nossa casa, não é nada fácil removê-lo. Os Estados Unidos que o digam.

Cinquenta e um anos depois do 25 de abril, a luta continua a fazer mais sentido do que nunca. A noite escurece, o populismo cresce, os editoriais dos jornais falam bem de Salazar e os comentadores apelam à união de forças para destruir a democracia. Hoje, mais do que nunca, é preciso dizer que fascismo nunca mais! Viva abril! Viva a Liberdade! 25 de Abril, SEMPRE.