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Jornais regionais chegam a todas as escolas e IPSS dos Açores para reforçar acesso à informação

Medida de promoção da leitura e apoio à imprensa escrita garante assinaturas de todos os títulos açorianos em instituições de solidariedade e ensino, combatendo a desinformação no arquipélago

© SRAPC

A rede de escolas e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) de todas as ilhas dos Açores passou a contar com a presença regular da imprensa escrita regional. A execução deste programa de aquisição e distribuição de jornais foi assinalada esta quinta-feira, 5 de março, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, como uma ferramenta estratégica para garantir o acesso a conteúdos fidedignos e apoiar a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social locais.

Durante uma visita à Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, reforçou que a presença dos jornais nestas instituições é uma garantia de transparência. “Num mundo em que a informação está disponível através de diversos mecanismos, mas essa informação não é uma informação fidedigna, os órgãos de comunicação social produzem uma informação confiável”, afirmou o governante, destacando o papel do jornalismo no combate às notícias falsas.

O programa, que teve início na segunda metade de 2025 e mantém a sua continuidade este ano, assegura que as assinaturas de todos os jornais da Região Autónoma dos Açores sejam distribuídas de forma abrangente por todo o território. Paulo Estêvão sublinhou a eficácia do modelo face ao panorama nacional: “Estamos a fazer com que os nossos jornais cheguem a todo o lado, a todo o território da região”, contrastando com as dificuldades de distribuição que se registam atualmente em várias capitais de distrito no continente português.

© SRAPC

Esta distribuição direta constitui o primeiro de quatro eixos de um plano estratégico mais vasto para o setor. O segundo pilar assenta no Sistema de Incentivos aos Media (SIM), que em 2025 representou um investimento regional de cerca de um milhão de euros. O terceiro eixo foca-se na publicidade institucional, abrangendo agora de forma equitativa as rádios que, segundo o governante, eram anteriormente o “parente pobre” dos apoios regionais.

O quarto pilar do plano dedica-se à capacitação profissional, com formações agendadas para 2026 em áreas como inteligência artificial e jornalismo de investigação, em parceria com o CENJOR e o Sindicato dos Jornalistas. Ao balançar a implementação destas medidas, Paulo Estêvão afirmou que o conjunto de apoios à comunicação social “triplica aquilo que acontecia antes”, em governações socialistas, reiterando o compromisso com a independência e a modernização da imprensa em todas as ilhas.

Governo regional vai avançar com publicidade institucional e assinaturas nos jornais açorianos

© JP

Arranca ainda este mês “uma grande campanha” de publicidade institucional nas rádios e jornais dos Açores com vista a “sensibilizar a população para consumir informação regional” informou a Secretaria regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades.  

“Este é um programa há muito reivindicado”, reconhece Paulo Estêvão, que sublinha que o momento político atual, sem eleições de carácter partidário no horizonte, torna finalmente possível a entrada em vigor desta ação.

Para além disso, arrancará também em breve outro eixo do “Plano de Ação para os Media Açorianos” – a compra de assinaturas de jornais dos Açores, por parte do Governo Regional, para distribuição junto de escolas e IPSS.

“No total, fecharemos o ano com cerca de dois milhões de euros investidos no setor”, vincou o governante, lembrando os avanços financeiros e técnicos do novo Sistema de Incentivos aos Media Privados dos Açores (SIM).

O Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, deu hoje, 27 de outubro, início, na Escola Antero de Quental, em Ponta Delgada, à apresentação pública nas escolas da Região do Programa Nacional de Assinaturas Digitais para Jovens dos 15 aos 18 anos, realçando as várias concretizações no setor da comunicação social por parte do Governo dos Açores.

No que refere ao programa de assinaturas gratuitas de um órgão de comunicação social nacional e generalista, o governante sublinha que “informação fidedigna” é fundamental para uma democracia robusta, adiantando que uma equipa da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades vai percorrer as escolas dos Açores, incluindo as escolas profissionais, para apresentar esta medida e sensibilizar “alunos, professores e pais” para a adesão ao projeto.

Este programa tem como objetivo dotar os jovens entre os 15 e os 18 anos da assinatura de um órgão de comunicação social nacional, promovendo simultaneamente a literacia digital e a capacitação cívica, com benefícios diretos para a sua vida académica, profissional e pessoal.

No link Programa de oferta de assinaturas digitais para jovens – Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades – Portal estão mais informações sobre este Programa, uma das medidas desenhadas pelo Governo da República, com quem o Governo dos Açores tem tido permanentes contactos com vista à plena aplicação na Região das medidas nacionais.

A decorrer encontra-se também a última formação do ano de jornalistas por parte do Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (CENJOR). No final do ano, terão recebido formação em economia e jornalismo de catástrofe cerca de 40 profissionais – as matérias foram definidas pelo CENJOR, em articulação com a delegação regional do Sindicato dos Jornalistas, cabendo ao Governo dos Açores assegurar a parte logística das formações.

A iniciativa da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades junto das escolas dos Açores tem a colaboração ativa da Secretaria Regional da Educação, Cultura e Desporto, por via da Direção Regional da Educação, e da Secretaria Regional da Juventude, Habitação e Emprego, que tutela as escolas profissionais.

O que pensam leitores e jornalistas sobre a literacia mediática

Leitores e jornalistas consideram que a fronteira entre jornalismo e redes sociais é cada vez mais ténue. Ao Diário da Lagoa, Sofia Branco realça ainda que o jornalismo “dá todas as ferramentas para que a pessoa pense e tire as suas conclusões”

Leitores defendem a criação de mais iniciativas para promover a literacia mediática © CM LAGOA

Numa edição que trata o jornalismo, o Diário da Lagoa (DL) deu voz a leitores e jornalistas que, em conjunto, definiram literacia mediática. “É analisar e avaliar aquilo que [os media] nos colocam à frente”, começa o leitor Octávio Lima, ao que Adriana Rebelo, também leitora, acrescenta: “Inclui questionar, comparar fontes e distinguir entre factos, opiniões e possíveis manipulações.” O jornalista Vitor Tomé esclarece que são “competências que nos permitem analisar os conteúdos dos media de forma crítica e não um consumo passivo”. 

A presidente da direção da Associação Literacia para os Media e Jornalismo (ALPMJ), Sofia Branco, simplifica esta questão: “Precisamos de saber explicar a qualquer pessoa, tenha ela seis anos de idade ou noventa, o que é o jornalismo e como funciona, para que é que serve e qual a sua importância.” Apesar de achar que o progresso “pode ser lento” nesta área, mostra-se otimista. E prossegue: “Se ganharmos uma pessoa, para mim já é um sucesso.”

Em termos históricos, antes, “as pessoas só podiam consumir aquilo a que estavam autorizadas”, uma perspetiva que “não esconde uma forma de censura”, explica Vitor Tomé, também da ALPMJ. Depois, surgiu a ideia de que o importante seria preparar os cidadãos e não os proibir. Contudo, hoje, o jornalista considera que “a lógica de proibir está a voltar” no mundo. E, ainda, “com a inteligência artificial e o avanço exponencial da tecnologia, é muito difícil preparar todas as pessoas ao mesmo tempo e a todo o momento”, confessa.

João Freitas e Octávio Lima, que acompanham o DL há cerca de dez anos, defendem a criação de mais iniciativas, nas escolas e não só, para promover a literacia mediática. “Há 10 anos, usavam-se recortes de jornais nas aulas a propósito do tema que estava a ser abordado para os alunos debaterem”, recorda Octávio Lima sobre o tempo em que lecionava. Por sua vez, João Freitas reforça que “as pessoas têm de ser ensinadas a selecionar informação”, em vez de os media o fazerem por elas.

Redes sociais vs. jornalismo

Na ótica de João Freitas, hoje há mais tentativas de “criar informação falsa do que no passado”, pelo que a sua maneira de olhar para a informação é “sempre com alguma desconfiança”, diz ao DL. E especifica: “Até quem quer passar a informação de forma correta tem dificuldade.” No caso da Internet, os dados aparecem atualmente como verdade quando, antes, o que estava online era “à partida mentira”, opina.

Sofia Branco considera que sempre existiu manipulação de informação, mas que hoje ganhou “uma dimensão muito mais preocupante” com as redes sociais. E é precisamente nessas plataformas que se centra um dos problemas apontados pelos leitores e jornalistas: “O jornalismo está numa fase em que se deixa levar em demasia no ritmo das redes sociais e na forma como partilham conteúdos”, destaca. 

Mas há uma distinção que, segundo Sofia Branco, precisa de ser feita. Primeiro, que os jornalistas trabalham sob um código deontológico, ao contrário das redes sociais, que “não têm código ético de espécie alguma”, afirma. E continua a explicar: “Por mais críticas que tenham, todas legítimas e devem ser ouvidas, podem ter a certeza de que isto não é uma estrutura de engano, pelo contrário, é uma coisa que busca a verdade.”

“As redes sociais hoje dizem-nos como pensar. O jornalismo não é isso que deve fazer”, acrescenta. Por outro lado, o jornalismo “dá todas as ferramentas possíveis para que a pessoa pense e tire as suas conclusões”, sublinha a jornalista. Além disso, ainda que exista “mau jornalismo”, admite, realça que “as pessoas podem confiar numa estrutura acerca da qual se podem queixar, pedir correções, fazer direitos de resposta – toda uma série de garantias, enquanto cidadãos”.

O que torna uma notícia credível?

Quando uma órgão de comunicação social é o primeiro a publicar algo é ser recebido pelo público com alguma desconfiança © DIREITOS RESERVADOS

João Freitas acredita que o papel do jornalismo na formação de cidadãos informados é “determinante”. Homem da ciência, aplica um critério usado na sua área para avaliar se uma notícia é credível: a validação. “Para alguma coisa ser validada, ela tem de ser revista e reconhecida por várias entidades. Uma informação, para ser real, não pode aparecer só num jornal”, explica o leitor a sua perspetiva.

Noutro tópico, João Freitas considera que “há uma grande necessidade de pôr as notícias o mais depressa possível cá fora” mas que isso nunca deveria ser “à custa da validação da informação”. Em resposta, Vitor Tomé concorda com a afirmação, porém, diz ao DL que, “às vezes, o mais depressa não quer dizer que seja a notícia mais fiável”. 

Aliás, o que pode acontecer quando uma órgão de comunicação social é o primeiro a publicar algo é ser recebido pelo público com alguma desconfiança, uma vez que “as pessoas têm a sensação de que as primeiras versões das notícias são ao calha”, ou seja, sem a devida verificação. Segundo Vitor Tomé, este fenómeno pode “contribuir para o que se chama de evitar notícias ou news avoidance”.

Adriana Rebelo também acompanha o Diário da Lagoa desde a sua criação e vê o jornalismo como “um pilar da democracia”. Costuma verificar se a notícia vem de uma “fonte reconhecida e de confiança”, se cita fontes oficiais ou especialistas, e se apresenta dados concretos e não só opiniões. Além disso, à semelhança de João Freitas, procura cruzar a informação com outros órgãos de comunicação social para “confirmar se é consistente”, partilha com o DL.

Por sua vez, Octávio Lima acredita que os títulos das notícias são outro aspeto importante, uma vez que são “meio caminho andado para uma pessoa ser atraída e ler”, mas que podem ser “enganadores quando não condizem com o texto”, o que, na sua opinião, tem de ser confirmado com uma “leitura rápida” do texto antes de uma leitura mais profunda.

Desafio da confiança nos media

O jornalista Vitor Tomé vai mais além e acredita que “também cabe ao leitor, se quer saber diferentes pontos de vista, em vez de esperar que um mesmo jornal exprima todos”, procurar ler um determinado assunto em diferentes órgãos de comunicação, que terão perspetivas distintas. E acrescenta: “É necessário criar condições para que haja uma grande diversidade ao nível dos media.”

Este último tópico surge em resposta a um pensamento de Octávio Lima, que diz respeito aos artigos de opinião. “Muitas vezes, o tipo de colaboradores chamados para painéis não cobrem o espectro total da sociedade portuguesa”, salienta. Por sua vez, Vitor Tomé reage: “Nos painéis não pode estar toda a gente representada, não cabe, aliás. Não podem intervir todos ao mesmo tempo.”

Já a perspetiva de Eduardo Marques, que acompanha o DL há dois anos, é diferente: “Em Portugal, o jornalismo não está bom e a população não compreende a sua função.” Para o leitor, os media estão “alinhados a agendas políticas neoliberais” e, por isso, “já não há um jornalismo livre”. Além disso, considera que hoje “a maior parte dos media tradicionais estão completamente reféns de interesses económicos”. A esta questão, Sofia Branco responde: “Não acho de todo que a maioria dos jornalistas em Portugal estejam nessa situação. Acho que tentam dar o seu melhor, embora, obviamente, haja falhas.”

A Associação Literacia para os Media e Jornalismo procura desde 2019 apoiar professores e outros públicos em Portugal, ao oferecer ferramentas, recursos e metodologias que possam ser aplicadas em práticas de literacia mediática dentro e fora da escola, incluindo nos Açores. Este projeto tem jornalistas e académicos especialistas da área do jornalismo responsáveis pela formação de docentes, em sessões com componentes teóricas e práticas.

As câmaras serão o coveiro da imprensa regional

José Vieira
Jornalista e presidente da Mesa da Assembleia Geral da APMEDIO

Tenho falado nos últimos meses das entidades que nos tutelam, do pouco que nos têm ajudado e das necessidades deste setor no seu todo. Também tenho falado, insistentemente, nas medidas que estão em cima da mesa, como o regulamento da imprensa regional, ou mesmo os apoios previstos, que passam a ter uma componente mais camarária, “obrigando” as câmaras a contribuírem para o orçamento da imprensa regional. Embora não concorde com o acordo alcançado na anterior legislatura, e que penso que se irá manter nesta, é sempre um começo. Mas a este ponto, voltarei, com mais pormenores, e escamotearei, com alguma profundidade, o que realmente nos querem dar e como pode ser um presente envenenado. Mais à frente deste artigo abrirei o apetite para um posterior artigo mais aprofundado.

Neste artigo, e o que interessa, é falar das câmaras e enquadrar o seu papel e a sua relação com a comunicação. Lá nos anos longínquos da década de 90, do século passado, as câmaras eram apenas câmaras. Tinham as suas funções bem definidas, e deixavam à imprensa local a devida tarefa da divulgação e comunicação. Era através da imprensa local que os cidadãos sabiam as novidades, fruto de vínculos muito profundos, entre os jornais e as pessoas. Nascíamos e crescíamos com o jornal ou a rádio local, bem enraizado na nossa forma de viver. Era a nós que as entidades oficiais recorriam para oficializar publicamente as suas decisões, mostrar as suas obras e comunicar com o seu eleitorado, havendo uma equidade na forma de divulgação, para dar espaço ao poder, à oposição e aos cidadãos. Havia desvios? Compadrio? Títulos encostados ao poder ou à oposição? Sim, havia, mas creio que a maioria fazia um trabalho digno de registo.

No final da década de 90 e na viragem do século, as novas tecnologias começaram a evoluir e novas formas de comunicação foram aparecendo. Os portais das câmaras começaram a ser mais user-friendly, e alguém se lembrou que poderiam incluir nos portais uma área de notícias. Não sei quem foi, mas tenho vontade de bater nesse desgraçado. Foi o começo do descarrilamento da imprensa regional. Em poucos anos, as 308 câmaras em Portugal começaram a adaptar os seus portais para terem uma área noticiosa. Não se compreende como é que a entidade para a regulação (ERC) não travou isto. De repente, tínhamos mais 308 jornais (um por cada concelho) a fazer concorrência à imprensa regional. A estes 308 novos jornais encapotados e parciais (pois são autênticas ferramentas de propaganda do poder instalado), juntaram-se mais umas centenas de Juntas de Freguesia, as maiores, diga-se, que também queriam desta forma ter portais de comunicação. E a ERC continua calada e deixa a coisa andar. Depois, como que não satisfeitos, muitas das câmaras e juntas começam a imprimir boletins de comunicação, a que dão nomes variados (boletim, agenda, sumário da atividade, etc.). Na verdade, são publicações que distribuem gratuitamente, com a propaganda do poder instalado. E a ERC continua calada como sempre. Nada faz para defender a imprensa regional. Como a ERC nada fez para travar esta monstruosidade, as câmaras foram mais longe. E mais longe. E mais longe.

Agora, já têm TVs Regionais e autênticos gabinetes de comunicação (vulgo redação), onde investem anualmente centenas de milhares de euros. Mas ainda têm mais. Muitas câmaras têm também jornais em formato tabloide, que distribuem pelos seus munícipes, contendo também muitos deles spots publicitários de “empresas amigas do sistema”. Em suma, desvirtuou-se todo o papel da imprensa regional, não se vedando a possibilidade de serem “jornalistas” de propaganda, encapotados. Se estão dentro da lei? NÃO. Não creio que uma câmara municipal possa contratar jornalistas e deter órgãos de comunicação social, a fazerem concorrência direta à imprensa local. O que está mal? A falta de coragem do regulador em enfrentar esta situação. Não há, nem pode haver na lei, nenhuma exceção, para que uma entidade pública se substitua à imprensa devidamente registada e auditada pelo regulador. Isso é impensável. É um autêntico atentado à liberdade de expressão, porque estes órgãos encapotados na prática são meros instrumentos propagandistas.

Então e porque não se atua? Porque não se denuncia? Porque não se instaura um processo coletivo contra as câmaras? Porque não se pressiona a ERC e o governo? Porque o jornalismo e os jornalistas regionais têm andado a dormir, foram amaciados com 30 dinheiros, para fecharem os olhos a esta situação. Há que tomar posições. Há que restaurar o equilíbrio. As duas associações do setor já se deveriam ter mexido há muito, para combater esta monstruosidade. Mas pensam que querem saber disto? Claro que não. E sabemos bem a razão. Com esta estratégia local por parte das câmaras e juntas, inicia-se, no início do século um esvaziamento da imprensa regional. Acelera-se a sua morte, pois não se compensa o jornalismo e os jornalistas regionais com medidas protetoras, para não falar em medidas compensadoras. É exatamente a mesma situação em que eu, sem formação em medicina, quisesse abrir um consultório médico para atender doentes, ou sem formação na área educacional, quisesse dar aulas, e podia continuar aqui mais duas ou três páginas a dar exemplos. Para ajudar ainda mais ao enterro da imprensa, neste momento, uma das propostas em cima da mesa do ministro Leitão Amaro, aprovado na anterior legislatura, com a conivência da ANIR e da API (duas das maiores associações de imprensa em Portugal), é a de criar uma espécie de subsídio para a imprensa regional (apenas alguma, note-se), em que as câmaras, e mediante determinados critérios, subsidiem diretamente alguns órgãos de comunicação regionais, escolhendo-se apenas os que interessam. Aliás, essa listagem essa “cozinhada” por estas duas associações e o governo, em que ficam de fora por exemplo, a imprensa digital, que representa já 63% do setor regional. Ou seja, a mama continua para os mesmos (os regionais que estão juntinhos ao poder), e todos os outros, que são 80% do setor, vão morrer à beira da praia. Mais uma vez as câmaras vão ter um papel fundamental na destruição da imprensa regional.

E quem se está a mexer para tentar inverter esta situação? Praticamente ninguém. Continuamos a dançar o tango, em que nos deixamos conduzir por outros. Somos a parte passiva da dança e vamos dançar em direção ao matadouro. Então, o devemos fazer para lutar? Fazer o que fazemos melhor. Escrever, escrever e escrever ainda mais. Façamos da caneta a nossa espada aguçada. Divulguemos o que está mal, apoiemos causas que visem restaurar a nossa honra, escrevamos sem receios de retaliação. Só assim, as coisas começarão a mudar. Só assim iniciaremos alguma coisa que possa ter consistência e permita que se crie uma consciência coletiva forte o suficiente para mudar mentalidades, e forçar o governo e o regulador a criarem condições dignas de apoio ao jornalismo regional.

Colegas de profissão, proprietários de jornais e comuns leitores, todos juntos devemos encarar este desafio como uma missão de restaurar o equilíbrio há muito perdido, altura em que tínhamos uma imprensa livre, em que tínhamos informação de qualidade e isenta de pressões. Hoje, infelizmente, temos artigos “martelados”, artigos “encomendados” e artigos que nos lavam a mente e nos direcionam para os objetivos eleitorais ou mercantilistas, de quem mexe os cordelinhos por detrás da cortina.

Esta promiscuidade entre o poder e a imprensa regional corrupta tem de ser tornada publica, tem de sair para a rua e erradicada de uma vez por todas, em nome de milhares de profissionais que honram a sua profissão e que sofrem pelas condições de trabalho que têm, para benefício de meia dúzia de corruptos que se impregnaram no sistema.

Ando aqui há quase 30 anos a fazer artigos jornalísticos, já corri meio mundo e nunca dependi de nenhuma câmara para pagar as minhas contas. Não vai ser agora que vou mudar, isso vos garanto. E garanto-vos mais uma coisa. Pode a vaca tossir, ou o porco andar de bicicleta, mas este profissional da imprensa regional vai mover montanhas e só vai descansar quando estivermos no rumo de onde nunca devíamos ter saído há trinta anos. Quem quiser que diga presente. Quem quiser que dê um passo à frente. Garanto-vos que não vão ser bonitos os confrontos, mas no fim haveremos de prevalecer, em nome da verdade, da justiça e do nosso setor amplamente debilitado.

Eduarda Chora: o gesto solidário de levar o Diário da Lagoa de porta em porta

Maria Eduarda Andrade Chora, de 81 anos, é natural da freguesia do Rosário e tem uma enorme admiração pelo Diário da Lagoa e por adquirir informação de modo “tradicional”. Fomos conhecer a sua história

Eduarda Chora é leitora do DL desde os primeiros anos do jornal © CARINA SILVA/DL

Eduarda Chora abriu as portas de sua casa ao nosso jornal, onde nos contou que nunca dispensa a leitura do Diário da Lagoa (DL), fazendo ainda questão que outros não deixem de o ler. Eduarda leva exemplares a quem já não consegue sair de casa para os levantar.

A leitora refere que, mesmo depois de reformada, leva uma vida “ativa” e que vive com grande vontade de “ajudar o próximo”, surgindo daí a entrega do jornal aos seus amigos. “Tenho algumas pessoas amigas e foi nesses relacionamentos que comecei a resolver a questão do jornal”, diz ao DL.

Desde os primeiros anos do Diário da Lagoa que Eduarda tem interesse na sua leitura. Conta que, de início, recolhia cerca de dois a três exemplares mensais, nos estabelecimentos mais próximos de sua casa, dando-os a algumas amigas que, rapidamente, começaram a demonstrar interesse em recebê-lo todos os meses. “O jornal fez-me adquirir muitas amizades novas e acaba por nos dar mais assunto de conversa”, revela.

Atualmente, Eduarda Chora levanta em torno de 13 jornais na loja “Pérola da Lagoa”. Faz questão de os ir buscar, coloca-os “dentro de um saco” e assim vai, de porta em porta, a casa daqueles que “demonstram curiosidade” na leitura, ficando com um exemplar para si. “Não vou dizer que não dá trabalho, mas eu gosto de fazer esse bem”, explica, mencionando que, no início de cada mês, já esperam encontrar no seu correio a nova edição do Diário da Lagoa. “Se eu não os conseguir ir buscar, ou se já não tiver exemplares disponíveis, essas pessoas começam a dar por falta a perguntar: “Afinal o jornal não vem?”.

As notícias do Diário da Lagoa são assunto de conversa entre Eduarda e aqueles a quem a leitora distribui o jornal, mas não só, porque chegam também ao Canadá. Eduarda Chora afirma que tem o costume de transmitir “para lá” as informações que acha mais importantes.

O interesse na leitura e na informação

A leitora enfatiza que dá grande importância a “estar informada”, mas que gosta de se manter a par dos acontecimentos exclusivamente de forma tradicional. Eduarda não demonstra interesse em redes sociais e pouca vontade expressa em ver televisão. Para além dos jornais, sabe das novidades quando frequenta presencialmente certos eventos ou quando conversa com outros. “Eu gosto de ir presencialmente aos sítios, mas quando não estou presente, fico a par das coisas na mesma, através do Diário da Lagoa”, relata. O mesmo aconselha às amigas que demonstram tristeza por não conseguirem ir a eventos, porque embora não possam estar presentes, “têm a fotografia e a informação” que o DL proporciona.

Eduarda afirma adquirir muito “conhecimento” e “cultura” através da sua leitura e aprecia muito as notícias “locais” do nosso jornal. Ler, não apenas jornais, mas livros e revistas é algo que sempre apaixonou Eduarda. “O gosto pela leitura desde que era jovem fez nascer em mim o empenho pelos jornais”, conclui.

A nossa leitora termina a visita desejando que o Diário da Lagoa “continue por muitos mais anos” e que a ela também nunca falte saúde para nos acompanhar.

Greve dos Jornalistas: há um mês gritaram os que dão voz a toda a sociedade

Mais de 70 pessoas, entre jornalistas e apoiantes, estiveram em concentração em Ponta Delgada, no dia da greve geral dos jornalistas que registou uma adesão, na região, de 42 por cento. Quiseram chamar à atenção para a deterioração das condições de trabalho da classe profissional. O Diário da Lagoa esteve a ouvir alguns jornalistas

No dia 14 de março concentraram-se mais de 70 pessoas, entre jornalistas e apoiantes, no Jardim Antero de Quental em Ponta Delgada © MARIANA ROVOREDO/ DL

“Povo, escuta, jornalistas estão na luta” e “a liberdade não se escreve sem jornalistas” foram algumas das frases que se “gritavam” na concentração, no Jardim Antero de Quental, em Ponta Delgada, em dia de greve geral dos jornalistas: a única nos últimos 40 anos. Na cidade açoriana, 14 de março foi um dia de sol, o que por sua vez contrasta com a “névoa” que paira sobre o setor do jornalismo.

Jornalistas e apoiantes apelavam à atenção da sociedade civil para os baixos salários, precariedade, sobrecarga laboral, horas extraordinárias não remuneradas, entre tantos outros problemas que afetam a classe. De acordo com o sindicato, a crise no jornalismo é um problema de toda a sociedade.

O Diário da Lagoa (DL) esteve a ouvir e a dar voz aos jornalistas presentes na concentração para conhecer os seus problemas e reivindicações.

Marta Silva, presidente da Direção Regional dos Açores do Sindicato dos Jornalistas que discursava na concentração, disse: “As pessoas têm de perceber que a informação só faz sentido se for de qualidade, de confiança e credível, e isso só se consegue com órgãos de comunicação fortes. O problema reside, principalmente, na questão do financiamento.”

“Não faltam razões para fazermos greve,” diz Nuno Martins Neves, que vestia uma t-shirt com um dos motes da greve: “a liberdade não se escreve sem jornalismo.” O jornalista do Açoriano Oriental explicava que “as condições do nosso trabalho têm se deteriorado nos últimos anos e agravaram-se com a inflação, em que, à conta de não termos aumentos salariais, estamos a perder poder de compra”.

O jornalista aponta ainda os casos de profissionais que recebem abaixo do salário mínimo: “temos pessoas com salários muito baixos e sei que nos outros órgãos de comunicação social (OCS) há pessoas a ganhar abaixo do salário mínimo, pessoas com vínculos laborais muito precários, falsos recibos verdes”.

Inês Linhares Dias, da Antena 1 Açores, com a mesma frase ao peito, considera por sua vez que “é preciso que as pessoas percebam que a deterioração da qualidade do jornalismo está também intimamente ligada à deterioração das condições de trabalho e laborais dos jornalistas”. A jovem jornalista defende que “damos vozes a tantas lutas, está na hora de ouvirem a nossa voz também”.

Inês Linhares Dias, que faz também parte da direção regional do Sindicato dos Jornalistas, descreve a situação de muitos profissionais do setor: “sei o que nos passa pela cabeça quando o dinheiro não estica, quando as horas se esgotam no trabalho e sobra muito pouco para o resto, quando nos deitamos na cama a pensar no trabalho e não vemos esse esforço reconhecido. Continuamos a fazer isto por paixão, mas é preciso que seja mais do que isso. É um trabalho que já não compensa há muitos anos, mas é preciso reverter isso”, considera.

Precários, sobrecarregados e mal pagos

Marta Silva (à esq.) é presidente da Direção Regional dos Açores do Sindicato dos Jornalistas © MARIANA ROVOREDO/ DL

À conjuntura dos baixos salários, acrescentam-se as redações depauperadas, o que resulta na sobrecarga dos poucos jornalistas a exercer funções: “estamos com redações muito reduzidas para o que seria necessário para fazermos um trabalho de qualidade, de informar as pessoas,” expõe Nuno Martins Neves, que “todos os dias” se sente sobrecarregado. “Tentamos tocar muitos instrumentos e somos uma banda muito pequena, e, quando assim é, muitas vezes temos de sacrificar muitas coisas. A primeira que sai sacrificada é a família, a segunda é a nossa saúde, seja física ou mental, com as horas extra que trabalhamos e que quase nunca são recompensadas monetariamente. Portanto, claro que me sinto cansado. São situações que não matam à primeira, mas vão moendo”, lamenta o jornalista.

Também Inês Linhares Dias o sente na pele: “como sou jornalista precária, muitas vezes o que acontece é que aqueles horários que outras pessoas não querem fazer – os noturnos, os fins de semana – são os que são feitos pelos jornalistas precários, a quem não é preciso pagar horas extraordinárias e horas noturnas. Por trabalhar à peça, é muito difícil rejeitar um trabalho, sentimo-nos sobrecarregados”.

Ana Paula Santos, jornalista na Antena 1 Açores, trabalha no setor há mais de 30 anos, mas há 15 que não progride na carreira. “Isto é precariedade. Além disso, na maioria dos OCS, o pagamento de horas extraordinárias não existe, os horários são flexíveis sem que isso seja reconhecido do ponto de vista financeiro. Entre os licenciados, os jornalistas são os mais mal pagos. A cada dia que passa, a profissão está cada vez menos aliciante” denuncia, em dia de greve geral.

A profissional compara o passado e o presente do setor e refere que falta tempo para fazer um trabalho de qualidade. “Se não temos tempo para aprofundar as coisas, faz-se uma análise superficial e isso não é jornalismo. Até isto está a retroceder. Também está a retroceder a integração dos novos elementos nas redações. O jornalismo está com uma superficialidade que tem de mudar”, defende Ana Paula Santos.

Mariana Lucas Furtado, jornalista com apenas 23 anos, explica que escolheu a área porque era o que gostava de fazer, apesar de as condições não serem as mais atrativas. “Quando estava a estudar, já sabia que as condições que ia encontrar no mundo de trabalho não seriam as ideais, à partida. Mesmo assim persisti, gosto muito daquilo que faço e não me imagino a fazer outra coisa. Não é isso que está em causa. Só que é certo que trabalhamos muitas horas e não há nada que as compense, que são dedicadas à profissão, em detrimento da família, da vida pessoal e social. É essa a parte mais difícil de conjugar”, conta.

A adesão à greve nos Açores superou as expectativas. Para a concentração no Jardim Antero de Quental,
havia a esperança que aparecessem pelo menos uma dezena de pessoas, mas mais de 70, incluindo jornalistas e apoiantes, juntaram-se ao protesto.

A classe reivindica aumentos salariais em 2024 superiores à inflação acumulada desde 2022; a garantia de um salário digno à entrada na profissão e de progressão regular na carreira; o pagamento de complementos por penosidade, por trabalho por turnos e isenção de horário; a remuneração por horas extraordinárias, trabalho noturno, e em fins de semana e feriados; o fim da precariedade generalizada e fraudulenta no sector; o cumprimento escrupuloso das leis do Código de Trabalho e do Contrato Coletivo de Trabalho; condições humanas e materiais para a produção noticiosa; a revisão das estruturas regulatórias da comunicação social e do jornalismo e a
intervenção do Estado na garantia da sustentabilidade financeira do jornalismo