
Júlio Tavares Oliveira
Formado em Português/Inglês
Há amores – muitos amores, muitas vezes os primeiros amores – que não têm direito a cartas de amor trocadas, que não vivem, direito, as suas cartas de amor, ou uma correspondência feliz; há amores que só se sabem – e se ouvem – pela dor constante que provocam, pelo ardume grave, e interno, que propagam, pela inflamação que os conduz e que os consome por dentro.
O amor sem cartas de amor é aquele amor inflamado, capaz, infundado, que não se ouve falar em lado nenhum pelos melhores motivos: é agressivo, violento, imparável, mas quieto, sisudo, miúdo, minúsculo; esse amor é o amor dos heróis e dos anti-heróis, dos eternos românticos apaixonados, dos nobres cavalheiros, de flor na lapela, que não cortejam, nem fazem flirt, mas que desejam tão intensa quando inconsequentemente, incondicionalmente, um amor qualquer que os destrói lenta e lentamente.
Mas não é desse amor sem cartas de amor que nascem os amores mais duradouros – distinga-se paixão de amor e traremos, nesse tratamento, nessa degustação, um amor pacífico, um amor estável, um amor que se baseia na correspondência.
Os amores incondicionais são extremamente agressivos e brutalmente corrosivos – são obsessivos, são obcecados, não têm, nem conhecem, limites.
São, de forma mais ou menos constante, uma ultrapassagem perigosa, um encontro marcado, mas magoado, em contramão, uma curva apertada a alta velocidade; um despiste incontrolável de sentimentos e emoções. Os amores, que são violentas paixões do coração, quando não são correspondidos por quem se ama desta forma, não trazem sossego, mas muita revolta e incompreensão.
E a revolta, na grande parte das vezes, traz a potência do crime, do litígio, do perigo – para quem se apaixona e para quem foge dessa paixão.
Os avisos são muitos e estão suspensos à nossa volta: mensagens constantes, chamadas constantes, perseguição, e tanto mais – por quem ama, incondicionalmente, a quem não ama, de todo, esse “incondicionalmente”, mas que o detesta.
É, diria eu, uma doença incapacitante, uma cegueira, que litiga, de forma abismal, contra quem daria a sua própria vida pela vida da pessoa que ama, mas que o detesta – e esta é a doença de se gostar tanto de alguém que não gosta de nós. É, diria eu, uma necessidade, também, de se procurar ajuda especializada.
É aí que entra a necessidade, primeiro, de se reconhecer a si mesmo; e de se procurar ajuda – e há muita gente que nos pode, de facto, ajudar.
Posso dizer que já estive do lado que se apaixona, se calhar mais do que uma vez, incondicionalmente por alguém, numa vã inglória da vida – numa paixão que não se controla, nem se aprende a dominar, nem conhece as suas limitações ou os seus limites à sua superação constante, na tentativa de agradar, de todas as formas, a pessoa amada – invariavelmente, toda a paixão incondicional sem correspondência provoca repugnação, nojo, ou medo em quem se sente impotente, e incapaz, de parar tal proeza.
Aprender a largar não é fácil; aprender a aceitar o que nos magoa é difícil. Sobretudo para quem, como eu, ama de uma forma difícil de entender no mundo de hoje – de uma forma, por vezes, que se deixa ficar em último para que quem amamos fique em primeiro. A doença – se será? – de se amar de uma forma que nos prejudica tanto, e que só nos traz coisas negativas, lágrimas e prantos, importa, da parte de todos nós, que não se apontem dedos desnecessários, importa que não se julgue o incondicional por ser isto que é: incondicional.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Por opção própria, ponderada e pensada, vou sair da Lagoa, minha terra, para ir trabalhar e viver noutra zona do país, já a partir de agosto, o que implicará, suponho, um afastamento inevitável.
A decisão de não ficar, de ir, de procurar outros horizontes, de alargar horizontes profissionais e geográficos, surge bem no meio de um contexto de particular relevância – o mundo está a mudar de forma perigosa, sem dúvida, e novos desafios são exigidos a cada ser humano e, no fundo, a cada profissional.
Dediquei, posso dizê-lo, grande parte da minha vida até hoje a divulgar, a partilhar as gentes, os contextos e a história desta terra, que agora me vê partir, sempre num espírito de profunda humildade e de superação constante – exemplos são os meus livros e contributos para a historiografia local. O meu mais recente contributo, para além da já publicada Trilogia «Filhos e Servos», e de um mapeamento de lagoenses notáveis, é o Livro de Ouro do Poder Local Democrático.
Foi na Lagoa que me fiz poesia – e que, na poesia, me tornei poeta.
Foi ainda na Lagoa que ganhei a minha primeira namorada; foi na Lagoa que aprendi a jogar à bola e a andar de bicicleta, a esfolar os joelhos no chão, bem me lembro, entre a Rua Augusto Manuel de Freitas e a Rua Eduardo Gago Machado de Faria e Maia, sempre com o incentivo e o «puxão» do meu Avô António.
Foi na Lagoa, entre memórias boas e más, que me formei, primeiro como cidadão, depois como estudante de mérito na Secundária: na Escola Básica Integrada de Lagoa, sou do tempo da educadora do pré-escolar «São», a primeira professora que tive, aquela que se pronuncia apenas com uma sílaba – «São» – chegando-se, depois, ao primeiro ano, entre medos e ansiedades e ataques de pânico diversos, onde tive a gentil professora Rosa, depois a competente professora Marisa e, por fim, a humana e empática professora Ana Margarida Rocha. Não me posso esquecer do Professor de Educação Física na EBI de Lagoa – o notável professor Gilberto.
Na primária, embora sejam ténues e vagas as memórias, ganhei os meus primeiros melhores amigos: o Rodrigo Correia foi um deles, entre outros; e, no fundo, foi na Primária que convivi com os meus três sempre presentes amigos imaginários até ao seu desaparecimento súbito.
A gratidão é a memória do coração.
Do ensino preparatório, lembro-me, na Escola do Fischer, a saudosa e mulher de rigor e de princípios, a competente e muito humana professora de Matemática, e minha antiga vizinha e Diretora de Turma, Leopoldina Trindade.
Lembro-me de outros tantos docentes que muito prezo: entre o professor Silveira, ao ilustre professor Vítor Simas, de Educação Física, na Escola Secundária, à professora Beatriz, de Português, na Secundária também, lembro ainda a professora Lúcia Ventura – de Matemática Aplicada às Ciências Sociais.
Tive imensos bons professores, competentes professores e educadores, e sou-lhes grato pela pessoa que sou, pelo ser humano, formado, que sou – eu, hoje, também sou professor, educador, ou gostaria, nesse sentido, de ser um – um como vós todos.
Na Universidade dos Açores, durante a Licenciatura, cruzei-me com mentes absolutamente excêntricas e extraordinárias: o Doutor Eduardo Jorge Moreira da Silva, de Introdução ao Estudo da Cultura, entre outros tantos, foi um dos que, para o bem e para o mal, mais me marcou – citando, neste caso, docentes como Maria do Céu Fraga ou Leonor Sampaio Silva, entre outros.
Da Lagoa, levo também amizades, entre outros amores e desamores.
Levo o meu grande amigo João Vítor Ponte, lagoense, organizador de eventos por excelência, e competente e formado comunicador; levo, no coração, a minha amiga Cátia, bem como outros tantos amigos – levo, sem dúvida alguma, o Clife Botelho, ex-diretor do jornal local, e o Diário da Lagoa, jornal local; levo o Norberto Silveira e, mais do que isso, levo a paciência que tantos e tão poucos tiveram para comigo: ao senhor José Carlos Almeida, que sempre que me vê cumprimenta, ao senhor Lauriano Teixeira, ao senhor Fernando Jorge, aos amigos e amigas, aos jovens e jovens com quem me cruzei; às associações locais que fundei e dirigi, e onde conheci imensas pessoas. O meu muito obrigado a todos eles e a todas elas por tanto.
Foi também na Lagoa que aprendi a conduzir e onde tirei a carta de condução – e, a isso, devo muito às lições de condução do Senhor Jaime.
Levo as marchas de Santo António, em particular os «Amigos do Rosário», e, no fundo, levo as pessoas que me salvaram de um poço bem fundo – como é exemplo o Padre Nuno Maiato, que, numa altura de absoluta escuridão, fez-se Luz em mim e no meu Caminho.
Com uma saudade imensa, mesmo ainda que não tenha partido, levo pessoas, gentes, levo olhares, levo corações. Levo, acima de tudo, memórias boas e boas memórias. De coração cheio, e com a gratidão a saltitar cá dentro, digo, a todos, a quem muito devo, muito obrigado.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Existem vários tipos de Censura e várias formas de se Censurar os outros: a mais comum, nos dias de hoje, de plenidade democrática, de convivência democrática, é a omissão do outro. Esconde-se, varre-se, põe-se para debaixo do tapete a informação que não convém a determinada longitude e a determinado alcance de notoriedade; mete-se num sítio mais “escondido”, mais “tapado”, ou selecionamos o alvo, convenientemente, puxando-o para nós, mas para o Censurar depois – aliciando-o e pondo-o, depois, em convenientes serviços mínimos. Prendendo-o!
Não há uma Censura abertamente declarada em Portugal; hoje, como sabemos, não há um traço azul, de cima a baixo, nem um gabinete específico, mas uma omissão discreta, que é muito pior do que a abertamente declarada, e que passa por entre os pingos da chuva; uma que é realizada por conveniência de serviço, de certa e determinada informação perfeitamente legítima.
Só o facto de, muitas vezes, não haver total abertura e acesso total e independente à informação em tantos órgãos da administração pública, só isso legitima a censura, a propriamente dita, por se barrar, precisamente, o acesso livre, e pleno, previsto na Lei, a documentos administrativos de acesso e de consulta supostamente abertos.
Também se censura se impedimos, por conveniência ou razões políticas ou ideológicas, o natural progresso, e crescimento, de alguém na sociedade ou na opinião pública – e tantas vezes, tanto potencial é deitado fora, ou mesmo desvalorizado, ou até omitido (lá está…) por conveniência e por razões que extravassam completamente o grau desse potencial.
É discriminação – se uns são tratados de forma A e outros tratados de forma B -, certo, mas é também uma forma de se censurar os outros, neste caso o ser humano e o seu potencial.
A Censura não é o habitual “tapar a boca” ou o “impedir que saia”, porque a Censura moderna apurou os seus meios, trabalhou as suas técnicas, para chegar e atingir precisamente os seus maiores alvos de forma silenciosa. A Censura moderna não deixa rasto, não deixa pegadas, é, em si mesma, muitíssimo discreta. A Censura moderna não levanta a voz, nem aparece em público dizendo nada – ela, por si só, é capaz de se esconder e andar entre os pingos da chuva, controlando, por si só, todo o Clima.
A Censura dos dias de hoje não se compadece com os outros – ela, simplesmente, fá-los desaparecer do radar da opinião pública, através dos seus preciosos meios e dos seus disseminados e muitos canais de influência.
Enquanto nós, um pouco por todo o país, e nas Regiões Autónomas, não matarmos, com veneno o veneno, o veneno, ele mesmo, continuará a disserminar-se e a contaminar a opinião pública, levando as massas a pensar de determinada forma e a considerar de determinar maneira; continuará, ela, por técnicas de grande alcance, a castrar a livre comunicação, a transparência, a independência de tantos órgãos, a seriedade de um Estado, escudando-se na magistratura de influência (omissa à grande maioria) que possui, e que distorce até o poder judicial.
Com muita pena minha, não vejo grande alternativa, senão abrirmos os olhos. Combater algo que se esconde, todos os dias, por baixo do seu manto de invisibilidade, e do seu poderoso radar de influência, só se combate com literacia, com a promoção da literacia – a vários níveis -, do conhecimento e com o acesso, difícil, à Verdade.
É dever de cada um de nós, cidadãos, trabalharmos nesse sentido.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Uma década é muito tempo, são dez anos, mas uma década de serotonina pode parecer tempo a mais na vida de um jovem – na verdade, é o tempo necessário.
Nem por acaso, há uma década que operacionalizo a minha vida pessoal, e profissional, através de ajuda clínica especializada, ajuda que é principalmente para alguém que, devido a problemas de saúde diversos, permanece numa demanda – muitas vezes, bastante solitária – de mudar de vida.
Se não mudarmos de vida, a vida muda-nos. Então, toda a ajuda é bem-vinda
Quando fiz 18 anos, em 2016, devido a vicissitudes várias na vida, comecei a ser seguido clinicamente, e, mais tarde, por outro clínico, com quem estou desde 2018, devido sobretudo à prevalência de problemas ligados à ansiedade bastante desregulada, a episódios recorrentes de depressão, bastante cíclicos e incapacitantes, entre outros fatores que se devem, entre outras causas diversas, a um défice meu na produção do neurotransmissor essencial para a regulação do humor, do sono, do apetite e da digestão, e que pode ter um impacto significativo na saúde física e também mental – a Serotonina.
A falta de Serotonina, ou a sua redução, está intimamente ligado a problemas de saúde mental adjacentes, como: depressão, ansiedade, transtono obsessivo-compulsivo; transtorno de pânico; problemas no sono ou dificuldades digestivas.
Devido a essa “falta” permanente, a esse défice natural, comecei a tomar vários medicamentos, que me compensaram essa lacuna, entre outras – uns mais grandes e mais potentes do que outros, inclusive, e que tornaram, gradualmente, uma pessoa mais saudável mentalmente, mais operacionalizável, mas que, outrora sem peso a mais, ganhou um aumento abrupto de peso e excesso de problemas de saúde física, devido ao seu peso, até atingir mesmo a Obesidade (grau I).
Embora a minha saúde mental tenha melhorado imenso – e até estabilizado de forma positiva -, o que tenho é, contudo, crónico – a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), esta resultante por exemplo de um défice de serotonina. É algo que, na minha vida, tem sido recorrente e só tem sido efetivamente controlado, mas não definitivamente curado.
Hoje, 10 anos depois, com 28 anos, assinalo 10 anos de ajuda mental, de acompanhamento clínico especializado – de uma acompanhamento que, na verdade, acompanha tanta gente por esse país, que não se reconhece ou que se reconhece como precisando de ajuda.
Um conselho que dou a quem, como eu, tem algo crónico, para a vida, e que provavelmente precisará de alguma medicação, é este: faz por ti, cuida de ti, ajuda-te muito, quando sentires que precisas dessa ajuda tua, também.
Todavia, nem tudo é por via de medicamentos solucionável, apenas, embora ajudem. Uma coisa que a experiência, e a prática, me ensinou é que podemos regular os níveis de serotonina também fazendo exercício físico regular; atividades ao ar livre e com luz natural; controlando o stress; e comendo, por exemplo, alimentos ricos em triptofano.
Uma reflexão pessoal que deixo a todos os leitores: apenas há 1 mês, em dez anos inteiros de tratamento, é que comecei a trabalhar, realmente com vontade e afinco, na regulação da minha serotonina, não apenas por via medicamentosa, que já o faço há dez anos, mas por via também natural, ou seja, recomecei, de forma permanente, as caminhadas ou corridas ao ar livre, dois a três quilómetros por dia, bem como recomecei a comer de forma mais equilibrada e saudável.
Tudo leva o seu tempo a acontecer. E, agora, tento manter uma postura mais saudável, mais rica, menos dolorosa – também para mim, como para os outros que gostam de mim.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Soube da infeliz morte de António Lobo Antunes, um magnífico ser humano, que viveu intensamente, e recebi a «sua» morte, via noticiário, com a óbvia tristeza de quem vê um «distante» escritor lusitano, um dos melhores de Portugal, a desaparecer do mapa dos vivos, e que, agora, finalmente, voa como um pássaro livre na cauda das nuvens soltas, cabendo, por vezes, quase na palma das nossas próprias mãos através dos seus livros e do resgate que fazemos da sua boa memória e das suas leituras.
Na verdade, e desculpem-me por isso, mas nunca li nada dele, confesso. Li algumas entrevistas avulsas, notas bastante soltas; sei, por alto, quem foi, sei o que escreveu; mas não compreendo realisticamente a sua narrativa densa, a sua obra – mas compreendo a sua geração.
Não se ensina António Lobo Antunes na escola, nem ele foi feito para uma descoberta apertada ou forçada; temos de ir de frente com ele, voluntários, que ele não vai sozinho connosco, e ainda bem. E temos de estar preparados para nos afundarmos nele, na sua narrativa.
Ninguém é sobretudo coletivamente irreparável, porque toda a gente tem de morrer e de partir, tem de desaparecer, logo toda a morte tem reparo na substância do mundo.
Não obstante, a única coisa que podemos aprender uns com os outros, por isso, é que todos nós somos uma perda substancial na vida de alguém em particular, e isso não é de se desmerecer; somos sem reparo, sobretudo dos mais próximos, de facto; mas muito pouco relevantes na vida e na circunstância da Vida, ela mesma, na sua mecânica, nas dinâmicas do Sol e da Lua, do vento e da maré, se quisermos.
Afinal, do que sei, o que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la: é precisamente ignorando, de facto, a morte que seguimos, justamente, bem vivos na vida. O que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la, de todo.
A infeliz, mas necessária, partida de qualquer ser humano, nas nossas vidas, deixa, nalgum lugar, um vazio branco, inesquecível e irreparável; eu chamar-lhe-ia o barulho do irreparável.
Deixa rasto num coração dormente, mais envelhecido, e por vezes assustado. A sensação de impotência e de pesada solidão num cadeirão, cheio de raízes e de memórias, mas agora despojado do seu dono, revela um eco de vazio irreparável, de qualquer coisa sozinha, agora despojada, um despovoamento e a sensação sólida de um desaparecimento subtil, mas incerto.
Depois da morte de um amigo, de uma pessoa, seja familiar ou conhecida, que é muito importante para nós, a vida muda, fica mais forte, mas, ao mesmo tempo, fica mais vazia e menos significativamente importante – e é esse peso irreparável que não se substitui, ele é substancialmente grande o suficiente para durar a vida toda, tanto que a morte é um peso doloroso.
Recordo, com saudade, figuras icónicas, e ilustres, da minha freguesia, por mero exemplo, e delas, e através delas, vejo não elas mesmas, na sua imagem, mas um tempo que se foi definitivamente embora.
Vejo a minha infância e juventude, as que já não voltam mais, e vejo uma geração diferente que foi substituída, irreparavelmente substituída por outra.
Com tudo isso, sinto que algo morreu pelo caminho; mais do que a morte de alguém, morreu uma geração uniforme, morrem gerações mais ou menos concisas, gerações de costumes, de tradições, de práticas, de vivências, de memórias, de aspereza, de dureza e de dificuldades vividas.
A geração que conheceu os pés descalços e a fome está a desaparecer. Por um lado, é bom, excelente sinal; por outro, pode ser impactante o suficiente no nosso futuro e na forma como vivemo-lo; pode ser imprudente desvalorizar isso.
Afinal, como não compreender a morte senão através da vida? Olhemos os álbuns do passado, alguns bem feitos, e reviremos a história, compreendamos gerações de trabalho inteiras, e prestemos homenagem a quem, desaparecendo, levou consigo uma geração de enormes dificuldades e desafios.
A morte de António Lobo Antunes, mais do que a importância da sua rica narrativa, provoca-me essa sensação de viva impotência: de que algo muito importante está-se a ir embora de nós, de que algo já não volta mais – não a pessoa, mas uma fibra de gerações inteiras que, substituindo-se no Tempo, estão vagamente, e lentamente, a sair do palco.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Faz, este mês de fevereiro de 2026, um ano e três meses sobre a partida do meu avô Sargento António Tavares, que vi morrer, após uma longa apneia, nos Cuidados Paliativos, a 26 de novembro de 2024.
Para quem duvida e desvaloriza o sacrifício que tantos militares portugueses, antigos combatentes, fizeram no Ultramar, digo-vos que a guerra não se acaba, mesmo após terminada: deixa marcas, profundas e indeléveis, traumas e um «stress» que tirou noites de sono, entre infinitas insónias e graves pesadelos, ao meu Avô, que os pude presenciar na primeira pessoa.
O meu avô, à época, não teve a oportunidade de assistir ao funeral dos seus pais, porque estava em África; sequer teve uma chance de se despedir deles. Estava embarcado, e só recebeu a notícia, por telegrama, muitos dias após o seu falecimento.
A guerra ceifou, mais do que vidas, gerações inteiras, entorpeceu saudades e gerou pesadelos e distância.
Gostaria, portanto, de aproveitar este «espaço» no Diário da Lagoa, para confessar, relativamente ao Sargento Tavares, um pouco do seu percurso militar e de combate.

É de forma grata, e expressiva, que recordo o meu Avô Sargento-Ajudante António Tavares, ou o Furriel e Sargento Tavares, lagoense nascido a 25 de abril de 1940, e é de forma reconhecida, e também grata, que recordo o brilhante aluno, de Santa Cruz, o primeiro estudante do sexo masculino, natural de Santa Cruz, à época, a ir estudar para o Liceu Nacional de Ponta Delgada.
É de forma grata, e expressiva, que recordo o meu Avô, que foi um dos primeiros açorianos a integrar contigentes militares destinados ao combate ativo; a incorporar Companhias militares preparadas e destinadas a lutar em solo africano, onde travariam a detestável Guerra Colonial, estando, ele, e nomeadamente, integrado numa companhia de Portugal Continental.
É de forma grata, e expressiva, que o recordo: com o seu sorriso terno, o seu sentido de humor e, acima de tudo, com uma palavra de apreço pelas coisas simples da Vida: um café, um pastel de nata, uma colher de gelado de baunilha.
O meu avô António Tavares foi dos poucos combatentes portugueses que travaram quatro comissões de serviço no Ultramar Português. De 1962 a 1975, interpoladamente durante oito anos efetivos, em zonas de alto risco e de perigo para a sua vida e da sua família, o meu Avô António combateu e lutou pela Pátria, seja em Angola, seja na antiga Província da Guiné.
Para além disso, recordo-o, ao meu Avô António, como um herói de combate, em zonas de alto sacrifício e de vida, que sacrificou, inclusive, a própria vida pela vida dos seus amigos e dos seus camaradas militares: assim o foi a 5 de julho de 1963, quando, e indo junto com outros camaradas em socorro urgente após uma emboscada, o seu jipe militar pisou uma chamada «mina anti-carro», que vitimou vários soldados e um Capitão, mas poupou o meu Avô, e a sua vida, por milagre.

Incorporado, à altura, em Bessa Monteiro, Norte de Angola, no Batalhão de Artilharia 400 – com o cognome de “OS GATOS” -, ao meu avô foi-lhe sugerido, por razões de saúde e traumáticas, nessa altura, que regressasse à Metrópole, em Lisboa, algo que ele, na hora, recusou, preferindo continuar a acompanhar os seus camaradas militares.
No final da sua vida, o grande sonho do meu avô era ver-me, a mim, seu neto, Licenciado. Tal veio a suceder, sim, e precisamente, conforme atesta o diploma emitido pela Universidade dos Açores, a 5 de julho de 2024, precisamente – e quem diria… – também precisamente 61 anos após essa emboscada fatal, que poderia ter mudado tudo, destinos, rumos e vidas.
A vida tem dons infinitos e infinitos mistérios para nos contar.
A seu tempo, fazendo uma brilhante carreira militar, no ramo de Artilharia, do Exército Português, o meu avô, inúmeras vezes louvado militarmente, foi, nos anos oitenta, condecorado com a Medalha de Mérito Militar, uma das mais altas honras militares em Portugal.
Devemos-lhe, como devemos a todos os antigos combatentes, as maiores honras, memórias e tributos.

O jovem autor e professor lagoense Júlio Tavares Oliveira, de 28 anos, prepara-se para lançar a sua mais recente obra poética, intitulada «Por ser Árvore». O evento de lançamento terá lugar no próximo dia 30 de maio, pelas 18h30, na Sala de Leitura da Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, e contará com a apresentação do poeta e escritor Pedro Paulo Câmara.
Após um interregno de três anos sem eventos literários presenciais, o autor, que soma já dois prémios de poesia, regressa com uma obra sob a chancela da editora Reticências. O livro congrega uma seleção de poemas inéditos e alguns dos seus melhores textos já publicados.
Segundo o autor, em declarações ao Diário da Lagoa, a obra “reflete uma atitude de aceitação perante o mundo e as circunstâncias pessoais de cada um”, descrevendo-a como o espelho de uma vida jovem, mas “repleta de luzes e de sombras”. A capa, que ilustra uma flor de outono a cair sobre a palma da mão, simboliza essa “aceitação plena e grata do nosso Destino”.
Com prefácio da escritora florentina Gabriela Silva, antes do lançamento oficial haverá uma pré-abordagem apresentacional a 17 de abril, na Escola Básica Integrada de Água de Pau, em contexto escolar, também com a presença de Pedro Paulo Câmara.
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses, pós-graduado em Português Língua Não Materna (PLNM) e atualmente mestrando em Estudos de Língua Portuguesa pela Universidade Aberta de Lisboa, Júlio Tavares Oliveira possui uma vasta formação em áreas como Escrita Criativa, Educação Não Formal e Inclusão. Após ter exercido funções como docente de PLNM no Colégio do Castanheiro, em Ponta Delgada, no ano letivo 2024/2025, o autor dedica-se atualmente à certificação de estrangeiros em diversos pontos do globo, promovendo a Língua e Cultura Portuguesas para fins de obtenção de nacionalidade.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Sou colaborador, subscritor e parte ativa da história e da vida do Diário da Lagoa desde a sua fundação. Talvez poucos se recordem, ou mesmo saibam disso, mas essa colaboração quase nunca foi paga ou teve dividendos nenhuns – e, se o foi, foi um pagamento meramente simbólico.
Durante um ano, colaborei, em regime de voluntariado com o Diário da Lagoa, diretamente na sua redação.
Conheci o Norberto Silveira, picaroto de nascença, como poucos, na sua faceta de jornalista: escrevi, aliás, sobre ele; ouvi-o, escutei-o, caminhei com ele, trabalhámos várias vezes juntos e, acima de tudo, aprendi muito com ele sobre o princípio do jornalismo. Conheci, também, as suas dores e anseios – e as ideias que tinha para o futuro do seu sonho: para o jornal Diário da Lagoa.
Noutros tempos, colaborei, de novo, com o Diário da Lagoa, ao abrigo de um programa de empregabilidade que existia à altura, de onde recebia um pagamento de metade do salário mínimo à época – trabalhando quase a tempo inteiro e fazendo a revisão gramatical e ortográfica de todas as edições impressas, escrevendo artigos, metendo notícias na Internet, e afins.
Tenho todos os jornais guardados, desde a sua fundação, e, desses, em inúmeras edições impressas, muitos artigos escritos por mim: páginas e páginas, deste jornal ‘Diário da Lagoa’ com a sigla “JTO’.
Nunca tive qualquer acesso a carteira de colaborador. Foi-me proposta, pelo seu antigo diretor, mas, na altura, recusei e não houve essa oportunidade.
Da mesma forma que, quando Norberto Silveira, o fundador e antigo diretor do Diário da Lagoa, me anunciou a sua saída, fazia eu parte da redação, e metia as notícias no site, todos os dias, selecionando os e-mails e a informação, ele me propôs, duas a três vezes que ficasse com a direção do jornal. Proposta que recusei as duas e as três vezes.
Hoje, o jornal Diário da Lagoa está bem muito bem entregue – ao Clife Botelho, atual diretor, meu bom amigo, meu companheiro e que me dá, sempre, a oportunidade de continuar a colaborar como cronista.
Hoje, termino, antecipadamente, a minha história com o Diário da Lagoa, na função de cronista – para passar apenas a ser um mero leitor e atento subscritor.
Sou grato pela continuidade deste jornal, entregue a boa gente, entregue a gente humilde e capaz de continuar a sua história, o legado do Norberto Silveira, e capaz e de ombrear com os grandes jornais regionais.
Auguro todos os bons sucessos ao Diário da Lagoa.
Ficará, sempre, no meu coração e na minha memória.
Obrigado.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
A Licenciatura. Esse grau, do espírito e da valentia, da virtude e da honra, que nos deveria meter num local de orgulho e lisonja, nos catapultar para o estrelato dos deuses, para o Olimpo do “grande” conhecimento académico. Ou para o primeiro degrau, aceitável, do Olimpo dos deuses, do qual o último talvez seria um conhecimento acima da média para mediana inteligência dos homens “banais”.
Faz um ano que me Licenciei, mas nos últimos anos, passei todos os Bojadores, os Mostrengos e as Boas Esperanças. As Tormentas, assim, renomeadas em Boas Esperanças que, sem fé, se renomearam, de novo, em Tormentas e, de novo, em Boas Esperanças. Fui, eu mesmo, Vasco da Gama; fui um Infante sem vento que me soprasse as velas apagadas, sem mar que me valesse para o casco frágil da vontade de continuar seguindo na turbulência dos dias e dos acontecimentos e da ausência.
Li livros, escrevi outros; rascunhei, fiz exames, frequências às várias dezenas e dezenas, ansiei saber mais do que soube; menos do que sabia e, tantas vezes, percebi que sabia menos do que pensava saber. Ou, às vezes, que saber muito só me fazia mal à cabeça, também. A Licenciatura, em qualquer curso, não é um grau, é um degrau – e podemos tropeçar nele, se não formos bons e humildes o suficiente para não enxergar o degrau no tamanho do seu tamanho.
Sou, hoje, licenciado, certo, mas sem esquecer, hoje também, que o que fica das nossas maiores conquistas são as nossas maiores derrotas. As derrotas fazem, fizeram a pessoa que sou hoje. A ansiedade, a nervosura imensa de um dia passado a contar as horas lentas, tantas vezes, fez com que nada, já, me assuste de morte.
A licenciatura não é, assim, um relevo de superioridade, nem um superlativo. A licenciatura é um (de)grau que nos capacita, dá licença, ao trabalho numa área, mas, e isso garanto, não nos torna melhores pessoas, nem mais humanos do que ninguém. Não é a credenciação que nos dá mais lustro ou brilho; é o nosso imenso coração. É a maneira como agimos, diariamente, perante as adversidades, perante o nosso irmão, que faz toda a diferença.
Os “envernizados” pelos créditos do conhecimento, assim se dizem, podem seguir sozinhos. Eu seguirei o mesmo, seja quando for: o Júlio, sempre igual a mim mesmo, sem honras, sem pompas, sem festas, nem roqueiras. E eu sugiro, leitores, que façam o mesmo. Não se deslumbrem. A vida é tão pequena, tão frágil, tão inconsequente, para nos distrairmos com pequenas coisas materiais que, afinal de contas, não nos adiarão a morte nem, tampouco, prolongarão a nossa vida junto dos nossos amigos.
O conhecimento é fundamental, sim. Os graus também. A educação é a base da sociedade. Mas nem tudo, nem todos, são frutos da mesma árvore. Da minha parte, só quero que a boa pessoa dentro de mim se revele hoje e sempre. Que a criança que eu fui nunca se desiluda da pessoa que eu sou hoje.

Júlio Tavares Oliveira
Escritor
Só se ama uma vez
Outro amor é fantasia
Só se ama em quem crês
Que o amor é noite e dia
Bem que o teu amor te dizia
«Quem vier depois não te diz
o que o anterior te dizia»
Que o depois não te condiz
O que o dantes te condizia
Pois não tem comparação
Só se ama uma vez
Uma vez só – sem exceção
O resto é demagogia
Quimera, sonho e espuma
Banho imerso na farsa bruma
Outro amor é fantasia.