
DL: Quem é o Marco Furtado?
Sou, antes de tudo, filho da Ribeirinha. Nasci em Ponta Delgada, na freguesia de São José, mas foi apenas o lugar onde vim ao mundo. A minha vida — todas as minhas raízes, brincadeiras e aprendizagens — está na Ribeirinha. Cresci na Rua dos Moinhos, numa rua estreita, sem saída, mas que para mim era o universo inteiro. Hoje vivo noutra rua, mas continuo no mesmo chão. Sou o mesmo Marco, com os pés assentes na terra que me fez homem. Tenho 46 anos e há oito que sou presidente da Junta. O tempo passa depressa, mas a responsabilidade não diminuiu — aumentou. Antes disso, fui um dos fundadores da Associação “Os Ribeirinhos”. Criámos o «Ribeira Fest», mas percebemos que o mais urgente não era a festa: era o silêncio dos que precisavam. A minha vida sempre foi comunitária. Nunca precisei de um cargo para me sentir útil.
Hoje sou Chefe de Serviços, presidente da Junta e da Casa do Povo, vice-presidente da Assembleia da Filarmónica da Ribeirinha do Santíssimo Salvador do Mundo, membro da direção da Associação de Pais da Escola Secundária da Ribeira Grande, vogal da ANAFRE Açores, conselheiro do Conselho de Ilha e participante em vários movimentos cívicos e partidários. Mas isso é apenas o que faço — não o que sou.
Sou filho do Faustino, das Gramas de Cima, e da Cachaça, da Ribeirinha. Cresci numa casa onde o amor se media pelo que se partilhava, não pelo que se tinha. Aos 14 anos já trabalhava na restauração. Nunca me esqueço do dia em que comprei as minhas primeiras Levi’s com o meu esforço. Enquanto outros iam para a praia, eu fazia 12 horas de trabalho. Foi assim que continuei a estudar.
Tinha o sonho de ir para a universidade e ser enfermeiro, mas abdiquei quando o meu pai entrou em reforma por invalidez. A vida ensinou-me que servir é uma vocação, não uma profissão. Trabalhei numa mercearia, depois entrei para o Casanova, onde ainda hoje estou. Subi devagar, mas sempre com dignidade. Trabalhei a servir em casamentos e como barmen que trabalha horas sem fim, aprendi a servir os outros e isto vinha de um modo natural.
Sou tolerante em muito, e firme quando é preciso. E a minha maior profissão? Ser marido e pai de três filhos. Já fui operado à coluna. Já estive quase sem andar. Mas continuo aqui, porque o que me move é simples: cuidar.
DL: Como foi a sua infância?
Foi feliz. Foi pura. Rica em experiências e pobre em excessos. Não trocava nada.
A minha família sempre foi alegre. Fiz parte do coro juvenil, dos “Cadarços”, grupo de teatro, já fiz duas romarias, brincava na rua, fazia asneiras — e recebia umas boas pancadinhas de amor da minha mãe e uns raspanetes bem merecidos do meu pai, verbais, sempre. Ele nunca me tocou. Foram esses momentos que me moldaram.
Amo profundamente o meu pai, que já partiu. Era um homem de princípios, sério, íntegro. E admiro muito a minha mãe e as minhas irmãs — mulheres de força, que até hoje são o meu porto seguro. Fomos tão felizes com tão pouco. Tínhamos sopa, pão, batata com macarrão — e calor humano. A porta da nossa casa estava sempre aberta. Literalmente: só um cortinado separava a rua do corredor. E nunca faltou comida para nós ou para quem entrasse. Era outra época, em que não era preciso trancar portas, porque os corações também estavam abertos. O meu avô paterno, que não sabia ler, dava catequese. Sabia a Bíblia de cor. Às quintas-feiras, íamos às Gramas aprender com ele. A fé e a tradição não eram conceitos — eram vida. O meu avô materno, o Mestre Alfredo “Cachaça”, herdou o apelido da avó, que vendia cachaça… e bebia mais do que vendia. São memórias que me acompanham até hoje.
DL: Qual foi o seu primeiro trabalho?
O primeiro foi com o meu avô, que era retelhador — toda a freguesia o conhecia como Mestre Alfredo Cachaça. Eu era o seu servente, com 12 anos. Ele recebia o dinheiro, dava uma parte à minha mãe e guardava o resto em frascos de café. Nas festas do Santíssimo Salvador do Mundo, abria os frascos e dividia o dinheiro pelos dias da festa. Aquilo era uma alegria que não se explica. Era uma festa dentro da festa.
Depois vieram os restaurantes, os casamentos, os turnos longos. Fui barman no Pixis, servi no Clube de Tiro, servi em casamentos e até festas de divórcio. Aos 18 anos, a vida obrigou-me a crescer depressa: o meu pai adoeceu, reformou-se por invalidez, e eu deixei o sonho da universidade.
Trabalhei na mercearia da Dona Orânia e do João Medeiros — onde aprendi que servir bem é uma arte. Aprendi também a enrolar café em papel com mestria, a lidar com nomes, e a olhar as pessoas nos olhos. Em 1998 entrei para a Casanova, onde continuo. E continuei a trabalhar em festas durante anos, sempre com respeito, esforço e propósito.
DL: Como foi chegar à presidência da Junta de Freguesia?
Foi especial. E foi natural. Já estava na Junta como tesoureiro, a convite do presidente de então. Quando chegou o momento de assumir a liderança, senti que era o caminho certo. Mas não entrei por vaidade. Entrei com alegria, sim, mas com responsabilidade, com consciência, com sentido de missão. Ser presidente não é sentar-se numa cadeira. É arregaçar as mangas. É estar ao serviço. E é isso que tenho feito.
DL: “Está sempre em campanha”. Comente.
Se estar em campanha é ouvir quem precisa, entrar nas casas das pessoas, acompanhar quem sofre, atender chamadas ao domingo, resolver o que consigo e encaminhar o que não depende de mim — então sim, estou sempre em campanha. Mas eu não lhe chamo campanha. Chamo-lhe compromisso. Chamo-lhe presença. Chamo-lhe verdade. A política, para mim, só faz sentido assim. Com alma. Com dedicação. Com amor ao próximo e ao lugar onde vivemos.
DL: Quais as maiores adversidades que enfrentou?
A maior dificuldade é querer fazer e não poder. Faltam meios, faltam leis, falta orçamento. Temos tido o apoio da Câmara Municipal da Ribeira Grande, é verdade, mas é preciso ser persistente, reivindicativo. Às vezes falta tempo. Outras vezes é preciso dizer “não”, mesmo quando custa. O caso do Multibanco é o exemplo mais claro: meses de burocracia, pessoas desesperadas, e nós sem poder resolver de imediato. Outra dor é o vandalismo. Custa ver destruído o que se construiu com sacrifício. E sim, liderar é muitas vezes solitário. Nem todas as decisões agradam mas quando são tomadas com consciência, dorme-se bem.
DL: Como encara a responsabilidade social?
Com naturalidade. Sempre esteve em mim. Desde pequeno aprendi que quem pode, ajuda. Hoje, como presidente, tenho a obrigação (e o privilégio) de continuar esse legado. Trabalho com instituições, com famílias, com a minha equipa. Não por vaidade, mas por dever. Servir também é saber dizer: “agora não posso ajudar mais, agora tem de fazer pela sua vida”. Mas nunca viramos as costas a um problema.
DL: O que ainda falta fazer na Ribeirinha?
Falta muito, e não tenho problema em dizê-lo. Mas há muito trabalho de base feito e projetos preparados: o Porto de Santa Iria, o polidesportivo, redes de água e saneamento, pavimentações, estacionamento, reabilitação da igreja, coreto, zona da ribeira, Caminho das Gramas, reforço do abastecimento de água… Eu fiz um plano para 15 a 20 anos. Nada se faz em quatro, oito ou 12. Mas é nossa obrigação pensar o futuro. Quem governa apenas para o seu mandato não é gestor, é mau político. Se continuar, darei seguimento. Se não, deixo tudo preparado para quem vier. A Ribeirinha não é de quem governa. É de quem vive nela. Um desafio é o combate às toxicodependências já temos as ideias, faltam os meios mas vamos chegar lá, já fazemos muito mas muito com pouco.
DL: O que o move a continuar?
O que me move é simples: ainda tenho mais para dar. Enquanto sentir que sou útil, estarei aqui. Quando deixar de o ser, sairei com dignidade. E move-me também preparar os jovens. Acreditar neles. Dar-lhes responsabilidade. Eu, com 14 anos, já sabia que o dinheiro era pouco, mas o amor era muito. E fui à luta. Competência não se compra, conquista-se. Este será o meu último mandato. Porque ainda acredito na política feita com alma. Porque amo a minha terra. Não amo o nome, amo a ideia de servir, de ajudar, de fazer a diferença. E enquanto puder, enquanto Deus permitir, estarei aqui: pela Ribeirinha, pela minha gente, pela minha missão.

Esta terça-feira, dia 3 de junho, a Junta de Freguesia do Cabouco, em parceria com o Centro Social e Cultural do Cabouco, irá organizar as comemorações do Dia Mundial da Criança na Praça Dona Amélia.
Irão participar as crianças da Escola Dr. Francisco Faria e Maia, da Creche e Jardim de Infância “O Ninho “, o ATL e a valência “animação de rua” do Centro Social e todas as crianças da Freguesia envolvendo cerca de 300 participantes.
Durante a festividade haverá animação musical, pula-pulas, pinturas faciais, modelagem de balões, algodão doce e pipocas.
A partir de junho e até ao final do mandato autárquico a Junta de Freguesia irá desencadear as seguintes ações:
– 2ª fase da recuperação dos passeios danificados;
– Remodelação do Salão Fúnebre;
– Pintura do Salão de Festas;
– Intervenção na Ermida do Cemitério;
– Evento “Sentir Cabouco”;
– Comemoração do 45º aniversário da elevação do Cabouco a Freguesia;

A Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Rosário promove no próximo dia 2 de março o já habitual Corso de Carnaval.
Algumas das ruas da cidade da Lagoa, nomeadamente na freguesia do Rosário, vão encher-se de muita cor e alegria, com a passagem do tradicional desfile que conta com a participação de várias entidades e instituições lagoenses.
O corso tem saída marcada para as 16h00, partindo da Praça da Senhora da Graça, sendo que todos os participantes devem se reunir, no final, na Praça do Rosário.
Entre as instituições confirmadas, até ao fecho desta edição, estão a Associação de Pais da EBI de Lagoa, o CATL O Borbas, o Centro Social e Cultural da Atalhada, o Centro Social e Cultural de São Pedro, a Banda Filarmónica Lira do Rosário, uma turma da Escola Francisco Carreiro da Costa e outra da Escola Secundária de Lagoa.
A principal praça da mais jovem cidade açoriana vai ser palco também neste dia de muita animação infantil, bem como da distribuição de malassadas, finalizando com a atuação do grupo musical lagoense Doce Sinfonia.