
Ana Rita Arruda
Especialista em Psicologia Clínica com formação em Neuropsicologia
Hospital CUF Açores
Na nossa sociedade, estar sempre ocupado passou a ser entendido como “viver bem”. Saltamos de mensagem em mensagem, de tarefa em tarefa, de ecrã em ecrã, muitas vezes sem uma verdadeira pausa. A sensação de ter a mente sempre ligada tornou-se familiar para muitos de nós: mesmo quando o corpo para, o pensamento continua a correr. E ainda que o cérebro humano seja extraordinariamente adaptável, isso não significa que possa, de alguma forma, beneficiar deste funcionamento em esforço contínuo.
Estar permanentemente em modo de resposta não é saudável para o cérebro. O excesso de estímulos, a pressão para sermos produtivos e a ocupação constante dificultam a atenção, aumentam o cansaço mental e reduzem a capacidade de organizar a informação que recebemos ao longo do dia. Quando tudo parece urgente, torna-se mais difícil distinguir o essencial do acessório. E isso tem consequências não apenas no rendimento, mas também na memória, no humor e na forma como lidamos com o stress.
O cérebro não funciona num único registo. Há momentos em que está orientado para o foco, para a resolução de problemas, para a tomada de decisões e para a resposta às exigências do quotidiano, mas também há momentos em que precisa de abrandar. Durante períodos de repouso mental, continua ativo, mas de outra forma: organiza informação, consolida memórias, integra experiências e recupera recursos importantes para voltar a concentrar-se. As pausas não são, por isso, uma perda de tempo. São parte de um funcionamento cerebral saudável.
Cada vez mais pessoas descrevem a dificuldade de não conseguir desligar, ou de estarem sempre a pensar em tudo ao mesmo tempo. Muitas vezes, não se trata de falta de capacidade, mas de um cérebro sobrecarregado, com pouco espaço para respirar. Sem pausas, a atenção torna-se mais frágil, a memória mais dispersa e a gestão emocional mais difícil. Ficamos mais reativos e irritáveis e com menos tolerância ao cansaço e à frustração.
Felizmente, o cérebro mantém ao longo da vida uma notável capacidade de adaptação. Os nossos hábitos diários moldam, pouco a pouco, a forma como ele funciona. Dormir com regularidade, fazer pausas, aprender coisas novas, mexer o corpo, cultivar relações e reduzir a sobrecarga mental são medidas que podem proteger a saúde cerebral e contribuir para uma longevidade com mais qualidade de vida.
Viver mais não basta. Importa viver melhor. E cuidar do cérebro não exige mudanças radicais. Às vezes, começa com decisões pequenas: fazer uma pausa curta sem telemóvel, caminhar alguns minutos, respeitar o descanso, fazer uma tarefa de cada vez, criar momentos de silêncio. Num mundo que glorifica a pressa, talvez parar seja, afinal, uma das formas mais inteligentes de cuidar da mente.

Maria Isabel Martins Vidal
Especialista em Neurologia na Unidade de Vertigem do Hospital CUF Açores
A vertigem e o desequilíbrio são sintomas frequentes na consulta de Neurologia e podem ser provocados por doença neurológica (central) ou do ouvido (periférico). Ambos os sintomas podem resultar de causas agudas, crónicas ou recorrentes.
Nas causas agudas, o AVC isquémico ou hemorrágico é a mais prevalente, representando uma urgência médica. Acompanha-se de vertigem súbita, com descoordenação dos membros e alteração do andar (como se o doente estivesse embriagado), dificuldade em articular palavras, visão dupla, dor de cabeça ou alteração da força muscular ou coordenação. Sendo o tratamento emergente, após a identificação das características do doente, pode ter indicação para terapias específicas, nomeadamente, através de medicamentos que ajudam a desfazer coágulos de sangue ou através da sua remoção através de intervenção cirúrgica.
Dentro dos quadros crónicos, as doenças que atingem o cerebelo – conhecido como o órgão do equilíbrio – podem provocar desequilíbrio progressivo, com instabilidade da marcha, movimentos de balanceio do tronco e uma sensação de visão como se o ambiente estivesse em movimento. Entre estas patologias, incluem-se tumores, doenças degenerativas (como a Doença de Machado Joseph), intoxicações (por exemplo, abuso de álcool ou antiepiléticos) e processos inflamatórios. O tratamento é individualizado perante a causa.
A Doença de Parkinson e outras condições semelhantes podem também provocar alteração do equilíbrio, sendo um motivo frequente de instabilidade postural com quedas recorrentes associadas a outros sinais neurológicos, como lentificação da marcha, rigidez, tremor e postura encurvada. O tratamento do parkinsonismo pode passar por remover medicações que induzem este problema ou por terapêutica específica.
O desequilíbrio crónico também pode estar relacionado com o nervo periférico, que é responsável pela sensibilidade à dor, temperatura e noção de posição de determinada parte do corpo no espaço. A Diabetes Mellitus e o abuso crónico de álcool são doenças frequentes que atingem os nervos e podem manifestar-se com sensação de formigueiro e/ou dor nas extremidades, com agravamento do desequilíbrio no escuro. O manejo da neuropatia (doença do nervo) pode passar pela correção de fatores de risco vascular, como o bom controlo da Diabetes e cessação alcoólica para evitar a progressão das queixas.
Dentro das causas de vertigem recorrente, a enxaqueca vestibular corresponde a episódios de dor de cabeça pulsátil, com sensibilidade ao som e/ou luz, náuseas e/ou vómitos, intensidade moderada a grave, acompanhada temporalmente de vertigem. O tratamento pode passar por medidas higieno-dietéticas e medicamentos que atuam nos dois sintomas.
Nestes casos, é fundamental existir uma investigação neurológica detalhada através de um exame clínico minucioso e de exames complementares de diagnóstico. Diferenciar causas de vertigem e desequilíbrio do ouvido ou do sistema nervoso é essencial para guiar o tratamento e o prognóstico do doente.

Suzana Calretas
Coordenadora do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado
SPMI – Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
O fígado é um dos órgãos mais importantes do corpo humano, desempenhando centenas de funções essenciais à vida. A nível mundial as doenças do fígado representam um problema muito relevante de saúde publica, afetando milhões de pessoas e contribuindo para uma taxa de mortalidade elevada. Em Portugal o panorama não é muito diferente.
Durante décadas, o consumo excessivo de álcool e as hepatites virais foram as principais causas de doença hepática; continuam a sê-lo. No entanto, nos últimos anos tem emergido de forma clara uma nova realidade: atualmente um terço da população adulta vive com uma condição chamada doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica, tradicionalmente conhecida como fígado gordo não alcoólico (esteatose é o termo médico que define a presença de gordura no fígado). Existem várias causas possíveis, embora as mais frequentes sejam o excesso de peso, a diabetes, a hipertensão, o colesterol e/ou os triglicerídeos elevados, sendo o consumo de álcool um fator que por si só provoca esteatose e por outro lado agrava a doença hepática esteatósica associada à disfunção metabólica.
E ter um fígado gordo ou esteatose hepática, não é inócuo. Esta doença, muito ligada ao estilo de vida contemporâneo, pode permanecer silenciosa durante anos. A esteatose pode evoluir com o aparecimento inflamação (esteatohepatite), cicatrizes no fígado (fibrose) que, não sendo atempadamente diagnosticada e tratada pode evoluir para cirrose e até cancro do fígado.
O diagnóstico passa pela realização de uma história clínica que identifique os fatores de risco; análises (que numa fase inicial podem ser perfeitamente normais) e exames de imagem, como a ecografia abdominal e a elastografia hepática; só excecionalmente pode ser necessária a realização de uma biopsia hepática.
Se atentarmos às causas desta doença, facilmente se conclui que ter uma alimentação equilibrada, com menos açúcar, menos ultraprocessados e menos excesso calórico; praticar regularmente exercício físico; controlar o peso e evitar o consumo de álcool são medidas concretas que ajudam a prevenir e melhorar ou reverter uma doença já instituída. Há ainda outros cuidados que têm toda a relevância: controlar a diabetes, a dislipidemia e a hipertensão não protege só o coração, mas também o fígado. Cumprir a medicação prescrita, evitar drogas, não usar medicamentos ou suplementos sem necessidade e manter comportamentos sexuais seguros são outras formas de reduzir riscos e a agressão hepática.
A propósito do Dia Mundial do Fígado que se celebra no dia 19 de Abril, e cujo lema é “Hábitos simples, fígado mais forte” importa por isso relembrar: muitas das doenças hepáticas estão ligadas a hábitos do dia a dia, e pequenas escolhas diárias, implementadas de forma consistente, podem fazer toda a diferença.

A iniciativa «Tratar o cancro por tu» desloca-se a Angra do Heroísmo no próximo dia 12 de março para uma sessão dedicada à literacia em saúde. Segundo comunicado enviado às redações, a temática central deste encontro na ilha Terceira será “Prevenção de cancro: principais fatores de risco”, contando com a participação de Manuel Sobrinho Simões, diretor do Ipatimup e considerado o mais influente patologista do mundo pela revista The Pathologist.
O evento, que terá lugar no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo às 18h30, contará ainda com as intervenções de José Carlos Machado, Nuno Marcos e João Sarmento, além da participação especial de Jorge Sequeira. De acordo com a nota de imprensa da organização, a moderação do debate estará a cargo dos jornalistas da Antena 1, Miguel Soares e Tiago Alves, sendo que cada sessão deste ciclo dará origem a um podcast disponível na RTP Play e plataformas de streaming.
Cinco anos após o arranque do projeto, o Ipatimup regressa à estrada para combater o aumento de novos casos de cancro na Europa. Elisabete Weiderpass, líder do IARC (ramo da Organização Mundial da Saúde dedicado à oncologia), sublinha a importância da clareza na comunicação: “Ao falarem diretamente com os cidadãos com clareza, empatia e verdade, [os cientistas] são essenciais para quebrar tabus e promover o acesso à informação”. Para a investigadora, o uso de linguagem acessível “permite que todos compreendam os riscos” e oferece ferramentas para que as pessoas possam “cuidar da sua saúde com autonomia”.
O anfitrião da iniciativa, Manuel Sobrinho Simões, defende que estas sessões são fundamentais para inverter as estatísticas atuais através da mudança de comportamentos. “A aposta no conhecimento das pessoas com doença neoplásica passa pela mudança do comportamento no sentido da prevenção e do diagnóstico precoce, sem abandonar a importância da complexidade no contexto da medicina personalizada”, afirma o patologista. Além de Angra do Heroísmo, o ciclo de 2026 percorre cidades como Évora, Viana do Castelo e Guimarães, mantendo a parceria com a Antena 1, RTP e Jornal de Notícias.

Maria João Pereira
Farmacêutica
A insulina é uma hormona naturalmente produzida pelo pâncreas e desempenha diversas funções essenciais no organismo: regula os níveis de glucose no sangue, promove o armazenamento de glicogénio nos músculos, estimula a produção de proteínas e lípidos e inibe a produção de glucose pelo fígado.
Na ausência de insulina ou quando esta não atua de forma eficaz, o indivíduo pode desenvolver Diabetes Mellitus (DM), uma doença metabólica crónica, caracterizada por níveis persistententemente elevados de glucose (açúcar) no sangue.
Existem, essencialmente, três tipos de DM:
A DM é frequentemente conhecida como a “doença dos 4 P’s”: poliúria (aumento do volume urinário), polidipsia (sede excessiva), polifagia (fome aumentada) e perda de peso involuntário. Para além destes sintomas, podem surgir visão turva e cansaço.
A longo prazo, podem desenvolver-se várias complicações, nomeadamente: retinopatia diabética, pé diabético, nefropatia diabética, doenças cardiovasculares (como AVC, problemas de circulação e enfarte), maior dificuldade em cicatrizar feridas, infeções recorrentes, disfunção sexual e problemas de saúde oral.
A DM tipo 2 pode, em muitos casos, ser prevenida através da adoção de um estilo de vida saudável, que inclua uma alimentação equilibrada, prática de exercício físico regular, manutenção de um peso adequado, evicção de substâncias nocivas (como o tabaco e o álcool) e vigilância dos níveis de pressão arterial e colesterol.
A DM tipo 1 não é prevenível, por se tratar de uma doença autoimune. Contudo, a adoção de medidas acima mencionadas contribui para um melhor controlo da doença. Neste caso, é necessária a administração de insulina, uma vez que o pâncreas deixou de a produzir.
Por sua vez, a DM tipo 2 pode, inicialmente, ser controlada com alterações de estilo de vida e, posteriormente, com medicação, muitas vezes oral. Em alguns casos, pode também ser necessária a utilização de insulina, dependendo da evolução da doença.
Viver com diabetes pode ser um desafio, mas não significa perder qualidade de vida. Com informação adequada, acompanhamento regular e adoção de hábitos saudáveis é possível manter a doença controlada e prevenir complicações, promovendo uma vida plena e equilibrada.

Joaquim Amaral
Coordenador de Otorrinolaringologia e especialista na Unidade do Sono
Hospital CUF Açores
O sono é fundamental para a nossa saúde física e mental, sendo de extrema importância para o funcionamento cognitivo e para a prevenção de múltiplas doenças, considerando-se, atualmente, um fator determinante na longevidade e na qualidade de vida.
De entre as patologias que afetam a qualidade do sono, aquelas que estão relacionadas com a obstrução das vias aéreas superiores ocupam um lugar de destaque, estimando-se que cerca de 60% dos homens e que 40% das mulheres adultas ressonem (roncopatia), e que cerca de 5% da população tenha algum grau de apneia obstrutiva do sono.
O diagnóstico e tratamento desta condição revela-se cada vez mais importante, uma vez que diminui o risco cardiovascular, os casos de sonolência excessiva durante o dia (causadora de inúmeros acidentes) e impacto no raciocínio e no temperamento. Desta forma, a avaliação feita por um otorrinolaringologista, preferencialmente integrado numa equipa multidisciplinar com outras especialidades, revela-se imprescindível, tanto para o diagnóstico e localização da causa da doença, como, muitas vezes, para o seu tratamento.
A avaliação das fossas nasais, da cavidade oral, da faringe e da laringe, através da observação direta e exames complementares, permite a localização dos locais de obstrução da passagem do ar durante o sono. Entre outras razões, é esta diminuição da oxigenação enquanto dormimos que determina a maioria dos sintomas e processos de lesão dos nossos órgãos.
Com a caracterização das alterações anatómicas que estão a contribuir para a obstrução, e após o diagnóstico assente em exames complementares, é possível o planeamento multidisciplinar do melhor tratamento, personalizado para cada doente. Também aqui a Otorrinolaringologia tem um papel fundamental, especialmente nos casos em que uma intervenção cirúrgica é necessária, nomeadamente a realização de correção de desvios do septo nasal, diminuição do volume dos cornetos nasais, palatoplastias, diminuição do volume das amígdalas, correção de patologias da laringe, entre outras.
As patologias relacionadas com o sono podem manifestar-se ainda na infância, sendo o volume aumentado das amígdalas e adenoides uma das causas mais comuns. A agitação psicomotora, a desatenção, dificuldades de concentração, atraso de crescimento, alterações no desenvolvimento da face e dos dentes, são algumas das consequências destas patologias, fazendo com que o seu tratamento seja essencial para o normal desenvolvimento físico e mental das crianças afetadas. Nestes casos, deve ser iniciado um tratamento médico e, caso este não seja suficiente, a adenoidectomia (cirurgia para remover as adenoides) e a amigdalectomia (cirurgia que permite a remoção total ou parcial das amígdalas), são das intervenções mais comuns, tendo um nível de eficácia muito elevado com a reversão quase completa dos sintomas.
Ressonar não é normal e fazer apneias durante o sono retira longevidade e qualidade de vida. Se é o seu caso, ou de um dos seus familiares, não ignore os sinais e procure ajuda especializada.

Maria João Pereira
Farmacêutica
É bem sabido que, quando estamos doentes, o que mais queremos é recuperar rapidamente. Por vezes, a palavra “antibiótico” soa a um verdadeiro remédio milagroso – mas nem sempre é assim.
Os antibióticos são medicamentos utilizados para tratar infeções causadas por bactérias. Isto significa que infeções provocadas por vírus, como a gripe, a constipação e a COVID-19, não são tratáveis com antibióticos. Existem várias classes de antibióticos que diferente entre si, de uma forma simples, pelo seu mecanismo de ação, ou seja, pela forma como atuam nas bactérias – impedindo o seu crescimento e replicação (antibiótico bacteriostático) ou levando à sua morte (antibiótico bactericida).
Atualmente, o mundo enfrenta uma ameaça crescente à saúde pública: a resistência aos antibióticos. Esta resistência ocorre quando as bactérias continuam a replicar-se e sofrem mutações (alterações) mesmo na presença de um antibiótico. Quando isso acontece, o antibiótico deixa de ter o efeito desejado e a infeção até se pode tornar mais violenta. Entramos, assim, num ciclo preocupante: antibiótico –> bactéria resistente –> infeção difícil ou impossível de tratar.
Os antibióticos não são apenas usados para tratar infeções em humanos. São também utilizados no tratamento de infeções bacterianas em medicina veterinária, como promotores de crescimento em animais que fazem parte da cadeia alimentar e como pesticidas no controlo de infeções na agricultura. Ou seja, estão muito mais presentes no nosso dia-a-dia do que imaginamos, o que torna essencial uma utilização cautelosa e responsável.
Mas por que razão se trata de um problema de saúde pública? Quanto maior o número de bactérias resistentes, maior será a necessidade antibióticos diferentes e mais potentes. No entanto, a velocidade com que as bactérias desenvolvem resistências é muito superior à velocidade de descoberta de novos antibióticos. Em suma, a crescente resistência pode levar a um futuro – talvez mais próximo do que pensamos – em que não existam tratamentos eficazes para infeções comuns.
É importante compreender que nem sempre a ausência de prescrição de um antibiótico significa falta de tratamento. Muitas vezes, significa exatamente o contrário: uma decisão consciente e responsável, baseada na melhor evidência científica, para proteger a saúde do doente no presente e evitar resistências no futuro.
Sendo um problema de saúde pública, todos nós podemos contribuir para a sua prevenção:
Os antibióticos são um recurso precioso capazes de salvar vidas, mas só continuarão a fazê-lo se forem usados de forma responsável. Cada vez que os utilizamos de forma consciente estamos não só a proteger a nossa saúde, mas também a de todos à nossa volta. O combate à resistência de antibióticos começa em pequenos gestos diários – gestos de cuidado, consciência e responsabilidade hoje, para garantir tratamentos eficazes no futuro.

Filipa Brum Cabral
Psicóloga Clínica no Hospital CUF Açores
As férias são, por definição, um convite ao descanso. Projetamos dias mais leves, longos e prazerosos. É uma oportunidade para abrandar o ritmo, especialmente aquele ligado ao trabalho, e recuperar do cansaço e do stress acumulados.
Mas nem sempre é assim. Por vezes, o humor não se sincroniza com o descanso. O que esperamos das férias não se realiza e os pensamentos oscilam entre o que ficou por fazer e o que está por vir. A intenção de parar existe, mas desligar nem sempre acontece.
Por que é tão difícil desligar? Esta dificuldade reflete um modo de funcionamento altamente estimulado, marcado pela hiperdisponibilidade. Vivemos num estado de alerta quase contínuo, acelerados entre tarefas, com o sistema nervoso ativado para o modo de fazer. Quando este estado se prolonga no tempo, o organismo permanece em prontidão, preparado para reagir, mas sem oportunidade para recuperar.
A mudança de ritmo nas férias pode ser desconfortável. Corpo e mente mantêm-se alinhados com o ritmo do trabalho, mesmo estando fisicamente afastados. Nos primeiros dias, é comum descansarmos o corpo, mas a mente permanece ocupada. Além disso, surge a pressão de “aproveitar bem” as férias, como se até o descanso tivesse de ser produtivo.
Desligar exige treino. Não é automático e começa antes das férias. Sempre que possível, é importante planear a ausência com antecedência, delegar tarefas, comunicar com clareza que estará indisponível, ativar uma resposta automática no e-mail profissional e indicar um contacto alternativo para situações urgentes. Se puder, mantenha essa resposta ativa também no primeiro dia de regresso. Essa margem ajuda a retomar com calma e evita uma sobrecarga imediata.
Durante as férias, o convite é estar presente. Sem expetativas rígidas, culpas ou autocrítica. Seja qual for o destino, permita-se olhar com curiosidade e abertura. O essencial é desacelerar e ativar os sentidos. Observar, cheirar, saborear, escutar, tocar. Fazer menos para sentir mais. Criar margens entre atividades. Reservar tempo sem planos e permitir-se não responder de imediato. Se for mesmo necessário manter algum contacto com o trabalho, é importante definir um horário específico e proteger o restante tempo para estar verdadeiramente consigo e com os outros.
Recomeçar também implica gentileza. Nos primeiros dias de regresso, preencher o tempo com tarefas simples e administrar a energia de forma gradual pode ser uma forma de prolongar os efeitos do descanso.
E se há uma mensagem essencial, talvez seja esta: não espere pelas férias para descansar. O verdadeiro descanso nasce da capacidade de fazer pausas dentro da própria rotina. Micro-pausas, respiração consciente e práticas de autocuidado tornam mais fácil a transição para um estado de maior equilíbrio. São gestos pequenos, mas com impacto duradouro.
Ainda assim, se notar que o cansaço persiste, que a irritabilidade se torna frequente ou que a sensação de estar sempre em falta é permanente, mesmo nos dias de pausa, isso pode ser sinal de sobrecarga emocional. Nestes momentos, procurar apoio psicológico pode ser um passo importante.
Lembre-se, cuidar da saúde é um compromisso contínuo, que se constrói ao longo de todo o ano.

Maria João Pereira
Farmacêutica
A esperança média de vida tem vindo a aumentar mundialmente e, em Portugal, já ultrapassa os 80 anos. Graças aos avanços na medicina e à melhoria das condições de vida, hoje em dia é possível ter uma vida mais longa e, muitas vezes, com qualidade.
Com o envelhecimento populacional, torna-se essencial compreender as síndromes geriátricas, para que possamos entender melhor os idosos e a vida sob a sua perspetiva.
As síndromes geriátricas são condições clínicas complexas que não se enquadram em nenhum quadro de doença específico, mas que afetam significativamente a funcionalidade e a qualidade de vida do idoso.
Em primeiro lugar, é importante entender que um idoso saudável é, sobretudo, um idoso autónomo e independente. A autonomia diz respeito à capacidade de tomar decisões por si, estando diretamente ligada ao humor e à cognição. Já a independência refere-se à capacidade de realizar as suas atividades diárias sem ajuda de outras pessoas, o que depende da mobilidade e da capacidade comunicativa.
As 7 principais síndromes geriátricas, ou também conhecidas como as 7 I’s:
As síndromes geriátricas são comuns, mas isso não significa que devam ser desvalorizadas e ignoradas. Pelo contrário, é essencial preveni-las para garantir a qualidade de vida do idoso.
Atuar na prevenção através de cuidados adequados e atenção aos quadros clínicos pode evitar complicações na saúde. Entre as medidas protetoras destacam-se o acompanhamento geriátrico multidisciplinar, uso racional de medicamentos, promoção da capacidade mental e social, estímulo da mobilidade, alimentação adequada, adaptação do ambiente ao idoso, educação e apoio à família e cuidadores.
Medidas simples e protetoras podem fazer toda a diferença no aparecimento e agravamento das síndromes geriátricas. Vamos apoiar os nossos idosos, para que possam envelhecer com mais saúde, dignidade e bem-estar.

O Hospital CUF Açores inicia, neste mês de novembro, uma iniciativa que prevê a realização periódica de sessões de literacia em saúde, abertas ao público em geral, e que têm como objetivo capacitar a comunidade com conhecimentos essenciais sobre a gestão da sua saúde, segundo nota de imprensa enviada pela CUF.
A primeira sessão é dedicada à área da Reumatologia e tem como primeiro palestrante o médico reumatologista Luís Maurício. A sessão “Venha falar com um reumatologista”, de acesso gratuito e aberta ao público, vai ser realizada no dia 23 de novembro, sábado, com início programado para as 10h30, no auditório do Hospital CUF Açores, terminando pelas 12h00, pode ler-se.
Nesta primeira conferência, o médico vai destacar algumas das doenças reumáticas mais prevalentes entre a população, nomeadamente, a Osteoartrose, a Osteoporose e a Artrite Reumatoide, e apresentar ainda estilos de vida saudáveis enquanto fatores preventivos ou minimizadores das manifestações das doenças reumáticas.
O público presente vai ter ainda a oportunidade de dialogar com o especialista e esclarecer dúvidas, “promovendo-se, desta forma, uma interação direta entre o médico e o público, incentivando escolhas informadas e melhores hábitos de vida”, de acordo com a CUF.
Esta iniciativa pretende fazer chegar à comunidade informação em saúde, através de uma linguagem simples e facilmente entendida, neste caso, alertando para as manifestações precoces das doenças reumáticas e para a importância de consultar um médico especialista quando assim for necessário, conclui a mesma nota.