
Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Roberto Medeiros, neste seu mais recente livro ‘Antes que a memória se apague – Crónicas de Água de Pau, vol. II’, faz plena justiça à sequência que iniciou com o seu primeiro volume, a cujo lançamento também assisti, com o mesmo título, na dimensão da missão que conduz e que produz por escrito: levar o coração, nos meandros da estórias e das histórias, e da História coletiva, da Vila de Água de Pau, a toda a gente e a toda a parte.
Neste livro, que já li, assistimos a uma visão da História menos académica e propriamente científica – mas que procura estabelecer um contrato, um vínculo com os seus leitores por via do contato pessoal, mais atento e estreito com as raízes do espaço e do próprio lugar – Água de Pau – clamando e chamando, inclusive, a valores (maiores) como o amor à terra, a devoção às tradições, num certo regionalismo mais localizado e característico do autor.
Substitui-se o autor, neste caso, a um historiador cientificamente acreditado? Não. Mas também não lhe fica muito atrás. Roberto Medeiros possui a capacidade que muitos historiadores acreditados cientificamente não teriam: tem a confiança do seu povo e da terra que o viu nascer, e isso é-lhe mais do que suficiente.
Tem o povo – de Água de Pau – do seu lado. O povo, esse, que lhe transmite as informações, que o conduz a novas informações, dados e a novas pessoas e registos. Só uma pessoa – tal e qual – poderia assumir e concretizar um trabalho deste tipo – singularmente diferente do académico, mas singularmente único na sua trajetória.
Roberto Medeiros dá um toque que a muitos acreditados historiadores talvez passasse despercebido; um toque mais humano à sua obra, um toque mais oralizante. Roberto Medeiros vai falando connosco neste livro ao longo da sua leitura.
Um toque, não tanto mais pessoal, mas, repito, mais informal, mais humano, mais terreno, e menos celeste e, registo, académico. É um livro de estórias, com história pelo meio, sem dúvida, que merecem, ambas, registo – mas é também um livro que retrata percursos distintos.
Sinto que o Roberto Medeiros quis também homenagear algumas pessoas importantes – de fora e de dentro da sua vida. A História de Água de Pau está repleta de casos de grande pujança e de sucesso coletivo e individual – desde o pai do autor, um verdadeiro arquitecto de sonhos e de projetos, alicerçados em ambições, para a sua Vila, que os herdou o Roberto, igualmente – e que os herdará mais alguém, no futuro.
Ao Roberto, diria, sempre com fidedignidade e de forma genuína, recolhendo os factos com verdade, e os transmitindo de igual modo, que continue o seu trabalho, valorizando as suas gentes, mas, acima de tudo, orientando-se por valores que, hoje em dia, estão em causa: a importância dos outros.
Ainda os há – embora com este autor o contributo já tenha sido substancial nesse sentido – imensos anónimos por desvendar. Imensos desconhecidos que, na contracapa da História, tantos louvores por reconhecer têm, ainda.
Não é só a questão da projeção da Vila – ou da manutenção de um Estatuto de Vila – ou da hereditariedade dos nomes pela História fora, mas a questão fundamental será, sempre, o que ganharão, os outros, como nós, connosco, com a nossa presença e contributo, neste Mundo.
E, sem dúvida, que nós saímos a ganhar com este livro – por vários motivos.
De todos eles, destacaria um: a originalidade.
Roberto Medeiros é original, em primeiro lugar na abordagem direta, pouco difusa, mas informal e genuína, sem rodeios, à História local; em segundo lugar, na aproximação que faz aos factos históricos, uma aproximação sem medos, sem maldade, mas querendo abraçar a todos como seus; em terceiro lugar, na linguagem escrita pouco erudita que utiliza; e, por último, é original porque desvenda um cantinho do Mundo que estava por desvendar.
Esta obra, que recomendo em qualquer prateleira lagoense, é um registo que, creio, perdurará – um registo que fica, e que levará anos, muitas décadas, senão séculos, a ficar devorado pela traça do Tempo – ou esquecido (“valor” atingível apenas para as merecidas grandes obras).
É caso para se dizer: esta memória não se apagará, Roberto.