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Nuno Costa Santos apresenta “Amor em Chávena Fria – Histórias do Melancómico” em Ponta Delgada

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O mais recente livro do escritor e argumentista Nuno Costa Santos, intitulado “Amor em Chávena Fria – Histórias do Melancómico”, será apresentado no próximo dia 12 de novembro, pelas 18h30, no bar Outro Lado, na Rua Hintze Ribeiro, 55, em Ponta Delgada.

A sessão contará com a apresentação de António Melo Sousa e incluirá um momento de leitura-performance, acompanhado de ilustrações criadas pelo artista Uliarud Uliarud (pseudónimo de Paulo Fernandes), inspiradas nas histórias do livro.

Nesta nova obra, Nuno Costa Santos dá continuidade à personagem e ao tom do Melancómico, figura que cruza poesia, humor e observação social. “O Mundo é o Bairro e o Bairro é o Mundo”, afirma o autor, propondo uma reflexão sobre os espaços — reais ou simbólicos — onde nos sentimos em casa. O livro reúne textos que oscilam entre a sátira e a elegia, entre o microconto e o poema em prosa, compondo um retrato impressionista da portugalidade contemporânea.

Com o seu tom único, no qual se conseguem encontrar ecos de Alexandre O’Neill e Mário-Henrique Leiria, Nuno Costa Santos constrói uma escrita marcada por um humor terno, atento e profundamente humano.

Nuno Costa Santos, nascido em 1974, é escritor, argumentista e autor de obras como “Como um Marinheiro Eu Partirei – Uma Viagem com Jacques Brel”, “Céu Nublado com Boas Abertas”, “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco”, “A Mais Absurda das Religiões” e “Morrer é Não Ter Nada nas Mãos”. Tem também desenvolvido trabalho nas áreas do teatro, televisão e documentário, sendo co-autor de filmes sobre figuras como J. H. Santos Barros, Álamo Oliveira, Ruy Belo, José-Augusto França, Cláudio Torres e Rui Knopfli. É fundador da produtora Alga Viva, dirigiu a revista literária Grotta e coordena o projecto Arquipélago de Escritores.

“Amor em Chávena Fria – Histórias do Melancómico” está já traduzido na Colômbia com o título “Amor en una Taza Fría”.

A Mãe Açoriana de Fernando Pessoa

Nuno Costa Santos
Escritor e argumentista

Quando comento com alguém que a mãe de Fernando Pessoa era açoriana abre-se, com frequência, uma expressão de espanto. Não é facto divulgado – nem dentro, nem fora do arquipélago. Alguns dados recolhidos aqui e ali por investigadores. A mãe do poeta, Maria Madalena Pinheiro Nogueira, filha do terceirense Luís António Nogueira e da jorgense Dona Magdalena Amália Xavier Pinheiro, nasceu em Angra do Heroísmo, no ano de 1861, e, em 1865, foi viver para Portugal continental, aquando da nomeação do seu pai, juiz-conselheiro, jurisconsulto, director-geral do Ministério do Reino, para Secretário-Geral do Governo Civil do Porto.

Aos 25 anos, casou-se com Joaquim de Seabra Pessoa, que conciliava o ofício de funcionário do Ministério da Justiça com a vocação de crítico de música. Do casal nasceram dois filhos, Fernando e Jorge, que morreu menos de cinco meses após a morte do pai, por tuberculose. Maria Madalena veio a casar-se uma segunda vez, desta feita por procuração, com o comandante João Miguel dos Santos Rosa. Um mês depois, seguiu para Durban, cidade na qual o marido se tornou cônsul de Portugal, levando consigo Fernando. O casal teve cinco filhos, dois dos quais morreram na infância.

No ano de 1911, Madalena e João Rosa, devido a novas funções do marido, mudaram-se para Pretória. Depois da morte deste, em Outubro de 1919, Madalena voltou com os filhos para Lisboa, numa altura em que se encontrava relativamente debilitada por causa de uma trombose cerebral que sofreu em 1915. Na capital portuguesa, viveu primeiro com os filhos Fernando e Henriqueta na Rua Coelho da Rocha, 16, (a actual Casa Fernando Pessoa) e depois, até à sua morte, em 1925, com Henriqueta e o seu marido.

Richard Zenith, autor de “Pessoa. Uma Biografia”, obra de mais mil páginas, enquanto convidado de uma edição recente do Arquipélago de Escritores, aludiu à importância da mãe na vida criativa do filho. Em entrevista, dada no âmbito do encontro, a Rui Pedro Paiva, no Público, declarou que Pessoa terá começado a imitar o comportamento da mãe, uma mulher letrada, versada em alemão, inglês e francês, que lia e escrevia versos. A primeira quadra de Pessoa, escrita aos sete anos, foi dedicada justamente à mãe, numa altura em que esta ponderou a possibilidade de deixar Fernando ao cuidado de familiares, antes de seguir para a África do Sul. Dividia-se, essa quadra, nos seguintes versos: “Eis-me aqui em Portugal/      Nas terras onde eu nasci./ Por muito que goste delas,/   Ainda gosto mais de ti”.

Sigamos a pista familiar de Pessoa, ajudados, entre outros documentos, por uma investigação feita por Andreia Fernandes, lembrando que os Açores foram para este filho de uma açoriana um dos raros destinos por ele visitados. A estadia, ocorrida entre 7 e 16 de Maio de 1902, aconteceu numa altura em que veio com a mãe, o padrasto e os irmãos, de férias para Portugal, tendo ficado alojado na casa angrense da tia Anica, do tio João e dos primos Mário e Maria. Terá sido importante em termos pessoais para o poeta por ter permitido fortalecer os laços familiares com uma parte da família com a qual, já em Lisboa, teve uma convivência essencial.

No plano criativo também ganhou importância. Foi, durantes esses dias, resguardado em casa por causa de um persistente mau tempo, que, aos treze anos, o autor de “Mensagem” inventou a sua primeira personalidade literária: o Dr. Pancrácio. Além de ter escrito um poema alegadamente inspirado na morte da irmã, “Quando Ela Passa”, assinado com esse nome, criou, com o primo, três números de A Palavra, um jornal humorístico-satírico. Entre os conteúdos, encontrava-se a história ficcional de um naufrágio ocorrido à conta de um ciclone. E notícias divertidas sobre ocorrências domésticas como o hábito de se levantar tarde “da Sr.ª D. Maria Nogueira”. (Não se pode compreender Pessoa sem perceber o seu sentido de humor).

Já regressado a Lisboa, Pessoa publicou um poema com a assinatura Eduardo Lança, referindo que o texto foi escrito na Ilha Terceira. Lança foi a primeira “figura” pessoana para a qual o autor inventou uma biografa – nasceu no Brasil em 1875 e mudou-se em adulto para Portugal.

Junto de quem não conhece esse dado biográfico sobre a ascendência açoriana de Fernando Pessoa, costumo acrescentar outro, também relacionado com literatura, maternidade e Açores. A mãe de outro génio literário mundial, outro cultor maior da língua portuguesa, Machado de Assis, também era açoriana. A mãe de Fernando Pessoa era uma açoriana da ilha Terceira. A mãe de Machado de Assis era uma açoriana da ilha de São Miguel. Agrada-me que os Açores estejam ligados a importantes capítulos da cultura mundial por via materna. Fantasio com um encontro entre as duas mães, Maria Madalena Pinheiro Nogueira e Maria Leopoldina Machado da Câmara. Com uma conversa entre duas Marias sobre as pequenas sumidades, uma de nome Fernando, outra de nome Joaquim, que transportaram organicamente e a quem, para felicidade pessoal e contentamento do mundo, deram, um dia, origem.

Uma Viagem de Camões Até aos Açores

Nuno Costa Santos
Escritor e argumentista

Leio o livro “Camões Na Voz de Poetas Açorianos (1524-2024)”, edição da Nona Poesia, com coordenação de Henrique Levy. Iniciativa importante pela forma como, em ano de celebração dos 500 anos do nascimento, põe em diálogo autores do arquipélago com um cultor superlativo da língua portuguesa. A cada um dos nove convidados a participar no volume ficou destinada a tarefa de escolher nove excertos da poética de Luís Vaz de Camões e de fazer acompanhar a escolha de uma nota reflexiva.

O coordenador da edição – e da editora – Henrique Levy, num ensaio sugestivo e cativante, convoca figuras que se pronunciaram sobre Camões, como Vitorino Nemésio, Eugénio de Andrade, Frederico Lourenço e Vítor Aguiar e Silva, e recorda que “foi o primeiro poeta português a cruzar oceanos, aventurar-se por diferentes geografias, conviver com povos e civilizações não-europeias”.

Existe uma intenção de homenagem. Mas o movimento publicado funciona também como uma forma de, como nota o coordenador, convidar os leitores a relerem a poesia camoniana. Uma curadoria a abrir caminho para um terreno literário do qual muitos estudantes se afastam por ser reduzido às funções gramaticais exigidas pelas cadeiras de português. Camões, um poeta de todos os sentimentos, merecer ser lido para lá das orações.

Cada um dos desafiados escolhe uma visão sua sobre o autor. E, sem que se note qualquer tipo de combinação, as visões parecem complementares. Levy invoca uma curiosa descrição psicológica, com os critérios da Escola Pitagórica, e refere-se à tarefa arriscada, com imensas dificuldades e possibilidades, de traduzir Camões para outras línguas (para a língua chinesa, para a língua turca, para a língua árabe e para o russo, por exemplo). Além disso, distende a sua visão sobre “Os Lusíadas”, destacando a vocação para celebrar uma viagem e um povo mas também a dimensão crítica sobre a decadência de um tempo e os perigos da cobiça ocidental.

© PAULO R. CABRAL/ LETRAS LAVADAS

Álamo Oliveira sublinha, além da elegância da forma exercida dramaticamente sobre sentidos e sentimentos, o erotismo, “declarado e sofrido em amores mal correspondidos ou não assumidos”. Ângela de Almeida enfatiza “o desamparo e a solidão imensa do poeta, o profundo desencanto e a desmesurada tristeza numa escrita elevada”. Carlos Bessa ressalta o facto de alguém que, após a morte, recebeu o título de “príncipe dos poetas”, ter tido uma duríssima biografia, sem um vislumbre de honra e glória. Daniel Gonçalves, em discurso poético, a partir das brancas que existem sobre a sua existência, especula sobre a relevância do amor num destino de infortúnio. João Pedro Porto anuncia-se na sua gratidão de escritor: “todos nós escrevemos, ainda hoje, com a pena por demais aparada do grande poeta, e a ele devemos a memória, as palavras, e a fiel ideia de futuro virente, a que damos o nome de esperança”. Manuel Tomás escolhe, do labor poético, a dimensão analítica sobre a imperfeição constitucional da vida dos homens e traz à baila, de modo inventivo, o nome da ilha do Pico.

Natividade Ribeiro trata das suas experiências de leitura de Camões em fases diferentes da sua cronologia – numa delas a lírica apresenta-se em patuá, crioulo macaense (remeteu-me para uma experiência maior – a que vivi há uns anos na Casa Fernando Pessoa, quando ouvi José Luiz Tavares a ler Camões em crioulo de Cabo Verde). Urbano Bettencourt, salientando em Camões a capacidade de aprofundar e reinventar dramática e linguisticamente temas como a celebração do amor, contraditório e contingente, e a errância e o exílio, assume que chegou ao poeta pela admiração e, num segundo plano, pela comoção por incidir “sobre a condição humana do ‘bicho da terra tão pequeno’”.

No texto de Carlos Bessa – tal como acontece com o de Natividade Ribeiro – há um atalho para uma dimensão mais pessoal da relação com o poeta. Bessa alude, de forma breve mas importante, ao seu pai e aos momentos em que declamava de cor sonetos camonianos que o filho depois transcrevia. Também assim, permitam-me a partilha, aconteceu comigo. Ao ouvir o meu pai, decorei, em criança, o início do Canto I de “Os Lusíadas”. Pergunto-me se, neste “tempo detergente” (Ruy Belo), ainda haverá pais e filhos que façam informais parelhas camonianas, baseadas numa transmissão, emotiva e festiva, de saber. Nestes tempos de celebração, fecho os olhos aqui no escritório onde me demoro e ouço Camões na voz de alunos açorianos. E também Camões na voz de rappers açorianos. Cantando e espalhando por toda a parte. Se a tanto os ajudarem o engenho e a arte.

Antero de Quental e o Instituto Superior Técnico

Nuno Costa Santos
Escritor e argumentista

Tive afortunado acesso ao original, recém-adquirido por um coleccionador micaelense, de uma carta de Antero de Quental para José Bensaúde, destacado industrial açoriano com importante inclinação para as artes e para a cultura, de quem era muito amigo desde cedo. Tão amigo que foi em sua casa que viveu entre finais de Agosto de 1891 e 11 de Setembro de 1891, o dia da sua dramática morte com esperança ao fundo.

A carta revela o conhecimento que Antero manifestava por aquilo em que de melhor se destacavam povos que não os peninsulares. Aí, o poeta e intelectual português, a propósito de uma questão colocada por Bensaúde sobre a educação dos filhos – foi pai de Alfredo, Joaquim, Ester e Raúl -, discorre sobre as virtudes do ensino na Alemanha, que, a seu ver, suplantavam, de modo inequívoco, as do ensino francês, inglês e americano. A sofisticação alemã quer em ciência quer em moralidade são destacadas – tal como a combinação, sempre fundamental mas muitas vezes descurada, entre a instrucção teórica e a prática. A dado passo, escreve, no seu modo assertivo e absoluto de ser: “Os métodos alemães têm outra profundidade, e é por excelência a Alemanha o país da pedagogia”. (Noutra carta, que encontrei no volume primeiro das cartas, editado pela Universidade dos Açores, dirá que a Suíça, pedagogicamente, oferece iguais garantias de qualidade). Promete que em breve esclarecerá José sobre quais eram, na altura, os melhores colégios e que, para o edifício da compilação, contaria com o conselho dos alemães mais instruídos a residir em Lisboa. Um trabalho de casa feito com a generosidade que se dedica aos melhores amigos.

Para aferir sobre a forma como o fundador da Fábrica de Tabaco Micaelense, figura reconhecidamente crente e empenhada numa ideia de desenvolvimento cultural e social das comunidades, acolheu os conselhos de Quental em relação ao destino escolar da descendência, basta referir que Alfredo, o seu filho mais velho, viajou, com 16 anos, para a Alemanha com o objectivo de prosseguir os estudos. Primeiro, estudou em escolas particulares e, depois, entrou para a Escola Técnica Superior de Hanover, onde veio a terminar, em 1879, o curso de engenharia. Mais algumas notas curriculares que ajudam a desvendar um percurso académico notável. Em 1881, concluiu o doutoramento em Mineralogia na Universidade de Gottingen e, após uma passagem por Espanha, foi trabalhar para Lisboa, cidade na qual, em 1884, se tornou docente de Mineralogia no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa.

Depois de, em 1892, ter publicado uma muito crítica – e, por isso mesmo, refutada e ignorada – proposta de reforma do ensino tecnológico em Portugal, em 1911, Alfredo Bensaúde concretizou um projecto ambicioso e determinante para o futuro do país, imaginado e realizado tendo como referência as escolas alemãs onde se formou: o da criação do Instituto Superior Técnico. Foi ele que, já em plena República, fundou o Técnico, como é conhecido, e foi ele o seu primeiro director.

Ao passar os olhos por esta carta, em privilegiada versão original, fiquei, então, a saber que o “génio que era um santo”, referência central da sua geração, magnífico inspirador do pensamento português, agitador bem preparado e utópico de ideais e consciências, também contribuiu à sua maneira, com um conselho dado a um amigo que o requereu, para o crescimento concreto, prático, da educação em Portugal. O nome deste homem-mito, intransigentemente pelo progresso, irredutivelmente sonhador de um país outro, mais exigente e ambicioso, está nas primeiras linhas da História da fundação e do desenvolvimento do nosso ensino técnico e tecnológico. Sem a sua pista, José não teria enviado Alfredo para as instituições que, assumidamente, o inspiraram a criar aquela que, hoje, é a maior escola portuguesa de Engenharia, Arquitectura, Ciência e Tecnologia e uma das mais prestigiadas instituições de Engenharia na Europa. Mais um motivo de gratidão para com Antero.