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“A orquestra de sopros tem bastante potencial”

© ACÁCIO MATEUS

Cerca de sessenta jovens alunos do Conservatório Regional de Ponta Delgada – alguns deles com menos de 12 anos – estão a participar no estágio da orquestra de sopros sob orientação da maestrina Renata Oliveira que regressa aos Açores depois de ter trabalhado, em 2023, com a Quadrivium.

O estágio teve início na passada terça-feira e prolonga-se até à próxima sexta-feira, com concerto de final de estágio agendado para as 20h00 na Aula Magna da Universidade dos Açores.

Não sendo a primeira vez que trabalha com músicos dos Açores, é a primeira vez que Renata Oliveira, natural de Estarreja, trabalha com a orquestra de sopros do Conservatório Regional de Ponta Delgada. E o balanço não poderia ser mais satisfatório, decorridos que estão dois dias de trabalho.

“A evolução é francamente positiva. Fiquei surpreendida também com o facto de se notar que existe já uma escola de som. Percebe-se que a orquestra está bem trabalhada em contexto de conservatório e tem bastante potencial, o que permitiu dar um salto qualitativo do primeiro para o segundo dia com trabalho de detalhe em metade do reportório”, explicou Renata Oliveira.

Perante uma orquestra composta por dezenas de alunos em idade escolar, a maestrina ficou agradada com a qualidade dos mesmos, ao ponto de reconhecer que, logo no primeiro dia de trabalho, não foi necessário ‘partir pedra’. “Não foi necessário ‘partir pedra’ porque eles já tinham lido as obras nas aulas de orquestra de sopros. Assim, pôde partir logo para a parte mais musical, de equilíbrio de som e do colorido musical. Nem sempre é possível em estágios com alunos mais jovens, com estes foi possível partir para uma questão musical mais profunda”, disse.

Assim, a expetativa para sexta-feira é elevada e o público poderá ser surpreendido com a qualidade dos executantes. “Podemos esperar um concerto com uma qualidade muito interessante. O reportório deixa-me feliz, principalmente as obras de raízes portuguesas do compositor Francisco Ribeiro que, penso, ainda não foram tocadas em São Miguel. Temos boa música, temos bons músicos, esperamos um bom concerto”, finalizou.

Maestro Carlos Sousa: “Que a paixão seja sempre o motor de tudo o que fizerem”

Natural da Povoação, na ilha de São Miguel, Carlos Sousa, 38 anos, desde muito cedo desenvolveu um profundo interesse pela música. É maestro e em junho de 2009 foi agraciado pelo Governo regional dos Açores com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico – coletiva. Possui licenciatura em Educação Musical e Mestrado em Ensino de Educação Musical. À frente da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação, foi distinguido também pelo jornal Correio dos Açores como o jovem Talento Regional da Música em 2017

© CM POVOAÇÃO

DL: Como começou o gosto pela música?
Quando ainda era criança, e ainda nem tinha aprendido a tocar um instrumento, seguia a filarmónica da minha freguesia, marchando atrás do senhor do bombo e cantarolando as marchas que a banda tocava na altura. Aos sete anos, ingressei na escola de música da Filarmónica União e Amizade da Lomba do Loução — que, infelizmente, está atualmente encerrada — e foi aí que iniciei os meus estudos musicais.

DL: Como foi o seu percurso até ao presente?
Depois da escola de música da filarmónica, decidi frequentar a Academia de Música da Povoação, na classe de trombone. Ao mesmo tempo, ingressei na Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação como trombonista. Mais tarde, na mesma academia, comecei a frequentar as aulas de direção de banda, sob a orientação do professor Christopher Alexander, e foi aí que dei os primeiros passos como maestro.
Inicialmente, dirigi a Orquestra Ligeira da Escola Básica da Povoação e o Grupo Coral de Nossa Senhora dos Remédios. Aos 18 anos, fui convidado a dirigir a Sociedade Musical do Sagrado Coração de Jesus, do Faial da Terra, onde fui maestro durante 10 anos. Foi nesta banda que organizei o primeiro Workshop de Bandas Filarmónicas de São Miguel, uma iniciativa que contou com quatro edições e foi frequentada, em média, por cerca de 90 músicos oriundos de toda a ilha.
Aos 20, ingressei na Banda Militar dos Açores e estive ao serviço do Exército Português durante sete anos, sendo os últimos três na Banda Militar da Madeira.
Fui para a Madeira para tirar a licenciatura em Educação Musical e, paralelamente, fui maestro da Banda Paroquial de São Lourenço da Camacha. Durante esse período, venci o concurso de composição do Hino da Cidade de Santa Cruz, por ocasião da comemoração dos seus 500 anos.
Em 2014, ingressei na Escola Superior de Educação do Porto, onde completei o Mestrado em Ensino da Educação Musical. Enquanto estive no Porto, mantive a ligação com a filarmonia, colaborando com a Banda Musical de Calvos e com a Banda Musical de Amarante.
Ao concluir os meus estudos e regressar a São Miguel, fui convidado para ser maestro da Sociedade Recreativa Filarmónica Fundação Brasileira, da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação e, posteriormente, da Filarmónica Aliança dos Prazeres.
Estudei Direção de Banda com os maestros José Ignacio Petit, Paulo Martins e Alexandre Coelho. Atualmente, tenho o privilégio de continuar a aprender e a crescer profissionalmente ao lado do Maestro Délio Gonçalves, com quem mantenho uma colaboração enriquecedora.
Hoje, sou maestro da Banda Harmonia Mosteirense, mantenho a direção artística da Orquestra Ligeira da Povoação, sou diretor artístico da Gala Regional de Pequenos Cantores da Povoação – Caravela d’Ouro, e professor de Educação Musical na Escola Básica e Secundária do Nordeste.

DL: Quais foram as suas maiores adversidades durante a sua carreira?
Penso que a maior adversidade que enfrentei na minha carreira está relacionada com um grave acidente (atropelamento), que afetou significativamente os meus estudos e a prática musical, assim como outras oportunidades que, na altura, estavam ao meu alcance para seguir um percurso de vida diferente — ainda que sempre ligado à música.

DL: Nos dias de hoje, como é ser professor?
Atualmente, ser professor é um grande desafio, mas também uma enorme responsabilidade e privilégio. No meu caso, como professor de Educação Musical, sinto-me verdadeiramente realizado. Gosto muito do que faço e tenho a sorte de conseguir cativar os meus alunos para as minhas aulas. Ver o entusiasmo deles, o progresso que fazem e o modo como se envolvem com a música dá sentido ao meu trabalho e motiva-me diariamente. É gratificante perceber que, através da música, consigo criar um ambiente positivo, estimular a criatividade e contribuir para o desenvolvimento pessoal e emocional dos alunos.

DL: Sente-se reconhecido enquanto Maestro?
O maior reconhecimento que posso ter como maestro é a sorte de, em todos os grupos musicais que dirigi, contar com o envolvimento e o apoio de todos os elementos. A assiduidade nos ensaios, o espírito de compromisso e, acima de tudo, o facto de ter conseguido deixar uma marca positiva que contribuiu para a evolução de cada grupo são, para mim, sinais claros desse reconhecimento. Por isso, sim — independentemente do grupo ou da época, sinto-me verdadeiramente reconhecido como maestro.

© COLISEU MICAELENSE

DL: Como foi a experiência de dirigir a III Edição Entre a Lava e o Mar junto do Maninho (Phelipe Ferreira)?
Foi uma experiência incrível! Trabalhar aquele género de repertório e colaborar com um músico como o Maninho foi, sem dúvida, um momento marcante e extremamente enriquecedor na minha carreira. A energia durante os ensaios, a troca de ideias e a partilha musical foram inspiradoras. Ver a envolvência do público ao longo do concerto foi profundamente gratificante — e o feedback que recebemos após o espetáculo superou todas as expectativas.
Acredito que é fundamental mostrar que as filarmónicas têm capacidade para apresentar propostas diferentes, inovadoras e artísticas, aproximando-se assim das camadas mais jovens da nossa região. Projetos como este ajudam a quebrar barreiras, a renovar o interesse pela música filarmónica e a demonstrar a sua relevância no panorama musical atual.

DL: Conte-nos o seu papel na Gala dos Pequenos Cantores Caravela D’Ouro.
Na Gala Regional de Pequenos Cantores da Povoação – Caravela d’Ouro, sou responsável por toda a direção artística do festival. Elaboro a maior parte dos arranjos para a orquestra e para o coro, coordeno todos os ensaios coletivos e colaboro com a Maestrina Andreia Amaral na preparação dos ensaios individuais dos solistas.
Procuro sempre que o festival tenha um caráter pedagógico e que deixe uma marca positiva nas crianças que participam. Este ano, por exemplo, preparámos e ensinámos uma música tradicional da Povoação, intitulada Balho da Povoação. A minha intenção com iniciativas como esta é dar a conhecer às camadas mais jovens o nosso património musical, criando laços com a cultura local e garantindo que, no futuro, estas crianças tenham consciência e orgulho daquilo que é nosso — da nossa identidade e das nossas tradições.

DL: Fale do(s) seu(s) próximo(s) projetos.
Este ano, com a Banda Harmonia Mosteirense, para além dos serviços habituais de uma filarmónica, temos previstas várias atividades de destaque. Entre elas, uma deslocação às Sanjoaninas, na ilha Terceira, e um concerto na Festa do Emigrante, na ilha das Flores. Está também planeado um workshop sob a orientação do Maestro Délio Gonçalves, bem como um concerto muito especial com os Anjos, no Coliseu Micaelense, no dia 16 de novembro.
Daremos ainda continuidade à segunda edição do Festival de Bandas Tenente José Dias, iniciativa que visa valorizar o seu repertório e promover o intercâmbio entre bandas filarmónicas.
Com a Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação, está igualmente previsto um concerto fora da ilha de São Miguel, noutra ilha do arquipélago, ainda durante este ano, reforçando o nosso compromisso com a descentralização da oferta cultural e a promoção da música ligeira açoriana.

DL: O que vê ou como descreve a sua equipa de músicos?
A Banda Harmonia Mosteirense é, acima de tudo, uma família! É composta por um grupo de músicos verdadeiramente apaixonados pela filarmonia e profundamente dedicados à sua banda. Esse espírito de união e entrega é, sem dúvida, meio caminho andado para o sucesso de qualquer filarmónica. A banda conta também com uma direção empenhada e incansável na busca das melhores soluções para garantir o seu crescimento e estabilidade. Esta direção é liderada por Manuel Fernando Almeida — um presidente exemplar, que nunca desiste de lutar pelo que acredita e que está sempre disposto a fazer o melhor pela sua “Fandanga”, como carinhosamente chama à banda.
No que diz respeito à Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação (OLCMP), tenho a sorte de trabalhar com um grupo extraordinário — músicos dedicados, sempre disponíveis para aprender mais e motivados para abraçar todos os desafios que lhes proponho. Conto ainda com o apoio fundamental na direção artística do meu amigo João Pedro Resendes, que considero como um verdadeiro irmão mais velho, sempre presente e disponível.
Não poderia falar da OLCMP sem referir a figura do Vereador da Cultura da Povoação, Dr. Rui Fravica — um homem atento, comprometido com a cultura do concelho e particularmente dedicado à sua orquestra. Tem sido incansável em garantir as melhores condições para o nosso trabalho, ouvindo e atendendo com seriedade às necessidades da orquestra. Este apoio institucional é essencial para que possamos continuar a crescer e a levar a nossa música cada vez mais longe.

DL: O que tem a transmitir aos futuros talentos?
Aos futuros talentos, diria para nunca desistirem dos seus sonhos. O caminho da música — como o de qualquer arte — exige dedicação, paciência e resiliência, mas é também um dos mais gratificantes que se pode trilhar. Que a paixão seja sempre o motor de tudo o que fizerem. Aproveitem todas as oportunidades para aprender, ouvir, errar e crescer. Rodeiem-se de pessoas que os inspirem e que acreditem em vocês.
E, acima de tudo, lembrem-se de que talento só floresce verdadeiramente quando é acompanhado por trabalho, humildade e amor pelo que se faz. Se acreditarem no vosso valor e forem fiéis à vossa essência, o vosso talento encontrará sempre o seu lugar.

O testemunho de quem conhece o Maestro

«O Carlos, o Maestro. Conheci o Carlos num contexto completamente diferente do que qualquer casal normal, num concerto. Arrepiei ao vê-lo dirigir, porque o Carlos sente cada batida da música e todos o seguem sem exceção! O que me fez apaixonar por ele foi isso mesmo, o Amor e o Empenho que ele tem no que faz! Fui conhecendo muitos maestros, fui me inserindo neste mundo da música, sem desmerecer qualquer um, o Carlos é especial! Ele vive para a música, ele soa para a música, ele é música. O Carlos faz-nos muita falta e nem sempre foi fácil lidar com a sua ausência, mas sempre que me sento na cadeira para assistir a um concerto dele, volto a ter a mesma sensação do que no primeiro dia que o vi! E melhor que tudo isso é ver o Orgulho nos olhos da nossa filha! Eu tenho muito Orgulho no Homem, Marido, Pai que é, no fundo ele só está a viver o seu sonho e quem sou eu para lhe cortar as pernas? Seguimos juntos, pois o casamento é isto! Amo o meu eterno Maestro!»

JOANA SOUSA, ESPOSA

«Desde criança que o meu irmão Carlos tem uma grande paixão pela música, podemos até dizer que a música corre-lhe nas veias, um dom que Deus lhe deu, herança dos nossos avós.
Apesar da nossa diferença de idade, lembro-me perfeitamente que enquanto eu ia brincar com os meus amigos depois das aulas e, principalmente aos fins de semana, o meu irmão Carlos fechava-se no quarto a tocar música com os seus instrumentos, o que torna um exemplo enquanto músico.
Isto deve-se a todo esforço e dedicação ao longo dos anos, pois o Carlos sempre viveu para a música! Mas o Carlos não é só um grande profissional, enquanto músico ou professor, ele é um grande amigo meu e dos seus amigos, um filho exemplar e um grande irmão, no verdadeiro sentido da palavra, acima de tudo constituiu uma linda família que o apoia e ama muito.
Não há palavras para descrever o imenso orgulho que sinto em ser irmão do Carlos, um dos melhores músicos dos Açores. Abraço meu querido irmão!»

DIOGO DE SOUSA, IRMÃO