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Problemas do sono: quando recorrer à Otorrinolaringologia

Joaquim Amaral
Coordenador de Otorrinolaringologia e especialista na Unidade do Sono
Hospital CUF Açores

O sono é fundamental para a nossa saúde física e mental, sendo de extrema importância para o funcionamento cognitivo e para a prevenção de múltiplas doenças, considerando-se, atualmente, um fator determinante na longevidade e na qualidade de vida.

De entre as patologias que afetam a qualidade do sono, aquelas que estão relacionadas com a obstrução das vias aéreas superiores ocupam um lugar de destaque, estimando-se que cerca de 60% dos homens e que 40% das mulheres adultas ressonem (roncopatia), e que cerca de 5% da população tenha algum grau de apneia obstrutiva do sono.

O diagnóstico e tratamento desta condição revela-se cada vez mais importante, uma vez que diminui o risco cardiovascular, os casos de sonolência excessiva durante o dia (causadora de inúmeros acidentes) e impacto no raciocínio e no temperamento. Desta forma, a avaliação feita por um otorrinolaringologista, preferencialmente integrado numa equipa multidisciplinar com outras especialidades, revela-se imprescindível, tanto para o diagnóstico e localização da causa da doença, como, muitas vezes, para o seu tratamento.

A avaliação das fossas nasais, da cavidade oral, da faringe e da laringe, através da observação direta e exames complementares, permite a localização dos locais de obstrução da passagem do ar durante o sono. Entre outras razões, é esta diminuição da oxigenação enquanto dormimos que determina a maioria dos sintomas e processos de lesão dos nossos órgãos.

Com a caracterização das alterações anatómicas que estão a contribuir para a obstrução, e após o diagnóstico assente em exames complementares, é possível o planeamento multidisciplinar do melhor tratamento, personalizado para cada doente. Também aqui a Otorrinolaringologia tem um papel fundamental, especialmente nos casos em que uma intervenção cirúrgica é necessária, nomeadamente a realização de correção de desvios do septo nasal, diminuição do volume dos cornetos nasais, palatoplastias, diminuição do volume das amígdalas, correção de patologias da laringe, entre outras.

As patologias relacionadas com o sono podem manifestar-se ainda na infância, sendo o volume aumentado das amígdalas e adenoides uma das causas mais comuns. A agitação psicomotora, a desatenção, dificuldades de concentração, atraso de crescimento, alterações no desenvolvimento da face e dos dentes, são algumas das consequências destas patologias, fazendo com que o seu tratamento seja essencial para o normal desenvolvimento físico e mental das crianças afetadas. Nestes casos, deve ser iniciado um tratamento médico e, caso este não seja suficiente, a adenoidectomia (cirurgia para remover as adenoides) e a amigdalectomia (cirurgia que permite a remoção total ou parcial das amígdalas), são das intervenções mais comuns, tendo um nível de eficácia muito elevado com a reversão quase completa dos sintomas.

Ressonar não é normal e fazer apneias durante o sono retira longevidade e qualidade de vida. Se é o seu caso, ou de um dos seus familiares, não ignore os sinais e procure ajuda especializada.

A surdez na idade adulta vai além dos aparelhos auditivos

Eduardo Ferreira
Especialista em Otorrinolaringologia
no Hospital CUF Açores

A perda de audição no adulto é uma queixa muito frequente nas consultas de Otorrinolaringologia. Vários fatores podem estar envolvidos no surgimento da surdez, que pode iniciar com uma simples gripe ou ser provocada por algum tipo de traumatismo do ouvido, pelo uso de determinados medicamentos ou, até, devido a um acidente vascular cerebral.

A perda de audição, que pode ser súbita ou progressiva, inclui quadros de surdez que implicam uma compensação, que pode ser alcançada através de uma prótese auditiva externa, como um aparelho auditivo convencional, ou implantes colocados cirurgicamente, como é o caso dos implantes cocleares. Por outro lado, existem também situações em que a audição pode ser recuperada através de tratamentos farmacológicos ou de pequenas intervenções cirúrgicas.

Por exemplo, algumas pessoas desenvolvem um crescimento exagerado do osso do canal auditivo externo (onde se acumula a cera), que pode provocar uma oclusão total. Esta situação é mais frequentemente verificada em quem está muito exposto a água fria, como os surfistas, mas pode ocorrer sem qualquer causa identificável. Nestes casos, pode ser feita uma cirurgia de “ampliação” deste canal, um procedimento simples e seguro quando feito em quadros menos avançados.

Também os quadros de otite crónica, quando desvalorizados, podem levar à destruição do tímpano e dos pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo). Para reduzir a probabilidade disso acontecer, é importante prevenir e tratar atempada e adequadamente as infeções frequentemente associadas.

Num ouvido não infetado, as cirurgias de reparação do tímpano têm riscos relativamente pequenos e podem ser feitas, frequentemente, em regime de ambulatório.

Por outro lado, há casos em que se verifica um crescimento anormal de pele no ouvido médio, implicando uma cirurgia mais complexa. Esta cirurgia tem como objetivo principal deixar o ouvido médio sem resíduos de pele, ou seja, totalmente livre de doença – chamada colesteatoma. Na ausência de cirurgia, a doença vai continuar a progredir, destruindo cada vez mais o ouvido, com risco de infeções quase constantes, agravamento da surdez, paralisia facial e vertigem.

Outros casos de surdez poderão dever-se à fixação de um dos ossículos do ouvido médio. Neste contexto, poderá ser feita uma cirurgia com restauração da mobilidade dessa cadeia ossicular, procedimento que conta com uma taxa de sucesso bastante elevada, pois consegue melhorar significativamente a audição em cerca de 90% dos casos.

Por fim, quando em vez de um ouvido médio bem ventilado, observamos um preenchimento por líquido seroso que se mantém após medicação, pode ser necessário efetuar uma drenagem. Este cenário é muito comum em crianças e envolve a colocação de tubos no tímpano. Em adultos com uma surdez persistente após uma otite média aguda, essa drenagem também pode estar indicada. Por outro lado, adultos com líquido no ouvido médio sem qualquer causa aparente deverão ser avaliados por um especialista, para excluir uma possível causa tumoral.

A conclusão é clara: antes de pensar em aparelhos auditivos, há outras possibilidades a explorar. Diagnosticar precocemente e conhecer as várias opções terapêuticas pode fazer toda a diferença na qualidade de vida de quem começa a manifestar perda de audição.

A Voz como um bem a preservar

Joaquim Amaral
Especialista em Otorrinolaringologia
no Hospital CUF Açores

Por ser mais do que um meio de comunicação, a nossa voz merece atenção e cuidado, pois pequenas mudanças podem ser sinais de alerta para problemas mais graves. Assim, todos os anos, a 16 de abril, é assinalado o Dia Mundial da Voz, para sensibilizar para a importância de preservar a saúde vocal e conhecer as principais doenças que a podem afetar.

A voz desempenha, desde os primeiros segundos de vida, um papel determinante na comunicação e expressão humana. É usada para falar, para transmitir emoções, como instrumento musical e até espiritual, e é instrumento de trabalho de várias profissões. A voz dá-nos identidade e poder, e tem a capacidade de refletir o estado da alma (“a voz é o espelho da alma”).

Produzida na laringe, pela vibração das cordas vocais ao passar o ar na expiração, a voz ganha os seus contornos característicos pela articulação dos músculos da face, boca e faringe e a sua ressonância ao nível da faringe e fossas nasais.

Para que todo este processo ocorra de forma perfeita, devemos ter alguns cuidados com a nossa voz, protegendo os órgãos que a geram. Aqui ficam algumas recomendações que devemos seguir no nosso quotidiano.

Em primeiro lugar, é importante garantirmos a nossa hidratação ao longo do dia, através do consumo de água, de forma a mantermos as cordas vocais lubrificadas, especialmente se utilizarmos a voz na nossa profissão.

É, ainda, importante aquecermos e relaxarmos os músculos do pescoço e do abdómen antes de cantar ou de falar por longos períodos de tempo, assim como evitar gritar ou falar demasiado alto, uma vez que isso poderá traumatizar as cordas vocais e provocar fadiga vocal. Para melhorar o controlo vocal e evitar a fadiga dos músculos fonatórios, é também recomendado utilizar o abdómen durante a respiração.

Não fumar é essencial para prevenir as doenças da laringe. Já no que diz respeito a bebidas alcoólicas, o seu consumo deve ser feito de forma moderada para evitar prejudicar as cordas vocais. Também excessos alimentares – ou alimentos que promovem o refluxo gástrico – podem causar inflamações na laringe.

Não ter atenção a estas recomendações pode trazer consequências, podendo facilitar o surgimento das doenças benignas mais comuns, como nódulos das cordas vocais, pólipos e laringites crónicas ou, ainda, doenças malignas, como o cancro da laringe.

Um dos principais sintomas de doença da laringe manifesta-se através da rouquidão, que se instala rapidamente na maioria das doenças da laringe, sejam elas malignas ou benignas, não devendo, por isso mesmo, ser um sintoma descartado. Outros sintomas podem manifestar-se através da dor de garganta recorrente, da sensação de ter “algo estranho” na garganta, tosse crónica e da necessidade de pigarrear ou clarear a voz com frequência.

Felizmente, a maioria das doenças da laringe é facilmente identificada através de um exame simples, a laringoscopia, e devemos procurar ajuda médica sempre que houver uma rouquidão que dure mais do que três semanas ou persistência dos outros sintomas.

Quando detetadas precocemente, a maioria das doenças que afetam a voz são facilmente tratadas com medidas higieno-dietéticas, medicação, Terapia da Fala e, em alguns casos, cirurgia, com excelentes resultados apontados. Adiar o diagnóstico pode agravar a doença e, consequentemente, o seu prognóstico.

Ame a sua voz, cuide da sua voz.