
A cedência do Pavilhão Desportivo da Escola Padre João José do Amaral ao Município da Lagoa, nos Açores, está no centro do debate político regional, com o Chega a manifestar-se contra a urgência de tratamento do processo proposta pelo PS. Através de uma nota de imprensa enviada à nossa redação, o partido defende que a relevância desta infraestrutura para a comunidade lagoense exige um “trabalho sério” e um escrutínio detalhado, recusando que uma decisão desta magnitude seja tomada num prazo de apenas duas ou três semanas. Para o Chega, o pavilhão representa um ativo estratégico para o concelho, não devendo a sua gestão ser discutida de forma precipitada antes do plenário de maio.
A deputada Olivéria Santos reforçou que a preocupação central reside na garantia de um acesso equitativo ao espaço, sublinhando que o pavilhão não pode tornar-se exclusivo de uma única entidade desportiva. A parlamentar recorda que aquela infraestrutura é a única no concelho com as condições específicas de segurança exigidas para a prática da patinagem, conforme estipulado legalmente. “Estamos disponíveis para debater o tema – sabemos das dificuldades por que passam entidades, importância da associação – mas duas ou três semanas para discutir este assunto, até ser discutido já no plenário de maio, é pouco tempo”, alertou Olivéria Santos na nota enviada pelo partido.
Além da questão da utilização desportiva, o Chega levanta dúvidas quanto à articulação desta cedência com os planos de investimento público para a zona. Olivéria Santos aponta que o Governo regional tem previsto um projeto de requalificação para a Escola Padre João José do Amaral que contempla a construção de um novo pavilhão. Segundo a deputada, é fundamental clarificar o futuro planeamento urbanístico e desportivo da Lagoa antes de avançar com a transferência de competências: “temos de perceber se vamos ficar com dois pavilhões ou só com um. Tudo isso não se consegue fazer em duas ou três semanas”, argumentou a parlamentar, apelando ao rigor e à transparência num processo que terá impacto direto nos atletas e clubes locais.

O Grupo Parlamentar do PS/Açores defendeu publicamente, em visita à Lagoa, a necessidade urgente de assegurar a continuidade da atividade do Clube de Patinagem de Santa Cruz, face à ameaça de demolição do pavilhão da Escola Padre João José do Amaral.
Segundo uma nota de imprensa enviada pela estrutura partidária, a ausência de uma alternativa viável para os treinos diários coloca em risco real a sobrevivência desta modalidade no concelho. A posição foi assumida pela deputada Cristina Calisto após uma reunião com os responsáveis do clube, onde foram manifestadas preocupações sobre a perda do espaço que tem sido o pilar do sucesso da coletividade.
Para a parlamentar, este é um desporto de “uma modalidade de grande prestígio para o concelho da Lagoa e para a região”, sublinhando o currículo de relevo nacional e internacional da instituição, que soma participações em competições como a Taça de Portugal e o Campeonato Europeu de Patinagem Artística.
A memória de um passado recente agrava o receio da comunidade desportiva local, uma vez que, entre 2021 e 2023, o clube atravessou um período de carência de instalações que forçou a deslocação de atletas para fora do concelho e resultou no abandono da prática por parte de vários jovens. Para evitar a repetição deste cenário, os socialistas anunciaram que vão avançar com um projeto de resolução que propõe a cedência definitiva do pavilhão ao Município da Lagoa, permitindo a gestão local do espaço e a salvaguarda da sua utilização desportiva.
Cristina Calisto reforçou que o crescimento populacional da Lagoa e a sua elevada taxa de natalidade exigem a manutenção e o reforço das infraestruturas existentes, especialmente num concelho com mais de duas dezenas de clubes no ativo. “Este é um equipamento essencial, não só para aumentar a oferta desportiva disponível, mas sobretudo para manter vivo um dos maiores clubes desportivos da Região”, afirmou a deputada, apelando à sensibilidade do Governo regional para uma solução que permita compatibilizar novos investimentos com a preservação do atual pavilhão.
“Esta é a iniciativa que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista vai entregar para que seja possível manter-se o pavilhão atual e garantir que esta modalidade não desapareça”, concluiu.

Bruno Pacheco
Sou cidadão do mundo, socialista formado politicamente nos movimentos soberanistas e independentistas açorianos do início da década de noventa. Luto, desde sempre, por uns Açores melhores e que sejam local de eleição para os optaram por aqui viver.
Contudo, fico “incrédulo” ao ver os posicionamentos “Açor-cêntricos” de alguns dos nossos governantes, baseados na retórica fácil e sem a devida sustentação técnica e científica sobre o nosso “valor intrínseco”. Como se diz nas arquinhas da vida… muito parla più.
Há um traço recorrente no discurso político regional, enraizado numa linha académica que vigora desde 1976, que importa desmontar (para nosso bem): o Açorianocentrismo acrítico, essa convicção quase dogmática de que os Açores ocupam um lugar central no mundo, não por evidência cientificamente demonstrada, mas por insistência repetida baseada apenas no nosso capital histórico.
Valorizar os Açores é legítimo. É imprescindível e necessário. O problema começa quando essa valorização deixa de assentar em dados, análise técnica e fundamentos científicos, passando a viver apenas de retórica política e de autoafirmação vazia baseada apenas na nossa geografia. Confunde-se orgulho com sobranceria, estratégia com propaganda. E, pior ainda, transforma-se uma agenda de desenvolvimento numa narrativa de autocelebração permanente.
A verdade é simples: relevância geoestratégica, importância ambiental ou potencial económico não se proclamam… demonstram-se. Demonstram-se com indicadores sólidos, estudos comparativos internacionais, políticas públicas avaliadas e resultados mensuráveis. Sem isso, tudo o que resta é discurso. E, por si só, o discurso não atrai investimento, não fixa talento e não cria prosperidade sustentável.
O episódio da saída da Ryanair dos Açores é um exemplo paradigmático dessa falta de noção do ridículo. Em vez de uma análise fria sobre competitividade, custos operacionais, massa crítica de procura ou enquadramento regulatório, assistimos a reações inflamadas, muitas vezes desconectadas da realidade do setor da aviação. Os nossos governantes pensaram que os “O’Leary” andavam a fazer bluff e que, no final, viriam “comer na nossa mão”, e ficaram a ver a banda passar pela avenida. Errado, como se viu!
Mas, mais grave do que a saída em si, foi a forma como foi enquadrada: uma mistura de indignação e, depois, incredulidade, como se o mundo tivesse falhado aos Açores. Esta postura revela uma visão fechada, quase insular no pior sentido da palavra, em que se assume que a centralidade é um dado adquirido e não uma conquista permanente. Um reflexo de quem fala muito para dentro e pouco para fora e da evidente falta de mundividência dos nossos governantes.
O recente episódio protagonizado pelo Presidente do Governo, à saída do Conselho Superior de Defesa Nacional, é mais uma expressão do açorianocentrismo sem urbanidade. À saída de uma reunião realizada ao abrigo do segredo de Estado, tivemos uma proclamação da nossa centralidade geoestratégica e da nossa importância vital para a República Portuguesa, acrescentando que a futura Lei das Finanças Regionais deve incorporar essas variáveis para fins de financiamento. Como sabem, aqui no Torreão, desde o início, abordaram-se os temas do “capital natural” e do “capital estratégico” como vetores para o financiamento da Região Autónoma. Contudo, temos de seguir um caminho sério, tecnicamente e cientificamente sustentado, que nos permita entrar nessa discussão com a certeza do que “queremos ter e porque é que queremos”. A centralidade geoestratégica não se afirma em declarações: mede-se, compara-se e prova-se com métricas objetivas reconhecidas internacionalmente.
Deste modo, recomenda-se ao Sr. Presidente do Governo que, em vez de “furar o segredo de Estado”, dê orientações para que se proceda a estudos sérios e cientificamente credíveis, de forma a podermos apelar a esta retórica, mas com sustentação e evidências.
Se queremos um projeto de futuro para os Açores, ele tem de assentar no realismo, nas exigências técnicas e na capacidade de integração global. Menos retórica, mais evidência. Menos autocomplacência, mais ambição sustentada. Mais avaliação independente, mais transparência e mais cultura de resultado. Caso contrário, continuaremos presos a um discurso que soa bem cá dentro, alimenta egos e ciclos políticos de curto prazo, mas que, lá fora, ninguém leva a sério e, pior do que isso, ninguém tem incentivo para contrariar.
O mundo não começa nem acaba nos Açores. E reconhecer isso não diminui a Região, mas, pelo contrário, é o primeiro passo para afirmá-la com seriedade. Porque só quem entende o seu lugar relativo consegue, de facto, ambicionar mais e negociar melhor.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Há um problema nos Açores de que pouco se fala com frontalidade, mas que continua a condicionar decisões, atrasar o desenvolvimento e dividir aquilo que devia estar unido: o bairrismo entre ilhas.
Não falo de identidade local, essa é saudável, faz parte de quem somos e deve ser preservada. Falo, sim, de um bairrismo doentio, pequeno e muitas vezes alimentado por discursos fáceis, que transformam a realidade numa competição permanente entre ilhas. Agravado quando alguns personagens estão em lugares de decisão ou influencia.
E há uma frase que resume bem esse problema: “vai tudo para São Miguel”.
Repete-se como um mantra. Mas raramente é acompanhada de factos, dados ou análise séria. É uma frase que nasce mais da perceção do que da realidade, e, pior ainda, serve muitas vezes para justificar erros, ineficiências e falta de estratégia.
O desenvolvimento dos Açores não pode ser feito à base de slogans. Nem pode ser construído numa lógia de “tirar a uns para dar a outros”. Isso não é coesão. Isso é criar desequilíbrios.
Mas também é um erro, e convém dizê-lo sem medo, penalizar as zonas onde existe maior concentração populacional, maior atividade económica e, naturalmente, maiores necessidades. Escolas, hospitais, habitação, segurança, infraestruturas: tudo isso cresce onde há mais gente. Ignorar isto não é justiça. É negar a realidade.
Durante anos criou-se a ideia de que equidade significa replicar tudo em todo o lado, independentemente da escala, da procura ou da viabilidade. Essa visão não só é errada, como está a custar caro à Região.
Equidade não é igualdade cega. Equidade é garantir que todos têm acesso ao essencial, saúde, educação, mobilidade, dignidade, ajustando as respostas às realidades concretas de cada ilha.
E aqui começa o verdadeiro problema: exigir tudo, em todo o lado, sem assumir responsabilidades.
Não podemos exigir transportes marítimos regulares e eficientes e depois não ter capacidade de planeamento básico, como a criação de reservas quando sabemos que existem falhas.
Não podemos exigir ligações aéreas diretas para o exterior em quase todas as ilhas e, ao mesmo tempo, ignorar que muitas dessas rotas operam com baixa ocupação e prejuízos elevados. Obrigar companhias a manter rotas inviáveis não é desenvolvimento, é acumular problemas que alguém, mais cedo ou mais tarde, vai pagar. E, no fim, pagamos todos.
Curiosamente, muitos dos que mais falam em “centralismo” são, na prática, os mais centralistas de todos, não no sentido geográfico, mas no sentido mental. Defendem apenas o seu território, o seu interesse imediato, a sua ilha. Raramente os vemos com uma visão global dos Açores. Raramente os vemos defender o todo.
E é precisamente essa falta de visão conjunta que nos está a bloquear.
A realidade é simples: governar os Açores é, em muitos aspetos, como gerir uma família com recursos limitados.
Imaginemos uma família com rendimentos modestos e vários filhos. Todos querem o melhor, e é legítimo que queiram. Mas o orçamento não permite dar tudo a todos, da mesma forma, ao mesmo tempo.
Se a decisão for feita apenas com base em quem grita mais alto, a consequência é previsível: endividamento, desequilíbrio e, no limite, colapso.
Gerir bem implica fazer escolhas. Implica definir prioridades. Implica, muitas vezes, dizer “não” no curto prazo para garantir sustentabilidade no futuro.
E isso exige maturidade social e política.
Os Açores precisam dessa maturidade. Precisam de deixar para trás discursos fáceis e assumir uma visão estratégica, equilibrada e realista.
Enquanto continuarmos presos a este bairrismo pequeno, vamos continuar a desperdiçar recursos, a alimentar conflitos artificiais e a travar o desenvolvimento da Região.
A verdade é simples: ou pensamos os Açores como um todo, ou vamos continuar a perder todos, ilha por ilha.