
Celebrar as Festas de Santo António em Santa Cruz é uma tradição com mais de três décadas. Sérgio Costa, presidente da junta de freguesia, destaca que “este é o maior cartaz de festas populares” da Lagoa e o único que celebra os casamentos de Santo António nos Açores. A organização é partilhada entre a Câmara Municipal de Lagoa, a Junta de Freguesia de Santa Cruz e a Igreja Matriz de Santa Cruz, cabendo a cada entidade um papel importante na elaboração do programa. “Foi desde há três anos para cá que nós desenvolvemos as festas de maneira que elas ganharam a dimensão que têm atualmente”, explica o presidente.
No dia 9 de junho têm início as celebrações, com uma sessão solene de abertura que contará com um momento musical do Orfeão Nossa Senhora do Rosário. O autarca garante que as festas manterão o espírito dos últimos anos, embora introduzam uma novidade na “véspera de Santo António”. No dia 12 de junho haverá, assim, o arraial de Santo António, com a distribuição de sandes de pernil ao público presente, contando com o apoio da Associação de São Martinho.

As marchas populares voltam a ser um dos pontos altos das celebrações e Sérgio Costa destaca mais um ano de apresentação das emblemáticas Marchas de Santo António. Este ano, participam nove marchas, duas delas provenientes das Feteiras e de São Vicente, sendo as restantes do concelho: “Desde o ano passado, temos todas as freguesias da Lagoa representadas aqui na nossa festa, algo que antes não acontecia”. A maioria das marchas é “de adultos”, sendo visível a preocupação com o decréscimo, cada vez mais acentuado, das marchas infantis. “A essência destas festas sempre foram as crianças e as marchas infantis, mas este ano só temos quatro. Já tivemos muitas mais e agora já não temos marchas das escolas”, acrescenta.
Glória Moniz, responsável pela marcha infantil do Polo de Leitura da Ribeira Chã e coreógrafa da marcha dos adultos da freguesia, faz um balanço positivo dos ensaios. “As crianças estão muito felizes e aprendem com uma rapidez incrível, e os ensaios com os adultos são uma animação constante”. A responsável salienta que a logística de preparação de uma marcha não é fácil, sobretudo com o aumento dos preços, que exigem um esforço constante. “É difícil, mas quando se faz como o coração é possível”, afirma. Acrescenta ainda a importância de preservar as tradições através das Marchas de Santo António e, não escondendo também a sua “profunda tristeza” pela menor adesão das crianças, reforça a ideia de que incentivar os mais jovens é essencial para o futuro das marchas.
“Era uma Vez”, relacionado com o projeto de leitura “Contos Infantis”, será o tema da marcha infantil do Polo de Leitura da Ribeira Chã. O grupo, juntamente com outros como o Som do Vento, que voltará a realizar uma marcha este ano, apresenta-se no dia 13 de junho.
Sérgio Costa afirma que as Festas de Santo António “colocam Santa Cruz no mapa” e considera que a presença de artistas nacionais atrai visitantes de outros locais à freguesia. “As pessoas acabam por ficar aqui na festa e começam a perceber que não é uma festa popular qualquer”, diz. O autarca adianta que a expectativa é receber um número de visitantes semelhante ao dos últimos anos, maioritariamente “conterrâneos”, sendo o turismo ainda “uma pequena parte” do público. O cartaz deste ano inclui os concertos de Toy, a 10 de junho, e de Augusto Canário & Amigos, no dia 14. O programa conta ainda com as atuações de artistas locais, como Nuno Martins e Doce Sinfonia.

Serão dois os casais que este ano vão celebrar o matrimónio através da tradicional iniciativa dos Casamentos de Santo António, no dia 11 de junho. O Diário da Lagoa falou com Diana Carvalho, uma das noivas, que manifestou o seu agradecimento às entidades organizadoras, referindo que esta oportunidade lhe permitirá concretizar um sonho. Diana partilha que sempre desejou “casar pela Igreja”, na companhia dos filhos e ser levada “ao altar” pelo pai. “Já temos tudo preparado e estamos ansiosos para que chegue o grande dia”, acrescenta, sublinhando a importância da existência deste apoio.
Preparar as grandes Festas de Santo António é descrito pelo presidente da junta como um trabalho exigente, desde a seleção dos casais inscritos, com base nos “requisitos sociais necessários”, à contratação dos artistas nacionais e à preparação das marchas.
Sérgio Costa apela ao “manter da tradição”, convidando todos a “aproveitar as festas ao máximo”, uma vez que estas “fazem-se com muito sacrifício e custo”. O autarca destaca ainda o esforço feito pela organização para manter um cartaz desta dimensão, apesar dos “recursos” limitados, agradecendo o apoio das entidades parceiras, e garantindo que Santa Cruz está pronta para “receber todos da melhor forma”.

No coração do Atlântico, onde o verde das criptomérias toca o cinzento das rochas vulcânicas, um grupo de cidadãos belgas percorre trilhos que são, simultaneamente, caminhos físicos e rotas de introspecção. O que os traz aos Açores não é o turismo convencional de contemplação, mas sim um projeto científico e terapêutico pioneiro que une a Universidade dos Açores ao hospital belga AZ Monica. Sob o conceito de Forest Mind (Floresta Consciente), este programa de terapias da natureza está a transformar a forma como pacientes com lesões cerebrais, burnout e traumas graves encaram o seu processo de recuperação.
O mentor desta iniciativa, o professor Eduardo Marques, da Universidade dos Açores descreve a semana como muito mais do que um intercâmbio académico. “Nós temos um momento de conexão humana, de interculturalidade”, afirma. “Temos aqui um grupo de doentes que vieram de um hospital belga aos Açores para um programa de reconexão com a natureza e terapias para encontrarem caminhos e estratégias para aumentar o seu bem-estar psicológico”.

A escolha dos Açores não foi um acaso geográfico, mas uma decisão clínica. Greet Dierckx, neuropsicóloga belga que trabalha com doentes com lesões cerebrais, explica a importância de tirar os pacientes do ambiente hospitalar. “É muito importante para eles aprenderem ferramentas para manter o cérebro o mais saudável e forte possível. A terapia baseada na natureza é um método muito forte para manter o corpo e o cérebro saudáveis”, refere a especialista.
Greet sublinha ainda que o mau tempo que assolou o arquipélago durante a semana acabou por ser uma ferramenta terapêutica inesperada: “A vida é desafiante. E esta semana foi muito desafiante em relação ao tempo. Mas aprendemos muito. Quando se faz em grupo, é ainda mais forte porque trocamos experiências e conhecimentos”, afirma.
Para os participantes, os exercícios serviram como espelhos das suas próprias vidas. Ann Willems, que se juntou ao projeto inspirada por uma amiga, utilizou elementos naturais para desenhar a sua “linha da vida”. Para ela, a natureza trouxe uma clareza necessária: “Isto representa-me. São lembretes para mim própria de que, na vida, temos de vir primeiro. Tens de estar saudável, forte e aterrada. Se estiveres segura, tudo o resto interage e a vida torna-se uma harmonia”, considera.
Essa mesma busca por harmonia é partilhada por Nadia Makrache, uma empresária que enfrentou dois episódios de burnout. Para Nadia, a surpresa foi a eficácia das dinâmicas: “tornou-nos criativos, tornou-nos calmos. Estávamos conscientes. Foi bom conectar com os locais e outras pessoas novas, sinto-me leve por partilhar”.”

Para aqueles que lidam com sequelas físicas e neurológicas graves, a floresta ofereceu uma nova perspetiva sobre as suas capacidades. Romelia Schwarzkechel viajou como guia de uma amiga que sofreu um acidente de carro com danos cerebrais, mas acabou por se envolver profundamente no processo. “É uma jornada, claro. Tivemos a natureza bela e todo o tipo de novos exercícios como usar binóculos para testemunhar a natureza de uma forma diferente e ver como o cérebro responde ao olhar fisicamente de uma maneira distinta”, explica.
Helene Van Der Linden sofreu uma hemorragia cerebral há um ano e meio. Admite que inicialmente hesitou em participar por não querer estar num “grupo de doentes”. Contudo, a experiência mudou a sua visão: “como podem ver, não somos realmente um grupo de doentes. São apenas pessoas a encontrar uma nova forma de viver depois do que aconteceu.” Helene confessa preferir as atividades físicas: “a surpresa da natureza aqui é algo que gosto muito. Sinto que não temos apenas as quatro estações num dia, mas todos os tipos de natureza do mundo num só lugar. Parece a Escócia depois parece o Havai”, diz, referindo-se aos Açores.
A eficácia da terapia mede-se pelo que os pacientes levam na bagagem de volta para a Bélgica. Peter Plusquin, que sofre de sintomas como “nevoeiro cerebral” e falta de concentração, encontrou nos Açores uma forma de ressignificar a sua condição. “A natureza desta ilha ajuda-nos a relacionarmo-nos connosco próprios. É como uma selva, mas uma selva fresca”, descreve. Peter leva consigo âncoras mentais dos exercícios realizados: “encontrei quatro ou cinco recursos que posso usar para me sentir melhor, são elementos-chave que nunca esquecerei. Ainda tenho os mesmos sintomas, mas acho que tenho mais formas de me relacionar com eles”.

O professor Eduardo Marques acredita que este é apenas o início de um caminho que pode transformar a região num destino de Turismo de Saúde e Bem-Estar. “Podemos utilizar a natureza, um recurso que temos espalhado por todas as ilhas, como um ativo importante em providenciar novas estratégias ao nível da saúde”, defende.
Mais do que isso, o projeto redefine o papel do assistente social moderno: “o assistente social pode assumir também uma função de terapeuta. Eu dispo-me do meu papel enquanto professor e assumo enquanto assistente social terapeuta, conduzindo sessões indutoras de renascimento individual”.
Embora o caminho seja novo e possa gerar desconfiança, Eduardo Marques é categórico: “os resultados provam que esta experiência está a ser extremamente positiva e gratificante”. Nos Açores, entre a névoa e o verde absoluto, provou-se que a natureza não é apenas um cenário, mas poderá ser uma parte essencial da cura humana.

A gestão do Aquafit – Health & Fitness Club, equipamento público sob a alçada da Câmara Municipal da Lagoa, está a ser alvo de um coro de críticas que ultrapassa a recente contestação à subida dos preços. Um grupo de utentes e sócios formalizou duas exposições dirigidas à autarquia e à Assembleia Municipal, denunciando o que consideram ser um desvio aos princípios de transparência, ética e serviço público. No centro da polémica está a atuação da Direção Técnica, a cargo de Rui Melo.
De acordo com os subscritores da denúncia, verifica-se uma alegada “ausência sistemática” do responsável nas instalações, tornando-o “incontactável” para utentes e funcionários na maior parte das horas do dia. A exposição alega ainda que o Diretor Técnico acumula múltiplas funções remuneradas noutras entidades, o que comprometeria a dedicação e compromisso necessários ao cargo municipal. Os utentes sugerem que a gestão diária tem recaído sobre outros colaboradores, levantando suspeitas de que a nomeação para o cargo possa resultar de “favores políticos”.
A situação laboral dos trabalhadores do complexo é outro ponto crítico destacado na denúncia enviada ao nosso jornal. Enquanto o novo preçário para 2026 impõe agravamentos significativos — com o Cardiofitness a subir 37% —, a autarquia terá negado a atualização dos rendimentos dos funcionários face à subida do salário mínimo. Segundo a denúncia, existem profissionais a cumprir funções no complexo há mais de 11 anos sob o regime de recibos verdes, sem as garantias e a valorização que lhes são devidas.
No plano político, o PSD Lagoa já manifestou a sua oposição a este modelo de gestão, classificando-o como “concorrência desleal” perante o setor privado. O vereador Rúben Cabral apontou a falta de indicadores de desempenho no orçamento para 2026 e afirmou que a atualização de preços foi adiada por “conveniência política” para o período pós-eleitoral.
Ao Diário da Lagoa, a Câmara Municipal defendeu que os aumentos visam a “estabilidade da operação” e a manutenção de padrões de qualidade. Sobre o corte de 20% para 15% nos descontos para idosos e recomendações médicas, a autarquia justificou que a decisão procura um equilíbrio entre sensibilidade social e sustentabilidade, sugerindo aos cidadãos o programa gratuito “Saúde em Movimento” ao ar livre. Contudo, os utentes refutam esta visão, apontando sinais de “degradação continuada” nas infraestruturas e falta de manutenção adequada.
Questionada pelo nosso jornal, a Câmara Municipal reagiu às críticas, começando por desvalorizar as exposições enviadas pelo “Grupo de Sócios do Aquafit”. A autarquia classifica as comunicações como “anónimas” por falta de identificação dos subscritores, embora assegure que o teor foi analisado e que “não foi apurada qualquer situação que comprometa a segurança ou o funcionamento” do complexo.
Quanto à contestada atuação do Diretor Técnico, a autarquia lagoense esclarece que o responsável exerce funções desde 2022 em regime de tempo parcial. A autarquia confirma a acumulação de funções noutras entidades, mas garante que a mesma está “formalmente enquadrada e autorizada, nos termos legais, pelo serviço de origem”. No entanto, a resposta oficial não faz qualquer referência à alegada “incontactabilidade” ou falta de assiduidade física denunciada pelos utentes.
No que toca à situação laboral dos profissionais que asseguram as atividades, a Câmara da Lagoa nega a existência de vínculos laborais irregulares. Segundo o executivo lagoense, tratam-se de “prestações de serviços específicas e com necessidades variáveis”, justificando assim a manutenção do regime de recibos verdes (mesmo nos casos que se arrastam há mais de uma década) por considerar que este modelo não configura um contrato de trabalho subordinado.
Relativamente às queixas de degradação das instalações, a autarquia refuta a perceção dos sócios, enumerando investimentos recentes em “componentes estruturais e equipamentos de prática desportiva”. Entre as intervenções citadas, destacam-se a substituição de sistemas de ar condicionado, melhorias nos balneários e a renovação de material de apoio às atividades de plano de água, assegurando que a manutenção do Aquafit é “regular e programada”.

Nasceu em Lisboa, no Bairro de Alvalade, em 1978, mas foi nos Açores, mormente em São Miguel, que se estabeleceu profissionalmente, ilha onde ainda hoje reside e exerce a profissão de agente da PSP. Mas Bruno Oliveira também é conhecido pela sua profunda ligação ao futebol e pela dedicação a um part-time que deixa qualquer tipo de viatura como nova.
O resumo da infância vivida na capital portuguesa, antes de rumar à maior ilha dos Açores, é feito na primeira pessoa: “Cresci em Lisboa, num contexto simples, mas muito rico em vivências. Passei grande parte da infância na rua, a jogar à bola e a conviver com amigos do bairro, algo muito típico da época. Foi uma infância marcada por valores como o respeito, a entreajuda e a noção de responsabilidade, muito incutidos pela família. A cidade, com toda a sua diversidade social, ajudou-me desde cedo a perceber realidades muito diferentes”, recordou.
Embalado pelas recordações e com as memórias bem presentes, Bruno Oliveira mostrou ser um homem de convicções fortes, não tivesse ele decidido abraçar uma carreira na Polícia de Segurança Pública (PSP) bem cedo, inspirado pela missão de servir o bem comum.
“A ideia de ingressar na PSP começou a ganhar forma ainda jovem. Sempre tive um forte sentido de justiça e uma vontade genuína de ajudar os outros. O contacto com elementos da polícia e a perceção do papel fundamental que desempenham na sociedade foram determinantes. A estabilidade profissional também foi um fator importante, mas, acima de tudo, pesou a missão de servir a população”, disse.
Quem opta por esta via profissional não espera facilidades no dia a dia. E Bruno Oliveira sabe-o perfeitamente, não apenas pela exigência do serviço, mas, igualmente, pelo diferente tipo de pessoas com que tem que lidar nas mais diversas situações.
Daí reconhecer que o percurso na PSP tem sido “exigente, mas muito enriquecedor, tanto a nível profissional, como pessoal. O trabalho diário envolve contacto direto com o público, prevenção criminal e intervenção em ocorrências diversas”, especificou.
Não raras vezes, Bruno Oliveira lida com “todo o tipo de pessoas”, desde “cidadãos em dificuldade, vítimas, mas também suspeitos da prática de crimes”. É, assumiu, “um trabalho que exige equilíbrio emocional, capacidade de comunicação e tomada de decisão sob pressão”.
Na vida de um agente da PSP o risco está sempre presente. Bruno Oliveira reconhece-o sem rodeios. “Sim! Houve situações em que senti que o risco era real. Faz parte da profissão. Nessas alturas, o treino, a experiência e o trabalho em equipa fazem toda a diferença. O medo existe, mas aprende-se a controlá-lo e a agir com profissionalismo”.
A opção Açores foi como que por arrastamento devido à carreira profissional dos pais. “A ida para os Açores surgiu no âmbito da carreira profissional dos meus pais, através de uma oportunidade de colocação. Foi um desafio grande, não só a nível profissional, mas também pessoal. A adaptação a um novo contexto geográfico e social acabou por ser muito positiva e marcou-me profundamente”, adiantou.
Nos Açores, Bruno Oliveira também se dedicou ao futebol, primeiro como guarda-redes, depois como treinador de guarda-redes. Representou diversos clubes na ilha e, mais recentemente, esteve ao serviço do Operário na qualidade de treinador dos guardiões dos fabris. As recordações são, por isso, muitas.
“O futebol foi sempre uma paixão. Como guarda-redes vivi momentos muito intensos, de grande responsabilidade e superação. Mais tarde, como treinador de guarda-redes, tive a oportunidade de transmitir conhecimentos e ajudar jovens atletas a evoluir, o que foi extremamente gratificante. O futebol galvanizou alguns valores fundamentais como disciplina, resiliência e espírito de equipa”, reconhece.
Entretanto, no último ano, optou por fazer uma pausa para “reorganizar prioridades”. “A pausa prendeu-se, sobretudo, com questões pessoais. Nem sempre é fácil conciliar tudo e senti necessidade de abrandar e reorganizar prioridades. Não foi um adeus definitivo, mas sim um tempo para refletir e recuperar energia”, adiantou.
Pausa no futebol, mas não na pintura automóvel, outra das suas paixões, algo que foi “descobrindo ao longo do tempo”. Primeiro por “curiosidade”, mas depois, com o passar dos anos, “acabou por se tornar uma atividade que me dá grande satisfação. Gosto do lado prático e criativo da pintura automóvel, do cuidado com o detalhe e do resultado final. É uma forma de desligar do stress do dia a dia”, disse.

O DL contactou Rui Pedro Paiva e Rui Soares numa tarde de segunda-feira. Ambos a trabalhar, fizeram uma pausa no seu dia agitado e reviveram connosco memórias de um início de carreira.
Rui Pedro Paiva, natural de Ponta Delgada, nasceu em 1996 e após esta breve apresentação pessoal afirma com convicção: “Desde que me lembro sempre quis seguir jornalismo”. Rui Paiva explica que a paixão pela área surgiu de forma natural. Crescer numa casa de assinantes de jornais, onde estar informado sempre foi crucial, teve grande influência na sua decisão, já que, em criança, folheava jornais mesmo antes de os saber ler. Como não podia deixar de ser, ingressou, mais tarde, em Comunicação Social e Cultura na Universidade dos Açores, seguindo para a Universidade do Porto, onde concluiu o mestrado em Ciências da Comunicação. O seu percurso académico termina em 2019, mas em 2018 já inicia um “estágio no Público”. A sua experiência profissional começa aí e passa por diversas colaborações com jornais, incluindo o Diário da Lagoa. Em 2024 foi diretor do Açoriano Oriental, “num breve período” e, hoje, é “jornalista da Agência Lusa nos Açores” e “correspondente no Público”.
Já Rui Soares não encontrou a sua carreira de sonho à primeira. O fotojornalista de 45 anos, natural de Santa Cruz, na Lagoa, relata que começou “por estudar Educação Física e Desporto”, mas rapidamente percebeu que “não era algo das nove às cinco” que o “fascinava”. “Não era isso que me fazia feliz”, acrescenta. Foi aos 27 anos que sentiu ter “renascido” quando conhece a sua paixão: a fotografia. “Um amigo meu emprestou-me uma câmara numa competição de Rally. Achei o primeiro disparo tão mágico que comprei uma máquina fotográfica no mesmo dia”, conta ao DL com satisfação na voz. Seis meses depois, Rui partiu para Lisboa e lá estudou fotografia. “Encontrei o que queria fazer e sabia muito bem que queria ser fotojornalista e que queria trabalhar para o Público”, conclui convicto. O seu primeiro trabalho de fotojornalismo foi no Festival da Canção de 2011 e, após iniciar um estágio no jornal Público, permanece lá como fotojornalista até hoje.
Atualmente, Rui Paiva e Rui Soares trabalham frequentemente juntos, com dedicação naquilo que fazem. O seu trabalho parece “combinar”, o que acontece, diz o fotojornalista, pela “familiaridade” e “amizade” que existe entre os dois, acompanhada de um uma “paixão” em comum: o jornalismo.
Em 2020 nasce “a primeira reportagem sobre o Rendimento Social de Inserção (RSI)” de Rui Pedro Paiva e Rui Soares. A ideia partiu de uma discussão interna “dentro do próprio jornal”, tal como a decisão de, quatro anos mais tarde, dar seguimento a esta peça.
“Pobreza: quatro anos depois, os relatos de quem vivia do RSI”, é o título da continuação dessa história, que teve grande “impacto nacional”. Em 2024, surge o desejo de perceber onde se encontravam as pessoas que tinham dado o seu testemunho como beneficiárias do RSI. Rui Paiva e Rui Soares regressaram a Rabo de Peixe, não mantiveram qualquer contacto com quem, quatro anos antes, haviam conversado, e o regresso à freguesia trouxe consigo uma busca sem pistas.
“Foi muito reconfortante saber que as pessoas se lembravam de nós”, refletem e realçam que, na maior parte das vezes, os visitantes perdem o respeito pelos cidadãos de Rabo de Peixe. “As pessoas olham para Rabo de Peixe como uma espécie de zoo, e para nós nunca foi isso”. Rui Paiva e Rui Soares recordam ainda a confiança que os rabo-peixenses demonstraram no seu trabalho. “Quando contamos a história de uma pessoa, a base é a confiança que elas têm em nós”, diz Rui Soares. Ambos acreditam que, no jornalismo, dar continuidade às histórias é “importante”. Não é algo que se faça com frequência, e a necessidade de relembrar os leitores de certos assuntos é um aspeto a ter em conta numa altura em que “parece que tudo fica desatualizado de um momento para o outro”, explica Rui Paiva. Foi um trabalho de continuidade, algo que raramente se vê na comunicação social”, acrescenta Rui Soares.
Foi em setembro que se conheceram os resultados da oitava edição do prémio “Analisar a Pobreza na Imprensa”, atribuído pela Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN). “Trata-se da maior rede de instituições que combatem a pobreza a nível europeu”, explica Rui Paiva. O jornalista conta que a decisão da atribuição dos prémios é tomada por 19 concelhos locais, um por cada distrito de Portugal Continental e da Madeira. “Os Açores, mais uma vez, ficaram excluídos, como ficam excluídos de uma série de coisas”, aponta, ressaltando que este é um aspeto “relevante” no que cabe à atribuição do prémio, por demonstrar que o arquipélago não teve qualquer influência na análise e escolha dos vencedores. “É um prémio honesto, que procura valorizar aquilo que se faz”.
Rui Paiva e Rui Soares demonstram uma “grande satisfação” por vencerem o primeiro lugar num prémio que não funciona por participação própria, mas sim que parte de uma escolha da EAPN, que reconheceu o esforço e impacto desta reportagem. Apesar disto, Rui Paiva destaca que, com os problemas que enfrenta o jornalismo atualmente, o que move quem trabalha nesta profissão é o interesse público: “não se anda aqui à procura de prémios”.
Rui Paiva apela a um “voltar a resgatar a essência do jornalismo” e realça que quem escolhe esta profissão “não anda à procura de salários avultados”, mas vive de um trabalho “que exige esforço”. Para o jornalista, a existência do jornalismo nos Açores deve ser vista como “crucial”, dada a realidade social da região, que requer uma atenção constante dos meios de comunicação. “Haver um reconhecimento nacional de um jornalista e de um fotojornalista açorianos, é a prova que há jornalismo feito nos Açores que é reconhecido a nível nacional”, conclui referindo-se ao prémio vencido.
Rui Soares fala em “responsabilidade” e admite senti-la, sobretudo para com quem, futuramente, deseja ingressar nesta área. Mas também a sente nas histórias que conta, através das imagens que captura.
Pedem ainda aos leitores que continuem a acreditar nos jornais e na veracidade das notícias que estes divulgam porque, “só assim se reforça o papel importante que o jornalismo tem na democracia”.

Andando por uma das ruas históricas da freguesia da Matriz, no concelho da Ribeira Grande, mais concretamente na Rua Nossa Senhora da Conceição, pode encontrar-se um edifício centenário onde ainda é preservado um ofício antigo, em vias de desaparecer.
A Relojoaria Amaral, com o número 9, acima da sua porta verde, foi aberta há 110 anos, em 1914, pelo relojoeiro José Ernesto Amaral. O ofício foi herdado pelo seu filho Aristides Vasconcelos Amaral, que por sua vez o passou ao seu filho Fernando Amaral.
Passado mais de um século, a relojoaria Amaral permanece igual e visitá-la é como viajar até ao passado. Ao entrar, à esquerda, podemos encontrar o relojoeiro a trabalhar, preservando o ofício, de lupa no olho, rodeado de relógios, peças e ferramentas. À direita, relógios na parede, fotografias e memórias antigas, uma gaiola com dois canários e vasos de plantas a adornar o chão.
Fernando Amaral, de 79 anos, natural da Ribeira Grande, é o mais antigo relojoeiro da ilha de São Miguel e um dos últimos dos Açores. Ao Diário da Lagoa (DL) conta a origem da relojoaria: “o meu pai aprendeu com o meu avô e eu aprendi com o meu pai. Estou aqui desde os 15 anos, altura em que saí do liceu”, lembra Fernando.
O avô era de Vila Franca do Campo, tendo se mudado com a família para a Ribeira Grande, quando o pai de Fernando Amaral tinha 14 anos, surgindo aí a relojoaria, no ano em que começou a primeira guerra mundial.
O relojoeiro ribeiragrandense lembra como se iniciou no ofício. Após tirar o segundo ano do liceu, Fernando Amaral decidiu sair da escola, apesar de o seu pai ter insistido para que ficasse. “Eu quis ir para a relojoaria”, e assim começou. “Não me arrependo nada de não ter estudado mais”, confessa. No início, esteve como aprendiz do pai, observando como se fazia. “Estive quatro anos sem mexer nos relógios, só ficava a ver o meu pai. Depois principiei com relógios grandes e aqui estou, há 65 anos”, conta ao DL.

Não se imaginando a fazer outra coisa, Fernando afirma que gosta muito do que faz, apesar da carga de trabalho ser menor do que há uns anos. Há mais de seis décadas que abre a relojoaria de segunda-feira a sábado. Neste momento, o espaço tem um horário de funcionamento entre 10h00 ou 10h30, às 17h00, com pausa para almoço das 12h00 às 14h30.
Mas a vida não é só trabalho e Fernando Amaral dedica o seu tempo livre ao gosto pelas atividades físicas. “Estou habituado a ir à praia. Vou tomar banho ao mar, de verão e de inverno, faça chuva ou faça sol, ao sábado e domingo”, conta-nos. Aprecia também as caminhadas, que realiza há já vários anos. “Mantenho-me sempre em forma”, orgulha-se.
“Sou feliz”, contou-nos o relojoeiro, mas partilha a falta que sente da sua esposa Ivelina Maria, natural de Ponta Delgada, já falecida, lembrando as viagens ao estrangeiro que realizava com ela e a boa relação que tinham.
Sobre o passado e o presente da profissão, o relojoeiro explica que antigamente era mais rentável. “O meu pai ganhava muito mais do que um empregado público na altura”, lembra. No entanto, agora as condições são outras e há menos procura. “Não era nada do que é hoje. Agora é muito diferente, inclusive monetariamente. Antigamente ganhava-se muito aqui. Era outra vida, outros relógios, de cordas, mecânicos. Hoje são todos eletrónicos e de pilhas”, recorda Fernando Amaral.
No que toca ao futuro, apesar de Fernando Amaral ter quatro filhos e seis netos, nenhum dos seus descendentes mostrou interesse em aprender o seu ofício. “Fui o último da família a aprender relojoaria”. Apesar de ser incerto o destino deste negócio centenário, Fernando Amaral, enquanto puder, pretende fazer o que gosta e manter a Relojoaria Amaral, na Rua Nossa Senhora da Conceição, como tem permanecido há quase 111 anos: de portas abertas, a preservar uma herança de família e uma profissão em vias de extinção.
