Log in

Roberto Medeiros: “há muita coisa que eu continuo a querer fazer antes que a memória se apague”

Roberto Medeiros prepara-se para trabalhar num novo livro. Esteve à conversa com o Diário da Lagoa sobre a sua mais recente publicação e trabalho que desenvolve na diáspora

Roberto Medeiros sublinha a importância da aposta na cultura e na educação © CLIFE BOTELHO

DL: Como está a ser a receção ao livro “Antes Que a Memória Se Apague II – Crónicas de Água de Pau”?
Muito boa. Corresponde às minhas expetativas, pois os pauenses têm demonstrado que continuam interessados em conhecer a sua história. E, também, as pessoas que vivem fora de Água de Pau e na diáspora açoriana.

DL: O livro foi também lançado nos Estados Unidos da América.
Sim, fiz três lançamentos. E nos três tive sempre muita gente. Primeiro, no restaurante Cotali Mar, em New Bedford, o segundo, na Portugália Marketplace e o terceiro, na biblioteca Casa da Saudade, em New Bedford, ou seja, duas vezes em New Bedford, duas vezes em Fall River. E tive sempre um público entusiasmado e que queria saber mais alguma coisa. Perguntaram-me quando é que aquele livro seria publicado em inglês, e eu expliquei que, por enquanto, não é publicado na Língua Inglesa, porque as crónicas foram obtidas através de entrevistas orais, a pessoas de certa idade, inclusive algumas centenárias. 

DL: Isso revela que há interesse da parte das gerações mais novas?
Sim. Então eu expliquei que é tudo publicado em português, para que essas pessoas que me passaram essas crónicas possam ler ainda o livro na Língua Portuguesa já que foram portugueses, açorianos e pauenses, que me contaram essas histórias, pessoas que estão radicadas na América, no Brasil, na Austrália, na Califórnia…

DL: Onde pode ser encontrado o livro?
Deixei o livro à venda na Portugália Marketplace em Fall River, também no salão de cabeleireiro do David Loureiro. Aqui na ilha de São Miguel, as pessoas podem contactar-me pelo Facebook para adquirir o livro mas também na DS Seguros, em Água de Pau, na rua da Trindade nº 4 e, igualmente, no posto de abastecimento de combustíveis local. 

DL: Continua a ser uma espécie de embaixador da Cultura Açoriana nos Estados Unidos da América (EUA)?
Continuo. Recentemente uma delegação de estudantes da escola de Rabo de Peixe viajou comigo e estivemos dez dias nos EUA.

DL: E gostaram?
Sim, gostaram e prepararam uns números de teatro e música que foram associados igualmente ao lançamento e aos lugares onde participamos. Portanto, correu tudo muito bem e, por causa disso, fui à televisão, aos canais da diáspora açoriana e depois também tive uma reunião com o presidente das grandes festas do Espírito Santo que me pediu colaboração.

DL: Que projetos tem para o futuro?
Vão viajar comigo, agora em agosto, artesãos para apresentar os seus trabalhos nos Estados Unidos. São de Água de Pau, Ponta Delgada, da Praia da Vitória e do Porto.
As pessoas procuram-me porque eu não digo, eu faço. É muito diferente, eu faço porque tenho amigos, tenho gente na América com quem assinei vários protocolos de colaboração e que depois de sair da câmara pediram: “não nos deixe, diga só o que precisa”. E quando chego lá tenho viatura e tudo o que é preciso. Por isso continuo a trabalhar com as comunidades e com as nossas escolas de São Miguel e com os artesãos dos Açores. Então tenho que fazer sempre aquilo que posso porque eu gosto de fazer isso. 

DL: Tem já dois livros publicados. Já começam a pedir o terceiro?
Sim, em abril de 2026 vou lançar o meu próximo, o terceiro livro, “Antes que memória se apague”,  que vai ser sobre metáforas, expressões típicas e alcunhas de Água de Pau. Porque antigamente as pessoas em Água de Pau chamavam-se todas João, José, Manuel, Artur, ou seja, os nomes eram sempre iguais, então para os distinguir tínhamos que pôr uma alcunha. E isso não tem nada de mal.

DL: E depois a seguir vem o quarto livro?
Daqui a dois anos, em 2027 só sobre a história da Água de Pau. Desde o povoamento até à atualidade, a parte histórica.
Na semana passada, na América, falei com o meu patrocinador para apoiar um livro sobre as comunidades. É um amigo que tenho na América, um empresário que me garantiu que já tenho algum apoio. E tenho porque as pessoas veem o trabalho realizado.
Inclusive, nesta última viagem tive um caso engraçado que também está relacionado com o Diário da Lagoa.
Nós fizemos escala em Lisboa, vindos de Boston, e enquanto esperávamos pelo voo para Ponta Delgada, encontramos dois casais, que são daqui de São Miguel, pessoas já de idade. E começamos a falar sobre o livro. E um deles disse: “há também um jornalista que escreve para o Diário da Lagoa sobre as histórias de Água de Pau”.
E eu perguntei: “Como se chama esse jornalista?” Ao que ele respondeu: “Roberto Medeiros”. Desatei a rir, claro, pois respondi: “sou eu” [risos].
Ele depois ainda me disse: “eu pensava que fosse um jornal da câmara”. Eu disse-lhe: “não, o Diário da Lagoa é um jornal independente, não é da câmara”.

DL: Portanto, o balanço é muito positivo?
Foi muito positivo. Eu tenho sido um veículo de ligação na aposta na cultura e na educação. E tenho tido a sorte de ter bons amigos, porque quando eles também viajam até aos Açores, recebemos muito bem, e para qualquer lado que eu vou, valorizo sempre o trabalho da autarquia e dos autarcas lagoenses porque sem o apoio da Câmara Municipal também, eu não teria saído daqui. Na altura e no início, tal como depois de 2010, quando eu saí da Câmara, continuei a fazer exatamente o que fazia antes. Por exemplo, as exposições de presépios. E agora, quando chegar em agosto aos EUA, vou comprar as passagens para voltar lá em novembro, para fazer outra vez o presépio da Lagoa, no Portugália Marketplace e na biblioteca da Casa da Saudade. Tenho um presépio com 500 peças e outro com 850 peças. Isso tudo para promover sempre a cultura lagoense, os presépios e os bonequeiros da Lagoa. Portanto, há muita coisa que eu continuo a querer fazer antes que a memória se apague.

Emigrar de penedo p´á América

© DIREITOS RESERVADOS

Depois da missa das cinco e antes das Trindades da manhã, ainda no inverno, os homens e rapazes da nossa vila de Água de Pau começavam a acorrer à Praça Velha, onde todos os dias se procurava e encontrava trabalho nas nossas terras de cultivo, até quase ao cume da serra.

Todas as ruas levavam até lá, confirmando o ditado popular que dizia: «Todos os caminhos da nossa terra vão dar à Praça». Por regra, era assim, durante muitos anos. Poucos se livravam desse destino, a não ser que aprendessem outro ofício, seguissem os estudos – o que era um milagre – ou embarcassem para o Brasil, para a América, para a Argentina ou para Curaçau, à procura da sua sorte.

O José Luís, o «mata-gatas», sonhava acordado com um vapor que passava em frente à Ponta da Galera, a caminho da América. O sonho dele era embarcar «de penedo», pois sempre que passava um daqueles barcos baleeiros, ele subia até à rocha e acenava, esticando-se nas pontas dos pés, às vezes até pulando, para dar nas vistas de quem estivesse no barco, na esperança de o levarem.

Nem que fosse para trabalhar no barco, na faina do óleo da baleia que abastecia os candeeiros que iluminavam as cidades da América, como lhe tinha contado um tio da América ao ti Chico da Helena, a «burrica».

O José Luís não gostava nada de ir para a Praça: «A Senhora dos Anjos me livre do castigo do sacho, da arrematação da praça para ir dar o dia por aqui e por ali nas terras de cada um».

Na escola, um dia, lembra-se ele, o professor pediu uma redação com o tema: O que gostarias de ser quando fores grande? Dos mais astutos da turma, o José Luís pôs-se a pensar, lápis na boca, olhos fixos no teto, a tentar encontrar uma maneira de se livrar da tarefa. Depois de refletir um pouco, retirou o lápis da boca e começou a escrever. Passado algum tempo, já tinha escrito mais de uma dúzia de linhas, o suficiente, pensou ele.

A caligrafia dele era de excelente qualidade, das melhores, se não a melhor de todos os alunos da Escola do Outeiro. O professor costumava usá-lo como exemplo para os outros alunos e até para outra professora da escola em Água de Pau. Pena que o José Luís fosse tão irrequieto, tinha sempre o bicho carpinteiro.

Depois de corrigir as redações, o professor entregou-as de volta aos alunos, mas quando chegou à vez do José Luís, não resistiu e leu a sua redação em voz alta para todos:

«Quando eu for grande, gostava de ser bispo. Diz meu pai que é uma vida rica. Come-se do bom e do melhor e pouco ou nada se faz. O pior é falar latim. Mas o que mais importa é livrar-me da Praça, que é uma lástima de vida. Oxalá que consiga, mas ando cá desconfiado que não vai ser nada fácil, pois os empregos de bispo, e mesmo outros, estão muito escassos. Diz meu pai que são sete cães a um osso. Mas também diz que tudo isto há de acabar, haverá uma reviravolta e, então, desaparecerá do mapa a arrematação do trabalhador na Praça…»

O professor, discretamente, corrigiu alguns erros de pontuação, mas fez questão de sorrir de escantilhão, sem dar muita confiança.

José Luís chegou a casa e mostrou a redação à mãe, a senhora Lurdes Ramela. Depois de ler, ela lançou-lhe um olhar doce, passando-lhe a mão pela cabeça, como que a afagar-lhe o carinho. A irmã Gorete, a «sola-grossa», não dava muita importância à escola e, por isso, olhava com inveja o irmão, com um olhar matreiro.

O Luís «mata-gatas» era inteligente, por isso, ninguém sabia bem por que razão ganhou esse apelido, mas pensava-se que era porque o associaram a um homem da terra, o Luís Fragata, que tinha matado uma ou mais gatas. A corisca da Helena «burrica» foi quem lhe começou a chamar assim, e ficou. Mas, felizmente, o nome não lhe ficou para sempre.

Na verdade, o destino sorriu ao Luís da tia Lurdes Ramela, que, teimosamente, continuava a descer a rua dos Ferreiros, olhando sempre para o mar. Sempre que avistava um barco a atravessar o mar da prata, em frente ao Jubileu e Cerco, corria pela ladeira abaixo da Galera em direção ao seu penedo, na esperança de que o vissem a acenar, como alguém pedindo: «Levem-me!»

Um dia, finalmente, um barco baleeiro americano vindo da ilha do Faial arriou um bote e enviaram alguém para o apanhar e levaram-no para a América! Durante quase dois meses, o Luís trabalhou com outros homens na faina baleeira, transformando a gordura do mamífero em óleo, que ia sendo armazenado nos barris a bordo. O fedor horrível daquela tarefa nunca o derrotou. Quando finalmente os barris estavam cheios, seguiram rumo a New Bedford, o maior porto baleeiro da costa leste dos Estados Unidos.

Ao chegar, com algumas patacas na algibeira que não lhe serviam de nada, pois o trato que fizera para ser levado no barco para a América envolvia integrar-se ao trabalho até o fim da viagem, sem pagamento, apostou num emprego no porto da cidade. Já com alguns dólares no bolso, decidiu escrever uma carta aos pais, que o tinham dado por morto, acreditando que ele tinha desaparecido na apanha de lapas na ponta da Galera.

Um dia, a senhora Maria da Estação dos Correios de Água de Pau mandou o seu filho Rodolfo entregar uma carta da América, enviada por Louis Eye-Gunk (tradução de Ramela) para a tia Lurdes Ramela , que vivia na rua da Boavista [hoje rua do Pico]. Pelo caminho, Rodolfo não tirava os olhos das listras azuis e vermelhas estampadas no envelope.

«Ti Lurdes Ramela, minha mãe arrecebeu essa carta da América pá senhora».

A tia Lurdes Ramela, assim que abriu o envelope e reconheceu a caligrafia bem feita do seu filho, caiu no sofá de vimes, quase desfalecida. «Meu querido Luís, estás vivo, alma de Deus!»

«Querida Nossa Senhora dos Anjos, obrigada minha Santa, vou de promessa na procissão com um molhe de círios às costas. Ah, isso é que vou!»

A filha Gorete, «sola-grossa», comovida, prometeu à mãe que a ajudaria a carregar os círios na procissão do dia 15 de agosto, pois sabia que a mãe nunca conseguiria suportar tal esforço.

«Mamã, o Luís mudou de nome lá na América. Agora chama-se Louis Eye-Gunk. Quando a gente for para a América, achas que vão mudar o meu nome também?»

Gorete olhou para a mãe, mas o pensamento estava nas 500 «dólas» que o irmão mandara. «Estas e mais umas patacas que teu pai foi guardando na algibeira do colchão de folha de toqueiro de milho, a gente vai todos para a América, queres ver, quando o teu irmão arranjar casa para todos nós lá?»

«Vai agora, minha filha, à grota dos cães, chama teu pai que foi dar um dia com o António «chemiado» e diz-lhe que eu mando dizer que ele se vá embora para casa, que me venha ajudar! E continua… Vamos para a América e o «chemiado» que se lixe com o trabalho de escravo dele, na raíz do passo que lhe vazou!»

Anda rapariga e não te esqueças de nada do que te disse para dizeres! Ala-pés!

Esta memória não se apagará

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Roberto Medeiros, neste seu mais recente livro ‘Antes que a memória se apague – Crónicas de Água de Pau, vol. II’, faz plena justiça à sequência que iniciou com o seu primeiro volume, a cujo lançamento também assisti, com o mesmo título, na dimensão da missão que conduz e que produz por escrito: levar o coração, nos meandros da estórias e das histórias, e da História coletiva, da Vila de Água de Pau, a toda a gente e a toda a parte.

Neste livro, que já li, assistimos a uma visão da História menos académica e propriamente científica – mas que procura estabelecer um contrato, um vínculo com os seus leitores por via do contato pessoal, mais atento e estreito com as raízes do espaço e do próprio lugar – Água de Pau – clamando e chamando, inclusive, a valores (maiores) como o amor à terra, a devoção às tradições, num certo regionalismo mais localizado e característico do autor.

Substitui-se o autor, neste caso, a um historiador cientificamente acreditado? Não. Mas também não lhe fica muito atrás. Roberto Medeiros possui a capacidade que muitos historiadores acreditados cientificamente não teriam: tem a confiança do seu povo e da terra que o viu nascer, e isso é-lhe mais do que suficiente.

Tem o povo – de Água de Pau – do seu lado. O povo, esse, que lhe transmite as informações, que o conduz a novas informações, dados e a novas pessoas e registos. Só uma pessoa – tal e qual – poderia assumir e concretizar um trabalho deste tipo – singularmente diferente do académico, mas singularmente único na sua trajetória.

Roberto Medeiros dá um toque que a muitos acreditados historiadores talvez passasse despercebido; um toque mais humano à sua obra, um toque mais oralizante. Roberto Medeiros vai falando connosco neste livro ao longo da sua leitura.

Um toque, não tanto mais pessoal, mas, repito, mais informal, mais humano, mais terreno, e menos celeste e, registo, académico. É um livro de estórias, com história pelo meio, sem dúvida, que merecem, ambas, registo – mas é também um livro que retrata percursos distintos.

Sinto que o Roberto Medeiros quis também homenagear algumas pessoas importantes – de fora e de dentro da sua vida. A História de Água de Pau está repleta de casos de grande pujança e de sucesso coletivo e individual – desde o pai do autor, um verdadeiro arquitecto de sonhos e de projetos, alicerçados em ambições, para a sua Vila, que os herdou o Roberto, igualmente – e que os herdará mais alguém, no futuro.

Ao Roberto, diria, sempre com fidedignidade e de forma genuína, recolhendo os factos com verdade, e os transmitindo de igual modo, que continue o seu trabalho, valorizando as suas gentes, mas, acima de tudo, orientando-se por valores que, hoje em dia, estão em causa: a importância dos outros.

Ainda os há – embora com este autor o contributo já tenha sido substancial nesse sentido – imensos anónimos por desvendar. Imensos desconhecidos que, na contracapa da História, tantos louvores por reconhecer têm, ainda.

Não é só a questão da projeção da Vila – ou da manutenção de um Estatuto de Vila – ou da hereditariedade dos nomes pela História fora, mas a questão fundamental será, sempre, o que ganharão, os outros, como nós, connosco, com a nossa presença e contributo, neste Mundo.

E, sem dúvida, que nós saímos a ganhar com este livro – por vários motivos.

De todos eles, destacaria um: a originalidade.

Roberto Medeiros é original, em primeiro lugar na abordagem direta, pouco difusa, mas informal e genuína, sem rodeios, à História local; em segundo lugar, na aproximação que faz aos factos históricos, uma aproximação sem medos, sem maldade, mas querendo abraçar a todos como seus; em terceiro lugar, na linguagem escrita pouco erudita que utiliza; e, por último, é original porque desvenda um cantinho do Mundo que estava por desvendar.

Esta obra, que recomendo em qualquer prateleira lagoense, é um registo que, creio, perdurará – um registo que fica, e que levará anos, muitas décadas, senão séculos, a ficar devorado pela traça do Tempo – ou esquecido (“valor” atingível apenas para as merecidas grandes obras).

É caso para se dizer: esta memória não se apagará, Roberto.

Água de Pau recebe lançamento de novo livro de Roberto Medeiros

Livro que reune crónicas do autor sobre a vila pauense vai ser apresentado no auditório da Escola Básica Integrada de Água de Pau

© CM LAGOA

O cronista de longa data do Diário da Lagoa, Roberto Medeiros, vai apresentar esta sexta-feira, 30 de maio, pelas 19h00, o livro “Antes Que a Memória Se Apague II – Crónicas de Água de Pau”, no auditório da Escola Básica Integrada de Água de Pau. O lançamento da obra conta com a apresentação a cargo de Aida Batista.

Para o cronista pauense este trata-se de “um registo para memória futura” da vila que o viu crescer. O antigo vereador e autarca da Lagoa, conta que o livro “nasce da vontade profunda de preservar as histórias, as gentes, os lugares e os momentos que moldaram a identidade de Água de Pau ao longo das décadas”.

Roberto Medeiros salienta, ainda, que “num tempo em que a modernidade avança a passos largos e a tradição corre o risco de se perder”, sentiu a urgência de “recolher e partilhar episódios vividos e testemunhos valiosos, para que não se apaguem com o passar dos anos”.

Para o cronista, cada crónica “é uma janela aberta para o passado, uma homenagem à memória coletiva e um contributo para que as gerações vindouras conheçam e valorizem as raízes da sua terra”.

“Este é o meu tributo à história de Água de Pau — contado com alma, emoção e um profundo sentido de responsabilidade. Que estas páginas sirvam como âncora e inspiração, antes que a memória se apague”, assegura e finaliza Roberto Medeiros.

“Não podemos mudar o passado nem o trazer de volta. Só sinto a falta dele!”

Não me lembro dos dias, mas lembro-me dos momentos que passei atrás do balcão da antiga mercearia A Cova da Onça desde o início da década de 1960

Fachada exterior da antiga d´A Cova da Onça em 1960 © DIREITOS RESERVADOS

No meu pensamento, hoje, passeiam-se, como se dum filme se tratasse, as velhinhas da rua do Pico quando desciam à nossa mercearia para fazerem as suas compras. Na maioria vinham de xaile escuro pela cabeça, cobrindo-lhes quase o corpo todo. Só lhes via a fronte, os olhos, o nariz e a boca. Assim que chegavam encostavam-se ao balcão, mas antes de me dizerem ao que vinham, ponham em dia a conversa com as vizinhas do pico de cima, se elas eram do pico de baixo. A Ti Maria dos Anjos Marrenêga, na tarela com a Ti Virgínia Bainêta, a Ti Amélia Rondoa com a Sofia Secalhita, a Tia Rosa Caga-Pregos com a mãe do Saneta, a Ti Gilda Pés-Sujos, com a Ti Lurdes Arrepiada e outras que iam chegando enquanto umas iam saindo. Os apelidos não tinham nada de mal, era e é apenas uma maneira de nos recordarmos de quem estamos a falar, porque na verdade os primeiros nomes se pareciam e o povo usava as alcunhas em vez dos apelidos do nome próprio. Elas sabiam o respeito que eu nutria por todas elas e até me chamavam de “menino Roberto”. Se uma me pedia dezoito vinténs de tabaco-de-cheirar a outra queria uma serrilha de chá preto ou seis vinténs de cloral. Metade de um pão e trinta centavos de queija, dava para o almoço e só custavam uma pataca. Nisso entrava o José Pereira, todo alegre com a mão fechada simulando uma corneta em frente da boca e entoando o instrumento do músico José Elias “pinguinha” da nossa banda Fraternidade Rural. Vinha atazanar a mãe para lhe comprar uma serrilha de cigarros-à-larga S. Luís da Fábrica de Tabaco da Maia. Enquanto isso eu tentava entender o Serafim “gaiafo” que queria “ú li petó”, que depois entendi que o que ele pedia era “um litro de petróleo”, não fosse o João “rachadinho”, o nosso empregado, a fazer-me a tradução.

 

Interior d´A Cova da Onça em 1960 © DIREITOS RESERVADOS

Enquanto isso, uma menina entrou, distraída e absorta, com dezoito vinténs apertados na mão, porque já não se lembra o que foi que a mãe lhe pediu que fosse comprar à antiga Cova da Onça.

Não podemos mudar o passado nem o trazer de volta. Só sinto a falta dele! Sinto falta do comércio tradicional e do tempo em que eu e meus dois irmãozinhos brincávamos, depois da porta fechada, aos “clientes, caixeiros e donos da loja”. Minha irmãzinha Lina era a cliente, Duartinho, um ano mais velho do que ela enchia os pacotinhos de meio e de um quilo de açúcar e eu os pesava na balança. Depois, eu unia superiormente as pontas dos pacotes, dava-lhes duas voltas na vertical e voltava para dentro as duas orelhas que sobressaiam e entregava à cliente. Foi assim que nosso pai, Manuel Egídio de Medeiros nos ensinou enquanto minha mãe que descera de casa à loja, colocava na sua face um sorriso, ao ver-nos, antes de avisar meu pai que se tornava tarde para os meninos irem para a cama, e, ele também.

– “Lia, eu já vou, leva-os que já subo também a seguir.”

Cresci e tornei-me rapaz e homem com meus irmãos mais novos no comércio tradicional na Vila de Água de Pau. Meu pai ensinava-nos que se soubéssemos servir bem um cliente e se ele nos respeitasse e admirasse, da mesma forma a sociedade nos acolheria e respeitaria na nossa vida.

Por isso, “Antes que a Memória se Acabe” registo estes e muitos outros momentos do meu passado num livro de crónicas de Água de Pau.

Talvez 70% ou mais dos que alegam diversos motivos para não comprarem no comércio tradicional, em Ponta Delgada ou nas Freguesias e Vilas rurais de S. Miguel, não sabem, não se lembram ou os pais esqueceram-se de lhes dizer, ensinar ou educar que TODOS os seus pais, avós, bisavós e trisavós foram sustentados, sobreviveram ou não morreram de fome graças ao comerciante, ao merceeiro, loja do canto, ou ao comércio tradicional, como agora se diz.

Tanta gente que agora, nas redes sociais, sabe tão bem escrever, mas não sabe nada nada, do que foi e como foi a vida no tempo em que se comprava fiado para pagar na colheita. Aliás, nem sabem o que é a colheita, pois só conhecem agora as «lindas» pastagens verdes “sem vacas”, porque nem estas já pastam. Mas, disso, nem sabem também porquê?!.

Desde criança, ia eu à “Loja da Preta” em Ponta Delgada, do senhor “Dias” e dos filhos, pela mão de meu pai, não apenas no Natal, para ver os brinquedos, mas muitas vezes durante o ano. Que saudades desse tempo!

 Mercearia Central em 2024 © DIREITOS RESERVADOS

A geração de agora, não tem saudades de nada, porque nada têm, nem sentem, para recordar-se daquele tempo: nem sobre a sua história, infelizmente. De resto, já é tarde demais para corrigir o que está feito, mas possível ainda é educar e ensinar aos mais novinhos que nem sempre a nossa vida e a nossa saúde estão bem e que tempos difíceis pandêmicos acontecem, nem que seja de 100 em 100 anos. Nessa altura é que alguns se interessam em “ouvir ou interrogar-se” como era no tempo quando ocorreu a pandemia anterior? Mas, grande parte das pessoas são irresponsáveis mesmo e não querem saber nem do comércio tradicional nem em proteger-se desta pandemia.

Na primeira década deste século XX, enquanto vereador da cultura e vice-presidente da Câmara Municipal da Lagoa (1990-2009), apresentei em reunião camarária uma proposta para a aquisição da antiga “Mercearia Central” e residência anexa. Por aprovação camarária o concelho de Lagoa passou a ter “O Núcleo da Mercearia Central – Casa Tradicional”, alojado num edifício fundado no século XIX, na Praça da República da Vila de Água de Pau.

No interior há uma exposição que pretende mostrar a atividade comercial do século passado, através da mercearia e da taberna, ambas localizadas no rés-do-chão. No piso superior são evocadas as vivências domésticas de uma família da pequena burguesia local (José Inácio Vieira Favela e Angelina da Conceição Reis), no espaço que foi a sua habitação, que ocupa o primeiro andar e o sótão.

Novo Presépio da Lagoa na Portugalia em Fall River, e outro Açor-Americano na Biblioteca Casa da Saudade em New Bedford

Os anos passam, mas a novidade-vontade de realizar presépios para mim continua, sim, porque em cada Natal tudo se repete e nada é, nem vai ser igual

Presépio da Lagoa na Portugalia Marketplace, em Fall River  © D.R.

Regresso aos Estados Unidos para realizar dois grandes presépios a convite da Portugalia Marketplace. Neste natal de 2024 inaugurará na sua loja em Fall River, no dia 6 de dezembro, pelas 6.00pm, um presépio de tradição lagoense em movimento inovador com nuances diferentes dos anteriores.

Porque a Portugalia Marketplace e toda a família do empresário Fernando Benevides, passada uma década a permitir-me promover e a realizar Presépios da Lagoa para os seus clientes luso e americanos, vai expandir a sua iniciativa e promoverá outro em New Bedford, na Biblioteca da Casa da Saudade. Este segundo presépio, terá também o apoio da Magazine “A Praça” porque Filomena Branco, uma das suas colaboradoras, ofereceu-me, a pedido do seu editor, David Loureiro, uma coletânea de figuras e casas dum magnífico presépio americano.

Assim, no dia 5 de dezembro pelas 5.00pm, a Biblioteca Casa da Saudade abrirá as suas portas ao público para a abertura da exposição de um inédito presépio açor-americano, pois integrará as duas tradições com figuras natalícias dos bonecreiros de Lagoa nos Açores juntamente com figuras e elementos urbanísticos americanos.

Na abertura de ambas as exposições contaremos com a presença do Mayor das respetivas cidades, representantes da Casa dos Açores da Nova Inglaterra, Escolas Portuguesas, Maria Tomasia e o grupo de Idosos da Casa da Saudade, assim como convidados, lagoenses, público da biblioteca e clientes da Portugalia Marketplace, o “ponto de encontro” da comunidade luso e americana.

Presépio na Casa da Saudade elaborado com livros © D.R.

Era uma vez…

O presépio tipicamente açoriano, aquela representação associada com a minha infância e em cuja feitura participei, em criança, com os meus irmãos e familiares, distinguia-se pela extraordinária variedade e curioso aspeto dos mais diversos objetos e primazia em construir o presépio no melhor quarto da casa. Os figurantes, na sua maioria eram simples bonecos de barro. Figuras de feição popular, com mulheres de capote e capelo, e outras de xaile e lenço. Lavadeiras, umas ajoelhadas no jeito de esfregar roupa na pedra, e outras de pé com trouxa na cabeça. Há os artefactos de vimes nas canastras seguras à cabeça de mulheres, dos cestos de trabalho dependurados ao braço dos homens, dos cestinhos de asa na mão das velhinhas, e ainda os seirões de burro mais as sebes das carroças. A olaria tradicional aparece representada em jarras, talhas e infusas, de barro vermelho, as quais são acarretadas à cabeça, ao ombro, ou no braço (com o apoio do quadril), por figuras em trajes regionais. Há igualmente figuras de militares trajando antigas fardas, padres de batina e sobrepeliz, barbeiros e sapateiros, tocadores de viola, rabeca e realejo, namorados e bailarinos, pescadores a pescar sentados sobre pedras e até matadores de porcos, em pleno desempenho do seu ofício.

Uma particularidade que, apesar da longa distância dos anos, nunca se esvaiu da minha memória, é essa de ter ajudado a fazer casas de papelão, com portas e janelas, algumas delas com o seu quintal. Com serradura alinhavam-se ruas e passeios. Moinhos de vento encimavam pequenos montes. Em lagos improvisados (por vezes um alguidar de barro, ou um pedaço de vidro cercado de musgo), flutuavam barquinhos e nadavam patinhos e peixinhos. Tudo isso, e muito mais, ficou estancado no tempo e espaço.

Confesso, sinceramente, que o presépio da minha infância constituiu sempre uma autêntica e enternecedora parada de cenas populares, que ainda hoje recordo com emoção, saudade e me motivam a continuar a fazê-los e a coleciona-los.

Bonecreiro do Rosário, António Morais, autor do presépio e a sua esposa Lurdes © D.R.

Desde que me lembro, desde tenra idade, que gosto de presépios e por isso ansiava pelo dia 25 de dezembro para ir com a minha família, visitar a minha madrinha Maria do Carmo e os primos Vieira na Praça Velha e assim poder ver o presépio deles. Cumpria-se o ritual. Eu é que tocava a campainha estridente da porta, que quando arranhava, o som afugentava ou assustava os mais distraídos, que se cruzavam connosco, no número oito da rua dos Coelhos. Ainda a família se cumprimentava e já eu escapulia para ir ver o presépio dos primos. O primo Quintiliano me fascinava. Era muito habilidoso. Fabricava o seu próprio fogo de artifício para as nossas festas de Natal e passagem de ano, e com a ajuda do filho António Inácio construía todo o presépio. Uma maravilha, autêntica réplica do cenário mais conhecido de Água de Pau, como o Monte Santo e a rua do Pico, a Igreja, o Fontanário e a Praça Nova, o comércio e a agricultura, as pescas e as festas e muitas das cenas do quotidiano rural de outros tempos. Não esquecendo a gruta e as figuras sagradas do presépio, bem entendido. Se olhava respeitoso, essa cena, era já com outros olhos que partia à descoberta dos lugares, dos cenários e das cenas mais diversas que constituíam o presépio deles. A árvore de Natal, as pedras de vermelho negro, dos vulcões, os musgos, as verduras e a serradura dão-me então saudades incríveis de tempos idos. De quando ia buscá-los, com o nosso trabalhador das terras, Tio Zé Raposo Tramela e os meus amigos João e Antero e o primo Victorino, ao Matinho e ao Monte Santo. A serradura ou farelo, para os caminhos, vinha da serragem e da oficina do mestre Antero Amaral. Era um leilão lá em casa, e, de vez em quando, enquanto o presépio não estava pronto, lá íamos atrás do Antero. Saltávamos o muro, que separava a nossa casa da dele, e de corrida, sentávamo-nos no capacho de linho-de-russo da cozinha da senhora Leonilde. Lá vinha a Alice com os bolinhos de Natal que a senhora, sua mãe, tirava do forno para nós. Era uma luxúria. Belo tempo!… pois era…

Cada foto tem a sua história: verdades e consequência

1925, no Porto da Caloura – Sentados no muro: Tio Jacinto Inácio e meu pai Manuel Egídio de Medeiros, de 8 anos, com a Tia Laura e as irmãs. Família e primos Vieira da Praça © DIREITOS RESERVADOS

Cada foto tem a sua história. De todas as fotos que publico — e muitas centenas nunca publiquei ainda —, conheço a sua história e posso contá-la por escrito e/ou oralmente.

Ao longo da minha vida aprendi muito sobre a Vila de Água de Pau, com meu pai e com os nossos familiares, com os primos Vieira, emigrantes (regressados do Manaus, no Brasil) e, em particular, com meu primo António Inácio Vieira.

Aprendi ao longo dos tempos com os nossos antigos sabedores e conhecedores da História da Nossa Terra, como o professor João Ferreira da Silva, os meus professores Luciano da Mota Vieira e Dr. Francisco Carreiro da Costa, bem como com os nossos pioneiros que emigraram para o Canadá e com os que emigraram para viver muitos anos no leste e oeste dos Estados Unidos. Com os que emigraram para o Brasil — memórias incríveis, em fotos que eu trouxe de lá, relatando as suas vidas antes e depois de partirem da nossa Água de Pau. Com as pessoas idosas da elite e do povo que me habituei a ouvir e a devolver com respeito a conversação quando vinham à nossa mercearia «A Cova da Onça» para fazer compras ou para falar com o meu pai. E muitas vezes para pedir-lhe conselhos ou para ser seu avalista nos bancos, assim chegavam desabafando sobre as suas vidas.

Desde criança que ando entre o povo… eu, o meu irmão Duarte e a minha irmã Lina Manuela, que embora criancinhas, já enchíamos pacotes de meio quilo e de um quilo de açúcar na loja de nosso pai enquanto andávamos atentos ao que se passava à nossa volta, pois ele não queria pasmados e insensíveis à sua roda.

Aprendemos a ser e estar despertos para o quotidiano da vida rural, social, cultural e religiosa que girava à nossa volta. Na mercearia éramos, por isso, convidados a todo o momento a conhecer a vida e a história de todos.

O meu pai praticamente participou ou fez parte de tudo o que mexia com a vida desta terra, pois lembro-me que foi vereador na Câmara da Lagoa, presidente da Junta, presidente fundador da Casa do Povo e presidente da filarmónica. Foi, igualmente, um dos fundadores do Santiago F.C., mas já tinha, antes disso, o seu clube dos “Batedores da Onça” que se juntaram aos “Vermelhos” do mestre José Leste, originando o Santiago.

Esteve o meu pai também na comissão das festas e, nesse tempo, fez viagens de angariação de fundos para a construção do Salão Paroquial da Igreja, durante um mês e meio, pelos EUA, Canadá e Bermuda.
Eu ouvia atento e aprendi ainda com as outras pessoas com quem meu pai se relacionava bem da nossa vila ou da Caloura, assim como muitos dos que viveram no tempo do meu pai. Com eles ouvi muito, tive a oportunidade de conhecer a história das fotografias que narram as vidas de muita gente, os seus episódios e consequentemente da nossa terra.

Ainda hoje continuo a falar com o mais idoso de Água de Pau, para me ir passando toda a informação possível que guarda, antes que se perca devido dos seus 101 anos, realizados em 12 de agosto de 2024. Trata-se do senhor Tobias Teixeira, emigrante que saiu da nossa terra para S. Paulo, no Brasil, com a sua família em 1953 e que tem uma memória indescritivelmente fabulosa. Outro exemplo de conhecimento e ricos testemunhos históricos sobre as vivências na nossa Vila de Água de Pau, foram-me passados pela emigrante pauense Amélia Nabinha, em New Bedford, nos EUA, e que infelizmente partiu em 2023 com quase 109 anos.

Gosto de passar o meu tempo a ouvir, a aconselhar-me sobre assuntos da nossa história e as suas gentes. E as questões são colocadas a esta gente toda, devido às centenas de fotos que possuo.

As histórias que eu conto, são todas fundamentadas no conhecimento adquirido com as pessoas, desde os meus tempos de criança. Vamos trocando informações, enquanto registo tudo para divulgar em livro.
Felizmente a memória ainda não me falta e tal como me disse um dia o professor José Hermano de Saraiva, no Cerco da Caloura, quando o levei nos meus ombros, com o seu produtor, para a Ponta da Galera, para ele gravar um segmento histórico para o seu programa de História, na RTP. Estava a debruçar-se sobre as primeiras emigrações para fora desta ilha, em particular para os Estados Unidos, quando comentou, satisfeito, por lhe ter dito uma coisa que ele não sabia. Vejam os humildes grandes homens da história como são! Mas, a seguir ficou chateado comigo, quando começou assim a sua gravação: – “Foi aqui, por esta ponta mais a sul que começou…” Interrompi-o e ele não gostou nada, pois já estava a gravar, fazendo cara de poucos amigos. Todavia, quando expliquei porque não podia começar a falar de Água de Pau com “foi aqui…”, ele ouviu-me e riu-se com a história de “Foi aqui que a Porca Furou o Pico?”. Ele disse-me que devemos defender a história da nossa terra e que as coisas mais importantes devem merecer a nossa atenção primeiro e para se evitar as de menos, mas para não as esconder da história.

É preciso ter cuidado com a publicação de fotos, deve-se respeitar os seus direitos de autor e a sua história. É um dever que temos para com quem as tirou, para quem as cedeu e para com aqueles que as vão ver no futuro.

Assim é que se faz história para todos aprenderem e conhecerem o que devem e merecem. É assim que as fotografias contam a vida e a história de várias gerações da gente da nossa terra.

As fotos antigas podem contar a História da Nossa Terra, como as que foram tiradas por exemplo, por um emigrante que regressou dos EUA em 1870 a Água de Pau. Trouxe a sua máquina Kodak, fabricada em Rochester NY, que depois veio parar à minha família e mais tarde foi-me oferecida com alguns dos seus originais, em vidro e em papel. Mais tarde, investi para as recuperar em Lisboa mas depois foram roubadas por um indivíduo com responsabilidades autárquicas para andarem em revistas e álbuns de fotos sem “tarelo” por mãos impróprias e afastadas da sua história.

Temos de respeitar e dignificar as fotos antigas e históricas. Não se pode mandar para a rua sem se saber a sua história ou apenas colocando uma data inventada!

Dirijo-me aos que gostam de valorizar o património, legado pelo nosso povo através de fotografias.
Obrigado pela vossa paciência se tiverem lido todo o texto. Vou continuar assim, como sempre, para quem tiver paciência de me sofrer.

Encontro “Dos Açores para o mundo”

A “Minha” Escola Básica Integrada de Água de Pau

Reunião para a compra do terreno para a Escola. Presidente Luís Martins Mota e Vice-Presidente Roberto Medeiros na Câmara da Lagoa © D.R.

Sinto orgulho ao ver nas redes sociais a “minha” Escola Básica Integrada de Água de Pau associada a atividades escolares, culturais, desportivas e pedagógicas com sucesso.

Há diversos lugares panorâmicos na nossa Vila onde podemos ver completamente todos os edifícios que constituem as diversas valências, com a sua moderna arquitetura, localizada entre a ribeira dos Moinhos e a rua do Foral Novo com ligação à Caloura.

A sua integração na urbe pauense valoriza e eleva a Vila para um patamar superior no espaço e na qualidade de ensino.

De quando em vez recordo os meandros da construção daquela escola e dou por mim a recordar-me que quando o engenheiro Luís Martins Mota me convidou para formar equipa com ele para nos candidatarmos à Câmara Municipal de Lagoa, em eleições autárquicas a 17 de dezembro de 1989, entre os motivos que aceitei o desafio estava a minha proposta de se construir uma Escola Básica Integrada na Vila de Água de Pau. Ele aceitou, e, eu tinha um terreno apontado e acordo firmado da venda pelo proprietário.

Eleitos nas listas do Partido Socialista, o presidente Luís Martins Mota e eu (vice-presidente), deslocamo-nos a uma Secretaria Regional para reunir com o Secretário das Obras Públicas, Américo Natalino Viveiros. Com ele deixamos um pedido elaborado, com planta de localização do terreno e memória descritiva da necessidade que a Vila de Água de Pau tinha de uma nova escola. O Secretário disse que ia mandar fazer um levantamento topográfico do terreno e um parecer técnico sobre a viabilidade de construção no mesmo.

Três meses depois, por ausência do presidente da Câmara, estava eu como presidente em exercício, quando recebi uma carta do senhor Secretário das Obras Públicas, inviabilizando a escola por o terreno não ter as condições exigidas para a construção duma escola. Não esperei pela vinda do presidente e eu próprio respondi-lhe que não aceitava o argumento que inviabilizava a construção e que acreditava eu que quando mudasse o Secretário das Obras Públicas, a escola iria se construir.

Decorria o nosso segundo mandato na Câmara de Lagoa, quando o presidente do Governo Regional, Dr. João Bosco Mota Amaral, do PSD, se demite. Nas eleições legislativas seguintes, Carlos César, pelo PS, sucede-lhe e muda o Secretário das Obras Públicas.

A partir daí volto a insistir com outro pedido de viabilidade de construção para a Escola de Água de Pau. Martins Mota e eu insistimos com Carlos César que coloca o assunto numa lista de prioridades. Entretanto, fui mantendo o compromisso de venda do terreno para a escola com o proprietário, senhor José Amaral (Trajana). José Contente, o novo Secretário Regional responde afirmativamente e a construção da escola começa a ser uma possibilidade, porque nos enviou um anteprojeto. Realizaram-se reuniões entre técnicos das Obras Públicas, conselho diretivo, professores, técnicos da CML, contando com a minha presença incondicional em todas as reuniões.

O projeto moldou-se conforme as solicitações e exigências do ensino até que parou a dada altura.

Soubemos, eu e o meu presidente Martins Mota, que se o Governo comprasse o terreno, o investimento na escola só ocorreria cinco anos depois. Levei algum tempo a insistir com Martins Mota para ser a Câmara a adquirir o terreno para que o governo pudesse então calendarizar a construção da escola num próximo orçamento da Região. Martins Mota anuiu, mas tivemos que esperar mais um ano e quando tivemos dinheiro, chamamos a viúva e os filhos do proprietário, já que o marido havia falecido. E fizemos a escritura de compra do terreno, numa cerimónia que decorreu na Junta de Freguesia da Vila de Água de Pau.

Passados 15 anos, já em 2004, o presidente Luís Martins Mota deixa a Câmara Municipal de Lagoa. João Ponte assume a presidência em sua substituição e comigo vence um próximo mandato. Continuam a verificar-se reuniões para atualização do projeto da escola, até que em determinada altura, depois de tanta insistência minha, em 2007, o Secretário Álamo de Meneses leva o projeto a reunião de Governo e o mesmo é contemplado com orçamento e inicia-se a obra.

Ainda acompanhei a obra na sua fase de construção, sempre tirando fotografias. No entanto, no fim de 2009, já 20 anos depois [1990-2009], deixei a Câmara Municipal de Lagoa e o presidente João Ponte é que assiste à conclusão e preside com Carlos César à inauguração da nova escola.

Para a inauguração da escola não fui convidado, mas não me coibi de aparecer. Decorria a cerimónia, com os habituais discursos de circunstância, no pátio de entrada cheio de entidades, autarcas municipais e de Junta, professores, pais, alunos e eu entrei a meio dos discursos, abri corredor entre os presentes arrastando atrás de mim uma fila de pais e alunos meus convidados. Entrei pela escola dentro, sala por sala. Sentei os alunos com os pais e tirei fotografias. Depois quando estavamos a sair, confrontamo-nos com a comitiva do Governo, da Câmara, da Escola e convidados visitando a escola. Carlos César perguntou-me: – “de onde vens? – Vim inaugurar a minha escola!”, respondi-lhe.

Felicito-me, sinto-me feliz pelo sucesso da “minha” Escola. Realizei uma viagem de intercâmbio cultural aos Estados Unidos com uma delegação de estudantes e professores, organizei um programa cultural com o apoio de patrocinadores americanos, foi uma experiência inesquecível para os docentes e alunos.

Lancei em 2019, no auditório repleto da minha escola, o meu primeiro livro “Antes Que A Memória Se Apague I – Crónicas de Água de Pau” e fui convidado para dar duas aulas na “minha” Escola sobre a História da Vila de Água de Pau.

Sinto-me realizado sempre que me cruzo com alunos nas ruas da minha vila a caminho da “nossa” Escola.

Se a avó Júlia emigrasse, não seria minha avó

Avó Júlia F. Simas e avô Mariano Lima por trás de sua filha Maria Lia e marido Manuel Egídio de Medeiros. Padrinhos: Ernestina e Alexandre Amaral – Rui Barreto Tavares do Canto e Engrácia de Medeiros © D.R.

Dou por mim a recordar a minha avó Julinha, as suas histórias e o tempo alegre da minha infância nas vindimas da casa da Galera, na Caloura da Vila de Água de Pau. Vou abrir uma janela no seu passado, para recordar a história que sua irmã mais nova, a Maria José, me contou sobre ela.

A minha mãe um dia avisou-me que preparasse o carro para ela, eu e meus irmãos irmos à Água D’Alto, sua terra natal, visitar sua tia Maria José, chegada da Califórnia. Tia Maria José emigrara para a Califórnia e de lá fizera carta de chamada aos irmãos Francisco, Manuel, Victorino e à irmã Rosário. Permaneceram em Água D’Alto as duas irmãs Júlia e a Maria de Jesus. Foi só em setembro de 1973 que a irmã Maria José regressou, pela primeira vez, à ilha de S. Miguel, desde que a deixara. Ela prometera regressar à Água D’Alto para abraçar Maria de Jesus, a sua única irmã ainda viva.

Naquele ano de 1973, eu tirara a carta de condução e dirigi o nosso Volkswagen até à porta da casa da tia Maria de Jesus, irmã da avó Júlia, falecida alguns anos antes. A sensação com que fiquei na altura foi que titia Maria José mostrou seu afeto por sua sobrinha Maria Lia, mas minha mãe demonstrou ainda maior alegria por a ver e abraçar. Desde criança, ouvíamos minha mãe falar com saudade, de seus tios e tias. Sempre gostei de ouvir histórias antigas da nossa família, e por isso, aproximei-me da tia Maria José da Califórnia, pedindo-lhe que me contasse a sua história de emigrante, pois fora a primeira dos irmãos a chegar à Califórnia. O seu semblante mudou, o sorriso desapareceu e em seu lugar a sua face enrijeceu e desagradada com o meu interesse, afastou-se. Envergonhado e sem perceber o que dissera que a deixara zangada, livrei-me do ambiente e fui para o balcão no exterior da casa esperar que terminasse a visita. Na hora de regressarmos a casa, nem me aproximei da tia Maria José para me despedir. Ela não gosta de mim, pensei. Mas ela veio ter comigo, puxou-me e disse-me, baixinho: “- Vou partir daqui a cinco dias, na terça-feira à tarde. Vem amanhã pelas nove horas e conto-te a história que querias saber.” E, nisso, agarrou-me e deu-me um beijo na face. No outro dia, sentados no balcão, em frente à porta do quintal, a tia Maria José avisou-me que me contaria a sua história, mas que não a poderia contar antes dela partir para a América. Prometi e só, anos mais tarde, pude contar o segredo que me confiou.

Na primeira metade do século XX, minha avó Júlia, e os seus seis irmãos viviam com os pais, Flora de Jesus Rego Quintanilha e Francisco Furtado Simas, numa casa da rua da Cruz, em Água D’Alto. Júlia namorava um rapaz da terra chamado José que ambicionava emigrar para a América, nem que fosse num barco baleeiro. De tronco robusto e mãos calejadas do rude trabalho nas terras da freguesia, meteu-se num desses barcos baleeiros que na torna viagem da faina nas ilhas do ocidente, passou em São Miguel. Júlia ficou vendo passar os dias, esperando notícias. Se tivesse sucesso, conseguisse trabalho e casa na Califórnia, José viria casar à ilha e levá-la para a América. O tempo foi passando e Júlia não tinha notícias de José. Na verdade, só escreveu a Júlia quase um ano depois, mas esta nunca receberia nem a primeira nem as cartas seguintes. Embora tardias, as que iam chegando, a irmã Maria José, a responsável da casa por ir aos correios levantar a correspondência, não as entregou à Júlia. A demora de José em escrever explica-se dado a América estar a recuperar da “depressão económica” e ele, nesses tempos difíceis, não ter encontrado trabalho. Um dia, sem forças e com fome, desfaleceu e caiu à entrada dum “farm” de. O proprietário recolheu-o, e deu-lhe trabalho. Alguns meses depois, já com trabalho e casa onde ficar, tratou de escrever a Júlia várias cartas que nunca tiveram resposta. Passaram-se alguns anos e, entretanto, Júlia sem notícias, pensara que José, ou tinha morrido ou casado na Califórnia. Apareceu então Mariano de Lima, emigrante nas Bermudas, de regresso a Água D’Alto que lhe pediu namoro, e, depois, casamento. Júlia aceitou. Maria José escreve a José para a Califórnia dando conta de que Júlia, sua irmã, se tinha casado, mas que ele não ficasse triste, porque na verdade quem sempre mais gostara dele fora ela – a Maria José. José fica desiludido, mas, atribui ao destino o facto de não poder casar com Júlia. Por isso, depois de pensar algum tempo, decidiu mandar buscar Maria José para a Califórnia. Com ela se casou e teve cinco filhas.

Júlia acreditou em Maria José quando esta lhe disse que José desistira dela, até porque agora já pensava apenas no seu Mariano de Lima. Júlia Furtado Simas e Mariano de Lima, meus avós, tiveram dois filhos, Victorino Furtado Lima e Maria Lia Lima, minha mãe. No início de 1950, meus avós mudaram-se de Água D’Alto para uma propriedade com casa na Galera, em Água de Pau. Foi aí que meu pai conheceu minha mãe, e se casaram a 30 de novembro desse ano.

No início de 1990, Mabel e Adelina, duas das filhas de tia Maria José vêm de Kerman (Fresno), Califórnia, à ilha para conhecerem os primos em São Miguel. Por coincidência, o táxi que as trazia do aeroporto, parou na frente do nosso supermercado A Cova da Onça. Depararam com minha mãe e perguntaram-lhe se sabia onde vivia sua prima Maria Lia, porque traziam indicação para perguntar por ela, em Água de Pau. Adivinhem a alegria deste reencontro!

Todos, primos e primas, recordamos a história, que lhes contei apenas, depois da tia avó Maria José Furtado Simas ter falecido. Todos estamos felizes porque, se assim não tivesse acontecido, não estaríamos cá para a contar.