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Entre séries, silêncios e selfies

Octávio Lima
Professor

Há quarenta anos que frequento ginásios. Nos quatro de que fui sócio-cliente, tive o privilégio de conhecer e conviver com muita gente. Sendo os ginásios pequenos ecossistemas sociais, observei padrões humanos que se repetem em praticamente todos, de Penafiel a Espinho, passando por Gaia.

Conheci os disciplinados — pontuais, metódicos, fieis ao plano e ao registo de cargas, séries e tempos; os sazonais, que na primavera emergem ofegantes, decididos a resgatar em três meses o que definhou em nove; e os sociais, exímios na arte da loquacidade. E também aqueles que, pela sua postura e sorriso franco, irradiam harmonia.

Nos últimos anos, os ginásios multiplicaram-se por todo o lado, impulsionados por investimentos significativos e por uma modernização visível nas instalações e nos equipamentos. Esta expansão trouxe maior profissionalização em vários aspetos, mas também abriu espaço para comportamentos que, há duas décadas, seriam pouco comuns ou quase impercetíveis.

Um dos mais frequentes é o uso de auscultadores. Nunca sei se servem como estímulo para o treino ou como forma de criar uma barreira social. Outro comportamento, igualmente habitual, é o de permanecer longos minutos sentado numa máquina, com o telemóvel na mão, ocupando o equipamento sem efetivamente treinar. Há ainda um terceiro, menos comum mas sempre notório: o de quem solta gemidos ou grunhidos durante o levantamento de halteres e os deixa cair no chão com estrondo.

Já nem comento os que entram mudos e saem calados, como se carregassem um mal estar permanente consigo, com os outros e com o mundo — exceto, claro, com o seu ego sempre intacto. Também deixo de lado os que fazem alvoroço à porta do balneário, alimentando uma espécie de tribo informal que parece estar em aquecimento para a aula de grupo. E pouco acrescento sobre os que, depois do treino e do duche, se plantam diante do espelho para registar em selfies a sua mais recente façanha.

Dispenso igualmente alongar-me sobre certas cenas que se tornaram banais: monitores que se espraiam em longas conversas com alguns clientes, enquanto outros parecem ter dificuldade em cumprimentar quem quer que seja — a não ser quando há a possibilidade de angariar mais umas séries de treinos orientados.

Omito, igualmente, a música reproduzida a partir de plataformas digitais, cuja versão gratuita impõe uma cadência publicitária tão frequente quanto irritante.

Os ginásios tornaram-se, de facto, um microcosmo fiel da nossa sociedade tão proclamadamente evoluída.

Recados para dar

Beatriz Moreira da Silva

Popular d’censura e repreensão,
d’sonhos de insígnias por lembrança;
Palavras de frustração, dor e ilusão;
para quem nunca pediu permissão.

D’solução haveria um caderninho,
para espremerem a podre língua d’tanta frustração;
Algo por dizer não exige silêncio,
de liberdade não se fazem recados mal denunciados.

D’incapacidade de equilibrar malogro,
calai-vos ou recorram ao caderninho esponjoso;
Abortem-se nas próprias palavras,
que d’revés outrora vos salve abraço caloroso.

Ainda há recados para dar?