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Miopia Infantil: Um problema que não pode ser ignorado

Tiago Fernandes
Especialista em Oftalmologia
no Hospital CUF Açores

Caro leitor, se o seu filho tem mostrado dificuldades em focar objetos distantes, como o quadro da escola ou a televisão, ou se tem começado a semicerrar os olhos para ver objetos que antes observava com clareza, este artigo foi escrito para si.

A miopia é um erro refrativo, ou seja, uma condição ocular onde a imagem não é corretamente focada na retina, a camada interna do olho responsável pela visão de detalhes, fazendo com que as crianças com miopia tenham dificuldades em ver objetos distantes com clareza, mas que a visão de objetos próximos seja, normalmente, nítida.

A miopia ocorre quando o olho é demasiado longo ou quando o poder de focagem do olho, exercido pela córnea (a camada transparente na frente do olho) e pelo cristalino (a lente natural do olho), é excessivo. Este fenómeno faz com que a imagem seja focada no plano à frente da retina, causando dificuldades de visão à distância.

Tal como muitas outras condições, a miopia resulta da conjugação entre fatores genéticos e ambientais. A prevalência da miopia é especialmente elevada na Ásia, o que indica uma forte predisposição genética. Contudo, fatores ambientais também são determinantes, e um dos principais fatores ambientais é o tempo reduzido que as crianças passam ao ar livre. Neste sentido, um estudo mostrou que as crianças que passam entre 10 a 14 horas por semana ao ar livre têm menor risco de desenvolver miopia, mesmo que apresentem outros fatores de risco, como o uso excessivo de dispositivos de perto ou histórico familiar de miopia.

Embora a relação entre o uso de dispositivos digitais e o desenvolvimento da miopia seja ainda debatida, está comprovado que o tempo excessivo em atividades de perto (como o uso de telas) contribui para o seu aumento e progressão.

Nos últimos anos, a consciencialização sobre a necessidade de controlar a progressão da miopia tem aumentado, uma vez que cada vez mais crianças estão a desenvolver miopia cada vez mais cedo. Importa dizer que esta doença não se limita à dificuldade em ver ao longe; a sua progressão pode levar a complicações graves, como descolamento de retina, glaucoma e catarata, que podem causar perda irreversível da visão. Além dos custos médicos com consultas e tratamentos, a miopia tem um impacto significativo na qualidade de vida e na produtividade laboral.

A correção óptica da miopia pode ser feita com óculos e lentes de contacto. Embora a cirurgia refrativa seja uma opção para adultos com graduação estável, a sua aplicação em crianças é controversa, sendo indicada apenas em casos de miopia elevada e quando outras formas de correção não são viáveis. Entretanto, novas abordagens terapêuticas têm surgido, não apenas para corrigir a visão, mas também para retardar a progressão da miopia, nomeadamente as lentes de óculos e lentes de contacto com desfoque periférico, uso de gotas com atropina diluída ou então ortoqueratologia. Acresce que, em alguns casos, pode ser necessário combinar tratamentos para, em conjunto com algumas mudanças de comportamento, potencializar os resultados.

Cada criança é única e o tratamento da miopia deve ser adaptado às suas necessidades específicas. Consultar um oftalmologista é fundamental para obter uma orientação adequada. Proteger a visão do seu filho é essencial para o seu desenvolvimento e bem-estar. Quanto mais cedo a miopia for diagnosticada e tratada, melhores serão as perspetivas para a saúde ocular no futuro.

Se suspeitar que o seu filho possa estar a sofrer de miopia, não hesite em procurar ajuda médica. Um diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para garantir a saúde ocular e evitar complicações a longo prazo.