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Quando a decisão é morrer em casa no Fim de Vida…

Margarida Pinheiro
Enfermeira

Os Cuidados Paliativos são um conjunto de ações e cuidados que visam proporcionar conforto, dignidade e bem-estar ao doente e sua família em qualquer fase de uma doença grave e incurável.

O foco está no alívio do sofrimento e da qualidade de vida.

Os cuidados Paliativos devem ou precisam ser compreendidos como uma Política Pública e se integrar a todos os níveis de complexidade da saúde.

Devem ser uma grande aposta para garantir um serviço de 24 horas, que permita uma assistência atempada para quem decide morrer em casa com dignidade junto dos seus familiares sem sofrimento.

Enquanto não existirem acordos entre os Cuidados Paliativos e as equipas de Cuidados Domiciliários de cada Concelho, numa modalidade de avançarem para aliviar o sofrimento vão continuar a morrer em casa com sofrimento.

Infelizmente tive uma experiência recente, em que os Cuidados Paliativos dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) estão sujeitos a um horário restrito, por escassez de recursos humanos, nomeadamente médicos, enfermeiros entre outros. Quando encerra os Paliativos dos CSP, a alternativa é contatar os Paliativos do Hospital. E contatei, mas a resposta foi transportar o familiar para a urgência do Hospital para o doente, em fase terminal, ser avaliado.

Mas a opção foi morrer em casa junto da sua família com dignidade, mas sem sofrimento. E o doente decide, mais uma vez, não ser transportado para a urgência.

E os momentos finais surgiram fora do horário, dos Cuidados Paliativos nos Cuidados de Saúde Primários, sim porque não existe apoio direto 24 horas, no domicílio.

A decisão do doente foi morrer em casa com os familiares, com muita dignidade, mas em sofrimento porque a tal oferta de suporte direto não existiu por não se enquadrar no horário estipulado.

A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos está disponível para colaborar com os decisores políticos. Tem que ser o mais célere possível porque tratam-se de Vidas Humanas que na fase final das suas Vidas têm o direito adquirido de falecer com assistência digna e tranquila junto dos seus familiares, com o possível conforto para uma partida serena e sem sofrimento.

Pedro Paulo Câmara: O gosto pela leitura e a paixão pela escrita

Professor, investigador e escritor, Pedro Paulo Câmara é movido pelo gosto da leitura e pela paixão pela escrita. Natural da freguesia dos Ginetes, em São Miguel, e nascido a 9 de agosto de 1980, concilia a vida profissional com uma rotina movida por uma energia inesgotável

Pedro Paulo Câmara tem se dedicado a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues © CLIFE BOTELHO

Com partida dos Ginetes, Pedro Paulo Câmara veio ao nosso encontro na cidade da Lagoa. A disponibilidade reflete o seu compromisso com a preservação do património cultural, onde se dedica a resgatar o legado de autores esquecidos, como Armando Côrtes-Rodrigues. O escritor argumenta que é um trabalho para “fazer justiça” à história e para garantir que a memória seja preservada.
Ao Diário da Lagoa (DL) começa por revelar que o seu interesse pela leitura e escrita começou na infância, inspirado em revistas que a sua avó recebia em casa, como a Reader’s Digest, e, principalmente, num baú de papéis antigos que um dia encontrou no granel da família. Aprofundou o gosto pela escrita na adolescência e na universidade, mas só publicou o seu primeiro livro aos 31 anos, após um período que considerou essencial para o seu amadurecimento. “Não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo.”, afirma.
Através de sua tese de mestrado, Pedro Paulo Câmara dedicou-se a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues, escritor do século XX que, segundo ele, estava “garantidamente escondido”. A investigação resultou na publicação da obra Violante de Cysneiros: o outro lado do espelho de Côrtes-Rodrigues.
A paixão é o que impulsiona a sua intensa rotina e, ao nosso jornal, confessa que dorme poucas horas, pois o seu cérebro está sempre a criar novas ideias. Costuma organizar a cabeça durante a sua viagem de 30 quilómetros para o trabalho e no regresso a casa, que considera “altamente terapêutica”.
Influenciado pela sua dedicação ao escutismo, confessa: “Não tenho muitos medos e gosto de novos desafios”.

DL: Como se apresenta quando está fora da ilha?
Quando me perguntam de onde é que eu venho, eu digo sempre que venho dos Açores, antes de dizer de Portugal. Eu sinto que isso alimenta a magia e a curiosidade das pessoas. Sou um açoriano de corpo e alma, em permanente construção. Tenho dentro de mim a tranquilidade da lagoa das Sete Cidades e a energia da Ferraria.

DL: Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos. O amadurecimento é crucial para um escritor?
Eu acho que não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo. No meu caso, precisei de um período de amadurecimento e ainda preciso. Sou um autor em permanente construção. Se me perguntar se o meu primeiro livro é o meu melhor, claro que não é, mas foi o mais importante. Foi o que me deu a coragem de enfrentar o público e um possível “não” de um editor.

DL: Uma parte do seu trabalho centra-se na investigação de autores açorianos. Porquê?
É uma forma de fazer justiça. A única forma de sobreviver à morte é mantermo-nos vivos na memória dos outros. Autores como Armando Côrtes-Rodrigues estiveram, de facto, desaparecidos. O meu trabalho é trazer esse legado para a modernidade. Eu quis tirar a sua produção literária do obscurantismo e revelá-la ao público, como fiz com Violante Cysneiros: Obra reunida, ou, como ainda recentemente aconteceu com Armando Côrtes-Rodrigues, Obra Dramática Dispersa, que reúne textos dramáticos inéditos do autor.

DL: Já sabemos que tem uma rotina intensa. De onde vem toda essa energia?
A massa que produz tudo isso é a paixão. É a única possível. Sou profundamente apaixonado por tudo aquilo que eu faço. A única forma de eu conseguir descansar é anotando as ideias que surgem à noite, para que não fiquem a remoer na cabeça.

DL: Hoje em dia estamos ligados às novas tecnologias. De que forma afeta aquilo que é? Eu acho que tudo deve ser colocado em perspetiva. Na década de 80 e 90, o facto de não ter tecnologias não me afetou em nada. Hoje, para dar aulas, produzir livros, estar em contacto com o mundo e fazer investigação, o computador e o telemóvel são vitais. Uso-os como um aliado. Divulgo o meu trabalho através das redes sociais, que também são um bom instrumento. Tento não ser dependente, mas nem sempre é exequível. Muitas vezes, estamos de forma irrefletida a fazer scroll ou perdidos numa quantidade de reels. Lembro-me do meu primeiro telemóvel e do meu primeiro computador, mas, também, da minha máquina de escrever. A verdade é que só tive uma máquina de escrever quando fui para a universidade e o computador no segundo ano. Nos meus primeiros trabalhos do secundário usávamos decalques com papel vegetal. Atualmente, para os trabalhos do ensino básico, já se usam três mil estratégias distintas, desde um PowerPoint a um Prezi. Muitas coisas mudaram, mas gostei de ter vivido naquela altura sem estes acessos todos. Fez-me desenvolver competências importantes.

DL: E isso reflete-se na sua escrita, por exemplo?
Sim, sem margem para dúvidas. A minha escrita reflete a minha forma de ver o mundo.

DL: Escreve com caneta ou com teclado?
Prefiro escrever com caneta, num caderno, quando é prosa ou poesia. Para investigação, com muitas obras em PDF e bibliografia aberta, escrevo no teclado.

DL: Como vê a relação dos jovens com a leitura hoje em dia?
Uma grande parte dos meus alunos tem uma quase antipatia natural pela leitura e leem, apenas, as obras a que estão obrigados e que o Programa apresenta. Eu acredito que a responsabilidade de incentivar a leitura não é só da escola, mas da família. Muitas vezes, um aluno abandona a leitura porque o livro obrigatório não lhe interessa e ainda não descobriu o seu género ou o autor que o faça apaixonar pela leitura.

DL: Enquanto houver leitores há esperança? Qual a sua mensagem para quem se preocupa com a cultura?
Sim, “enquanto houver leitores, há esperança”. Os autores estão a fazer por isso e eu sou um deles.

“Cristo ressuscitou! Aleluia!”

Padre André Furtado

Meus queridos irmãos e irmãs,

Esta é a noite mais santa, mais luminosa, mais cheia de esperança de todo o ano! Esta é a noite em que o impossível aconteceu: Cristo venceu a morte! Esta é a noite em que a luz rompeu a escuridão, a vida triunfou sobre o túmulo, e a alegria brotou do silêncio da cruz.
Cristo ressuscitou! Aleluia!

Depois do silêncio pesado da Sexta-feira, depois da dor do Sábado da espera, chega o Domingo antecipado na esperança desta Vigília. A pedra foi removida. O túmulo está vazio. Onde está, ó morte, a tua vitória? O nosso Deus não ficou preso na morte. 

ELE VIVE! E COM ELE, NASCE UMA NOVA HUMANIDADE.

O que celebramos hoje não é apenas um momento bonito da nossa fé, é o seu coração palpitante. A ressurreição não é só um final feliz – é um novo começo, uma página em branco repleta de promessas. Deus surpreende-nos, mais uma vez, com a sua criatividade divina: transforma a cruz em trono, a morte em passagem, o túmulo em berço de vida nova!

Nesta noite, começámos no escuro. A Igreja mergulhada em silêncio, como o mundo sem Deus. Mas eis que se acende o fogo novo! A chama da esperança! A luz entra na igreja com o círio pascal – Cristo, luz do mundo – e nós, pouco a pouco, vamo-nos acendendo uns aos outros. Que imagem tão bela da fé! A luz de Cristo não se guarda – partilha-se, multiplica-se, espalha-se!

Hoje ouvimos a grande história da salvação: Deus nunca desistiu de nós. Nunca! Desde o início da criação, passando pelos patriarcas, pelos profetas, pelos vales e desertos da história… o amor de Deus foi sempre mais forte do que o nosso pecado.
E culmina nesta noite: Jesus Cristo entrega-se totalmente e, com Ele, recebemos o dom da vida eterna!

Mas atenção, irmãos: a ressurreição não é uma recordação do passado, é um convite para o presente. Há quem viva como se Cristo ainda estivesse no túmulo. Há quem ande preso ao medo, ao ressentimento, à tristeza, à culpa. Mas esta noite diz-nos que não estamos sozinhos! A luz venceu. A esperança tem a última palavra.

Hoje somos chamados a levar esta luz ao mundo! A mostrar que vale a pena viver com fé, com amor, com coragem. A testemunhar que a morte não manda em nós. Que a rotina não nos adormece. Que a última palavra é sempre de Deus – e a Sua palavra é Vida!

Queridos irmãos e irmãs, nesta noite renovamos o nosso batismo, recordamos que morremos com Cristo para ressuscitar com Ele. Deixemos para trás a vida velha, o egoísmo, a indiferença, a tristeza. Hoje começa uma nova vida! Uma vida com Cristo, em Cristo, por Cristo. Que esta noite nos transforme! Que a alegria da ressurreição penetre no mais fundo do nosso ser. Que as nossas feridas se deixem tocar pela luz do Ressuscitado. Que saiamos daqui com o coração a arder e os lábios a proclamar: 

Cristo vive! Cristo ressuscitou! Aleluia! Aleluia!

Uma Santa e Feliz Páscoa.

Rezai por mim.

O pão artesanal da Massa Mãe Açores é o novo desafio de Catarina Correia

Neta de quem passou muitos anos na cozinha, Catarina Correia só há dois anos descobriu o bichinho da padaria depois de vinte e dois anos ligada ao setor do turismo

Catarina Correia, após 22 anos a trabalhar na área do turismo, decidiu mudar de vida © ACÁCIO MATEUS

Se existem pessoas com uma história de vida cuja atividade profissional muda da noite para o dia e sem qualquer ponto em comum, Catarina Correia é uma delas. Depois de vinte e dois anos a trabalhar no setor do turismo nas mais várias diversas funções (outgoing, incoming, comercial e hotelaria, chefe de reservas e organizadora de eventos), chegou o dia em que decidiu colocar um ponto final e iniciar uma nova vida como padeira.

A transição não encontra qualquer ponto em comum mas deu-se de uma forma simples. “Mudei de vida devido a dois fatores: saúde e cansaço. O turismo é uma área extremamente interessante e apelativa, mas também muito cansativa e stressante porque é tudo para ontem. Ponderei a decisão durante alguns anos, mas chegou a altura que tinha de tomar uma decisão”, explicou.

“Sem saber bem o que ia fazer a seguir, despedi-me. Só sabia que queria trabalhar em algo completamente diferente. Numa primeira fase ajudei uns amigos num bar vegetariano e, depois, quando soube que a Massa Mãe Açores estava à procura de uma pessoa, arrisquei. E assim surgiu a ‘Xuxu Padeira’, que é o meu nickname”, acrescentou.

Apesar de não ter experiência na área, aprender um novo ofício nem foi complicado. “Já tinha algum conhecimento empírico que se aprende no seio familiar, principalmente o que aprendi com uma avó que fazia o seu pão de milho em casa e por uma tia-avó que era uma excelente pasteleira”.

Provavelmente já com o ‘bichinho’ dentro de si, mas sem saber que estava lá, Catarina Correia esboçou um sorriso rasgado: “Passei muitos momentos na cozinha, à volta da mesa, a ver maravilhas deliciosas aparecerem quase do nada. Farinha, açúcar, ovos et voilá: pão, massa sovada, coscorões, biscoitos estavam na mesa”, recordou.

Mulher de espírito livre, desprendida e frontal, Catarina Correia não vê neste emprego um trabalho para a vida porque, explicou, ainda tem sonhos por concretizar. “Adoro o que faço, mas não perco de vista a criação de um negócio próprio. Neste momento, além da padaria, dedico-me a outros prazeres como a jardinagem, outros fermentados ou a criação de peças de presépio”.

O que é a Massa Mãe Açores?

© ACÁCIO MATEUS

A Massa Mãe Açores é uma padaria artesanal que se diferencia das demais por “produzir pão de massa mãe, mais conhecido como sourdough. A massa mãe é o que usamos como fermento e consiste apenas em água e farinha. Através de um conjunto de bactérias e leveduras naturais fazem o pão levedar. Não leva qualquer adição de químicos e para além de ser um pão de elevada qualidade e mais saudável, também é de maior durabilidade”.

Todo o processo obedece ao conceito de fermentação lenta, ou seja, “o pão é feito com massa mãe e é refrigerado durante cerca de dezasseis horas a uma temperatura específica, levedando naturalmente e adquirindo um gosto ligeiramente azedo”, explicou Catarina Correia.

Quem é Catarina Correia?

Natural de Ponta Delgada, Catarina Correia estudou até ao 12.º ano na escola secundária das Laranjeiras, mas “a Matemática pregou-me uma partida”, graceja. Assim sendo, optou por “tirar um curso técnico-profissional de Turismo na antiga escola da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada” e foi essa formação que a colocou num avião para a cidade de Bremen, na Alemanha, onde realizou o estágio na companhia de mais sete colegas.

Quando regressou a São Miguel começou a trabalhar numa agência de viagens e depois dessa ainda passou por mais oito empresas diferentes, todas elas ligadas ao setor do turismo, fazendo também uma perninha na promoção do Destino Açores em feiras.

Não é sobre a viagem que fazemos, é sobre a forma como viajamos

Júlio Tavares Oliveira

Já, por vezes, nos questionámos, tantas vezes, em casa ou no café, ou mesmo ao relento na nossa cama, sobre o sentido «de tudo isto» – sobre as tantas vezes, mesmo, que errámos redondamente, sobre as mesmas tentativas falhadas, as inúmeras chamadas não atendidas, as mensagens ignoradas ou as relações falhadas; as mesmas ilusões sobre sonhos degradados; as mesmas dispendiosas desilusões amorosas sobre as mesmíssimas paixões atípicas não correspondidas.

Já, por vezes, com certeza, e ainda bem, nos questionámos, com angústia e desamparo, sobre a pessoa que amamos, e que se casou, no fim, com outro alguém – do porquê de tudo isto assim, sem conserto ou afeto; sobre aquele jogo que perdemos no último minuto da partida; sobre o penalti falhado ao poste; sobre o prato que caiu das nossas mãos e que se partiu no chão em mil bocados; sobre um mau dia no trabalho… Sobre tudo o que de mau (nos) acontece, e que sempre (nos) acontece só a nós.

Com certeza, caros leitores, e amigos, já vocês se questionaram, inúmeras e inúmeras vezes, sobre o propósito de estarmos todos aqui – juntos – a contar e a descontar os dias para um só dia: o da nossa morte.

Da minha curtíssima, e tangencial, vida – no meu recato de “estar” e de “ser” – apenas posso explicar e ecoar, discretamente, o som de outros que, como eu, e vocês, se preocuparam com estas questões e que, sobre elas, escreveram e pensaram.

Da minha vista ainda bem «curta» sobre estas coisas, posso dizer-vos abertamente que a vida, ainda que injusta, por vezes, tende a ser um quadro magnífico, e belíssimo, se encarado pela perspetiva mais bem enquadrada – ou mais certa. É como o magnífico ensinamento que nos convoca, sempre, a «dançar na chuva», reciclando, ou reaproveitando, uma circunstância difícil ou inglória e fazendo, dela, uma belíssima chance de criação magnífica e proporcionalmente bela.

Talvez o mais belo, tal como o vivemos, seja, hoje, tão menosprezado, seja tão mal-encarado como um fardo pesado, um mistério sem fim, um dom, uma tristeza deambulante, ou um meio sem princípio ou fim seguros e sem fio condutor que não seja senão intermitente; porque, apesar de estarmos todos corridos de destino e carregados de uma energia, boa ou má, e cheios de tempestades, e incógnitas sobre o nosso futuro ou de pensamento, lembremo-nos que a vida é uma breve passagem – e que a passagem é flexível e maleável às nossas próprias percepções e à forma como, pessoalmente, encaramos a própria viagem que fazemos.

A vida, em suma, é sempre uma pequena viagem pessoal que temos de fazer sozinhos – mas não é sobre a viagem da vida que vos escrevi aqui (cada um, aliás, tem a sua própria viagem a fazer, e todos somos diferentes e em alturas diferentes da nossa vida, também). É, antes, sobre como viajamos: se com excesso de bagagem, se sem. Se com medo, se sem. Se com confiança, se sem. Se com esperança, se sem. Se olhando a paisagem, e aproveitando o que o caminho nos dá, fruindo a beleza das coisas, se sem.

A vida é mais, muito mais, sobre como escolhemos viver – e se escolhemos, de facto, viver; é mais sobre as forma como estamos e encaramos a mesma. É uma escolha que tem de partir só de nós e não de mais ninguém.

A viagem poderá ser dura – por vezes turbulenta ou, quiçá, longa, demasiado alongada ou triste na demanda, ou procura, de um lugar verdadeiramente feliz. A viagem até poderá ser inglória, e, na tua cabeça, sem qualquer sentido. Nesse momento, confia no poder (e na responsabilidade que aloca uma oportunidade) que te foi dado: o poder da escolha. De escolheres, não a tua vida, mas a forma como a queres encarar.

A vida que vence a morte

© D.R.

“A morte e a vida travaram um admirável combate: depois de morto, vive e reina o Autor da vida.” Assim canta um hino litúrgico da Páscoa, a festa maior do calendário cristão e aquela que mais vai ao âmago da nossa fé. De uma vez só tratamos da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus.

Albert Camus, em o Homem Revoltado, afirmava que Cristo resolveu dois problemas principais: o mal e a morte, dois problemas tão evidentes no nosso pequeno grande mundo. Por isso, a Páscoa que nos preparamos para celebrar, não é uma coisa de 20 séculos mas algo muito presente no nosso quotidiano.

A entrada de Jesus em Jerusalém, vindo de Betânia, assinala o ínicio do caminho de Jesus até à Cruz, momento alto do tempo que vamos viver até domingo.

Jesus chega a Jerusalém sentado num jumento, um burro, que nem cavalo é, aclamado como um rei e de, repente todos aqueles que faziam parte do grupo dos mais importantes começaram a ficar incomodados com este rei que dizia coisas que os punha em causa, a eles e às estruturas e costumes que representavam. Arranjar pretexto para o mandarem prender era tudo o que mais queriam e não seria difícil porque tinham poder, poder que nunca ou raramente transformaram em serviço. E na cidade, as vozes corriam tão velozes quanto naqueles tempos as redes funcionavam: de um lado estavam todos os que se entusiasmavam com Jesus, que fazia o bem por onde passava, como nos lembra o evangelista. Do outro, os que lhe queriam mal por inveja e ciúme do amor que dele e dos seus gestos transbordavam.

A história é sempre a mesma. Ou quase sempre. Esta, apenas é diferente no essencial: a confiança e o amor.

Enquanto os rumores circulavam, Jesus reuniu os seus e antecipando um último gesto, que queria que se perpetuasse para sempre, juntou-os à mesa lugar de toda a intimidade de uma família ou de gente que se quer bem; mas antes lavou-lhes os pés, num ato de humildade que ainda hoje é motivo de escândalo. O rei, viajava num jumento e lavava os pés aos discípulos, para que eles, tal como Ele lhes fez, o fizessem também a outros. É por demais evidente que os senhores do tempo não gostaram da inversão de valores e arranjaram maneira de o prender e de o silenciar, embora nem sequer os que pugnavam pela justiça dos homens encontrassem nele culpa. Diante das injúrias e das calúnias nunca levantou a voz nem foi sobranceiro. Aceitou tudo porque sabia que o seu reino não era deste mundo. E quando foi condenado, carregou a cruz diante daqueles que o tinham aclamado e agora o apedrejavam com palavras e impropérios. No caminho, até ao calvário, cruzou-se com várias pessoas, algumas delas que se compadeceram; outras ficaram indiferentes e outras houve que o ajudaram a levantar-se. A força maior que o acompanhava era a confiança no Pai, mesmo quando lhe pediu para afastar de si o cálice amargo de uma espécie de derrota, que Ele que se fez humano por amor aos homens experimentou ou quando deitou gritou aquele pensamento lancinante de abandono dirigido certeiramente ao Pai: “porque me abandonaste?”.

Foram apenas momentos, como a nossa fé é feita de momentos que juntos fazem um todo, um caminho de dúvidas e de contradições; de zangas e de amuos; de infidelidades e traições, mas sabendo que o amor Dele é sempre maior.

É esta confiança que alimenta a vida cristã; é ela que nos devolve a esperança porque nos sentimos muito amados por Deus. E, esta sexta-feira, a mais santa de todas, quando olharmos para a cruz e descobrimos nela este amor maior que é muito mais do que um aconchego ou um consolo, perceberemos que também nós temos a suprema graça de poder servir, de poder amar e de poder partilhar a nossa e as cruzes dos que nos são próximos levando-lhes esta esperança.

A Páscoa é isto. Hoje e sempre. A vitória da cruz, não como sofrimento mas como lugar de amor.

Não nos cansemos de chorar, de rir e de amar.

Santa Páscoa para todos.