
Octávio Lima
Professor
Os céus têm aparecido, cada vez com mais frequência, rasgados por longos rastos brancos cruzados e paralelos. Não são rastos de aviões normais porque demoram bastante tempo a dissipar-se. São ‘chemtrails’ (rastos químicos), nome vulgar para a pulverização de aerossóis por aviões especiais no âmbito de programas de geoengenharia com vista a tentar controlar o clima.
Lançado na 2ª Guerra Mundial com a semeadura de núvens, este tipo de programas tem sido mantido em segredo. JF Kennedy, na Assembleia Geral das Nações Unidades de 25 de setembro de 1961, levantava um pouco a ponta do véu: “Senhoras e Senhores, vamos propor o aprofundamento da colaboração com todas as nações no sentido da previsão do tempo e, depois, no controlo do clima”. Em 1966, um estudo da NASA lançava as bases do Programa Nacional Para a Modificação Climática.
Há anos que, sob um aparente manto de secretismo, se pulverizam os céus com substâncias para provocar a chuva e o contrário – para reduzir a precipitação ou para dissipar frentes de chuva.

Em fevereiro de 2012, os media britânicos referiam que cientistas climáticos, subsidiados por alguns bilionários, pressionavam governos e organismos internacionais para apoiar experiências de manipulação do clima a uma escala global para combater mudanças climáticas catastróficas.
Contrariando este entusiasmo, Al Gore admitia, em maio de 2013, que a geoengenharia era uma solução “desesperada e pateta assumida por cientistas sérios”, acrescentando que criar uma cortina para bloquear os raios de sol para minimizar os efeitos do aquecimento global iria provocar desequilíbrios imponderáveis, quiçá desastrosos.
Apesar disso, o quinto relatório do grupo intergovernamental de especialistas sobre as alterações climáticas sugeria a manutenção das tecnologias de geoengenharia na gestão da radiação solar porque, se elas fossem suspensas, as temperaturas da superfície do globo terrestre aumentariam muito depressa.
Soube-se, entretanto, que investigadores da Universidade de Coimbra desenvolviam um estudo para a Força Aérea dos EUA sobre o impacto da exposição a nanopartículas de prata na saúde humana. A notícia não esclarecia por que razão não era um ministério da Saúde mas a Força Aérea dos EUA a promover esta investigação, que aliás estava também a ser feita na Universidade do Missouri.
Josefina Fraile, da Terra SOS-Tenible, sublinha: “Os programas de manipulação climática existem há mais de 60 anos. São uma arma de guerra: foram utilizadados para prolongar, no Vietname, a época das monções em 150 dias, para provocar um dilúvio e inundar a estrada para Hoshimin e bloquear todo o tipo de abastecimento aos resistentes anti-americanos. A destruição foi tal que esta tecnologia foi proibida, para fins bélicos, pelas Nações Unidas em 1976.”
James Haywood, professor de ciências atmosféricas na Universidade de Exeter, argumenta que colocar grandes quantidades de enxofre na atmosfera é susceptível de aumentar a precipitação de Inverno no Norte da Europa e reduzi-la no Sul da Europa, particularmente em Espanha e Portugal. Haywood sublinha que neste momento “não há governo, não há governança” da geoengenharia e que não conhece nenhum governo a propor regulamentos.
Por isso, há cada vez mais cientistas a propôr um acordo internacional para a não utilização da geoengenharia solar. Para eles, estas tecnologias são arriscadas, antidemocráticas e ineficazes: “Primeiro, os riscos da geoengenharia solar são ainda pouco estudados, compreendidos e conhecidos. Os impactos podem variar de região para região e os seus efeitos sobre o clima, a agricultura e as necessidades de água são imponderáveis. Segundo, a introdução de tecnologias de geoengenharia solar em larga escala pode fornecer um forte argumento aos lobistas da indústria, aos negacionistas do clima e a alguns governos para adiar o desenvolvimento de políticas ambiciosas de descarbonização. Terceiro, o sistema de governação global é atualmente incapaz de concretizar um acordo político de âmbito e ambição suficientes para controlar a implementação da geoengenharia solar de uma forma justa, inclusiva e eficaz. Dados os baixos custos de algumas destas tecnologias, existe o risco de os países mais poderosos se envolverem unilateralmente na geoengenharia solar ou em pequenas coligações, mesmo que a maioria dos países se oponha a tal implementação.”
Sugerem, por isso, algumas medidas a incluir nessa eventual moratória: “proibir as agências nacionais de financiamento de apoiar o desenvolvimento de tecnologias de geoengenharia solar; proibir os testes ao ar livre de tecnologias de geoengenharia solar em áreas sob a sua jurisdição; não conceder patentes para tecnologias de geoengenharia solar; não utilizar tecnologias de geoengenharia solar desenvolvidas por terceiros; opôr-se à institucionalização da geoengenharia solar global como instrumento de política climática nas instituições internacionais relevantes, incluindo nas avaliações do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas.”
Em Portugal, quase ninguém parece olhar para os céus, alheando-se de questões tão candentes como esta. Em finais de 2017, quatro mil portugueses apresentaram ao Parlamento uma petição sobre os ‘chemtrails’, mas a maioria dos deputados não pareceram informados, interessados e motivados para debater o tema. Quedaram-se em superficialidades, saudando a iniciativa dos peticionários que defendiam que os rastos deixados no céu pelos aviões são de químicos e não de vapor de água condensado e que não há evidências científicas sobre este tema. O título do Diário de Notícias de 27 de outubro de 2017 não poderia ter sido mais eloquente: “Em seis minutos o Parlamento falou de ‘chemtrails’”.
Comentários
Obg pelo antigo . Existe forma de comunicacao sobre “estes” temas noutro ambiente um pouco mais seguro? Jorge paz saude
Pena que ano e meio depois desta crónica continua tudo na mesma, ou pior... Mas bem haja pelo artigo.
Devemos alertar o máximo possível de pessoas que passam a vida a olhar para o chão em vez de vêrem o que lhes vai pôr cima da cabeça