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Biblioteca Tomaz Borba Vieira: quatro anos de vida

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“Tesouros dos remédios da Alma” era a inscrição que podia ler-se na primeira biblioteca fundada em Tebas, no Egipto. São palavras que remetem-nos para um dos benefícios associados às bibliotecas: o de vitalizar e engrandecer o espírito, e o de curar a alma.

Nos 5316 anos que distam aquela inscrição dos dias de hoje, muita tinta correu na história das bibliotecas, a que não é alheia a evolução da própria escrita e dos suportes utilizados, ou o aparecimento da imprensa, para citar apenas alguns exemplos. De uma forma muito genérica pode dizer-se que na Idade Média há uma continuidade do conceito de bibliotecas da Antiguidade: assemelhavam-se mais a arquivos e centros de documentação, conotados a espaços sacralizados e de acesso restrito, o que se reflectia na própria arquitectura: com entrada pelo interior, as bibliotecas abriam-se para os de dentro. Recorro às palavras de Wilson Martins que nos diz que “as sandálias macias do monge medieval repetiam no eco das abóbadas, o mesmo som ancestral dos sacerdotes sumerianos da biblioteca de Assurbanipal”. A bem da história, há que abrir uns parênteses para aludir à excepção no caso da Antiga Grécia, que as utilizavam como espaços para discutir ideias entre letrados, e aos Romanos, que criaram as primeiras bibliotecas públicas, disponibilizando o acervo para empréstimo. Com a criação das bibliotecas universitárias, já no fim da época medieval, e com o Renascimento, há uma nova forma de gerir e administrar estes espaços, podendo dizer-se que desde então conheceram quatro características marcantes: a laicização, a democratização, a especialização e a socialização. Tornam-se espaços de livre acesso, de consulta e empréstimo gratuito, dinâmicas, difusoras de saberes e incubadoras de iniciativas educativas, sociais, culturais e recreativas.

Tudo isso que acima escrevi, Umberto Eco disse-o de uma forma mais sucinta (e bonita), proferindo que as bibliotecas têm vindo a tornar-se à medida do Homem.

No mês desta crónica, a Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira faz quatro anos de vida. Foram 39751 as pessoas que usufruíram dos seus serviços ao longo deste tempo. Almejando tornar este espaço municipal numa força viva para a educação, cultura e informação, como recomenda a Unesco, procurou-se que a linha de atuação tivesse um cunho pedagógico com vista a promover essencialmente a leitura, as artes, a história e identidade local.

Esta biblioteca encontra-se sediada num antigo espaço conventual, mas, aproveitando-me da deixa do excerto supra transcrito, não são os passos dos monges que têm ecoado nas salas desta biblioteca. Os que ecoam e que ficarão no seu repositório de memórias (e no da comunidade, queremos crer) são os dos escritores, artistas plásticos, músicos, bailarinos e fotógrafos. Há também os passos das famílias, sobretudo quando os sábados são pensados para este público, dos grupos escolares, dos que vêm motivados por iniciativas de índole formativa nas mais diversas áreas. Dos alunos do 3º ciclo e ensino secundário que descobrem, fora destas portas, o património edificado e paisagístico do seu concelho, ou dos seniores que sentem a biblioteca mais próxima, quando esta vai ao seu encontro. No seu álbum de memórias, há o eco dos passos noturnos daqueles que vêm para uma noite de poesia, ou das duas dezenas de crianças que, uma vez por ano, munidas dos seus sacos-camas, vivem uma noite de histórias e aventuras, enquanto percorrem as estantes de livros com as suas lanternas. Em abril, época da Feira do Livro, têm sido inúmeros os que pisam o chão deste espaço, seja para ver uma exposição biográfica e discográfica dedicada a Zeca Afonso, seja para captar a essência da “ilha” vista pela objetiva dos que a fotografam, ou para viajar numa “Volta ao mundo em 80 fotos”. Mais recentemente, foram mais de um milhar os que se dirigiram ao Convento dos Franciscanos para ver uma exposição, organizada em jeito de homenagem, dedicada àquele que foi responsável por uma das maiores revoluções literárias na história lusitana, o nosso poeta e filósofo Antero de Quental.

Nos corredores desta biblioteca ainda ecoa a sonoridade, tão peculiar e emotiva, dos romeiros de Santa Cruz, vindos a propósito de uma tertúlia, ou, mais recentemente, os passos do balho do Pézinho da Vila no âmbito de uma oficina de folclore dinamizada pelo grupo “O Grujola”.

Depois há os passos mais assíduos dos que vêm usufruir das novas tecnologias, e outros, feitos de repouso e silêncio, que percorrem as estantes da biblioteca em busca de um livro.

Valho-me das palavras de Umberto Eco que nos disse que “a função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes (…) Tentemos transformá-la num universo à medida do homem e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre (…) isto é uma biblioteca onde apeteça ir, e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina dos tempos livres”.

Teresa Viveiros

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