
Partimos à descoberta do concelho do Nordeste, com a nossa equipa de reportagem partindo da premissa de que os leitores do Diário da Lagoa (DL) também devem conhecer a realidade fora da localidade do jornal.
Ao chegar à vila do Nordeste, logo à entrada, na Estrada Regional, deparamo-nos com a Casa de Trabalho do Nordeste onde decidimos parar para conhecer o interior do edifício.
Connosco levamos um folheto turístico do concelho no qual ficamos a saber que a referida casa foi fundada em 1954 e que, “além de outras atividades, dedica-se à tecelagem e ao bordado”. Já noutro folheto que encontramos dentro do próprio edifício, ficamos a saber que foi fundada por Maria do Carmo Pacheco Monte, “conjuntamente com outras senhoras” e que acolhia crianças do sexo feminino.

Nas paredes há fotografias a preto e branco de Maria do Carmo. Conta-se a história onde se lê que a fundadora nasceu na ilha das Flores, onde viveu com os pais, tendo-se fixado muito mais tarde no Nordeste, aos 28 anos de idade, porque o seu pai, faroleiro, veio para o Farol do Arnel no concelho. “Dona Maria” faleceu a 22 de junho de 1996 mas deixou um legado que pode ser apreciado na Casa de Trabalho do Nordeste.
O artesanato feito no local produz o traje regional usado nas danças de folclore, o bordado de São Miguel, as mantas regionais, a tapeçaria e as colchas tecidas nos teares. Nas salas pudemos observar o trabalho das artesãs e fomos apresentados à responsável pela equipa de artesãs.

Fátima Leite, 44 anos, está na Casa de Trabalho há oito anos. Antes de si, já a sua tia, Filomena Abrantes, tinha trabalhado uma vida inteira na casa. Fátima conta que a tia “veio para cá com apenas três meses de idade” e com o passar dos anos “sabia o artesanato todo de trás para a frente”.
Considera que o trabalho feito no tear é valorizado sendo muito importante porque se trata de “uma forma de manter a cultura”. Ao DL diz que, enquanto está no tear, não pensa em mais nada, porque fica “concentrada no desenho e passa o dia a contar”. É como se fosse uma meditação, confessa.
“Aqui fazemos os trajes folclóricos para homem e para mulher, típicos da ilha em geral, feitos aqui no Nordeste. Eu destino o serviço às minhas colegas e trabalho em qualquer um dos teares. Tudo o que sei, aprendi aqui nestes oito anos com a senhora Zélia Raposo”, conta.
“Por exemplo, chego aqui de manhã e venho fazer uma saia rica, a cor rosa é as Hortênsias e o azul é o mar. Dá muito trabalho, eu para fazer uma saia levo um mês. São três metros e isto tem que ser tudo puxado, pois isto são saias puxadas”, explica enquanto vai demonstrando no tear como se faz.

Questionada sobre o que está a criar no tear, explica que se trata precisamente de uma saia e esta já tem como destino o Canadá, país do qual recebem muitos pedidos de encomendas dos emigrantes, pois “são quem mais dá valor” ao artesanato micaelense produzido pela casa. O chamado “mercado da saudade” valoriza e aposta no que se faz na ilha, e o Nordeste não é exceção.
“Eles veem cá ver os nossos trabalhos e escolhem as cores” e fazem a encomenda, diz Fátima. Enquanto perguntamos se ainda há quem queira aprender a trabalhar com o tear, responde: “hoje em dia não há muita gente que queira aprender”, lamenta.
Na sala dos teares trabalham três artesãs. Na sala dos bordados tem “duas costureiras e quatro bordadeiras”. Mas Fátima diz que o mais difícil é o tear.
A lã que usam, essa vem da ilha de Santa Maria e o tratamento é feito na própria casa. Fátima resume o processo: “lavar a lã, abrir, cardar e afiar”.
Durante a conversa com o DL, procuramos saber se ainda há quem tenha teares em casa pela vila nordestense. Segundo a artesã, a sua avó e uma tia ainda têm um em casa, o que “ocupa praticamente um quarto” e que é comum um pouco por todo o concelho.

Já Fátima Cabral, 58 anos, está na casa desde os quatro anos e diz que sabe trabalhar com todos os teares, exceto o dos “puxados”. Ao DL diz que gosta do que faz e que já viu “muita gente” passar pelo espaço. Lamenta que desde a pandemia, as visitas de turistas tenham diminuído, já que antes “vinha muita gente”. “Agora é mais de verão”, remata a responsável pela equipa que acompanha a visita.
Gabriela Rego, na sala das bordadeiras, diz que tirou o curso em 1993 e explica que para se começar tem que se passar pelo curso e que tem colaborado com a casa desde então porque gosta do que faz. “Há sempre muito trabalho”, conta.
Deixamo-nos passear pelo espaço, as Fátimas mostraram-nos como funcionam os teares e pudemos, ainda, observar as costureiras e bordadeiras numa arte que nos remete para outros tempos, no edifício preservada.

Como forma passar o testemunho da tradição, em 2022 foi lançado o primeiro workshop de tecelagem coordenado pela Casa de Trabalho do Nordeste. Teve na sua planificação as técnicas de preparação da lã, a fiação, a tinturaria, o tear, a teia no tear, a tecelagem de vários tecidos, tais como, colchas, mantas, toalhas, tapetes, sacos, tiras, almofadas, fazendas para fato, saias e aventais regionais, e, por fim, o arremate e confeção dos tecidos.
Este ano, será mais longo, sendo que irá decorrer de 27 de março a 6 de abril, e vai incidir no aperfeiçoamento do trabalho no tear.
O workshop insere-se no Plano de Ação da câmara do Nordeste, no âmbito da Carta Europeia de Turismo Sustentável das Terras do Priolo e trata-se de uma parceria da autarquia com a Santa Casa da Misericórdia do concelho.
O artesanato na Casa de Trabalho do Nordeste pode ser observado de segunda a sexta-feira, das 8 às 12 horas e das 13 às 17 horas tendo entrada livre.
Clife Botelho
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