
Paulo Borges
Padre
Em 1223, três anos antes de morrer, S. Francisco de Assis, pela primeira vez na história, encena o Presépio, inspirado nos “Evangelhos da Infância”.
O seu vocábulo provém do latim “praesepium” e significa estábulo, portanto, curral onde se guardavam animais, mas em sentido religioso, indica o lugar do nascimento de Jesus.
É curioso verificar que a palavra “ética” tem, na sua raiz, o mesmo sentido de presépio, ou seja, estrebaria, estábulo, toca e, por associação, albergue de homens. Com Aristóteles, o termo “ethos” adquire o significado de “hábito”, “costume”.
Nesta ordem de ideias e transposto para o plano humano, o conceito adquire o seu significado atual: lugar próprio do homem, que ele habita (morada), a sua interioridade, o lugar onde brotam os atos. (Isabel e Michael Renaud, «Ética e Moral», in Bioética).
Ao aproximar os dois conceitos, – presépio e ética – desejo evidenciar o que mais enobrece a vida humana e proponho o neologismo “PRESÉTICO”, onde as suas gravuras transluzem a família humana despida de seguranças, em humilde e sábia simplicidade.
Se por um lado, Frederico Lourenço, na bela introdução aos Quatro Evangelhos, afirma: “apesar de terem sido escritos num grego despretensioso, de terem sido lidos, copiados à mão durante séculos e depois impressos milhões de vezes, ao longo de dois milénios, estes textos mudaram a vida de um número incontável de pessoas e sobre os quais, falta-nos saber, quase tudo”. Por outro, a banalização ou a ocultação dos presépios escondem e, simultaneamente, revelam as ideologias patentes nas mentalidades dos homens e mulheres de todos os tempos.
Todavia, o presépio realiza, em miniatura, o que foi a revelação da vida pública de Jesus: O “Deus connosco” acampa onde menos se espera e faz família com quem não é do seu sangue. Os pastores, que viviam nas margens da sociedade, são os primeiros a receber a boa notícia e a chegar ao presépio. Os Magos passam por Jerusalém, mas a estrela desloca-os para a periferia, à procura do Messias Jesus, significando que se trata não de um fenómeno astronómico, mas teológico. Jesus, com Maria e José, depois da viagem pelo Egipto, regressam para Nazaré e lá vivem cerca de 30 anos, quase no absoluto anonimato, no meio de toda a gente.
Acredite-se ou não em Deus, o Natal é tempo de mais humanidade; quiçá, despertar mentes e consciências para, antes de decidir qualquer coisa, ter presente a ética que conduza ao diálogo ponderado e a resoluções respeitosas do bem-comum.
O Presépio é a Parábola de Deus, sempre em aberto, no meio da humanidade.
Comentários
Sempre as palavras sábias deste excelente ser humano. Que servem de reflexão para esta época tão bonita. Bem haja.