
Natural de Angola, Sónia Nicolau vive atualmente em Ponta Delgada e é licenciada em Matemática e Informática e professora em Água de Pau, no concelho da Lagoa. Descreve-se como alguém simples que gosta de ver a sua “felicidade refletida no outro”. Nasceu a 30 de março de 1974, “25 dias antes da liberdade” e afirma, com convicção, que a 10 de dezembro de 2024 voltou “a ser livre” quando decidiu desvincular-se do Partido Socialista. Hoje, é presidente do movimento Ponta Delgada Para Todos.
DL: Estamos no Jardim António Borges, lugar marcante na sua infância. Teve uma infância feliz? De que modo esta fase da sua vida influencia os valores que leva para o movimento Ponta Delgada Para Todos?
Foi uma infância muito feliz, mas difícil, porque a minha família era pobre. Via neste espaço, o Jardim António Borges, um lugar de descoberta. As circunstâncias financeiras da minha família não me permitiam visitar outros locais fora da ilha. Este jardim era o meu espaço de férias, de acreditar, de exploração e de liberdade. É um local que foi cedido às pessoas e, por isso, sempre me identifiquei com ele. Trouxe comigo estes valores para o movimento, porque, acima de tudo, Ponta Delgada para Todos é um espaço de pessoas que também são livres, com total liberdade para dizerem o que pensam e apresentarem as suas soluções, com o objetivo de servir melhor os outros e o concelho de Ponta Delgada. Esta nova forma de fazer política, assente na proximidade e na resolução dos problemas das pessoas, foi o que quis trazer para o movimento. Clareza, liberdade, transparência, prestação de contas e servir o outro são os seus principais objetivos.
DL: Como é que nasce o movimento Ponta Delgada para Todos?
O movimento começa comigo e com mais seis pessoas, numa sala da Junta de Freguesia da Fajã de Baixo. Tenho um percurso político anterior de mais de vinte anos no Partido Socialista, mas entendi que o meu nome e o meu papel enquanto militante não estavam a ser dignificados e que a minha forma de pensar mais livre estava a ser condicionada. Sentia-me desrespeitada. As lideranças do Partido Socialista não identificaram em mim as qualidades necessárias para que fosse candidata à Câmara Municipal de Ponta Delgada. No dia 10 de dezembro de 2024, tomei um ato de libertação e decidi que a vida política, para mim, tinha acabado. No fim de semana seguinte, fui convidada a criar um movimento independente, através de uma carta aberta publicada por um conjunto de pessoas, e aceitei o desafio. Sou muito grata por me terem despertado.
DL: Sentiu que havia uma força do seu lado?
Havia e ainda há, porque essa força mantém-se. Toda a comunicação, por exemplo, é feita por voluntários e nada do que fazemos teria a dinâmica e a expressão que tem sem essa comunicação genuína. No início, fomos explicando, de porta em porta, o que era o movimento e porque era diferente dos outros partidos. Foram vários sábados a recolher assinaturas e a conquistar força. Lembro-me sempre de um episódio que nos marcou até hoje, quando um senhor me disse: “Eu vou votar em si porque os outros passaram por aqui, mas a senhora ficou.”
DL: Quando criou o movimento, acreditou que ia conseguir?
Eu acreditava, mesmo quando me diziam que o movimento não iria eleger nenhum vereador. Sou muito realista, com os pés bem assentes na terra, e conheço Ponta Delgada. Costumo dizer que não é preciso haver uma festa ou um evento social para que eu visite uma freguesia, eu estou lá porque gosto, e esta política de proximidade dá-me maior responsabilidade. As pessoas foram-se aproximando, o movimento foi crescendo, e eu dizia sempre aos mais próximos: “Acreditem, porque eu acredito”.
DL: Numa altura em que a política está cada vez mais bipolarizada, acredita que o movimento pode ser uma esperança para unir ideias distintas?
Eu sei que o movimento Ponta Delgada para Todos é a esperança de que os cidadãos precisam em Ponta Delgada. Digo-o pela convicção e pelos valores que trouxe para dentro do movimento, mas também pelas pessoas com quem falo diariamente. No nosso movimento, temos pessoas oriundas de diversos partidos e outras sem filiação partidária. Esta é a riqueza da humanidade: sermos capazes de estar na mesma sala, com ideologias diferentes, mas com o objetivo comum de melhorar Ponta Delgada e as condições de vida dos seus habitantes. Fazemos questão de demonstrar que não estamos contra os partidos ou as suas ideologias, mas sim a favor de soluções que melhorem a vida das pessoas. Os cidadãos veem nisso uma esperança e sabem fazer a sua avaliação final. Se tivermos cidadãos manipulados por diferentes forças políticas, não vamos construir um futuro. O futuro está na capacidade que as pessoas têm de ser críticas, mesmo que não votem em nós.
DL: Teve a experiência de fazer parte de um partido e agora está num movimento. Sente que esta experiência é mais autêntica? Acha que todos os partidos deveriam ser assim?
Eu sempre fui muito autêntica, mas também muito rebelde no Partido Socialista. Sempre disse tudo o que pensava. Nunca me foi dito que não podia ter a minha opinião, mas sentia o peso do desconforto de quem ouvia as minhas intervenções. No caso do movimento Ponta Delgada para Todos, o que posso dizer que há de diferente é que as pessoas têm todas o mesmo nível de intervenção. As decisões são coletivas e o cidadão está mais próximo e sente-se parte do movimento. Para nós, as pessoas não são objetos, nem são chamadas apenas para a campanha eleitoral ou para encher listas. Elas fazem parte. Acredito que é preciso mostrar que o movimento Ponta Delgada para Todos não começa nem termina em mim. Precisamos de olhar para os partidos, não como estruturas verticais, mas horizontais, onde as pessoas sabem que estão a ser ouvidas. Uma pessoa com capacidade de liderança não a perde por ter os melhores perto de si. Muito pelo contrário.
DL: Qual é o balanço que faz dos quatro meses de atividade de Ponta Delgada para Todos?
O movimento faz um balanço extremamente positivo, não porque seja bonito de dizer, mas porque é a realidade. Conseguimos que a Câmara Municipal de Ponta Delgada começasse a prestar contas das suas deliberações nas reuniões de Câmara, algo que nunca tinha sido feito. É uma das nossas grandes vitórias. Começámos também a visitar as freguesias uma vez por mês e já vemos outras forças políticas a fazê-lo com a mesma proximidade que nós. Acho que isso é um sinal de que estamos a fazer um bom trabalho.
DL: Acredita na possibilidade de começarem a nascer mais movimentos inspirados no Ponta Delgada para Todos?
Eu penso que sim porque as pessoas começam a não ter medo de se exporem, o que interpreto como mais uma das nossas conquistas. As pessoas vêm ter connosco, apresentam as suas situações e sentem que existe espaço para uma maior liberdade.
DL: Considera que começar pela oposição é uma escola para o futuro, ao permitir um contacto mais direto com os problemas e com as pessoas? Está preparada para essa responsabilidade?
Eu considero-me uma pessoa humilde, mas também tenho certeza do meu potencial e da minha força de liderança. Tenho a certeza de que, se tivéssemos ganho as eleições, Ponta Delgada teria começado uma nova forma de gerir as pessoas, os espaços públicos e os processos de decisão. Mas ficámos na oposição, o que também é um trabalho importante. Vamos apresentando as nossas propostas e aprendendo. Acredito que nada acontece por acaso e, se o movimento decidir voltar a candidatar-se daqui a três anos, tenho a plena convicção de que Ponta Delgada terá uma presidente do futuro, solidária, humilde e com a capacidade de se colocar no lugar dos outros.
DL: O que é que concelhos vizinhos, como a Lagoa, têm a ganhar com o facto de Ponta Delgada ter agora um movimento?
Eu acho que estão todos a ganhar. Tenho a convicção de que isso extravasa o concelho de Ponta Delgada, porque, se Ponta Delgada cresce, isso influencia todos os outros concelhos, assim como as outras ilhas.
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