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“Para nós, as pessoas não são objetos, nem são chamadas apenas para a campanha eleitoral ou para encher listas”: Sónia Nicolau fala sobre o movimento independente Ponta Delgada para Todos

Após mais de duas décadas dedicada ao Partido Socialista, Sónia Nicolau tomou, em dezembro de 2024, uma das decisões mais difíceis da sua vida. Entrevistamos a presidente do movimento cívico independente Ponta Delgada para Todos

Sónia Nicolau tem 52 anos e fundou o movimento independente Ponta Delgada para Todos © NOTÍCIAS QUE CONTAM
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Natural de Angola, Sónia Nicolau vive atualmente em Ponta Delgada e é licenciada em Matemática e Informática e professora em Água de Pau, no concelho da Lagoa. Descreve-se como alguém simples que gosta de ver a sua “felicidade refletida no outro”. Nasceu a 30 de março de 1974, “25 dias antes da liberdade” e afirma, com convicção, que a 10 de dezembro de 2024 voltou “a ser livre” quando decidiu desvincular-se do Partido Socialista. Hoje, é presidente do movimento Ponta Delgada Para Todos.

DL: Estamos no Jardim António Borges, lugar marcante na sua infância. Teve uma infância feliz? De que modo esta fase da sua vida influencia os valores que leva para o movimento Ponta Delgada Para Todos?
Foi uma infância muito feliz, mas difícil, porque a minha família era pobre. Via neste espaço, o Jardim António Borges, um lugar de descoberta. As circunstâncias financeiras da minha família não me permitiam visitar outros locais fora da ilha. Este jardim era o meu espaço de férias, de acreditar, de exploração e de liberdade. É um local que foi cedido às pessoas e, por isso, sempre me identifiquei com ele. Trouxe comigo estes valores para o movimento, porque, acima de tudo, Ponta Delgada para Todos é um espaço de pessoas que também são livres, com total liberdade para dizerem o que pensam e apresentarem as suas soluções, com o objetivo de servir melhor os outros e o concelho de Ponta Delgada. Esta nova forma de fazer política, assente na proximidade e na resolução dos problemas das pessoas, foi o que quis trazer para o movimento. Clareza, liberdade, transparência, prestação de contas e servir o outro são os seus principais objetivos. 

DL: Como é que nasce o movimento Ponta Delgada para Todos?
O movimento começa comigo e com mais seis pessoas, numa sala da Junta de Freguesia da Fajã de Baixo. Tenho um percurso político anterior de mais de vinte anos no Partido Socialista, mas entendi que o meu nome e o meu papel enquanto militante não estavam a ser dignificados e que a minha forma de pensar mais livre estava a ser condicionada. Sentia-me desrespeitada. As lideranças do Partido Socialista não identificaram em mim as qualidades necessárias para que fosse candidata à Câmara Municipal de Ponta Delgada.  No dia 10 de dezembro de 2024, tomei um ato de libertação e decidi que a vida política, para mim, tinha acabado. No fim de semana seguinte, fui convidada a criar um movimento independente, através de uma carta aberta publicada por um conjunto de pessoas, e aceitei o desafio. Sou muito grata por me terem despertado. 

DL: Sentiu que havia uma força do seu lado?
Havia e ainda há, porque essa força mantém-se. Toda a comunicação, por exemplo, é feita por voluntários e nada do que fazemos teria a dinâmica e a expressão que tem sem essa comunicação genuína. No início, fomos explicando, de porta em porta, o que era o movimento e porque era diferente dos outros partidos. Foram vários sábados a recolher assinaturas e a conquistar força. Lembro-me sempre de um episódio que nos marcou até hoje, quando um senhor me disse: “Eu vou votar em si porque os outros passaram por aqui, mas a senhora ficou.”

DL: Quando criou o movimento, acreditou que ia conseguir?
Eu acreditava, mesmo quando me diziam que o movimento não iria eleger nenhum vereador. Sou muito realista, com os pés bem assentes na terra, e conheço Ponta Delgada. Costumo dizer que não é preciso haver uma festa ou um evento social para que eu visite uma freguesia, eu estou lá porque gosto, e esta política de proximidade dá-me maior responsabilidade. As pessoas foram-se aproximando, o movimento foi crescendo, e eu dizia sempre aos mais próximos: “Acreditem, porque eu acredito”.

DL: Numa altura em que a política está cada vez mais bipolarizada, acredita que o movimento pode ser uma esperança para unir ideias distintas?
Eu sei que o movimento Ponta Delgada para Todos é a esperança de que os cidadãos precisam em Ponta Delgada. Digo-o pela convicção e pelos valores que trouxe para dentro do movimento, mas também pelas pessoas com quem falo diariamente. No nosso movimento, temos pessoas oriundas de diversos partidos e outras sem filiação partidária. Esta é a riqueza da humanidade: sermos capazes de estar na mesma sala, com ideologias diferentes, mas com o objetivo comum de melhorar Ponta Delgada e as condições de vida dos seus habitantes. Fazemos questão de demonstrar que não estamos contra os partidos ou as suas ideologias, mas sim a favor de soluções que melhorem a vida das pessoas. Os cidadãos veem nisso uma esperança e sabem fazer a sua avaliação final. Se tivermos cidadãos manipulados por diferentes forças políticas, não vamos construir um futuro. O futuro está na capacidade que as pessoas têm de ser críticas, mesmo que não votem em nós.

DL: Teve a experiência de fazer parte de um partido e agora está num movimento. Sente que esta experiência é mais autêntica? Acha que todos os partidos deveriam ser assim?
Eu sempre fui muito autêntica, mas também muito rebelde no Partido Socialista. Sempre disse tudo o que pensava. Nunca me foi dito que não podia ter a minha opinião, mas sentia o peso do desconforto de quem ouvia as minhas intervenções. No caso do movimento Ponta Delgada para Todos, o que posso dizer que há de diferente é que as pessoas têm todas o mesmo nível de intervenção. As decisões são coletivas e o cidadão está mais próximo e sente-se parte do movimento. Para nós, as pessoas não são objetos, nem são chamadas apenas para a campanha eleitoral ou para encher listas. Elas fazem parte. Acredito que é preciso mostrar que o movimento Ponta Delgada para Todos não começa nem termina em mim. Precisamos de olhar para os partidos, não como estruturas verticais, mas horizontais, onde as pessoas sabem que estão a ser ouvidas. Uma pessoa com capacidade de liderança não a perde por ter os melhores perto de si. Muito pelo contrário. 

DL: Qual é o balanço que faz dos quatro meses de atividade de Ponta Delgada para Todos?
O movimento faz um balanço extremamente positivo, não porque seja bonito de dizer, mas porque é a realidade. Conseguimos que a Câmara Municipal de Ponta Delgada começasse a prestar contas das suas deliberações nas reuniões de Câmara, algo que nunca tinha sido feito. É uma das nossas grandes vitórias. Começámos também a visitar as freguesias uma vez por mês e já vemos outras forças políticas a fazê-lo com a mesma proximidade que nós. Acho que isso é um sinal de que estamos a fazer um bom trabalho. 

DL: Acredita na possibilidade de começarem a nascer mais movimentos inspirados no Ponta Delgada para Todos?
Eu penso que sim porque as pessoas começam a não ter medo de se exporem, o que interpreto como mais uma das nossas conquistas. As pessoas vêm ter connosco, apresentam as suas situações e sentem que existe espaço para uma maior liberdade. 

DL: Considera que começar pela oposição é uma escola para o futuro, ao permitir um contacto mais direto com os problemas e com as pessoas? Está preparada para essa responsabilidade?
Eu considero-me uma pessoa humilde, mas também tenho certeza do meu potencial e da minha força de liderança. Tenho a certeza de que, se tivéssemos ganho as eleições, Ponta Delgada teria começado uma nova forma de gerir as pessoas, os espaços públicos e os processos de decisão. Mas ficámos na oposição, o que também é um trabalho importante. Vamos apresentando as nossas propostas e aprendendo. Acredito que nada acontece por acaso e, se o movimento decidir voltar a candidatar-se daqui a três anos, tenho a plena convicção de que Ponta Delgada terá uma presidente do futuro, solidária, humilde e com a capacidade de se colocar no lugar dos outros.

DL: O que é que concelhos vizinhos, como a Lagoa, têm a ganhar com o facto de Ponta Delgada ter agora um movimento?
Eu acho que estão todos a ganhar. Tenho a convicção de que isso extravasa o concelho de Ponta Delgada, porque, se Ponta Delgada cresce, isso influencia todos os outros concelhos, assim como as outras ilhas.

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