
Alexandra Carvalho e Cunha
Iniciativa Liberal
Acredito profundamente na transformação digital e nas oportunidades que ela oferece. Representa um enorme progresso e seria difícil defender o contrário… até porque isso poderia dar origem, por razões que alguns compreenderão, a inúmeras conversas interessantes lá em casa, à hora do jantar.
Mas uma coisa é promover a inovação, outra, bem diferente, é transformar a inovação numa imposição. O verdadeiro progresso não se mede pela substituição do que existe, mas pela capacidade de acrescentar valor, alargar possibilidades e colocar a tecnologia ao serviço das pessoas, sem abdicar daquilo que continua a fazer sentido.
Mas a educação nunca foi, nem nunca poderá ser, tão simples. A tecnologia deve estar ao serviço da aprendizagem. O problema começa quando a aprendizagem passa a estar ao serviço da tecnologia.
Nos Açores, centenas de famílias foram confrontadas com uma escolha que, na realidade, não era escolha nenhuma. Quem recusasse a utilização exclusiva dos manuais digitais deixava de beneficiar da gratuitidade dos manuais escolares impressos, sendo obrigado a suportar o custo dos livros em papel.
Cada criança aprende de forma diferente. Há alunos que retiram enormes vantagens das ferramentas digitais. Outros concentram-se melhor com um livro nas mãos, sublinham páginas, fazem anotações e organizam o estudo de forma diferente. Existem ainda alunos com necessidades educativas específicas para quem o suporte físico continua a ser a solução mais adequada. E não podemos esquecer que, para muitas famílias, esta deixou de ser apenas uma questão de método de aprendizagem. Tornou-se uma questão financeira. Quando a gratuitidade deixa de existir para quem escolhe o papel, a liberdade de escolha passa a depender da capacidade económica de cada agregado familiar.
Por que razão deverá o Governo Regional decidir que existe apenas uma forma legítima de aprender? A missão da escola pública não é uniformizar pessoas. É criar condições para que cada aluno possa desenvolver o seu potencial.
Aliás, o próprio legislador nacional reconheceu esse princípio, garantindo o acesso gratuito aos manuais escolares em suporte físico ou digital. A opção não é entre passado e futuro, é entre uma escola que respeita as famílias e uma escola que decide por elas.
Nos Açores, infelizmente, escolheu-se outro caminho.
A proposta apresentada pela Iniciativa Liberal pretendia precisamente corrigir esta injustiça, assegurando que a gratuitidade dos manuais escolares dependesse do formato escolhido pelos encarregados de educação. Uma medida simples, equilibrada e profundamente respeitadora da autonomia das famílias.
Contudo, a maioria parlamentar rejeitou a urgência da iniciativa. Mais um ano perdido.
O resultado dessa decisão não será sentido nos corredores do poder. Será sentido em casa, pelas famílias que continuarão a pagar pelos manuais físicos apenas porque alguém entendeu que essa é a melhor opção para os nossos filhos.
É curioso verificar que, enquanto tantos discursos políticos falam de personalização das aprendizagens, diferenciação pedagógica e inclusão, quando chega o momento de garantir uma verdadeira liberdade de escolha, opta-se precisamente pelo contrário, um único modelo para todos.
A escola do século XXI deve preparar os alunos para utilizar a tecnologia, mas também deve ensinar que nenhuma ferramenta substitui o pensamento crítico, a concentração, a leitura aprofundada ou o contacto direto com o conhecimento.
Um tablet pode ser um excelente instrumento de aprendizagem.
Um livro também.
Nenhum deles deve ser imposto.
Porque o essencial nunca foi o papel nem o ecrã. O essencial é garantir que cada família possa escolher o que considera melhor para os seus filhos, sem ser penalizada por isso.
É essa a diferença entre uma política que acredita nos cidadãos e uma política que acredita saber sempre melhor do que eles.
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