
A recente retirada de apoio ao governo por parte da IL conjurou de novo o espectro da instabilidade. A retirada foi fundamentada no não cumprimento do acordo de incidência parlamentar por parte do PSD Açores de José Manuel Bolieiro. Logo se apressaram os habituais esbirros a classificarem de desestabilizador o apoio que lhes permitiu matar a fome de lugares tachos e tachinhos passados 24 anos. Nada mais injusto, o responsável pela instabilidade no governo tem um partido responsável e um nome que o lidera.
A memória colectiva em relação à governação é sempre efémera. No entanto, recordemos o governo inicial, nomeado para virar a página dos 24 anos de governo socialista nos Açores. O tal da onda reformista, e que viria trazer estabilidade e prosperidade aos Açores, ao mesmo tempo que iria resolver os imensos problemas deixados em herança pelo anterior regime. Três nomes duraram um ano, e como tal, basta-nos esse facto para provar que o governo nunca foi estável, e nunca o foi não por incidências externas, nem pelas tais ingerências dos micropartidos. Nunca o foi porque foi pejado de nomes do tempo de “outra senhora”, alguns caricatos, ou só e apenas incompetentes, o que levou a uma reforma logo no final do primeiro ano. Todos conhecem certamente o mito urbano acerca da nomeação de Mota Borges por José Manuel Bolieiro. Acreditemos que seja só e apenas um mito urbano. Não sendo, só por si revela muito bem o profissionalismo por detrás da nossa governação, em particular da sua liderança.
Desde o primeiro dia desta solução governativa que se temia uma deslocação do poder a oeste (nada de novo). Acreditou-se que José Manuel Bolieiro seria o garante de que tal não aconteceria. Afinal de contas, a ilha que deu a possibilidade de existir esta solução, e deu a possibilidade ao PSD Açores fazer parte desta solução, foi São Miguel. Como também será a ilha necessária para a manutenção do poder nas próximas eleições. Seria de esperar um especial cuidado com quem votou. Acontece que não foi de todo o que aconteceu. Foi sempre dada a preponderância aos líderes dos micro partidos, e sempre com o alto patrocínio do Sr. Presidente do Governo, que nunca foi capaz de marcar a agenda com assunto deveras relevantes para os seus eleitores. Foi uma sucessão de bois anões e agendas mobilizadoras incompetentes até o dia de hoje. Ainda há bem pouco tempo, José Manuel Bolieiro achou ser muito relevante ir ao Corvo inaugurar uma tenda de campanha que será o centro de saúde enquanto decorrerem as obras de recuperação do existente que serve 400 almas, ao mesmo tempo que a cidade da Ribeira Grande, um dos seus bastiões, tem um centro de saúde sem as menores condições de primeiro mundo, embora sirva milhares. A ilha de São Miguel foi abandonada pelo seu presidente.
Um presidente que deixa sair um dos seus secretários de maior capacidade política não tem direito a usar e abusar do título do mantenedor da estabilidade. Deveria ter sido forte e colocado o seu próprio lugar no cepo como oposição a uma saída que fere de morte um governo já de si debilitado. Deixou, de novo, que os interesses de micro partidos afastassem Clélio Meneses, cedendo também a guerrilhas internas inaceitáveis, que há muito pediam a sua cabeça. De facto, a gestão da pandemia esteve longe de ser o mar de rosas propagandeado, e, de novo, por interferência de poderes de micro partidos, fomos usados e abusados por um fundamentalismo que agora se vê ter sido um enorme exagero, mas que causou prejuízos graves à débil economia da região. Nessa altura teria sido aceitável uma demissão, agora, é um tiro no porta aviões.
Entende-se, que dado o perfil no mínimo pouco dinâmico, tentar colar a ideia de estabilidade a José Manuel Bolieiro é tentador. Os especialistas em marketing político, que o governo não tem, diriam certamente que mentir em comunicação é um dos piores pecados capitais. A instabilidade no governo tem um partido responsável e um nome que o lidera. Um partido que se deixa maniatar por micro partidos não merece ser poder porque revela a sua também pequenez. O PSD Açores é grande, mas está refém de pequenas pessoas.
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