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A Oeste Nada de Novo: O Fundo do Poço

André Silveira
Empresário

O orçamento foi chumbado, o que era razoavelmente expectável dado que as intenções foram previamente declaradas por quase todos. Assistimos a uma sessão plenária lamentável de nível baixíssimo e onde medidas para melhorar as vidas dos Açorianos foram coisas que não se viram, e onde andaram a brincar às fotos de assessores e às alegorias de Platão. Se queremos saber porque é que o parlamento nos Açores é algo que tem zero interesse para a generalidade do povo, é assistir a esta sessão plenária, que nem como entretenimento serviu, e onde a degradação da qualidade política dos intervenientes está a atingir o grau zero. Quem ganha com isto tudo será certamente os que aí vêm mostrar que deveríamos cuidar melhor da nossa democracia, do estado de direito e da nossa liberdade.

A coligação, que nos últimos três anos tem-nos governado a ocidente, apresentou um orçamento táctico recheado de fantasia, e fortemente contaminado por socialismo atlântico. Basta ler as previsões de crescimento do PIB regional constantes na proposta para se perceber logo que nada daquilo é para se levar a sério, muito menos para ser aprovado seja por quem for. Um documento onde as medidas se resumem a mais subsidiação e assistencialismo, e, aqui e ali, obras eleitoralistas, muitos elefantes brancos, e ainda muita promessa para o “prometório” do costume, muito em particular para a ilha de São Miguel, onde o descontentamento é generalizado dada a migração do foco para ocidente. Não é difícil de se perceber o carácter táctico deste orçamento como instrumento de tentar dominar a agenda futura, e claro, a manutenção do poder. Já os interesses dos Açorianos, esses ficam para outra oportunidade. Talvez para um segundo mandato, que este foi só para o assalto aos cargos, erros de casting e dar algum gosto de poder aos pequenos partidos que apoiam esta solução. Resta saber se os Açorianos, os Micaelenses em particular, vão-lhes dar mais uma oportunidade, sabendo que tal até só será possível com os populistas no governo.

Nuno Barata não chegou hoje à política, nem é conhecido por ser político de pouca coragem. Portanto, o ter votado contra só surpreende por ser agora, e não ter sido já no anterior orçamento. Se ganha algo em termos eleitorais é duvidoso, mas muito possivelmente foi a acção possível dada a sua base de apoio urbana, em particular dos Micaelenses que exigem certamente acções concretas que traduzam a sua decepção e sentimento de traição para com a coligação. Era uma imposição distanciar-se da maioria, caso contrário corria o risco da colagem a políticas de esquerda, como também de estar associado ao abandono da maior ilha dos Açores.

O Chega tem um problema, que para ser ultrapassado irá obrigar a uma flexibilidade política só possível na ausência total de firmeza ideológica. A coligação, teoricamente de direita, só o é por pura coincidência, e a sua governação tem demonstrado como o socialismo está de tal forma entranhado nas opções políticas regionais nas últimas décadas, que para o arrancar será necessária muita firmeza, ou, até mesmo algum radicalismo. Aliás, os congéneres políticos do Chega por este mundo fora dizem muito bem como o pretendem fazer. Basta vermos as propostas de Milei na Argentina, ou o que se prepara para fazer Wilders nos Países Baixos, dois bons amigos de André Ventura. Ora acontece que por cá, chegar ao poder só através de um acordo com a coligação e aceitar o seu socialismo. O mundo ao contrário, mas sabe-se bem a flexibilidade política do populismo, e veremos que acordos serão negociados para o orçamento 2.0, caso cheguemos lá.

Carlos Furtado votou a favor na esperança de ser reconhecido como moderado e responsável que é, mas com o futuro político incerto. Talvez fosse mais sensata a abstenção, dado que ninguém quererá ficar ligado às trapalhadas da coligação. No entanto, poderá ser o fiel da balança num cenário de segunda versão do orçamento. Veremos como capitalizará tal relevância.

O PAN, assume, como já o tinha feito na Madeira, ser um partido cuja posição se vende com alguma facilidade. Absteve-se, mas abre a porta a negociações para o segundo orçamento. Ainda vamos ver, de novo, um partido, que é pelo bem estar animal, votar favoravelmente o orçamento viabilizando o governo mais pró touradas de sempre nos Açores.

O Bloco de Esquerda fez o seu papel numa posição razoavelmente difícil dado o pendor de esquerda do orçamento. Não fossem as questões das privatizações e ausência de conteúdo no que diz respeito a usos e costumes, este podia muito bem ser um orçamento que o Bloco aprovaria, dado a enorme lista de aumentos de subsídios, apoios e mais intervenção do estado em tudo, a somar com as empresas lá mesmo no fundo da lista de prioridades. Nada de novo. Na verdade, é esta a linha política dominante há pelo menos três décadas nos Açores, mas este, talvez por ser prescrito por um coligação dita de direita, destaca-se como o orçamento mais assistencialista das últimas décadas. Poderia muito bem ser votado com o apoio do Bloco, como também do PS/Açores. A retórica obviamente não foi essa, como também seria muito surpreendente que o grupo parlamentar colocasse uma moção de censura, sendo que tem essa possibilidade, mas dificilmente terá a coragem política.

É penoso ver Vasco Cordeiro a arrastar-se pelo parlamento com a grilheta da sua herança a prender-lhe a retórica. O discurso errático com o único objectivo de tentar entorpecer a memória dos eleitores acerca da sua paupérrima performance à frente do governo regional, apenas serve para consumo interno dos poucos, que dentro do partido ainda se mantêm leais, e que sonham ainda com um lugar ao sol na eventualidade de acontecer um milagre e voltemos a ter o PS/Açores no poder no curto prazo. O caso mais surreal são as críticas acerca da privatização da SATA, quando Vasco Cordeiro é provavelmente o principal responsável pela destruição da aérea regional, ou pelo menos o que o foi durante o maior período de tempo. Como são também as críticas ao aumento da dívida pública, que resulta em grande parte do assumir da sua herança, alguma escondida, nas contas da Região. Os Açores e os Açorianos merecem mais e melhor.

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