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Açores estratégicos merecem compensação justa

João Bruto da Costa
Presidente do Grupo Parlamentar do PSD/Açores

Como expressou o intemporal Nemésio, “a geografia, para nós, vale outro tanto como a história.”

Recorro ao seu pensamento para sublinhar um facto incontornável: a mesma geografia que tanto nos exige é também aquela que torna os Açores indispensáveis ao país e ao projeto Europeu.

Numa conjuntura internacional cada vez mais tensa e fragmentada, os Açores afirmam-se como dimensão atlântica relevante, ponto de encontro de diversos interesses geopolíticos – ora convergentes, ora divergentes – mas sempre determinantes.

Para uma ilha, tudo à sua volta é fronteira.

Tudo é, ao mesmo tempo, abismo e possibilidade.

Mas cinquenta anos não são apenas memória.

São também mandato.

Um mandato para reconhecer o caminho percorrido: uma Autonomia que não nasceu por concessão, mas sim por afirmação.

É a afirmação de uma identidade moldada pelo Atlântico ao longo de séculos.

A Autonomia foi, desde o primeiro momento, um ato de confiança mútua entre os Açorianos e a República.

Hoje, 50 anos depois, podemos dizer com serenidade: essa confiança foi bem exercida.

Em meio século, os Açores ergueram instituições, afirmaram competências e desenvolveram políticas públicas com resultados concretos na saúde, na educação, na cultura, no ambiente ou nas infraestruturas.

Os Açores provaram que a Autonomia não fragmenta. A Autonomia une, aperfeiçoa e fortalece.

A Autonomia é inteligência territorial.

Mas celebrar esta efeméride também exige honestidade.

A Autonomia não eliminou a ultraperiferia.

Ajudou-nos, sim, a geri-la melhor.

Porque a verdade é muito simples: o isolamento tem custos. A continuidade territorial tem custos. A mobilidade tem custos.

O acesso desigual a serviços continua a existir.

E a dependência de cadeias logísticas frágeis permanece uma realidade.

Quando um jovem sente que tem de partir à procura de uma oportunidade obriga-nos a lembrar que a Autonomia não é uma tarefa acabada.

São factos que nenhuma celebração permite suavizar.

A Autonomia dos Açores não é um ponto de chegada.

É um caminho que percorremos permanentemente.

É um caminho que exige atualização, exigência e ambição.

As regiões ultraperiféricas têm um papel próprio no projeto europeu.

Mas esse projeto só será verdadeiramente justo se reconhecer o impacto real da geografia no percurso de quem aqui vive.

Porque há uma evidência que não pode ser ignorada: a mesma geografia que nos condiciona é aquela que nos torna estratégicos.

E é aqui que reside um desafio político central do nosso tempo: transformar esse valor estratégico em benefício concreto para os Açorianos.

A Europa precisa dos Açores.

A Aliança Atlântica precisa dos Açores.

As democracias ocidentais necessitam desta plataforma no meio do Atlântico.

Mas os açorianos precisam que essa importância vá além de meras palavras ou de discursos de ocasião.

Os açorianos precisam que a importância dos Açores para o Ocidente se traduza em investimento, conectividade e coesão.

A coesão de Robert Shumann!

Em suma, a relevância estratégica dos Açores para o mundo ocidental tem de traduzir-se numa compensação justa.

Não se pode ser “garante” e não ter “garantias”.

Cinquenta anos de Autonomia Democrática são motivo de celebração.

Mas são, sobretudo, um compromisso renovado.

Este é o compromisso de continuar a afirmar, com confiança e sem hesitações, que ser Açoriano não é uma limitação.

É uma identidade.

É uma responsabilidade.

É ocupar uma posição estratégica.

E é uma força que continuaremos a afirmar.

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