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“Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz”

O testemunho de quem se viu obrigado a deixar a família e os amigos para trás em busca de segurança, longe de um país em guerra. Rostyslav Hutsol partilha com o Diário da Lagoa a experiência de ter deixado a Ucrânia, sozinho, aos 17 anos, para encontrar em Portugal a estabilidade de que necessitava

Rostyslav tem atualmente 21 anos e já visitou os Açores várias vezes © DIREITOS RESERVADOS

Chama-se Rostyslav Ruslanovich Hutsol, é natural da cidade de Podilsk, na Ucrânia, tem atualmente 21 anos e vive em Portugal há quatro. Já visitou os Açores, a convite de Álvaro Borges, um amigo açoriano natural de Água de Pau e, nesta entrevista, o jovem fala da sua experiência e partilha a sua visão sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

DL: Como é que foi chegar a Portugal sozinho? Foi um percurso difícil?
Não foi difícil, mas foi estranho e, ao mesmo tempo, muito interessante. Cheguei a Portugal numa espécie de autocarro, juntamente com uma família e com outra senhora mais velha. Eram todos refugiados, tal como eu. O que tornou esta experiência mais interessante foi ter ajudado esta senhora, que já tinha alguns problemas de memória, durante a viagem.

DL: Como foi tomada a decisão de sair da Ucrânia?
Saí da Ucrânia por causa da guerra. O meu pai disse-me que tinha um amigo em Portugal e que o melhor seria vir viver para cá, porque ainda não sabíamos o que iria acontecer. Ele contactou esse amigo, que disse que não havia problema. Nos primeiros tempos, fiquei a viver com ele e com a sua família, em Leiria.

DL: Como foi o processo de equivalência escolar, tendo em conta que ainda tinha 17 anos?  Chegou a matricular-se numa escola?
Acredito que tenha sido um processo normal. O amigo do meu pai ajudou-me com os documentos necessários e acompanhou-me à Câmara Municipal de Leiria, passando a ser o meu responsável. Não foi necessário matricular-me numa escola, porque vim na qualidade de refugiado. Cheguei a Leiria em maio, fiquei por lá durante algum tempo e, depois, concorri ao curso de Tradução da Universidade de Lisboa. Já estudava tradução na Universidade de Kiev quando a guerra eclodiu e estava decidido de que essa era a minha área. Quando cheguei a Portugal ainda não sabia falar português, mas tive a oportunidade de ter aulas em inglês, o que me ajudou muito. Estou, atualmente, no quarto ano da licenciatura.

DL: A sua família continua na Ucrânia?
Sim, a minha família ainda lá vive. Estão bem, vivem longe da linha de batalha. Mas há muitas famílias que, mesmo estando em zonas de batalha, preferem ficar, porque têm ali a sua vida toda. 

DL: Já voltou à Ucrânia desde que começou a viver em Portugal?
Sim, estive lá em 2023.

DL: Conhecendo agora os dois países, encontra muita diferença entre os valores de Portugal e da Ucrânia?
Acho que os políticos ucranianos tentam adotar muitos valores da União Europeia, mas reparo que muitas ideias aceites em Portugal não são tão bem recebidas pelo meu povo, por exemplo, os direitos da comunidade LGBTQIA+ ou a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os ucranianos são muito patriotas, ainda mais com a guerra.

DL: O Álvaro Borges trouxe-lhe aos Açores em 2023. Quando visita o arquipélago, o que mais o fascinou?
Apaixonei-me pela natureza, principalmente pelas cascatas e pelas florestas. Senti-me numa nova realidade, rodeado de novas pessoas e de uma arquitetura tão diferente da de Lisboa. Os Açores abriram um mundo novo para mim. Voltei em dezembro de 2024 e 2025, sempre durante o Natal. Na segunda vez que voltei, fui até reconhecido por algumas pessoas. Senti que estava numa aldeia onde as pessoas se conhecem todas e notei que há muita ligação entre todos. Fiquei surpreendido, pela positiva, com o facto de as famílias nos Açores serem muito unidas.

DL: Qual foi a sua reação ao saber que o Álvaro tinha ido à Ucrânia e de que forma essa visita o marcou?
Fiquei surpreendido pela positiva e senti muito orgulho dele. Quando ele voltou, tive interesse em perguntar-lhe as diferenças e semelhanças entre os nossos povos, quis saber o que ele tinha aprendido, como foi a sua experiência e o que sentiu sobre a minha cultura e o meu povo. Do que me contou, o que mais me surpreendeu foi o facto de o Álvaro não ter tido medo quando lá esteve.

DL: Em fevereiro deste ano, Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora ucraniana em Lisboa e ela agora vem aos Açores. O que sentes em relação ao que se tem conquistado para unir estes dois povos?
É muito bom que o Álvaro tente abrir esta porta sobre a Ucrânia, porque, na minha opinião, os açorianos não têm muitas informações sobre o que se passa em geral na guerra. Acho que as pessoas não percebem a dinâmica histórica entre a Rússia e a Ucrânia; muitos até acreditam que somos o mesmo povo, e outros têm uma imagem da Rússia muito diferente da realidade. A Rússia é um país forte, mas não de forma tão exagerada como descrevem aqui.

DL: Qual é a sua visão, enquanto ucraniano, sobre o conflito?
É muito difícil de descrever, porque vocês aqui não estão em guerra e torna-se complicado de perceber. Quando eu cheguei a Portugal, no início, dava por mim a pensar: “Isto está a acontecer, isto é mesmo real, não é um sonho”. Agora, a guerra causa-me tristeza, mas também esperança de que o futuro será melhor. Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz nas melhores condições para a Ucrânia.

DL: Acredita na possibilidade de um acordo entre a Rússia e a Ucrânia?
Na minha opinião, há uma possibilidade, mas muito baixa. Na história moderna, já tivemos acordos com os russos, mas eles violaram-nos sempre. É por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre um possível acordo. Em Portugal, muitos pensam que, se se entregar a Ucrânia à Rússia, a Rússia ficará satisfeita, mas a verdade é que o país iria procurar outro ato agressivo.

DL: Como olha para o seu futuro?
Agora é um pouco difícil de decidir por causa da guerra. Num cenário ideal, gostava de voltar para a Ucrânia, mas não sabemos como será o futuro. Se a guerra não acabar, acho que a probabilidade de eu ficar em Portugal é muito alta. Também gostaria de morar nos Açores.

DL: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores?
Acho que o nível de apoio dos açorianos aos ucranianos é alto, mas acredito que, se querem saber mais sobre a nossa história, devem fazer mais pesquisas sobre nós e sobre a história da relação entre a Rússia e a Ucrânia, não se baseando apenas na informação diária dos media.

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