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Cala-te, se faz favor!

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Sempre gostei muito do silêncio, pela profundidade e intimidade que ele confere ao diálogo comigo mesmo, com os outros e com Deus.

No silêncio, não sou senão eu. Perco-me com a mesma frequência com que me encontro. Em cada reencontro sinto-me do meu tamanho, nem grande nem pequeno, apenas do meu tamanho, porque a medida do silêncio é a verdade. No silêncio, gosto do desassossego da pergunta e da serenidade da resposta.

Por tudo isso, e por aquilo que só se diz e sobretudo só se ouve no silêncio, tenho-o como meio e modo predileto de oração. Diante de um Deus que é Palavra, as palavras ditas ou escritas nem sempre me conseguem levar onde Deus quer e por isso desejo e preciso chegar.

Num desses silêncios, o Senhor disse-me: Cala-te, se faz favor! Calei-me de imediato, como sempre Ele tinha razão. Em causa estavam palavras ditas, sem silêncios, sem oração. Envergonhado e necessitado, renovei-me pelo perdão. De novo senti-me livre para falar e calar, na certeza de que é preciso silenciar.

Sem oração, corremos o grave risco de não sermos assertivos no modo como comunicamos. Porque somos seres em constante relação com tudo e com todos, creio que a nossa felicidade depende da qualidade com que comunicamos com os outros. Falar e Calar sempre que necessário, com clareza e caridade.

Falar sempre que for necessário defender a dignidade do outro, a diferença e a beleza de todo e cada ser criado á imagem e semelhança de Deus. Falar sempre que necessário dizer a verdade e apenas a verdade. Falar para perguntar, para conhecer, para saber, para louvar, agradecer, pedir e amar… Nunca falar para não estar calado.

Calar sempre que for necessário escutar, aprender e crescer. Calar nem sempre é cobardia, pois é preciso ter coragem de falar apenas do que conhecemos. Quando temos sempre alguma coisa a dizer, sobre tudo e todos, além de ser uma falta de humildade, é sinal de que discursamos com base em preconceitos, em ideias pouco claras e ideais comprados ou roubados aos fazedores de opinião, autênticos mestres das sociedades modernas.

Normalmente, falamos muito sobre a vida dos outros, somos peritos em identificar os seus defeitos e em solucionar os seus problemas, se calhar devíamos calar mais acerca dos outros e falar para os outros.
Senhor, da próxima vez, não precisas pedir por favor, basta dizeres: Cala-te! E eu espero calar-me.

Pe. Nuno Maiato
(Crónica na edição Impressa de outubro de 2016)

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